Luz que invade a janela. Cor, cheiro e vozes. Atropelo, susto. Irritação, indignação. A correria, o assalto, mulher morta na calçada. A criança gritando. Dia de pânico, dois, ou três. Medo. Solução chegando, polícia, padre… O arco íris depois dos relâmpagos, raios daquela chuva grossa…
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‘Desgrenhada’ situação
Anos também envelhecem, passam no ritmo inquieto de últimos. Depois de interromper o ritmo de trabalho as coisas modificam o olhar, a fala, os gestos, como se fosse pesado estar de/em pé. Recolhem-se risadas, olhares. Cabelos brancos, desgrenhados, às vezes amarelados pelo descuido. Leitura lenta, em gotas. As costas doem. Rabisca, retoma o livro.
Faço uma nota pro amoras, escolho uma foto, um texto, outra história. Encho o pote com as frutinhas azuis. Encontro aquele vazio fácil do apesar de. Multiplicar tudo. Relatos coloridos de viagens, entre a neve e os museus. Comidas exóticas. Campos de flores. Viajar. E Torres em estado de calamidade pública… A chuva lavando, limpando, mas tormentosa. Choramos o vazio, este complicado tempo de excessos. Estou em Torres mais do que Porto Alegre. O Rio de Janeiro se necessário. Neste verão quente, mais quente, agora a chuva de assustar. Ruas lotadas, comércio esvaziado, e esta política falastrona de merda como diria Iberê se estivesse vivo. Nada funciona sabendo-se que tudo se agita em baixo de vergonhosos escândalos, e na calada do poder um excesso desmantelado. Um Brasil com espírito colonial de abuso, e sacanagens. Só imagem colorida. Divulgações explosivas. Inteligência desviada. E esta chuva meio ao calor de ferver.
Luiz Horácio
Miguel participando. Obrigada. Luiz Horácio escreve sobre A valise do Professor: literatura japonesa.
“Em A valise do professor, o leitor estabelecerá um suave confronto com o vazio, o vazio fruto da solidão.
Mas se for para dizer que se trata de uma literatura feminista, favor acrescentar “diferente”.
Tsukiko, quase 38 anos, mistura o real e o imaginado, lembranças e reflexões. De repente encontra Harutsuma, seu professor de ensino médio, e passam a beber no bar de Satoru. O relacionamento é burocrático, frio. Assim, com sutilezas, Hiromi começa a mostrar costumes de seu Japão. Tsukiko e Harutsuma são dois seres solitários e temerosos de abandonar tal status. O professor, vale ressaltar, é bem mais velho que sua ex-aluna. Aqui a diferença de idade não chega a ser um problema, visto que solidão não costuma fazer distinção.
Continuei atrás dele contando as estrelas. Na décima quinta chegamos à rua onde nos separaríamos.
Tchau, acenei e, virando-se, ele repetiu tchau. Eu o segui com os olhos e depois continuei andando até em casa. No caminho contei vinte e duas estrelas, incluindo as pequenas.
O começo da relação é tenso, ao mesmo tempo, frio; logo descobrem pontos comuns, como a culinária. Várias vezes coincidem seus pedidos no bar de Satoru. Entre eles não há compromisso algum e às vezes desaparecem, mas voltam a se encontrar, sempre por obra do acaso.
Um tipo de relação aparentemente segura, livre de riscos de dependência, paixões e possíveis amores. Certo? Errado. Tsukiko — não vou atestar a paixão — passa a sentir algo mais forte pelo maduro professor. Sempre em companhia de sua valise.
A relação entre o professor, metódico, ríspido e seco, e Tsukiko, doce, delicada, um tanto intempestiva, é de uma riqueza incomum. Incomum porque simples, incomum porque não é fácil contar uma história simples e ao mesmo tempo profunda e repleta de significados — além do panorama do Japão, hábitos e costumes que Hiromi oferece ao leitor.
Afinal, minha vida é apenas isso. Andar sozinha por um caminho misterioso de uma ilha desconhecida, perdida de seu acompanhante, o professor, que eu acreditava conhecer, mas que de fato é para mim uma incógnita. Em uma situação assim, o jeito é ir beber. Dizem que as especialidades da ilha são os polvos, os haliotes e os grandes camarões. Vou comer montanhas de haliotes.
Volte ao começo deste texto, indispensável leitor. Repare que este aprendiz citou dois Prêmios Nobel, e agora me atrevo a anunciar para breve, muito breve, o terceiro: Haruki Murakami. Pode cobrar.”
Crônica
Luz que invade a janela. Cor, cheiro e vozes. O atropelo, o susto. Irritação, indignação. A correria, o assalto, a mulher morta na calçada. Criança gritando. Dia de pânico, dois, ou três com muito medo. Solução chegando, polícia, padre… O arco íris depois dos relâmpagos, raios daquela chuva grossa. A crônica. O relato pequeno dos dias de hoje. Ao mesmo tempo, na memória do amor crianças se abraçam: Valentina, Lucas, Anita, Stella, Franco, João, André, Laura, e ainda o Ricardo, a Marina e Antônia, todos amados amores que chegam no mesmo sorriso. No abraço. Na expectativa. Nossos filhos.
Do amor
Nem sempre conseguimos dizer. Não sabemos falar o que importa, mais difícil escrever, ou pintar, ou fazer música com o sentimento do amor. É no silêncio, na sequencia lenta que apreendemos. Então pequenos fragmentos tomados como banalidades se erguem poderosos. A beleza transborda na memória. Eu queria poder estar na ponta do fio, e saber que estás lá segurando a outra ponta. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2014
Muro de ar
O amor tem recantos secretos, indizíveis, confusos, plenos. Este muro de ar impede o grito, o beijo, a risada. O sentimento preso se protege quando aquietado, sereno. Quando a luz quebra. Ar, vento, espaço, coração abertos… Então nos expomos inteiros.
“Cometi um erro. Adultos devem evitar exprimir coisas que possam constranger as pessoas. Devem evitar proferir, impassíveis, palavras que os impeçam de se cumprimentarem na manhã seguinte.” (p.149) 
“- Foi uma pessoa misteriosa – murmurou o professor, contemplando as gaivotas voando bem alto no céu. – Eu me pergunto se continuo a me preocupar com ela mesmo agora.” (p.162)
“Parei de me preocupar com as intenções do professor. Sem aproximações. Sem afastamentos. Cavalheiresco. Feminino. Um relacionamento superficial. Decidi que seria assim. Sóbrio, longo, sem exigências. Por mais que tente me aproximar dele, ele não me dá chance. Parece existir entre nós um muro de ar. À primeira vista tão leve a ponto de não se poder segurá-lo e, quando contraído, acaba repelindo tudo. Um muro de ar.” (p. 207)
A valise do professor. Hiromi Kawakami
Encontro
Eu a conheci quando o marido ainda vivia. Trabalhavam juntos na loja: vendiam livros. Tinha olhar escuro, espiava sem atrevimento. Aliás, radiografava. Dela a seleção de notícias afixadas na parede do fundo da pequena livraria. Também as resenhas, críticas. Indicação de exposições, bom filmes. Curiosidades. Logo na entrada a mesa redonda com revistas. Mariela e eu ficamos amigas. Encontro feliz com poemas, a escrita, as tintas, sigo indo pouco ao cinema.
A janela
Estou sempre começando. Mas, na verdade, eu não sei onde é o início. Deve ter havido mesmo um início: inseguranças, frustrações. O desencontro. Antônia arrumou a minha mala, ponderou sobre tudo que eu precisaria nestes vinte dias fora de casa. Olhei para ela, mais cansada. Toda a sua agilidade… Movimentava o corpo pesado pela gravidez com leveza. Os meus planos? Sobrevivência. Olhar pela janela, olhar pela janela, olhar pela janela. A mesma vida repetida. Pressão. Quero fugir. Está tudo pronto. Artur colocou gasolina no carro, revisou os pneus… Aprumei o corpo. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2014 – Torres
Endereços
Cartas. Vencem as cartas. Vozes telefônicas se atropelam. Estranhas… Choramingam, não entendem. Hora errada. Tempo curto. Ânimo perdido, voz lenta, linhas cruzadas… Ou o telefone interceptado.
Há prazer na escrita, agora, escancarada, restabelecida. Todo rabisco, toda a ideia se transforma em texto. Qualquer texto, leitura. Cartas são o quebra cabeça. Nelas a vida aparece aos poucos, aos soluços, na emoção confessional. Escrita truncada? Relato, crônica, a carta sem sequência, fragmento? Prazer, quase vício. Cartas são franjas. O momento certo. São degustadas, relidas, depois, jogadas no lixo, ou perdidas. O curso. A ponte. Caminham lentas, e chegam mansas, as cartas. Caminham… E até chegam atrasadas. E na madrugada tu lês, depois rasgas. Chagam apressadas, e antes de leres tu rasgas. Foi em janeiro, já é outubro e o verão se atrasa, não importa. Devagar, eu te esqueço. Não importa o que digas, não acredito. Separar o possível do impossível. Volto a quietude. E isso é bom. Elizabeth M.B. Mattos – Lisa – Beth ou Eliza – Torres 2018
Boa gula
Engole-se o outro no amor :
“Se não me afogas, resistiremos ( talvez ) a toda maré.
Mas se não me afogas, não nos afogas.
Ontem chegaste a Porto Alegre (ou a Torres). Hoje tua ansiedade telefônica . . .”
Gula enlouquecida de amor.
“- Podemos pescar trutas no rio aqui perto. E as verduras e legumes desta região são muito bons – explicou lentamente Kojima. Embora soubesse que eu estava me esquivando, ele procura manter o autocontrole, agindo como se não se importasse em absoluto. Pepinos recém-colhidos, batidos levemente com a faca, com polpa de ameixa salgada. Berinjelas frescas cozidas em tiras finas ao molho de soja e gengibre. Repolho posto em conserva em pasta de farelo de arroz. Todos pratos caseiros, mas com legumes e3 verduras de sabor mais apurado, ele explicou.”(p.143 )
A valise do professor. Hiromi Kawakami, 2012
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