raiva cega : como se o ato de amar fosse vingança

a traição / a crueldade / o todo complicado passado que se esquece, às vezes, volta assim: raiva da inocência roubada, das expectativas, ah! as boas leituras! “ plena boca um desses beijos em que há sede e fome de infinito.”

Depois começou a andar pelo quarto. A olhar as coisas. Os livros. Os quadros. As revistas. O mármore impudico de uma ninfa. O bronze torturado de um atleta nú. E isto com a graça inocente, o cuidado sutil das pombas da piazza de São Marcos. Eu continuava afundado num daqueles compungidos silêncios do Meretíssimo depois de uns pataços.” (p.110) Aureliano de Figueiredo Pinto Memórias do Coronel Falcão

subterrâneo

No fundo do cérebro, a parte mais distante da vista, como um poço: coisas vivem na mesma escuridão, densa, não as distinguimos mais. Assim são os privilégios: foram dados, usados, facilitaram, e, de repente, alguém diz basta… no more / uaiiiii! Que gritedo! claro, conscientemente, vou lutar por eles, quero de volta. Não perdoamos quem nos arrancou, não esquecemos, esbravejamos. “Dizem alguns que nossas paixões mais violentas e a arte e a religião são os reflexos que vemos no sombrio buraco no fundo de nossa mente quando o mundo visível se torna momentaneamente obscurecido” (p.211)

GOSTO de pensar que estou montada nas costas do mundo. Estou prestes a compreender; terror, medo indefinido, – alguma coisa na qual vacilo em fincar um alfinete e rotulá-la com o nome de beleza. Alguma coisa que não consigo dizer por medo, sinto, mas não digo: venturas e desventuras. Não perdoar, se defender (lembro quando me despediram da Garagem de Arte, sumariamente, ah! Como esbofetear o amor, foi assim), e, neste momento, sem índole violenta, apenas aceitei o fogo… Os erros políticos, os acertos soam assim. Não quero ver o absurdo, mas quero de volta o velho amante traidor. De volta os atores a se balançarem e decidirem por mim. Nunca será tarde ” jogar pedras na Jenny” como cantou o Buarque. Mas, que desperdício de tempo! Elizabeth Menna Barreto Mattos – outubro de 2022 – Torres

Não pode ser visto por inteiro ou ser lido do começo ao fim. Os papéis, as cores, a música, a voz se vai. Caminham pela imaginação e são nuvens. “A verdadeira duração da vida de uma pessoa, não importa o que possa dizer o Dicionário da biografia internacional, é sempre uma questão controversa. Pois se trata de uma tarefa difícil, essa de cronometrar o tempo; […] p.200 Virgínia Woolf Orlando – Uma biografia

Nada parece mais fácil e equivocado como a certeza: palavras são redes, as fotos, montagens. A verdade, apenas as vantagens… Que chegue domingo: a pressão vai terminar, e vamos ter que voltar a trabalhar, a trabalhar e pensar tudo outra vez.

raiva grossa: chumbo pesado

ainda sou cruel e seca, pesada: nenhuma vontade de perdoar / e as facadas sangram em mim, não sangram nos outros porque detesto sangue, não apunhalo. percebo as leviandades / as crueldades equivocadas: as pessoas se permitem! e, tenho vontade de anvançar… a convicção não deve ser apenas emocional. acaba sendo. o outro vira diabo porque nos afetou, arrancou uma estabilidade, acertou numa regalia que me era de direito. não é, mas, acredito nisso ou naquilo, a estrutura por traz importa – com ataques e mordidas defendo o quintal, controlo a floração…, esta energia de guerra espicaça por dentro.

tenho raiva da impotência por ela, a raiva, ser assim, irreversível. tenho raiva porque o bolo não ficou com aquele gosto esperado, mas outro… tenho raiva por ter fugido e por não ter aguentado sobreviver ali, naquele quarto, com aquela sacada, naquele momento seguro. foi inseguro, e, invasivo, escorregadio, perturbante. avaliei. contraditória observação. tenho raiva porque me dou conta / tenho certeza que está no fim. não quero a doença, mas justo ela, a doença atiça a coragem, a tal generosidade, reaviva o sentimento, porque quero viver. ufa! tenho raiva do que não fiz, até dos sonhos que viraram pesadelo, das sobrecargas, descargas, do medo. danado do medo! vou chutar a porta, derramar água fervente na cabeça das pessoas, dizer nomes feios, os piores, e a verdade. vou olhar no olho do outro, e dizer a verdade…, mesmo que seja mentira, sem lógica, a minha verdade está no meu olho, na minha percepção, ele que revire / revide… palhaçada esta doçura carnavalesca / abençoada literatura, e, abençoados sejam os amigos de fé, não o sucesso alheio… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torrres

Miguel Torga

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer,
enquanto O nosso amor Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada
Miguel Torga

do outro lado, estás

E me perguntas, debruçado da tua vida guerreira, ativado pelo amor e
pela fé:”Como tu estás toureando os teus moinhos? Estás bem?”

Respondo, meu amigo: sinto que a vida te surpreende, e eu me alegro.
Inexplicavelmente debruçada, eu também, na tua vida… Devo estar ótima.
Tua carta devolveu…, não sei explicar ainda, vou com cautela, medrosa.
Devolveu um elo da corrente. E veio com ela, incríveis margaridas
frescas! Obrigada. Tua carta devolveu… Sempre me senti agraciada por
isso ou por aquilo, sempre foi preciso força forte para retomar o
acordar, e eu consegui empurrar um dia depois do outro, exatamente
neste ritmo. E sigo neste ritmo. Arrumo a casa, limpo, troco os
lençóis, seguidas vezes, caminho com a pretinha três vezes ao dia, e
luto pelos bons odores. Escuto piano, limpo os livros, luto com a
poeira. E o que te contar? Em desordem, em desordem as gavetas, o
armário, as estantes. Em desordem a vida e eu por dentro. Quase oitenta anos e sigo
sem mudar a criança, sem me empenhar, sigo estacionada, iludida. Como sugeres,
escuto um pouco mais da história do outro, um pouquinho. Não o
suficiente. Um egoismo latente de sobrevivência, eu acho. Penso e me
fortaleço quando leio o que escreves e quando tu me escreves: atravessas
o campo com a coragem que te é particular, o brilho natural E tua força! Mágico e perfeito. Dizes: “há lições de
reaprender e a escutar (não ouvir) por dentro, emocionar, perceber
como as pessoas são excepcionais e nunca termos dito a elas por não
termos nos dado conta.” E o que precisamos, de verdade? Deste olhar,
desta escuta, deste atravessar a prepotência de tudo saber, de
tudo ordenar…,apreender. És uma daquelas pessoas que eu gostaria de
ter tido mais perto. O JCKC me enternece sempre. Grande e poderoso,
generoso e atento, amoroso. Por ele meus melhores sentimentos.
Acompanho de perto / de muito perto, e, abraço, beijo, sempre que
possível. Teremos, ele e eu, outra vida para chamar de nossa / complementar, o primeiro pedaço foi intenso.Quem
sabe? Tua amiga R, consegue, na carta, descrever o sofrimento, ou
mais ainda a estupefação, com coragem, fé: outro mundo, sem espaço
para covardia, outra dimensão. E estas ‘transformações’ lhe trazem o
novo e a esperança, incrível! Não importam as vaidades, o estreitamento
e a presença da dor, ela acredita. Caminha noutra dimensão, domina o
sofrimento, esgrima com a possibilidade… Ler sua carta foi me ajudar a
redimensionar o raso do meu dia / ouvir, escutar e comparar. Tudo que
eu possa reclamar será ridículo e risível. Parabéns a ela! Um ser
humano em dimensões particulares. Contigo, meu amigo, aprendo a me
querer mais, estranho poder, eu abro os olhos: no começo do meu
processo lamento, lamento ter me deixado ficar em desânimo, lamento
não ter tido coragem para amar o L., por exemplo, mas eu me consolo
por sermos amigos. Quero mais vida, mais tempo, mais desdobramentos.
Mais fé. Já te contei que deveria ter entrado para o convento, mas
vês, rezo sempre, mas não estou mais envolvida com o ritual / poderei
ajudar e salvar e ser generosa? Teria sido uma boa freira? Passaram os
anos e não sei quem sou. Parece idiota isso. As pontes importam, as
referências, e, volto a te ver/enxergar com brilho, inteligencia e
força, o verdadeiro atleta guerrilheiro. Obrigada por teres me escrito. Eu te devia
uma carta / um cuidado, eu acho. Tenho tido muita dificuldade para
escrever. O importante ficou irrisório, e os meus assuntos
preferidos importam tão pouco! Estou aqui a conversar/pensar comigo
mesma. Os filhos preocupam e salvam, e me cercam como
escudeiros. Os netos, aventura. Planos de morar em Recife! Acertar detalhes,e o
medo. Sempre tenho medo.Talvez seja hora de tratar o
medo e viver a vida. (risos) Aos oitenta? Um ano e dois anos de vida vida deve
fazer a diferença. Esta dimensão de inteiro importa. Explode
completitude. Será? Enfim, meu querido, que estejas bem! Acolhido,
cercado, entre os teus. Pronto!Eu desejo. Claro,
não conseguiremos beber um café na rodoviária, e já não posso fazer
longas caminhadas. Preciso encontrar o caminho de ser eu e entender a
mim mesma antes de explodir: um vascular, um ginecologista, um
dentista, um cabeleireiro, um vestido novo, um sapato bonito, um
dermatologista. Uauuuu! Um caminhão de dinheiro! Irei a Porto Alegre
na outra semana. Tenho dificuldades de deixar a Ônix / somos
amigas, e atentas, nos /com seus já catorze anos caninos, não imaginas
como cuida da véia! Um beijo, dois beijos e melhor sorriso porque eu
te sinto. Beth Mattos (chove, chove, chove)

Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

sol / fronhas: vida a revirar

Colorido no branco descansado, ventoso outono! Descanso descansado na pausa: expectativa. Neste momento ensolarado, as chuvas estão quietas. Ah! Necessárias como o sol! Dia enfarruscado na tosse, garganta complicada, humor espicaçado: coisas da idade ventosa: de eu com eu! Travesseiros na janela, respiram… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

Eu me apresso para escrever, não esquecer, não largar, segurar a certeza de que venceremos! Beth Mattos

explode a beleza

sinalizo devagar porque, porque, porque sendo filha, e caçula…bem, o dizer desmerece, eu me encolho…ela reina: eu me enterneço. Beleza faz chorar -, vou dizer que pode ser saudade, quem sabe? EMB Mattos

Luiza M. Domingues – Recife – 2022

bobagens presentes

Pedi a uma jovem senhora que me enviasse um livro, acabava de lançar. Ingenuidade minha, nada profissional, o que fiz, uma talvez, provável, não, improvável amiga. Respondeu onde eu poderia encontrar o volume! Na Panvel e nas livrarias (claro!)! Já com um laço de fita natalino! Claro! Nunca li nem vi o livro, nem sei como de fato ela escreveu/ ou escreve. Passou. Deve ser poderosa, já três volumes.

    Marco fez toda a diferença na minha vida. Do desastre, das dores que eram imaturas e jovens! Ele me salvou do espicaçado daquele casamento: desastroso, mas a vida é mesmo cheia de sopresa, erro e acerto. O futuro, os filhos! Elas, as crianças, me ajudaram a sobreviver. Eu escolhi os filhos! E foi isto. Nunca consegui deixou de ser eles, do meu jeito. Sem pieguice. Agarrei a vida, e foi tão bom viver! Então, eu entendo o começo. Claro que G foi o mais importante, tivemos os meninos. Depois seguimos, cada um na sua calçada. E não conheci Roma, nem Veneza, nem Modena: não aprendi a falar italiano, nem espanhol. Cismada com o francês, e sem inglês. Teimosa em todas as escolhas. Nada com Porto Alegre, necessariamente carioca porque vivi ali o mais importa: meus filhos nasceram lá e estudei e trabalhei. A primeira etapa. Depois veio o Sul, o segundo casamento, consciente e a minha filhota gaúcha que virou pernambucana. Uma roda girando. E querendo ser eu, eu, eu como tinha sonhado ser, a escrever.

    A superfície permanece. Palavra incrível! A mania de profundidade: voltar para a superfície é objetivo. A casca conta a história da fruta, toda a maturação, e precisamos contar? Pois é. Fica-se a medir isso e aquilo, o trajeto, o feito é o agora. O espelho da casca, a ciência do antes, da preparação. É agora Ficamos com o invólucro. Certo quem se deu conta rápido: vestiu comeu amor e se fez depressa para estar no palco, agarrou as possibilidades todas e não fez mimi… Agarrou, agarrou. Não dá pra choramingar muito, do definitivo, o agora importa. Contar ou descrever os parceiros significa muito, as tais escolhas necessárias. Os filhos necessários. Os netos necessários, os preferidos escolhidos. Gosto de jasmim, gosto de margaridas, das hortênsias, e dos cravos e das frutas, dos morangos que a Joana comprou, das risadas da Valentina. Do tempo. Desenho as ausências do Pedro. E sobre esta pedra está o segredo fechado. Quero me curar logo e fazer mil coisas. Vontade de me mudar pro apartamento de Porto Alegre e começar a ser gaúcha. Que a filha pernambucana aprove. Minha mãe tinha uma história de pernambuco naquela pele transparente de tão branca e na bravura. Sem medo a minha mãe, corajosa até o final, foi um acidente, não foi morte. Ela conversa e explica…

    4. Horrível dor! Vontade de arrancar a garganta! Teimosa, escrevo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

    obra

    conserta aqui, refaz, recomeça, ajeita!

    desfaz.

    poeira, barulho, estrago por todo o lado.

    poeira

    deve ser conserto, hoje,

    com silêncio, os acordes!

    cansei de limpar: importa?

    Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

    espalhafatosas. generosas, as margaridas! é o rastro, o teu.

    não passa

    dore do corpo altera sentimento / esvazia cabeça, flutua a vida

    sos

    alhuém precisa gritar!

    sei bem o que dizes, apenas uma ventania resfriada, uma garganta travada.

    vai passar! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

    droga! não passa…