Filha: penso em ti todos os dias, todas as horas sem me decidir se devo seguir em frente, parar, rir, ou chorar! Piso nos explosivos, voluntariamente, ou sou mesmo desastrada? Não sei. Como é o nome destes mortíferos instrumentos? Minas. Na guerra as minas aleijavam, matavam. No meu tempo de guria eram elas as moças de programa as minas. E era mesmo desvio? Sexo. Não se podia fazer ‘agarros’ com a namorada pedida em casamento. Deveria ser virgem, casta e boba até o dia fatal. Nesta noite da lua doce seria habilidosamente introduzida aos prazeres. Mais tarde aos cuidados da casa e maternidade. E tudo sem manual. Será que sou mesmo tão antiga? Pois sou. O tempo impiedoso mostra as pernas cansadas, gorduras inadequadas, e o vento sopra em fiapos de cabelos brancos! Lamentável! Mas algumas mulheres, homens chegam aos oitenta e cinco, noventa anos vigorosos, elegantes, tratados, viajados e amados. Parece injustiça. Talvez seja. A economia, os ganhos, os reais, dólares, euros e libras estão mal divididos. Se protegidos o vento não sopra, as pernas repousam, e tudo se apresenta no melhor dos mundos possíveis. Envelhecemos como meninos em redoma. Sem minas no caminho, nem sobressaltos. Estamos no maior CIRCO do Mundo! O planeta Terra. Bom que faz sol hoje!
Uncategorized
Acelerar
Sempre a dor, e, esta inquietude que as relações humanas produzem! Vida aos pulos. Engole-se as horas sem medo de engasgar. Euforia nada contagiante. Assustadoramente feliz, em risadas soltas e penteados apressados… Reivindicações, pontuações ferinas sobre o que não segue o mesmo ritmo. E o sol convida a sair, a chuva ao capote, o frio a manta. Café quente no shopping, vitrinas na Rua 24 de outubro, vinho no bom restaurante. Cozinha italiana. Cinema. Francês ou argentino para escândalo de muitos. Telefone. Longas conversas! Os assuntos atropelam. Respira! Respiro. O dia mal começou… Elizabeth M. B. Mattos – 2013 em Porto Alegre
O Brasil vai parar no dia 11 de julho?
Lenda
Minha natureza de geógrafa gosta de passear. Recomeçar. Outra vez a mudança. Nova varanda, outro quintal, aquele rio fundo, pedras. A casa traz o prazer longamente sofrido no deserto da saudade. Chegar seria atravessar a mata por estradas curvas de terra. Silencioso e verde caminho! E subir todas aquelas escadas!
Os passos são pequenos, os joelhos ardem esfolados, mas a lenda se escreve…
Porque as rainhas não explicam nada, e menos ainda a razão de sua vinda repentina e de tão longe.
As rainhas, mesmo ciumentas, não reprovam nada de ninguém, aliás que homem dotado de razão teria atrevimento de imaginar que pôde fazer sofrer uma rainha?
MERCADO PÚBLICO
Patrimônio Histórico! Outro incêndio!
“O Mercado Público faz parte do patrimônio histórico e cultural da capital gaúcha desde 1979 e foi inaugurado em outubro de 1869, segundo informações da prefeitura do município. O segundo pavimento foi construído apenas em 1912. Pelo menos 111 estabelecimentos ficam no local. Este é o quarto incêndio que atinge o prédio. Os outros ocorreram em 1912, 1976 e 1979.”
Porto Alegre. Rio Grande do Sul. Brasil.
Calaminada!
