não te afastes de mim

Passa o dia comigo,

Não deixes que te desviem

Um poema emerge tão jovem tão amigo

Que nem sabes desde quando em ti vivia (p.318) Sophia de Mello Breyaer Andresen [coral e outros poemas]

Não te afastes, não me deixes, não fales, apenas sejas o meu querido. Faça chover, faça trovejar, faça cair jasmins do céu… Saberei, meu querido, que me ouves, e, poderei dormir, um dia, dois ou três. Acordarei para acariciar teu sorriso, olhar deu cheiro e mergulhar inteira nos teus braços, metaformofoseada em beleza, caberei nas tuas mãos e deitarei contigo. Não te afastes, não me deixes! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Torres

Todas as mágicas, de todas as fotos, esta é feitiço da ternura. Quero ficar, eu quero ficar, na caixa, no silêncio do passado, na pressa eu também fico, depois, um pouco mais no teu abraço, e, devagar, bem devagar, eu coloco o vestido de noiva e te visto na imaginação, e te faço rodopiar, faço rires e faço a luz acender a mágica… Tu és eu, eu sou tu, somos nós brincando em volta do tempo, em tempo….

panquecas

cada vez que vou para a cozinha, num ímpeto de gulodices ou de loucura! fazer as panquecas mágicas: na frigideira resolvo fazer o jantar / almoço / um picnique e beber vinho, às 16 horas, muito bom, bem na hora atravessada de um ardencia….sim, dormi um pouco e sonhei e sonhei. E nos beijamos com gosto de frutas, e de desejos, e logo fomos fazer a massa deleciosa, bateste com a pressa e recisão. Esquentei as frigideiras, preparei as bananas e por que não festejar? que dia mesmo é este?silencioso, respeitoso, calmo, encerra o ano, as brigas, os azedumes. Delícia! Estamos os dois com os aventais com açucar, canela e farinha. e a vontade espalhada pelas duas mesas… O sexo e o beijo e o gosto e as bananas nunca terão idade! Bom que atravessaste as doenças, os medos, e a vergonha e viesses correndo me ver: preciso. Sim, sem regas. Desobedecendo. Como se tívessemos cuzado a Independência com a Hilàrio Ribeiro e do nosso sorriso vieram as panquecas feitas na espaçosa cozinha do 802. Tudo nos pertence. Não é fantastico? O álccol é o lado picante…, as risadas, o empenho. A gulodice desejo. Feliz não tem receita. Nós somos, tu e eu, os aventureros da cozinha fora de hora. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Porto Alegre

desnecessário

Quando se chega aos sessenta e poucos anos ou um pouco mais e o tempo, porteira aberta não significa nada mais como acontece contigo, tem exlicação. KB, ninguém precisa de ti / teus espinhos se afiaram tanto e tanto que todos se afastaram… Somos uma rede de necessidades, quando vamos queimando etapas, vamos para a independência! Agora, estás tu contigo e tuas asperezas e teu azedume próprio. Aos que te cercam um certo respeito ao diabo que se agita por perto. Nem é triste nem é festivo: o fim da vida eu diria, o teu. Houve um céu iluminado e houve também generosidades alegres. De repente enveredaste para uma floresta escura e traiçoeira. Segue tu contigo. Chega de arrastar quem é iluminado. Eles, os que eram teus, se rasgaram a chorar, a doer, a sentir, mas terminou. Precisam sobreviver porque a estrada é larga e comprida, a tua se estreitou perigosa, escura. Vai sozinho e nos liberta! E quanto mais cedo e mais rápido fores, mais fácil será para os que ficam, mais leve, mais festivo, mais desenbaraçado e bom! Se tiveres consciência disto tudo, te apreesa! Vai logo! Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2022 – Torres (dia com sol e frio, tanto frio! o mundo virou de lado…acho que algumas pessoas devem sair do caminho, muitas vidas novas querem chegar, e com paz e alegria)

Conceição Evaristo

Quando a gente quer dizer, a gente diz. Depois esquece um pouco porque dizer tem sido tão caminho cruzado! Tanta bobagem sem rumo, como querer conversar, pensar junto. E todo mundo quer mesmo ter razão, aparar a palavra do outro para rebater, não acrescentar. Levo cada susto! Agora estou lendo coisas novas, que o neto me indicou, e isso me renova! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 / Torres

