Abraçados

Esta coisa de uma noite, um dia… Não define a contagem de tempo, mas mede  angustia, susto. Mede a dor. A dor física que limita. Grita sem som para dentro, presa.

E o menino, para salvar o avô do fogo, voltou para dentro da casa em chamas. Os dois morreram abraçados. As lágrimas não sufocaram a mãe. Existe milagre, beleza.: amor naquele abraço. Transformação. Encontraram os dois, avô e menino, abraçados. O gesto que estamos esperando todos os dias, o abraço.

As pombas rolas voltam para o velho ninho, mas trabalham na renovação da casa.  

Imóvel, observo.  E agora tenho Virgínia Woolf nas mãos?  Texto perfeito. Invólucro belo. Tratamento cuidado,  – prazer.

“Mas que é, afinal, uma noite? Um curto espaço, especialmente quando a escuridão diminui tão cedo, e tão cedo um pássaro chilreia, um galo canta ou um verde desmaiado se aviva, como uma folha revirada no oco de uma onda.” (p.17) O tempo passa, Virgínia Wolf, Edição bilíngue. Coleção Mimo Autêntica Editora, 2013. Belo Horizonte.)

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Verdade = Beleza + Perfeição

Verdade = Beleza + Perfeição

Jesper Chistian Christiansen é o pintor que está na capa desta Edição de Virgínia Woolf. Perfeição.

Esforço + expedição + Coragem =

“Palavras como: “expedição à verdade”, ou “querendo dizer o que efetivamente pretendemos hoje”, logo me fisgaram. E fiquei a pensar, egocentricamente, em tudo que não consigo fazer: pertencer ao grupo, finalizar uma atividade, um fazer qualquer, ou no meu português capenga. E um não sei mais quanta coisa que me cega, paralisa, e angustia. Nunca deveria ter abandonado a televisão, nem parado de escrever, nem deixado de investigar a pintura, aqueles artistas que estão escondidos, ou perdidos. Reler Kafka, ou ler porque nem sei se era tempo, ou hora. Assim como quero voltar ao Canetti, reconhecer Proust, saber dos poemas. Voltar, fazer corretamente o dever de casa. Sair dos esconderijos. Deveria ter acreditado mais no amor, nos ídolos, nos livros, na beleza. Não sei. O fato é que deixo de pensar positivo num átimo, num susto. Então, durmo dois dias seguidos. Pateticamente emagreço. Ou engordo. Escurece. Questiono a possibilidade. Não o fantástico encontro, mas a dificuldade de chegar perto… Eu quero vôar, como já se escreveu antes, ou voar como se escreve agora, sem acento, ou  ainda apenas defender o tempo, aquele momento, mas não consigo. Preciso apreender  a caminhar, a falar, tudo outra vez, reaprender. Não encontro o caminho. Um permanente giro sobre si próprio, sobre um nada que não avança…

Tenho que dormir dois dias, caminhar uma tarde inteira, e voltar a respirar. Antes limpar a casa toda, passar os lençóis, arear as panelas, polir as pratas, e encerar os tabuões. E então participar da “expedição à verdade,” como propôs Walter Galvani.005 (6)

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Isto importa?

O que faço do meu tempo enquanto estamos os dois recolhidos a pensar… Eu assim esquisita, tu respeitador. Claro que estou a me jogar nos teus braços, nas tuas certezas, danada que sou! Louca por ser amada, cortejada… Confusa misturando o cimento depressa porque pode secar antes de construir a parede. Tu deves saber destas coisas, ou não… Houve tempo de tomar demorados banhos pra entrar na cama perfumada. Lençóis impecáveis! Muitos travesseiros, roupa de cama branca, camisolas leves. Houve tempo de sonhar. Desejar. Será  que estou a querer tudo outra vez? Elizabeth M.B. Mattos – 2014

Cartas escondidas em risadas

Algo flutuava curiosamente bem no fundo de sua risada. E todo a trabalho de teclar, colar, descolar, separar, e a memória biográfica termina numa risada. Estórias em personagens, segredos. Gargalhadas. A risada do gravurista, herdeiro de Iberê Camargo, – Eduardo não devolveu as cartas inconvenientes. Inconveniente? Guardou a seleção das gravuras, e cartas sigilosas…Guardou as temperamentais cartas. Algo flutua, curiosamente, bem no fundo desta memória.

