Cidade do Meio

Meu amigo:

Palavras voam, e se prendem no descortinado amanhecer. Lembrança fresca. Velho passado. Arfadas palavras. Colhidas amoras verdes, vermelhas, roxas, e também as menores, pequenas luzes brancas. No campo, esqueço a cidade. O sentimento de chegar. Cinco horas de trem até ao aeroporto. Outras dez até Vala Seca. Largas janelas-vitrines. Roupas, máquinas, brinquedos, sapatos, tamancos, enxadas, cortadores de grama, serrotes. Caixotes com batatas, feijão. Um mercado. Ao lado, Hotel Central, depois outra loja com roupas, uma farmácia. Um bar-café.  A casa se esconde numa ladeira estreita. Ou num estreito de ladeira. No meio do caminho. Todas rotas do Sul passam por Vala Seca. Nesta geografia de lugar nenhum mando novas notícias para você. O quarto principal tem lareira. Grande espelho ocupa metade da parede, depois da janela, o armário. Uma pequena cômoda. Mesa redonda,  duas cadeiras. Tapete, uns poucos livros. Nenhum quadro na parede. Entre a capital dos limões, e a cidade universitária. Entre o certo e o errado. Na cidade do meio. Entre saber geometria, e desconhecer tudo o mais, estou eu. Povoada por você. A minha direita vejo você trabalhando na horta. Em frente, você tocando os patos. Depois, debruçado na minha janela, cabelos ao vento, porque é setembro. Vou até ao alpendre, e os canteiros com junquilhos conversam com o roseiral. As frutíferas devem ter se escondido atrás da casa. Meu amigo, escrevo no caderno de capa vermelha, conforme combinamos, seguem pelo correio este, e outros dois completos. Detalhadamente contei a história do chapéu preto, das irmãs, e das corridas de patinete. O de capa azul deixo para geometria. E o amarelo, poemas. Não existe cidade para descrever. Não sinto nenhuma dor.  Aguardo sua visita. Albertina Vala Seca, 17 de setembro de 2014. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre

Marionetes

Obscenidade atribuída a mente. Interpretação, uso dos sentidos. Experimento antes da apresentação do feito. Atropelamos informações. Desenho lembranças  nas raízes necessárias do florescer: a quaresmeira se faz pintura, espia pela janela pequena, e o jasmim se esconde no verde do arbusto. Passa o susto. Conversamos a conversa. A saia colada nas pernas magras. Monta-se estratégico palco, acerta-se o texto, a fala. Modula-se a voz. Especifica-se médico e paciente. Escuto a história de moças perdidas, e achadas em rodoviárias da capital: busca atenta de possíveis talentos. Cura pelo pão, arroz, feijão e leite. Retribuição no abraço amigo, rede rentável. Escutar, sem me surpreender. Escutar o tempo inventado, talentoso de ouvir. Pecado confesso: obsceno mundo de corrupção, atual. Submundo aberto em largas calçadas da cidade capital. O fluxo natural do êxodo lacrimejante dos impotentes. Moças, e os fazedores de talento. Como nos contos de fada: o príncipe e a princesa perdida. Encontrada. Ambos, garbosos, chegam ao palácio. Obsceno mundo de covardia. O mais fraco, sucumbe, sempre. O cochilo atravessou a história. A voz inunda a ideia de brilho. O grito de socorro.  Estranhos odores. Apreender um ofício se mistura, ou se alterna com sobrevivência? Pluralidade inverossímil em máscaras legítimas e polidas. Irreverência. Comemos maçã envenenada. Bebemos em copos bojudos água com gelo. As pás do ventilador se movimentam no meio da sala. Este ventilador de teto levantam o pó das cinzas do cigarro. Elizabeth M.B. Mattos – 2014 Porto Alegre

Portão Azul e você

“Mas a peculiaridade desta é que quem chega numa noite de setembro, quando os dias se tornam mais curtos e as lâmpadas multicoloridas se acedem juntas nas portas das tabernas, e de um terraço ouve-se a voz de uma mulher que grita: uf!, é levado a invejar aqueles que imaginam ter vivido uma noite igual a esta e que na ocasião se sentiram felizes.” Ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis

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Passados tantos anos longe de Portão Azul volto as construções de pedra, acinzentadas, especialmente hoje, fotografadas para você. Ruas de terra batida ladeadas por perfumados eucaliptos. Cheiro verde na floração vermelha, peculiar. Cercas demarcam o limite de cada propriedade. Reconheço amigos pelas chaminés. Os fogões a lenha delatam, contam o que acontece nas casas. Sopão, assado de galinha, ou de porco. Perfume do pão de milho. Batatas cozidas ao leite. A comida descreve para você a cidade onde nasci.