De volta
Alegria ferve. Expectativa. Bastante tempo longe! Alívio na chegada. Vou ao teu encontro. Aperto teu corpo, respiro. Sinto tua falta. Como posso ser ambivalente e deixá-la repetidas vezes? Paradoxalmente te abraço com a mesma intensidade de saudade… Penso em quem deixei no Rio de Janeiro. Não resisto a sedução! Mas retorno aos teus braços. Teus seios pequenos, teus cabelos tão crespos! Teus olhos rasgados. Tua boca enorme engole meu corpo, aos pedaços… Teu rosto oriental exige servidão. Estás inteira no meu abraço. Corpo cuidado, roupa escolhida, colorida. O avião desce. Olho entre pessoas. Esperas por mim. Levo presentes em linho, branco, macio nos lençóis. Outro perfume. Alegria ferve. Agitas tua cabeça. Caminhas. Meus olhos em nós. Tuas perguntas, as minhas. Recomeço. Estabeleço prazos e tempo. Não me importa quem te abraçou, o que fizeste… Estou agora no teu beijo. Teus braços magros, cansados! Malas cheias do inverno que não passei contigo. “Aonde estavas, minha amada, na noite de 28 de agosto quando o telefone tocou na madrugada?” Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2013 – Torres
Carta ou Poema
“Porto Alegre, 19 – 09 – 92.
Querida Beth,
O vento não sopra o pássaro não canta, o céu está mudo, e Beth não fala.
Não sei o motivo desse silêncio inquietante, como ele sempre é, seja de pessoa ou coisa. O sol nasce o sol morre, e eu e meus ciclistas continuamos numa caminhada sem fim. Para onde? A meta, o horizonte é uma linha de mentira.
Meu último quadro tem este título que vem de uma poesia de Fernando Pessoa: – “Tudo te é falso e inútil.” O passado, um montão de sucata envolto nas brumas da memória.
Fala Beth. Estou muito triste e deprimido.
Há mais de quinze dias que estamos sem motorista. Diz ele que está com catapora ou coisa parecida. Como estou com o braço direito meio travado, devido uma artrose ou outra porcaria qualquer trabalho com dificuldade, e não dirijo carro. Como vês estou preso. Não sei quando poderei por este bilhete no correio. […] vida difícil!
Abraços e muito carinho o Iberê.”
Iberê Camargo. Pintor gaúcho.
Acervo na Fundação Iberê Camargo. Porto Alegre. RS
Calor em Porto Alegre
Porto Alegre quente. Cinema francês com Maria Antonieta. Embalos. Amigos na calçada.
Cafés lotados.
Fervilhante sexta-feira! O telefone toca. Vinho com amigas. Boa comida.
Estar de volta… Definitivo?
Vamos para a ilha!
João! Trata de estudar japonês e inglês, muito, muito e muito para ficares rico… Não que seja o mais importante da vida. É preciso respirar enquanto se trabalha… Olhar a natureza, ver o céu, estrelas, as nuvens com desenhos. O azul, o cinzento, os rosados e os vermelhos. Molhar-se na chuva, ter cães, e por que não gatos? Cuidar do jardim. Beijar muito, abraçar. Beijar. Rir. Conversar com amigos, ouvir histórias. Saber escutar o silêncio. E também tocar um instrumento. O piano, o violão, quem sabe bateria. Cantar. Soltar a voz e cantar! Rir com os olhos. Tudo isso é necessário para a boa vida. Alimentar-se de frutas, e legumes. Sentir o sol… Caminhar pelas calçadas, pelas pontes, pelas praças, e namorar. Beijar. No entanto estudar, estudar, estudar, estudar importa. E leitura é mais do que abrir livro, revista, jornal. Olhar, observar é ler também o lúdico. O intrigante. Instigante. Ler as pessoas… Observar gestos. E não esqueça de contar as ondas da praia. Leia. Decodifique, e transcreva, interprete. Aprenderás a te conhecer. Menino intenso, amoroso, curioso… E claro! Vamos comprar a Ilha francesa que está à venda… Por que não?Levamos o Lucas e a Luiza.
Lattoog no jornal O SUL
E…
A vida do outro exige decisões. Eu dependo do prolongamento do teu olhar, da tua vontade. Da janela aberta, da voz que importa…
Sequencia, interrupções, e alguns passos, todos os passos…
Afinal somos responsáveis pelo que provocamos: decisões, hesitações, covardia ou ousadia.
Palavras: o anel, o círculo.
E o Rio de Janeiro palpita, estremece. São Paulo responde. Porto Alegre tem frio e chuva. Torres espera por ti…
Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2013 – Torres






