“Minha querida Nora,” uma carta. Assim começa a narrativa, A Coisa. Surpresa! Inquietude! Implacável. Primeiro, citações, Baudelaire… Longas citações, bem ao gosto. Depois ousadia libidinosa. E o conto agarra o leitor. Imediatamente, estupefata. Descrições, minúcias. Respirei. Pois é. Enquanto escrevo, enquanto leio, venço barreiras. Violência. Incomunicabilidade. Subserviência. A Coisa. É preciso avançar. Ultrapassar, insistir. Detalhes! Difícil. Escrever. Difícil. Da leitura de Herman Hesse, O menino Prodígio, para Alberto Morávia: bofetada. A brutalidade de uma bofetada.
Uncategorized
Bem comportada
– Ele nunca me amou. Casou comigo porque era moça bem comportada. Fui bem comportada a vida inteira!
Não disse nada. Ela continuou:
– Estou a me despedir… Assim, bem comportada.
Amanhã desperto pra ser amada! Como flor, grama, esquilo, ou menina…
E, certamente, não serei mesmo, bem comportada! Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2014 – Torres
Hélio – cartas – Ipanema

Porto Alegre depois do verão, o domingo. A chuva pesada devolve o inverno.
Porto Alegre, 4 de agosto de 2014.
Hélio, meu amigo querido:
Surpresa ao encontrar suas cartas, bem guardadas, intactas. Procuro desenhos. Lembro bem que durante as aulas costumava rabiscar. Saudade de todos nós! Em algum lugar desenhos, noutro fotos, a memória a se mover dançante.
Desta angustia que menciona sofro ainda: ausências. Lacunas! Estar junto, dividir, olhar, conviver, e chego perto da Olga, Suzy, José Luiz, Sofia, Roberto, Laila. Notícias vagas de cada um. Você, você, meu amigo… Não estava na formatura. Desapareceu o menino no sonho. Poetando. Não dos meus, porque penso você, indago, procuro. O que a vida revirada nos fez? Lembra da professora Beth que morava em Ipanema? Esteve em Torres. Lembra do Ciro? Casaram. E o Roberto? Aquelas férias torrenses me aquietavam. Escrevia cartas. Lia bastante. Pensava em vocês. Um desterro anual. E a saudade da rua Viúva Lacerda, de Ipanema apertava. Eu me aninhava no sono.
Aquele morar alimentava devaneios: livros, quadros, e cada objeto motivo de reviravoltas pela infância, por Copacabana, Leblon, amores. Cresci neste Rio de Janeiro desde meus 18 anos…Não uma viagem, mas permanência. Do Beco das Garrafas direto pro Largo Humaitá, cenário. De passagem Torres, Porto Alegre. Exercito o tu, abandono temporariamente o você…
Sigo escrevendo, debatendo, agitada, inquieta. Escondida. Calada. Não vais acreditar que os cabelos estão todos brancos. E já tenho netos. O Rio de Janeiro me acolhe, Porto Alegre encanta, mas Torres ressurgiu definitiva. Saudade de você!
“Rio, 17 de janeiro de 1977
Querida Beth,
Somente hoje ao retornar de minhas férias – tomei em minhas mãos tua cartinha tão querida. Estranha é a minha natureza! Algum tempo longe de ti, e de nossos outros colegas, trouxe-me uma angústia fina e penetrante no peito. Chego, à esta altura de minha vida, à conclusão de que estudar, adquirir cultura, não seria tão importante, mas, sim, conviver contigo, com nossos colegas, nossos sonhos, nossas perplexidades.
Como têm sido teus dias? Tens lido muito? Já conseguiste empregada? Tens rido bastante? Dormido bem? Sentes saudade do Rio? Do teu apartamento cheio de coisas tuas? Das árvores da tua rua? Ou o encanto de Torres te fez esquecer o que aqui deixaste? Eu não te esqueço, eu não te esqueço, eu não te esqueço…
Como vão teus pais? Eu gosto muito deles. Da doçura de teu pai e da inconvincente dureza da tua mãe.
Sabes, eu pensei que nas férias fosse escrever muito, mas nada pude fazer. Parece que só tenho alguma inspiração quando estou tenso, cansado, esgotado, indormido. Se estou bem, esvazio-me. Acho que durante muito tempo não voltarei a gozar férias: não quero ser estéril. Pelo menos não mais do que já sou. Viva a canseira! A tensão! A perplexidade!
Ai vai um poema:
Porque não se conformava,
Sonhava em vez de acordar,
Morria, enquanto vivia,
E morreu enquanto sonhava.
