Ainda Serena

“A minha sorte era que quase toda a prosa inglesa daquela época tomava a forma de um documentarismo social fácil. Não me impressionavam os escritores (eles se espalhavam entre a America do Sul e do Norte) que se infiltravam nas suas páginas como parte do elenco, determinados a lembrar ao coitado do leitor que todos os personagens e até eles mesmos eram puras invenções e que havia uma diferença entre a ficção e a vida. Ou, pelo contrário, insistindo que a vida era uma ficção. Só os escritores, eu achava, poderiam um dia chegar a correr o risco de confundir as duas coisas. Eu era uma empirista nata. Acreditava que os escritores eram pagos para fingir, e deveriam usar o mundo real onde coubesse, aquele que nós todos compartilhávamos, para dar plausibilidade ao que inventavam. Então nada de palavrório chique sobre os limites da arte, nada de demonstrar deslealdade para com o leitor ao parecer cruzar e recruzar sob algum disfarce as fronteiras do imaginário. Nos livros que eu gostava não havia lugar para agentes duplos. Naquele ano tentei e descartei os autores que os meus amigos sofisticados de Cambridge tinham insistido que eu devia ler – Borges e Barth, Pynchon e Cortázar e Gaddis. Nenhum inglês entre eles, eu notei, e nenhuma mulher de qualquer raça que fosse. Eu era mais como as pessoas da geração dos meus pais, que não só não gostavam do gosto e do cheiro de alho, mas desconfiavam de todos que o consumiam.” (p85)

Às cinco horas da tarde daquele sábado nós já éramos amantes.” (p212)

Ian AcEwan: Serena (um romance) Editora Companhia das Letras. Tradução de Caetano W.Galindo. São Paulo 2012.

 

 

Ventania

Amoreiras pequenas se vergam. Por que tantas frutíferas foram plantadas ao longo da lagoa? De repente a calçada inteira vai ficar violácea. Pequenas e grandes amoreiras esperam a natureza dizer… A água se aquieta porque logo vem a chuva. Elizabeth M.B. Mattos –  setembro 2012 Torres

Por tão pouco sucumbimos!

Eu me emocionei. Li o artigo em voz alta para a mãe: comentamos, e repetimos como a Luft: dá vontade de chorar pelo resto da vida… porque sentimos a lição de amor-amor. Por tão pouco sucumbimos! Pequenos atalhos da vida. Não vemos a árvore com frutos, mas lamentamos isto ou aquilo com o desconsolo de qualquer frustração, diante do primeiro galho quebrado.

VEJA (12 de setembro 2012) Lya Luft

Então apareceu seu artigo Meu pequeno búlgaro, que me atingiu, e a muitos, como um raio: ali estava um momento extremamente pessoal, uma revelação íntima escrita de maneira singular. Zero sentimentalismo, mas tudo de pungência. Sério, grave, fatal, sem autopiedade nem lamentação, apenas a estranheza diante do fato: o filhinho que por erro médico nasceu com paralisia cerebral. A perplexidade. O não entender. Como não entenderia o idioma búlgaro.

Tempos depois nos conhecemos pessoalmente  e lembro de ter comentado, talvez sem muito tato, o artigo, o choque que me havia causado, a admiração e afeto que tinha despertado em mim. Acho que naquele instante sem muitas palavras ficamos amigos, desse jeito de ser amigo de pessoas que quase nunca se encontram, mas sabem que pertencem a uma mesma raça, ainda que não as ligue nenhum fato comum. Mas de alguma forma, a gente “sabe” o outro.

Agora sai o livro de  Diogo Mainardi, A Queda, no qual ele fala das experiências de ter um filho “ diferente” e por outro lado tão igual, porque objeto de amor, fonte de alegria e preocupações como todo filho – este, especialmente por sua condição, é, antes de tudo, uma pessoa. Talvez esse seja o legado que Mainardi nos dá falando de Tito (depois dele nasceu outro menino, forte e saudável): ali não está em primeiro lugar um deficiente, um problema, um drama, está um menino. Um filho. Uma pessoa.

22/12 de setembro, 2012/ VEJA. Edição 2286 –ano 45- n.37. Ed ABRIL

Angústia azul

O motivo  da angústia, da tristeza súbita nem sempre é objetivo, transparente. Caminhos internos, pequenas decisões nos arremessam para um terreno pantanoso, dolorido. A chaga ferve. A experiência anterior de frustração, o pavor diante do erro se manifesta na paralisação. E queremos dormir. Aquietar o corpo, viajar na sonolência. Estamos no limiar…

Olhei para meu pai sentado na cadeira grande perto da lareira. As portas do alpendre escancaradas. Sob a mesa redonda, abertos os livros de consulta. Quieto, olhos semicerrados, pensativo. Não interrompo. Recuo. Subo as escadas para o quarto. Sentimentos de interdição. As decisões não me parecem objetivas, mas embaralhadas pelo pânico. Abro as duas janelas, e me jogo na cama vestida, eu também espero o tempo passar…

Duas amoreiras carregadas! As frutas estão verdes, algumas rosadas, outras vermelhas. Um matiz de primavera. Sinto frio. É o vento! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2012

 

 

Amoreira carregada

Frutinha selvagem solta pelo chão rosadas, quiçá verde. Devorada. Este sol de hoje deixa viçosa a buganvília. Cães apaziguados pela luz!  Lagoa reflete o azul deste céu. Vejo a Serra do Mar. Em casa com o pai, a mãe, conversa amiga. Serena de Ian McEwan: romance sobre leitura. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2012

Eu estava descobrindo que a experiência da leitura fica enviesada quando você conhece, ou está prestes a conhecer, o autor. Eu tinha entrado na mente de um estranho.” (p.135)