Passados tantos anos volto para as hortênsias rosadas. Azul pálido, depois, azul intenso. Flores tenras, esbranquiçadas. O campo de margarida da casa da esquina. E perto do rio Tininho, plantação de copo-de-leite. E o verde. E o vermelho dos eucaliptos. O vento agita num abano preguiçoso as ramadas das árvores. Não sei como pude esquecer as rosas! Rosas do senhor Amâncio. E a soja verde espevitada. A narrativa segue nos cliques. O retorno ao lugar onde nasci… Literalmente vim ao mundo no quarto rosado. Janelas abertas para os cinamomos que volteiam a casa. Uma tarde de verão. O sobrado majestoso se mostra exibido. Pés descalços, venho ao meu encontro risonho. Estremeço.

A geografia de buzinas, vozes, gritos na noite. Estou de volta. O som sorridente, estridente sobe até minha sacada. A cidade que escolheste… Durmo como se estivesse dentro do bar. Perto do café. Entre a farmácia e a padaria. No verão derrete o asfalto que gruda na minha sandália. E o ônibus me aperta no percurso do apartamento até ao escritório. Escadas escuras, pequenas salas. Gasto meus olhos entre carimbos e pastas. No subsolo daquele prédio enorme que chamam Torre Central. O silêncio dos murmúrios desperta meus nervos tensionados. Trabalho das oito horas da manhã até ao meio-dia. Depois vou flanar pelas esquinas da cidade. E todos os cliques são o azul de olhos apaixonados por você. Adormeço onde você estiver. Elizabeth M.B. Mattos – 2014 Porto Alegre

Histórias Guardadas

História de interdição. Rompe-se o fio do ontem, e do amanhã. Importa hoje. Surpreende a interpretação  enganadora proveniente do desejo, da fantasia.

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A origem da história é interdição. Sem experiência. Apenas vontade. Trágica recusa do imediato. Estamos, mesmo na velhice presos nas velhas proibições maternas, paternas. Este jogo define o real. Desconfio do imediato, precisamente, porque duvido que ele seja realmente o imediato. Preciso do ordenado e tangível mundo conhecido, reconhecido, ensinado, racional, não emocional. A reminiscência. Não existe a experiência primeira. Nada é descoberto, mas sim reencontrado. O verdadeiro só pode significar no segundo momento, depois, depois de ser interrompido.É preciso copiar alguma coisa, repetir alguma coisa, fixar-se em algo já conhecido para definir o real.

Talvez esta emoção não seja nada mais do que a desconexão mórbida, um abandono a lembrança de luxo do presente…

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Fotografar

O telefone silenciou. Aflição. Ninguém pode saber exatamente o que acontece nesta rede de informação, precária. Quem são essas pessoas?
Trabalho para uma Corretora de Imóveis. Qualificações: polidez, beleza, mansidão, e matemática. Fisgar o peixe, o negócio se faz sozinho.
A caixa de morar esconde, mostra quem somos. Empilho os livros, em colunas. A casta, o invólucro, o buraco. Do quente para o frio. Esconderijo, o lugar. A verdadeira roupa, a casa. Vou limpar, polir, arrumar as gavetas pequenas daquela cômoda.
Na lotação, inquieta, sinto o olhar. Serão meus sapatos altos? Batom vermelho. Saia justa. Maquiagem. O cabelo excessivamente puxado…
Apago o fogo que ainda queima. Noite de terror. Por que tanta inquietude, e tanta agitação? Imobilidade, solução. Ninguém bateu na porta.

Rabiscos

Sol! Vem me buscar. Pega o braço, o corpo. Aquece a casa. Nasce, outra vez, na água do rio que brota na pedra.
Entrego o texto fechado: cartas, fotos, documentos. E, advogas.
Caixas, pastas, documentos, pilhas. Amontoa-se história nas prateleiras.