“Ponciá Vicêncio gostava de ficar perto da janela olhando o nada. Ás vezes se distraía tanto, que até esquecia da janta e quando via seu homem estava chegando do trabalho. Ela gastava todo o tempo com o pensar, com o recordar. Relembrava a vida passada, pensava no presente, mas não sonhava e nem inventava nada para o futuro. O amanhã de Ponciá era feito era feito de esquecimento. Em tempos outros, havia sonhado tanto! quanto mais nova, sonhara até um outro nome para si.” Canceição Evaristo Ponciá Vicêncio

brilhava de brilho

“Esse milagre de ler, essa magia tão rápida no meu cérebro, como se alguém movesse uma varinha à distância ou soletrasse palavras misteriosas, desenfeitiçaram-me.

A partir dessa tarde de sábado, embora a minha prisão física não se alterasse, e os muros continuassem altos à minha volta, em todos os lugares, apossei-me da ferramenta que escavaria a minha liberdade.

As frases podiam roubar-me a qualquer lugar, levar-me para dentro de mentes diversas, e esutar o que pensavam e não diziam; as mentes dos bons e dos maus e dos mais ou menos, que eram a maior parte; sentar-me em navios perdidos, pairar sobre vulcões e dormir em jardins de rosas e sombras suavemente lilases.” (p.83) Isabel Figueiredo Caderno de Memórias Coloniais Todavia editora – 2018

decepção

decepção passa / desânimo também passa / e vamos seguir estudando para ensinar algumas coisinhas, apreender outras, mas não desistir: brincar de poder pode, se famtasiar também, ter boncos de louça, borracha também pode. ventão e frio no verão também acontece. o tabuleiro é de todos!faz parte do jogo assistir o ramalhete de geniais soluções e ver as reações…Elizabeth M.B. Mattos – outubro, ainda, de 2022 – Torres

ISABELA FIGUEIREDO

“O prazer de ler um livro amortecia humilhações, e era muito maior do que o de brincar sozinha com os bichos ou imaginando guerras com as roseiras do jardim. Um livro trazia um mundo diferente dentro do qual eu podia entrar. Um livro era uma terra justa. Entre o mundo dos livros e a realidade ia uma colossal distância. Os livros podiam conter sordidez, malevolência, miséria extrema, mas, a um certo ponto, havia uma redenção qualquer. Alguém se revoltava, lutava, e morria, ou salvava-se. Os livros mostravam-me que na terra onde vivia não existia redenção alguma. Que aquele paraíso de interminável pôr-do-sol salmão e odor a caril e terra vermelha era um enorme campo de concentração de negros sem identidade, sem a propriedade do seu corpo, logo, sem existência. Nada nos meus livros, que recorde, estava escrito desta exata forma, mas foi o que li!” (p45-46) Isabela Figueiredo Caderno de Memórias Coloniais

Isabela Figueiredo nasceu em 1963 em Maputo, Moçambique, e mudou-se para Portugal em 1975. Professora e escritora, é uma das vozes mais poderosas da literatura portuguesa contemporânea.

formiguinhas

as formiguinhas começaram a trabalhar, a cigarra deve estar cantando. a chuvarada e a ventania não chegou, apenas acinzentou tudo. tem gosto de sol no ar, e o sono não se acomou bem esta noite, sinto o corpo a reclamar… hoje vou comer bolo com sorvete. Elizabeth M.B. Mattos – 2022 – Torres

28 de outubro de 2022

Terminei de ler ORLANDO Uma biografia de Virgínia Woolf extraordinário, incrível, como disse minha mãe Anita quando me deu o volume em francês. O inacreditável! Penso que O Lalo tem razão: a leitura tem o mistério da grande batalha, e incomunicação Usar um código comum, não é o suficiente), no entanto, ler os mesmos livros deve ser um pouco com entender japonês e chinês e se deliciar… Caverna iluminada por uma fresta, fresca, inviolável, mas conhecida. Escrever: uma pólvora a ser queimada, céus! É o prazer ao máximo: sexo, desejo, secreções, odores e uma certa violência libertadora. Isso existe? Sim, um caminho no meio da charneca, da floresta, de planícies e a finitude triste…Escrever / ler pode ser escrever às avessas. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres