Vem me buscar. Pega o braço, o corpo. Beija a testa. Aquece a dor. Quebra a luz. Não sou eu. És tu…E este segredo pequeno de espiar.
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Simone e Giacometti
“ Não creio ter tido oportunidade de lhe falar sobre um grande amigo, um escultor que vemos frequentemente, o único talvez que vemos sempre com prazer. Esbocei uma espécie de retrato dele no Sangue dos Outros. Como artista eu o admiro muitíssimo, não há escultura moderna superior à ele, e ele trabalha tal força com muita pureza e paciência. Chama-se Giacometti. Vão expor muitas de suas obras em Nova York no próximo mês. Há vinte anos, ele conheceu um grande êxito e ganhou fortuna com sua escultura de inspiração surrealista. Ricos esnobes pagavam a ele preços exorbitantes, como a Picasso. De repente sentiu que não estava indo a lugar nenhum, que se desperdiçava, e então deu as costas aos esnobes e começou a pesquisar sozinho, só vendendo o indispensável para sobreviver. Assim vivia muito pobremente, sempre com as mesmas roupas sujas.[…] Em um encantador jardinzinho esquecido, ele tem um ateliê cheio de peças, onde trabalha, e mora ao lado de uma espécie de hangar, amplo e frio, com paredes nuas, totalmente desprovido de móveis e de provisões. Como há buracos no teto, colocou potes e caixas, também furadas, no chão, para recolher a chuva! Trabalha quinze horas sem interrupção, principalmente à noite, e não sai nunca […]Pouco se importa com o frio e as mãos geladas; apenas trabalha.[…] Mas tem idéias próprias sobre escultura, e há anos tenta e tenta de novo, como um maníaco, sem expor nada, quebrando e recomeçando a cada vez. Ele poderia facilmente conseguir dinheiro, elogios e fama, mas, não; faz isso por ter concepções, singulares, apaixonantes, sobre a sua arte.” (p.88-89)
Simone de Beauvoir – Cartas a Nelson Algren – Editora Nova Fronteira.
Carta de quarta-feira 05 de novembro de 1947.
PARIS no papel
“Quarta-feira: 05 de outubro de 1947
[…]
Paris está sempre magnífica! E a nossa árvore, perdeu as folhas? Aqui todas as árvores as perdem, e elas flutuam lentamente sobre o Sena. Nestes últimos dias, andei longamente por Paris, invadida por um sentimento estranho e triste que alguns amigos afirmam compartilhar. […] Antigamente eu não teria sido capaz de escrever sobre Paris, devido à sua proximidade; agora eu poderia. Domingo, nos grandes boulevards, uma multidão perambulava sem pressa, só para passar a tarde. Pequenas barracas vendiam guloseimas e lâminas de barbear, tudo antiquado e lúgubre como um espetáculo contemplado de outro século. Há dez anos ela se transformou em uma cidade morta, como Praga ou Viena, porque não existimos mais por nós mesmos; as coisas acontecem na Rússia e na América, não mais aqui. […]”
Simone de Beauvoir – Cartas a Nelson Algren – Um Amor Transatlântico
Editora Nova Fronteira. (p. 88)
Só por um minuto
Manhã sacudida. Papéis desaparecem no fogo. Brutal incêndio. Chamas abertas. Dormi na angústia, e acordei sem ânimo. Tudo se transforma em outra vez, outra vez, mais uma vez. É por um minuto. Todo o entusiasmo, ou vontade, disposição, tudo por um minuto. A referência documentada no talher de prata, no quadro óleo de Iberê Camargo, no retrato aquarela de Carmélio Cruz, nos livros e nas porcelanas, nos cristais, por um minuto… Depois do fogo não há identidade. Pela garganta o medo, no peito a urgência. Estou desfeita! Há que se ter ordem, energia para recomeçar. Embalei sonhos. Cada por do sol, cada amanhecer. A lembrança volta para a Rua Vitor Hugo… É o tempo preguiçoso, cor de rosa, e envolto em beleza. Olhar, olhar, olhar e escutar. Abrir os braços devagar como se o casulo fosse uma caixa de música, e a borboleta não tivesse pressa nenhuma de voar. Nenhuma… Escancarar. Abrir a janela. Gesto ensaiado por toda uma tarde. Se escurecer estou na sombra dos jacarandás esperando… A grama se confunde com os canteiros de begônias. Música, vozes, mesas redondas e meia luz de abajures. O fogo das lareiras, ou a leveza das cortinas sob o carpete. Quando voltar o sol no alpendre vermelho, estarei comendo laranjas e bergamotas porque é inverno… É muito rápido. É muito rápido esta droga de viver. Idiota, estúpido. Por que escrever?
“– Para entretenimento… – murmurava ele com um sorriso desdenhoso. Ah! Tu precisas te entreter… Para isso escreves; isto é, trabalhas. Mas, meu caro,’ entreter’ significa passar tempo. Ora o tempo passa acelerado em demasia; não necessita de impulsos. Os homens deviam procurar ‘ entreter’ o tempo, e não entreter-se a si….Eu é isso que faço…Penso no passado, revivo os dias que passaram…Assim levanto uma barreira entre o presente e o futuro. O futuro é porém um ótimo saltador… salta todas as barreiras, vai se tornado o presente e eu pouco resultado alcanço… Escreves para não te aborreceres…Ah! Como seria feliz se conseguisse me aborrecer!…”(p.266 Mário de Sá Carneiro/ Obra Completa Prosa/ Princípio. Editora Nova Aguilar.
