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Todos os dias não significa nada, todos os meses? faz dois anos? Dois anos que persigo o tempo, o ar, o vento, a mudança das estações? Não sei. Persigo. Danço para me veres. Ou troco os móveis de lugar, procuro outras ruas, outra cidade, outro país… Eu não gosto de mudar, gosto das raízes. Não importa. Eu mudo. Se amanhã fosse morar em Porto Alegre, ou no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife com Luiza, por que não iria? Iria. Mudei tanto quando era criança, um tempão aqui, outro ali, os amigos dali, depois os daqui… Uma chatice sem solução, nenhum brinquedo na caixa, tantas crianças, aquela comida mais ou menos, as frutas do lugar, os pinheiros, os cones, o inverno… Uma saudade esquisita. Os verões em casa. Em casa sempre estás… Eu acho, as lembranças se misturam com os sentimentos, fazemos uma tremenda confusão entre o real, e o desejo. Onde, em que caixa, eu te escondi, não sei. Meus bonecos eram de papel. Guardei dentro dos livros de Monteiro Lobato. Gostava de trocar as roupas, de imitar as vozes, de surpresas. Não sei se gostava daquelas histórias, lembro delas. Demorei tanto para apreender a ler, e escrevia garranchos, desenhava mais ou menos: rodinhas, quadradinhos, florzinhas, casinhas pequenas e grandes. Eu te desenhava chegando, mas nem sempre ficavas, suficientemente, nítido, suficientemente tu… Hoje queria te escrever uma carta, apertar tua vontade de escrever, mas não sei se lembras de mim, coisas sérias te cercam… Aqui, o brilho da lagoa. Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2023

feitiço do amor

Encanto da gentileza graciosa derramada de carinho certo: beijo, abraço. Eu posso, confio e sou feliz Paulo, obrigada.

Registro, às pressas, alegria. Corro dos lençóis para abraçar a festa! Festejo, festejo e danço. Tão feliz! Obrigada: carinho aconchegado / coração acelerado / borboletas no estômago… As palavras. Os sorrisos bobos, nós felizes. Obrigada meu amigo. Elizabeth M. B. Mattos -maio de 2023 – Torres

lembrança realimenta

Uma memória seletiva se pendura no imaginário, ou muitas estão encapitadas para florescer… Uma floração sezonal. E cada uma carrega diferente necessitade. Voraz, ou vertiginosa. Irremediavelmente, presos aos sustos e as alegrias das crianças que fomos. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023

muralha

Posso ficar sentada todo o dia: não respirar; continuar empilhando um pensamento no outro. A leitura sobre a China, Os cisnes Selvagens de Jung Chang volta. A descrição das mulheres: nada mudou embora hoje se sintam libertas (elas se sentem libertas?). Ilusão, nada mudou. Posso repetir o pensameto, o gesto, dizer que eu compreendi, tentei, mas, continuo sentada. Um dia depois do outro, outro. Reviradas feridas se avolumam… Não as minhas, mas as dos filhos, dos netos. Enormes e cinzentas elas se sentam no meu sofá. A percepção de vida. Magda deve ter razão quando se programa para ir e andar, e visitar, e olhar, e fotografar, e ir outra vez! Um baile.

Olho pela janela, a ilha desaparece com seus lobos marinhos espumada pelo mar escuro. O céu escuro de chuva e vento. Volto a olhar para as estantes. os livros. Os livros são como muralhas. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

não me perguntes com quem

a gente caminha por livros tão belos, intrigantes e poéticos! mas não me perguntes quais são, cada um tem seu motivo, sua âncora particular de beleza. E da culinária, não me perguntes com quem eu cozinhei, algumas coisas e fazeres se mexem misteriosos, como dançar… dancei muito e sempre, com pares e sozinha, eu danço, não me perguntes com quem…Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

intimidade

Quando a história espia, a vontade se sacode, os fatos se escondem. É um tal jogo de procura, procura, olha, corre, agarra e acerta. Nunca como deveria mesmo ser. E estamos todos entrelaçados pelas incertezas. E se tivesse feito assim, ou assado, cortado o dia. Sei lá. Não fizemos, somos do agora, do imediato e do arquitetado, tão artificial! Sigo a pensar que te quero, pelo hábito de pensar. Pela languidez do dia e estes aconteceres esquisitos. A novela política, a temperatura desarrumada, a loucura do piano da vizinha, o violão desafinado. Mortes certeiras, e a espera. Será que ficou tão atualidade a tal angústia apertada deste sentir. Por onde caminhamos? O que não estamos vendo? Até mesmo as roupas são apressadas, amassadas. Eu me digo / eu me conto histórias, mas não concluo coisa nenhuma. Ninguém lê coisa nenhuma, não posso escrever coisas e certezas e bonitezas arrancadas do cinzento… O sol se esconde no cinza, a pressa senta na praça, as árvores escorregam na sombra… Como posso descrever? Escrever ou pensar. Imagino. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2023 – no meio do dia um adormecer cuidado. Troquei os lençóis e fechei as janelas.

olhar e vontade

Poderia ter salsa, pimentão, mais cebola, ou o teu jeito de fazer. Lascas de todas as invencionices. Nossas vozes gritando no prato, porque esquecemos das / as boas maneiras… As saladas deram o colorido que gostas: amarelo e todos os verdes. Como tuas visitas são gostosas e coloridas! Teu fazer! Sinto saudade continuada de brindes, dos vinhos, dos pedaços de queijo e da nossa preguiça! Te amar me dá o colorido certo! Tintas misturadas: óleo das bisnagas, aquarela no papel. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

por dentro

Fazer no detalhe do cuidado. O antes. Trabalho minucioso da escolha, lento… Oculto na evidência do bom produto. Este passeio com cheiro de madeira, no misterioso reduto das madeiras, como eu gosto!

Sempre oculto o segredo, mesmo quando eu revelo, ou conto, explico, digo… vira sombra. Muda de lugar o aperto do amor. O cheiro do teu abraço sacode forte mesmo quando cuidas para ser leve e doce, ah! Teus braços! Em movimento eu sou outra. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

Estou no lugar que devo estar: caminho pelas certezas. Não vejo como gostaria, mas sinto o cheiro, escuto as vozes e acrescento… Viajar tansforma, altera. E voltar para dentro movimenta o sentimento. Viajar agita aquele vermelho, traz o verde. Misturado ao marrom do tronco. O amarelo se insinua iluminando, como gosto! As tintas!

Para o Pedro.

ouvir

Ouvir / escutar / entender / prestar atenção ao que o outro diz, sem julgar, sem açoitar nem questionar, apenas, ouvir. E, de alguma forma, acolher. Acolher o cansaço, a fome, abraçar os sonhos derramados, as lágrimas nos/aos soluços… Como é difícil ouvir, escutar e entender sem polêmica, sem palavreado – impulso, apenas escutar…

Será que atravesso os oitenta anos sem entender nada de amar? Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2023 – Torres