Lá está meu nome.
Homem sem tempo de poder me ver.
Orgulho. Quietude e coragem.

Não sou eu, és tu.
Escondo o segredo pequeno de te espiar …

Soltas o braço, bebes a música. E, deixo cair minha mão na tua mão. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2014 – Porto Alegre

Incomunicável

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Não compreendo. Contas, respondes, argumentas. Palavras soam, repicam, e voltam. Eco. Monólogo. A voz pequena, vazia, ou distante. Não sei repetir. Escuto. Já nem penso, ouço. A cada frase, afirmação… Interferência, uma crítica. Sem palavras minha resposta. Silêncio. A cada história tua voz. Particular. Fotos, muitas fotos.Texto? Pode ser! Desânimo.

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Nomes da memória

Dia de comer dois pastéis. Claro, tomar cerveja, depois espumas na banheira. Folguedos. Nada. A tarde foi se indo para terminar neste pôr do sol grandioso: Rio Grande do Sul, e África. Será? Vontade escondida, como diria Lygia Bojunga Nunes, em histórias de gordas, e grandes vontades… Vontade de viajar. Amarras. Ancorada, isolada. De noite, vinho. Velas. E agora a meia lua…
Biografia? Escrever esvaziado…Nomear? Vianna Moog versus Iberê Camargo, Almeida Lima, Lopes de Almeida, Menna Barreto, Veríssimo, Vitor Hugo, ou Petrópolis? Vargas, Dionélio Machado, Sérgio, Dona Ondina, piano. Frignani, Marco. Gianfranco. Modena. Itália. Esquisitas histórias. São Paulo. Minas Gerais. Voam, apitam os trens. Glauco Rodrigues? Carmélio, Danúbio Gonçalves. Paulo Hecker Filho. Termina, e começa. Francês. Edy Lima. Françoise Hardy, Petrópolis. Porto Alegre. Rio de Janeiro. Rio Pardo, Ipanema, ou Botafogo. Santa Cruz do Sul. Petrópolis. Piscina, barrancos, bonde. Nossa Senhora das Graças. Cônegas. Santo Agostinho. Torres. Praia, Bom Conselho. Rio de Janeiro. Dodge. Fotos. Cartas. Copacabana. Paris. Limoges. Advogado. Processo. Casa. Divórcios. Maridos. Namorados. Escrita, Hemington…Despedida. Amigos. Encontros e desencontros. Livros, textos. Papel, caneta tinteiro… Máquina de escrever.

Texto antigo / completo / Elizabeth M. B. Mattos

Felicidade

Sentimento doído diante de pessoas, de coisas: este mundo. O pequeno medo. Sobressalto, doçura, preocupação. Dúvida. É preciso ofício. Procuro a coragem. Sim, o livro é perfeito, no entanto, o essencial se esgota, mergulho no supérfluo. Temida clareza que ofusca. Pessoas passam, vão e vem como sombras colorida, e sonoras. Influências brincam com a  vontade. Felicidade  que ultrapassa minha ambição.

CARIOCA

Completamente carioca. Gaúchos são guapos, corajosos, valentes (não é a mesma coisa?), honestos, politizados, preparados, e a lista é enorme… Nada de chope, batata frita! Rua, cachorro, tênis, conversa, ideia, escola? Cachorro quente, pastel, livraria, sebo, túnel, galeria, Copacabana, Leblon, Ipanema, Floresta da Tijuca. Tu, não, você. Calçada. Sou carioca. Amores cariocas, mar carioca… Rio de Janeiro é demais!  Vinicius de Morais, Prudente de Morais, Urca, Humaitá, Largo do Machado, Parque Laje. O que mais? Carioca.

Nostalgia dolorida, despedida.

Perdi o que preciso, encontrei o que não procurava, afundei na cama, dormi. Tirei o pó, varri a casa, abri as janelas, fechei. Desejei estar ao teu lado, quieta. Não abri o vinho, nem comi o queijo, não fui a praia. Desanimei! Escuto o silêncio. Obedeço…

“E vivemos partindo, ela de mim

E eu dela, enquanto breves vão-se os anos

Para a grande partida que há no fim.”

Vinícius de Morais, Soneto de Carnaval