Num longo tempo viveu,
Embora tão curto, é verdade.
E deu vida à própria morte
Antes temida e presente.
E, agora, vencida e distante,
A morte, qualquer morte,
Era pouco, era nada,
Pois a vida foi tudo,
Era tudo…
E morreu, enquanto sonhava
Passando-se inteiro ao sonho,
Resgatado para sempre,
Vivendo no sonho sonhado.
Até logo, Elizabeth. É bom conhecer você. Bom gostar de você. Salve o Rio Grande do Sul (o “l” deve ser pronunciado à gaúcha).
PS: O número do prédio em que trabalho é 115.
Hélio “
Paulo C. Meyer
Paulo C. Meyer
Os poemas estão perto, não resisti. Sem escolher. Ou selecionar. O primeiro.
SIMPLESMENTE
Paulo Correa Meyer
Esqueci você
Não me lembro
Do seu jeito
Não sei
Não me lembro
Direito
Nem sei por que
Simplesmente
Eu estava lá
“Eu estava lá. Lá estava eu.” Na metade do século XX toda reportagem importante dizia assim: “Eu estava lá.” Hoje em dia “Lá estava eu.”
Ali Smith no seu bem humorado livro Suíte em quatro movimentos. Diverte, e nos faz pensar.
Cá estou eu de volta. Na alternância de calor e frio. Ao fluxo deste ir e vir que se agita. Inquietude. Intensidade acelerada. Silêncio estridente. Cá estou eu meio ao arrumadinho tão ao gosto da maioria. Revisitando prateleiras, gavetas e caixas. Durmo menos, penso menos. Espreguiço e ventilo o pouco assimilado da revista VEJA. Niall Ferguson levou a nocaute o Nobel da Economia (2008) Krugman que defende e amplia um dogma de John Maynard Keynes segundo o qual os governos podem gastar a vontade. Pelo tempo que quiserem, e produzir déficits abissais em suas contas sem que isso leve os países à bancarrota e o povo à miséria. Ferguson, o Colosso Escocês, explica: Eu mostrei que Krugman está quase sempre errado. Mostrei com dados. Ele rebateu com ofensas pessoais.
Quem é quem? Colocamos as peças no tabuleiro.
Conversar, pipocar ideias, reafirmar: “Eu estava lá”. Não se trata de estudar, pesquisar, mostrar dados matemáticos, estatísticas. Quando se diz “Eu estava lá.” Tudo se transforma em absoluta verdade. O remetente, o emissor encaminha, descreve, diz, pensa neste espaço compacto de tempo para um alguém, pessoa, ou entidade, amigo, parente, enfim, ao destinatário. Mensagem, carta, texto, o apanhado começa a circular. Autobiografia presencial. “Lá estava eu”. E o fato histórico se retorce nesta ótica. Verossimilhança ocular. O relato tem cor, e nuance do cidadão que sofreu, e praticou determinada ação, em determinado momento. Tudo se transforma, numa mágica, em pessoal. Arma principal, mais do que a ideia, será a experiência de estar lá.
Escrever histórias parece libertador. Contar o que viu, presenciou, e sofreu. Seguir o fluxo. Delicioso! O jornalista se conserva aprisionado, não como autor, contador de histórias, mas como testemunha do fato. Nem sempre, quase nunca objetivo. A foto parece estar preenchida de verdades… Afinal, onde está a verdade? O certo ou errado? O verdadeiro ou o falso? No vazio. Não está. Nem o bem e o mal, o bom e o ruim. Nada é verdadeiro, sem contudo ser falso. A mensagem, o texto, a carta, a reportagem se completa no A L V O. O leitor, aquele que coabita meu universo. Está devidamente apto ao entendimento. Como expectador. Receptor, destinatário. A conversa segue.
AH! Esqueci de contar.
“A buganvília continua a crescer. Apareceu no alpendre ao lado da casa, mesmo por baixo do meu quarto e ninguém sabe como. O António diz que deve ter sido cortado antes do pai comprar a quinta e ter ficado alguma raiz. Eu vi o primeiro ramito aparecer. Era tenrinho, de um verde-tenrinho. Mais tarde cobriu-se de espinhos. Outro raminho surgiu e depois mais outro.”
Pepetela, O Cão e os Calús, Editora União dos Escritores Angolanos Contemporâneos.
Porto Alegre me encanta. Mas, estou em casa, de volta.
