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O bule de chá vermelho
O desejo me persegue: formato, cor, ou o desejo de beber chá? Não sei. Compulsão pelo bule vermelho…Ontem de tarde sai com a ideia de comprá-lo: examinei, olhei e larguei. Pensei nas xícaras, onde eu beberia o chá depois da infusão? Entrei na loja ao lado… Comprei fronhas, uma vermelha outras brancas. Em casa recostei-me, dormi.
Hoje acordei pensando outra vez no bule vermelho. Contabilizei. Não posso comprar pelo simples prazer de olhar… O formato? A cor, ou o desejo de beber chá? Não sei exatamente. Pensei no bule branco com o Buda que vi na casa de Isabel. Peça exclusiva. Olhar aguçado. Não apenas cor, formato, utilidade, mas antes de tudo, beleza. A matéria sustenta a forma, como o olhar persegue o belo. Os bules de chá…
Claustrofóbica, sem acalmar a sensação de peso, aborrecimento que sentia sai outra vez. Não fui buscar o bule, entrei no cinema. Filme francês. A sessão já tinha iniciado. Dei meia volta, entrei na livraria. Separei três livros: pensei nas contas, comprei apenas um. De volta ao quarto. Estiquei as pernas, e comecei a folhear o livro Entre Nós de Philip Roth: conversa de um escritor com seus colegas de trabalho. Iniciei por Mary McCarthy, correspondência. Depois, Conversa em Londres com Edna O’ Brien. Mulheres. Instinto ou magnetismo? Roth inicia descrevendo a rua, o prédio e depois o lugar onde ela vive.“No escritório há uma escrivaninha, um piano, um sofá, um tapete oriental de um tom cor de rosa mais escuro que o papel de parede marmorizado, e pelas janelas à francesa que dão para o jardim vê-se uma quantidade de plátanos suficiente para encher um pequeno bosque”.Volto a visualizar o bule de chá vermelho. Mentalmente o vejo sob uma mesa imaginária naquela sala. Na descrição Roth ainda cita a famosa foto de Virginia Woolf. O volume de obras completas de J.M. Synge aberto no capítulo de The Aran Islandme. Menciona um volume da correspondência de Flaubert aberto numa carta para George Sand. Em seguida cita uma epígrafe escolhida pela autora: “Antes de mais nada, quero dizer que não perdoo ninguém. Desejo a todos uma vida atroz nos fogos do gélido inferno e nas gerações execráveis que hão de vir”. Malone Morre, livro de Samuel Beckett que li neste verão em Torres… Diz ele que não encontra esta aspereza na sua obra. O’Brien justifica e explica. “Quando tenho uma explosão, depois me sinto na obrigação de ser conciliadora. Isso tem acontecido ao longo de toda a minha vida. Não sou uma pessoa naturalmente dada ao ódio implacável, como também não sou uma pessoa naturalmente dada ao amor incondicional, e em conseqüência disso muitas vezes entro em choque comigo mesma e com os outros!” E continua:“Eu reclamo da solidão, mas ela me é tão cara quanto a ideia de me unir a um homem. Já disse muitas vezes que gostaria de dividir a minha vida em períodos alternados de penitência, gandaia e trabalho, mas como você certamente compreende isso não funcionaria muito bem num casamento convencional.” Senti o prazer da leitura…
De forma direta a escritora irlandesa reforça sentimentos que eu conheço.Somos todos tão iguais! Ou nos buscamos a cada nova leitura? Esqueci por um momento o bule de chá vermelho. Estou no escritório de Edna O’ Brien em Londres, escutando a conversa… Elizabeth M.B.Mattos 25 de setembro de 2012 – Porto Alegre
Segunda-feira
É preciso arear as panelas, limpar os armários, escovar, lavar as vidraças.
Cheiro de limpeza, o prazer.
E o mar segue por perto!
Mas eu não faço o que é preciso.