In absentia

Afinal escrever, apontar fica no jogo de quem acerta quem, e quando. E a certeza de que eu existo enquanto estou do outro lado, no contraponto, ou num tabuleiro de xadrez. Quando as palavras atraem algumas palavras, ou umas as outras, pintamos a tela, guardamos referência, e história. Ou cartas que abrem novas interpretações. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2014 – Torres

Revista GUIA das Artes: Ano 5, número 21 Cr$300,00

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 Brasileiro Clássico

“[…] falava-se naquele de uma exposição, aberta naquele dia, de Iberê Camargo. Os jornais de São Paulo tinham publicado declarações amargas de Iberê Camargo, relacionando sua obra com a circunstância trágica do homem com suas próprias vivências pessoais. […] Ianelli resolveu jogar na mesa pensamentos do  pintor minimalista Ad Reinhardt, famoso por suas radicais telas monocromáticas em negro. ‘Apresentar a arte como arte, e nada mais, fazendo-a mais pura e vazia, mais absoluta e exclusivista, não representativa, não-figurativa, não subjetiva’, leu Ianelli  de um papel de seus guardados. Mais: ‘O artista vem do artista, assim como as formas da arte vêm das formas da arte, e a pintura vem da pintura. E: ‘A única coisa a dizer sobre arte e vida é que arte é arte e vida é vida, que a arte não é a vida e a vida não é a arte.’ Claro que a intenção de Ianelli não era polemizar com Iberê in absentia, mas sim tentar discutir posturas tão opostas. ‘Com quem está a razão’, provocava, obviamente tendendo a apoiar o purismo de ReinhartdImage

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UTOPIA

Recorte perdido, sem data. Quem era a revolucionária Flora Tristán? Avó do não menos revolucionário Paul Gauguin. A pesquisa de Vargas Lhosa resultou no livro El Paraíso em La Outra Esquina, editora Alfaguara. Segundo ele não se conheceram, mas viveram vidas surpreendentemente similares.“- Flora era uma mulher de ação que teve uma idéia: aliar as mulheres aos trabalhadores para que fossem reconhecidos seus direitos – diz Vargas Lhosa. Gauguin descobriu sua vocação artística aos 30 anos, depois de uma vida convencional, com casamento, cinco filhos e um emprego próspero na Bolsa de Paris. – Guaguin também teve uma idéia: acreditava que a arte autêntica estava nas culturas primitivas, onde é uma expressão de totalidade social. Guaguin não encontrou o paraíso, mas terminou criando-o na sua pintura – diz Lhosa. As vidas paralelas de seus dois personagens lhe permitiram desembocar em uma particular reflexão sobre a utopia. Segundo ele, a utopia individual tem proporcionado os maiores avanços nas ciências, filosofia, e arte. As utopias têm nos salvado de viver na rotina,mas, cada vez que queremos materializá-las socialmente, o resultado é catastrófico afirma Lhosa. É normal que no século 21 sejamos céticos com as utopias. Não se deve rechaçá-las toda, mas a ideia de uma felicidade coletiva é impossível.”Image 

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Minha amada

FOTOS BETH 020

Não vemos as pessoas como vemos casas, árvores ou estrelas. Vemo-las na expectativa de as encontrarmos de uma determinada maneira, transformando-as, assim, em um pedaço da própria interioridade. A força da imaginação forma-as de maneira que estejam de acordo com os próprios desejos e as próprias esperanças, mas também de modo que nelas se confirmem os nossos próprios temores e preconceitos.” (p. 81 ) 

Trem Noturno para Lisboa –  PASCAL MERCIER

 

A memória escreve-se com tinta de tinteiro. Escreve-se com máquina de escrever. A fita se gasta, esgarça, o papel rasga. Ou digitada no placplac do computador. Escreve-se apagando, ou riscando com lápis… Ou carta telegrama no código saudade, querer, esquecer, hoje porque já é amanhã… De lembrar também. FOTOS BETH 019Aquela carta que desvenda, linhas brancas o não dito. Reticências. A estória se transforma com a bruxa, ou  no momento em que o príncipe beija a moça… A estória com riqueza na tristeza, vergonha. Mal vaticinado. Com inveja, conselho, e também o perdão…  E restos. Restos de palavras. Rastros em folhas de papel. Escorrega amor lavado com sabonete, água quente, óleo, perfume. O cheiro. Não é pra te contar, sei bem que não queres ouvir. Não e pra dizer, não é pra sofrer minha amada! Tens apenas que ler! E.M.B. Mattos

“Cheguei em casa ao entardecer de hoje. Encontrei cartas, poemas de Drummond. As duas fotos, em pétalas de flores ao natural, parecem ser outra pessoa: cabelos pretos, diferentes do aloirado que eu conheci agora. Uns segundos após, aparecias inteira naquele rosto fotografado ao sol do campo, tempos atrás. O mesmo jeito, um jeito alegre por trás de um leve  esboço de sorriso triste, ou lábios bonitos, carnosos. Eras tu. E de corpo inteiro, mesmo que a foto traga apenas do busto para cima. Noutra carta, entre margaridas, olhos fechados, bela, parecias tu, mas podia ser também a cena  final da Julieta shakespereana filmada em cores, ela estirada, dormindo sua beleza e seu amor eternamente. Agora, enquanto escrevo as fotos pousam à minha frente, no horizonte dos meus olhos. Imagino o ano: 1984, para ser dez anos atrás.”

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Esta, e outras. “Do jeito que me queres teu, e lembrado. Tudo que foi dito naquela caligrafia pequena, e naquela outra esparramada, em todas as folhas o que se lê pra esquecer. Sou eu, o teu amado!”

Tenho saudades tuas, tuas, tuas, até mesmo do teu jeito ‘acelerado’, de andar e andar de um lado para outro (dentro de casa e/ou na cozinha à hora das refeições). Desacelera um pouquinho tua vida, até mesmo para usufruir melhor de toda a vida que tens. Tens que usufruir da tua vitalidade. Não gastá-la como quem joga moedinhas no mar, para os peixes.”

“Ao reler ficarás ainda uma vez bela pra que eu possa te dizer, pra te olhar, pra te beijar sensual, leve como te guardo na memória! Carrega o beijo minha querida, prepara o abraço. Estou voltando!” FHTavares

“P.S. Cordélia, e se eu escrevesse assim a Albert: Caro, não sei como tu entendes as palavras e as coisas (essa frase me soa familiar, irmã, ah, já sei, o brilhante tarado do Foucault). Ando exasperado. Franz já te levou um camalhaço de bilhetes e nada respondes. Como te sentirias se te convidasse à minha casa? Sei fazer bebidas adoráveis. Bebes?” […] p.20 Cartas de um Sedutor, Hilda Hilst. Ed. Globo, 2002.

Infelizes cálculos

Sofro no calor. O calor sai pela pele, transforma, e se remexe no corpo. Estranhezas e prazer.Vai-se uma estranheza, encontra-se um afeto, já desafeto porque no tempo tudo se transforma, desmancha-se no ar… Antigo título! Nós nos perdemos nos abensonhados livros que nos abraçam, desgovernados. Hoje de manhã, depois das trovoavas. Chuva e sol.  Finda a conversa cinza de tantas discussões climáticas voltei à livraria pra buscar aqueles títulos com quinze por cento de desconto, como o prometido de cada dia quinze do mês.  Enfrento a pouca sombra, mas vou contando amoreiras, pitangueiras daquele pomar circular da lagoa. E lá estão os livros separados: MISHIMA, ou a Visão do Vazio, Marguerite Yourcenar, A valise do professor de Hiromi Kawakami, E depois, Natsume Soseki. Os títulos Japão, aulas de japonês, outra visão. Ou, E depois, a Valise do professor se esvazia, mas na magia de atuar encanta até descobrir, ou ter afinal, A visão do Vazio? O vazio? A lembrança, o ontem escondido nas histórias de criança. A descoberta de domingo quando estava a escutar as vozes da chuva misturadas ao vento.  A sintonia de sons entre vozes! Escolho o não citado Estórias abensonhadas, o estrangeiro das minha lista, Mia Couto.  E leio o conto Os infelizes cálculos da felicidade: “Para bem amar não há como ao pé do mar, ditava ele. […] Ela: Do inverno gosto é para chorar. As lágrimas, no frio, me saem grossas, cheiinhas de água.”[…] e aquele jeito peculiar, sonoro de Mia Couto: Vontade de festejar deve eclodir antes de acabar o baile. Tanto tempo decorrera em sua vida e tão pouco tempo tivera para viver. Tudo estando ao alcance da felicidade por que motivo se usufruem tão poucas alegrias?”(p.95-96) Abensonhados livros que nos alagam de prazer!  Terei que me apressar… Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2014 – Porto Alegre

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