Luiza Domingues
“Noite
Se um dia eu não fosse mais nada,
Se um dia eu não fosse mais sonho,
Se fosse esquecida no tempo,
Se não houvesse mais corpo para gerar calor,
Se nada mais me saísse das ventas,
Aí então não haveria mais drama, não haveria desejo.
E, sem medo nem zelo,
Sem cuidado e sem pudor,
Minha morte teria chegado.
Minha pele se encontraria enrijecida sob a terra fria,
E minhas mãos não mais serviriam para afagar.
Recife
Julho de 2014
Luiza Mattos Domingues
LUIZA no tempo
A mesma
Agito, tumulto, mas tudo no mesmo lugar. Ontem. Hoje me deixei ficar para ordenar o que ficou para trás, tantas idas…, nenhum lugar seguro. Sentimento estranho: partido afeto. O mesmo lugar, o certo. Então, a massa corpórea se alarga, mas permanece, estranhamente, a mesma. A beleza deve estar lá resguardada, e, se lágrima houver será a mesma… (diferente, nunca a mesma como escreve Alexandre, mas… motivo, o mesmo). Pequena/ou grande lembrança: a memória. Angústia nova misturada a mais antiga. Outra. Diferente. A mesma. Vontade de ter/ver/conquistar o melhor da colheita… No entanto, tudo está restrito ao horizonte do oitavo andar. Claro que já borboleteei por lojas, e comprei outono. Calças leves, blusas bem soltas. Hoje o frio se apresenta definitivo, circunspecto. Boa chuva, bastante chuva, ventania, e raios. Depois aquele cinzento riscado, meio iluminado. Gosto. Gosto muito. Como se a infância voltasse…Longos invernos, fogo nas lareiras, e a gostosa sensação de permanência, de aconchego. O gosto de longa/prolongada infância: sonho, certeza concreta como chocolate quente, morangos, ou a boneca desejada. Olhar pela janela! Dou-me conta que este jeito que me toma o corpo, a alma, sempre foram meus. Acrescido de novas amarras afetivas. A soma de novos, com velhos afetos parece excesso. O excesso minimiza o real. Aquieto inquietude. Não, sou apenas eu mesma, mais consciente, mas a mesma. Sou como sou, dividida. Aberta ao teu olhar, teu abraço, e assim mesmo esquiva. Transbordo confissão doméstica, interpretação. Risível. Não conserto. O estrago está feito. Eu, a mesma. Elizabeth M.B. Mattos – Risca do Céu, 24 de julho de 2014, não tão longe! Porto Alegre –


Convergência
Amor, sentimento desavisado, ingênuo, inconsciente. Arrebatamento fulminante. Pouco a pouco, a verdadeira forma. Positivo ou negativo? Surpresas pipocam, boas ou ruins, todas desavisadas. O sentimento se desvia no desencontro. Afinal, o que é mesmo que chamamos de amor? Convergências? Beth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2014
Onda gelada
O frio, a onda gelada que se acomoda no céu, escreve cinza. Riscados da chuva contínua afirmam, – inverno. Há dois dias caminhei verão pelas calçadas. Suco gelado. Os humores da terra consoantes aos nossos. Mutantes, volúveis, incompreensíveis. Elizabeth M.B. Mattos 2014 – Porto Alegre – Hilário Ribeiro
Impertinência
Necessário e primitivo silêncio. Quietude, uma dádiva. Impertinência. Interrupção. Melindres. Rotina, continuidade. Comodidade. Idade. Há que se pensar, duvidar, esperar, ouvir. No tédio, o fluxo se constrange com excessos. Atravessar buzinas, vozes. Desviar, acelerar, cuidar, fazer, correr. E o menino se encolhe aflito. A futilidade se transforma em exigente prioridade. Atropelo as calçadas. Abusiva correria. A negligência se acomoda na mesa do chá, durante o almoço, sente preguiça no entardecer. Boceja. Desperta, à noite, acesa em novidade. Sessão de cinema urgente. Espetáculo, vitrines… Delicias, iguarias. O verbo comprar se conjuga sem concordância. Impaciência sem hábito, equívocos. A gaveta se ressente apertada. Qual era a cor daquela blusa? O telefone tocou duas vezes até cair a ligação. O bolo, o doce, a salada, o vinho, os queijos reclamam. Pequeno mal estar impiedoso, maligno. Frívolo, e inexplicável. Poeira, gavetas, estantes, tesouras, cadernos, cobertores, toalhas, xícaras. Sequencia eloquente. Impertinência… Elizabeth M.B. Mattos – julho -2014 – Porto Alegre