AMÓS OZ
De amor e trevas
“Uma vez, quando eu tinha sete ou oito anos de idade, minha mãe me disse que embora os livros possam mudar ao longo dos anos, assim como as pessoas, a diferença está em que, enquanto a pessoas sempre nos abandonam quando percebem que não podemos mais obter nenhum vantagem, prazer, interesse ou pelo menos um bom momento para nós, um livro nunca vai nos abandonar. Você com certeza vai abandoná-los, algumas vezes por muitos anos, ou até para sempre. Mas eles, os livros, mesmo traídos, nunca vão lhe dar as costas: vão continuar esperando por você silenciosa e humildemente nas suas prateleiras. Eles nos esperam até por dezenas de anos. Não se queixam. Até que numa noite, quando de repente você vier a precisar de um deles, mesmo que seja às três da madrugada, e mesmo que seja um livro que você tenha desprezado e quase apagado de seu coração por muitos e muitos anos, ele não vai decepcioná-lo —- descerá da prateleira e virá conviver com você num momento difícil. Não fará contas, não inventará desculpas e não se perguntará se vale a pena, se ele merece, se você merece, se você ainda tem algo a ver com ele, mas virá a você no momento em que você pedir. Jamais vai trair você.” (p.319-320)
Pode ser tudo imagem

DESORDEM do dia nos dias

Sol com vento
Desanimo que chega… A mesma e contínua batalha. Sobrevivência. Esforço. Não é particular porque estamos todos remando. Clichê. Com mais ânimo, menos. O exercício de correr atrás, do quê exatamente? Loucura do vazio, no vazio. Ou a solidão gostosa… Louca! Não sei. Tanto para ler. E o tempo? Não sei. Ainda é tempo, sempre é. Vontade de amar, quem? O quê? Por quê? Dia estranho! Elizabeth M. B. Mattos
Beleza é frágil
Sete Dias com Marlyn Monroe / ColinClark escreve sobre este tempo que passou com a atriz Monroe. Essencia da sedução, a fragilidade da beleza. Não se pode fugir, apenas seguir em frente… Envelhecer é uma experiência de beleza! O lugar certo, a hora certa. O peso, ou o preço da beleza! A sedução. O que amar?
O filme transita na experiência do enamorar, do apaixonar, da vida aberta… Nos apaixonamos sempre: esta consciência é importante: nos apaixonamos sempre… A beleza é passageira, ou eterna… E nos apaixonamos! Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2012 Porto Alegre
Insônia
Não nos damos conta do efêmero.
Vive-se como se fosse para sempre.
Acredito em estradas abertas… Caminho azul, amoras na calçada… e também devoro as pitangas desta terra de areia. Graúdas e vermelhas, azedas pitangas. Penso em laranjas, em bananas e no abacaxi. Tudo pode ser apenas uma ideia…
O cheiro da insônia! Anestesia… Equívoco… Lobo Antunes, autor português. Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? Ou ainda este outro O Meu Nome é Legião. Títulos magníficos! Arquipélago da Insônia.
A insônia persegue, acelera ansiedade, inquieta os batuques de noite… A insônia mata, torce tudo lá dentro, atropela. No dia seguinte, ainda alerta, areia nos olhos! Como será este arquipélago que conseguiu reunia estas ilhas todas insones?
O vento está tão forte que as buganvílias se esticam, as flores voam assustadas. Mas o sol veio, e está na casa. E ontem tanta chuva! Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2012 – Torres
O passado das amoras…
Uma ventania, um uivo. As árvores se dobram, a água da lagoa se agita crespa. Pelas frestas da janela entra o vento. A luz treme como se fosse apagar… Os aparelhos fora das tomadas, menos a geladeira. Sinto a ventania entrando no meu corpo, e fico inquieta. Como se a tempestade pudesse estar mais perto, e o vento levasse muito mais. Não vejo o mar. Pressinto. E queria estar no meio de um tempo diferente…
Volto aos dias mansos da fazenda: dias compridos, amigos, com cheiro de terra, feijão com arroz e sonhos. E dentro do vento o silêncio da felicidade mansa de estarmos todos no abrigo. Acendíamos o fogo no galpão, as velas iluminavam o banho aquecido nos tachos, e as conversas se misturavam com as risadas das crianças. O chão de terra batida… E o galpão de concreto armado. O dia seguinte era apenas o outro dia de afazeres, e café forte. Gostávamos de jogar cartas. Apostávamos o amor a cada partida. Dormíamos logo, acordávamos no vermelho do amanhecer. A cerca pequena dividindo a casa do campo. Os cinamomos, os eucaliptos, os açudes a serem feitos, as curvas de nível. O risco do pomar. A sesta. A rede. Os cavalos. Labuta com bombachas.
O vento que sopra aqui chega lavado em Miguel Pereira… Vocês duas vestem os casacos, e se enroscam nas mantas tricotadas de azul. Aquecem a sopa, conversam baixo, enquanto a televisão conversa com teu pai. A voz deste vento que grita assusta minhas meninas. Penso que ainda queria estar com todos juntos, na serra carioca. Não, quero o Rio Grande do Sul: a casa perto do açude. O marido. Penso nas ovelhas, cães e frutas maduras. Engraçado! As tranças do casamento se torcem! E todos nós estamos de mãos dadas neste tempo de ser feliz! Todos! Os namorados perdidos, os maridos, os filhos deles, os nossos. Estamos protegidos no sonho desta luz de lembrança… O vento que sopra forte, meu, teu, nosso congela os dias. Vou deitar logo porque nesta hora o sono me agarra traiçoeiro, e já está escuro. Apago as velas, acendo a lamparina e começo a contar aquela história de fazer vocês dormirem. A minha história na Fazenda Santa Branca. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2012
Amoras Azuis como uma brincadeira séria. Platon assimile ainsi la philosophie à une sorte de jeux sérieux ( par exemple jeu sérieux au livre III des Lois). Tu n’est pas seulement poète, tu es aussi philosophe de toi même. JMG