Escrever sem saber o rumo a tomar. Vou abrir um livro, qualquer outro livro… Sem motivo. Pode ser tudo mesmo sem motivo?
Amigos de Petrópolis
Aos amigos da rua Vitor Hugo, Petrópolis…
Sempre voltamos ao tempo feliz!
Na foto com o quadro de Eduardo Vieira da Cunha no fundo reencontro na Garagem de Arte.
Sentada nas escadas do clube Nádia, lindinha como sempre! E o famoso Guga (Guilherme Alberto Stunf). A foto seguinte – Petrópolis Tênis Club . E na festa de 15 anos está Nádia , Ana Maria, e Ana Helena. ( As outras fotos foram cedidas pela Nádia Portela)
O beijo
“Em Roma, Diana era a deusa da lua e da caça, mais conhecida como deusa pura.”
Encontro, e detalhes. Um silêncio justificável, mas nem tanto! Peça de um velho quebra-cabeça incompleto, interrompido. Elo perdido. A moça bonita ama, responde e fala comigo. Acolher o desencontro dolorido da vida de G faz parte do espetáculo! Por conta do virtual, por conta da fantasia, maravilhosos hotéis e passeios, um passado na história inventada de Minas Gerais. Cartas descrevem rotas, rumos, paradas e exaustivas retomadas. É passado esquisito-esquecido porque inventado. Inverossímil. Tu menina, no entanto, existes. Reconsiderar perdas, dores e providenciar no que se nomina amor é estar alerta na vida. Suponho que seja o açúcar. Este encontro comigo atravessa sobras, chegas de um tempo virtual… Neste caso, um beijo amigo é um recorte para justificar a troca de mensagens. Sem compromisso, não traz de volta o tempo, nem tem futuro. É como passar a história num átimo. E revogá-la ao mistério de telhados numa cidade abandonada… Casas vazias, ruas com vegetação de desgovernado verde que avança sobre calçadas. Fantasmagórica tela pintada em tons amarelados com arabescos esverdeados. Rasgado vermelho no preto. Sem vultos. É um beijo perdido… Nem tanto para G, mas para a menina Diana Beatriz.
História Familiar
A História do Automóvel
O automóvel que conduziu a governadora Yeda Crusius no Desfile Farroupilha, o Stutz 1928, integra o patrimônio público do Estado desde 1931 quando o governador Flores da Cunha o adquiriu. A porto-alegrense Míriam Palazzo refere detalhes dessa transação. O carro pertencia a Pedro Alexandrino de Mattos, comerciante de origem portuguesa, trabalhava com tecidos e fornecia mercadorias trazidas da Europa para o comércio gaúcho. Bem sucedido, possuía várias propriedades, entre elas as terras que hoje integram o Parque Saint-Hilaire. Nos fins dos anos 20 e começo dos anos 30, foi alto dirigente do Banco Popular. O carro era usado para conduzir a família, que residia na Rua Jerônimo Coelho, em seus compromissos. Com problemas decorrentes da instabilidade política e da participação nos episódios que mobilizaram o Rio Grande do Sul e o País naquele período, Pedro Alexandrino de Mattos decidiu vender o automóvel. A história desse que passou a ser conhecido como o veículo dos desfiles e que está exposto num dos salões do Palácio Piratini é confirmada pelas netas vivas de Pedro Alexandrino: Esther Costa e Ilka Ferreira Palazzo. O histórico automóvel foi produzido pelo norte-americano Harry Clayton Stutz, que deu seu nome à marca. A produção se encerrou em 1935.
Na foto de família: Pedro Alexandrino Mattos e Rita Menna Barreto Mattos (a partir da esquerda. Esther, Ida, Roberto Menna Barreto Mattos (ainda menino) e Flávio M. B. Mattos.
Outra foto antiga do carro em uso da família Mattos.
Roberto no Stutz com os amigos, e dificuldades…
Resolvendo o problema.
Roberto Menna Barreto Mattos na ‘Chácara’ hoje Parque Saint Hilaire.
Porto Alegre – Rio Grande do Sul
Pedro Alexandrino de Mattos
Eu


Sempre Iberê Camargo
LATTOOG
Insensatez
Talvez o que transcrevo seja o insólito, o incomum, o que não importa. Mas não é esta a questão. Importa o livro lido, a discussão, a canção, o poema, o filme, o teatro. Os cafés, ou melhor, tudo importa. Principalmente Paris daquela época.
Ou sempre!
“O belo outono continua: o cheiro de queimado das folhas mortas, a luz amarela do sol sobre o Sena, em meio a nuvens cinzentas.” (p.75)
Ou “A galeria, a árvore, a rua, a noite inteira entrando em nosso leito […]” (p.75)
O que vou dividir é a insensatez!
“Em minha vida de trabalho, austera e calma, é maravilhoso sentir em meu coração um tal tesouro de emoção, de dor, de felicidade, de amor ardente.[…] Você sabe que jamais escrevi cartas de amor em inglês. Estou consciente de que conceder tanta importância aos sentimentos pessoais é uma insensatez, quando no vasto mundo acontecem tantos fatos graves: a cólera no Egito, De Gaulle na França, sem falar nos EUA. Digamos que esta seja uma história tola mas bela […].(p.81)
Qual o grau de importância? Onde eu estou, onde tu estás? O que de fato gostaríamos de fazer, dizer, ou sentir? O quê?
Ainda as Cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren. Editora Nova Fronteira.




















