Antoine de Saint-Exupèry

“Alicante le 1 janvier 1921

Il est deux heures du matin, Rinette. J’ ai débarqué cette après-midi de Toulouse après un voyage sans histoire. Quel temps adorable! Alicante est le point plus chaud de l’ Europe, le seuls où mourissente les dattes. Et moi aussi – presque – sous le ciel clair. Je me promène sans manteau, étonné de cette nuit des Milles et Une Nuits. des palmiers, des étoiles tièdes et d’ une mer si discrete qu’ on ne l’ entend pas, qu ‘ on ne la voit pas, qui évente à peine.

En sautant de l ‘ avion je me suis découvert très jeune. J ‘avais envie de m’ étendre dans l’ herbe et de bâiller de toutes mes forces ce qui est bien agréable et de m’ étirer ce qui l ‘est aussi. Mes rêves les plus indécis, ce soleil les favorisait les fasait éclore. J ‘avais mille raison d’ être heureux. Et les cochers de fiancres aussi. Les cireurs de souliers aussi qui les fignolaient, les caressaient et riaient quand c’est fini. Quel jour de l’ an plein de promesses. Quelle richesse de vivre aujourd ‘ hui.

J’ avais bien juré de ne plus écrire. Mais je viens de donner trois cigarettes à un mendiant parce qu’ il avait l’ air si heureux que j’ ai voulu faire durer ce visage. Je me sens plein de bonté et d’ indulgence. Alors je vous pardonne. Et puis… j’ ai téléphoné l ‘autre soir a Bertrand avec une telle hypocrisie que je ne voulais pas me l’ avouer. Et vous m’ avez apprivoisé et je suis devenu très humble. Au fond c’ este doux de se laisser apprivoise. Mais vous me coûterez d’ autres jours tristes et j’ ai bien tort.

Rinette ce n’ est pas méchant ce que je dis mais ces choses ont pour moi plus d’ importance que pour vous. Il n’ est pas juste que je paie d’ un peu de mal une simple flemme. C’est même gentil. Mais vous ne savez pas comprendre.

Bah. Pour le moment j’écoute un piano mécanique… C’est magnifique. Et toutes les espagnoles sont des héroÏnes d’ opéra. Il me semble. A cause du piano mécanique. Une d’elles pleure dans un coin, je voudrais bien savoir pourquoi car c’ est la seule d’ Aicante. Cinq ou six grosses poules la consolent en criant toute à la fois. Ça fait un chahut! Mais elle ne peux pas comprendre qu’elle est heureuse. Elle tient a son joli chagrin.

Rinette adieu. Je troverai peut-être vos lettres en rentrant. Je vais me promener encore dans l’ intimité des Espagnoles. Par ce temps si doux tout le monde possède un secret mais c’ est le même. Car on se regarde et l’on sourit. Et pour sourire il n’est pas nécessaire de savoir trois mots en espagnol, alors je parle…

J’ai mon papier à lettres sous le bras, si j’ai envie de vous écrire encore ce soir.

Et si je n’ écrit pas…

Antoine”

(p.119-120-121- 122) Antoine de Saint-Exupèry Lettres de Jeunesse (1923-1931) Gallimard 7 édition

desafio

A cada palavra tua eu sinto, eu escuto. Volto ao desejo de voltar altiva e confiante. Hoje /agora não sei se sou eu;

pode ser ideia/projeção: querer ser quem não sou. Sigo desajeitada / atrapalhada. Eu te quero por inteiro do jeito que eu sou, do jeito que és. Em sonhos seguras minha mão, estamos / vamos a subir. Do alto, vemos o mar. Tu me ajudas a voltar… Estremeço! duvido? não sei. Não queres a mim, queres o sonho. Tocas, remexes, reinventas o menino. Não sou eu / és tu a revirar o passado. Eu te quero tanto! Agora. Desafio. Voltar no tempo segurar o tempo: viver o tempo agarrar a menina para ser, afinal / assim, apenas ela, apenas eu, tua mulher. Beth M.B. Mattos junho de 2021 – Torres

adotar o silêncio

O homem / o ser humano tem duas almas e em tudo o que faz é instável /inseguro / assustado, embora feliz. Agarro as flores, bebo o vinho, e me envolvo contigo… Teu jeito curador, amigo, e amante. Adotar o silêncio – uma corda fica esticada – uma pessoa em cada ponta / em nenhum momento se pode soltar / largar a corda. Um exercício até a exaustão. Exercício do silêncio… Eu aguento porque te penso te penso te penso te penso, nem me importo com o espelho, apenas , eu te penso, e gosto de estar viva e te esperar, enquanto isso… eu te espero. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

“Como são curiosas as criaturas!”

“Baforadas de vento quente lhe sopravam no rosto a evaporação dos jardins ao longo dos quais caminhavam, um cheiro de terra molhada, um abafado perfume de flores ao sol, de cravos-da índia, de heliotrópicos. Jacques se conservou calado. [...] Não posso dizer que seja bonita. Ela é terrível. Não encontro outra palavra. – E, depois de uma pausa, exclamou: Como são curiosas as criaturas! […] Até mesmo aquelas que não interessam a ninguém. Você já notou que quando falamos de pessoas conhecidas a outros que também as conhecem, quanta coisa significativa, reveladora lhes escapou à observação? É por isso que as pessoas se compreendem tão mal entre si.” (p.294) Roger Martin du Gard Os Thibault

10 de junho de 1997

Resolvi corrigir alguma coisa como 34 anos e não 43 anos…Estranhas inversões. Passado este tempo todo a carta ficou mais, muito mais velha, 47 anos e não 74 anos. Já falamos das coisas todas: vontade de ver, medo de ver, prazer, tempo, do que não foi e do que talvez possa ser. Já disse que li e reli tua carta mil vezes. Já fiquei eufórica e quieta / pensativa. Faz exatamente uma semana que nos reencontramos com dia e hora marcados. Tantas emoções atravessaram / cruzaram que poderia ser um mês. Quando mergulhamos nas expectativas o tempo fica diferente / fica amanhã. Talvez possamos nos ver por outros minutos, não sei, outra meia hora, ou uma hora. Espero o teu telefonema para confirmar. Ontem ao falar contigo fiquei adolescendo. Assustada eu me perguntei: como? por quê? Estou com medo de superar as barreiras: vou ser objetiva / clara / pontual: tenho medo, medo enorme de me apaixonar / amar na hora errada o homem errado. Não sei como pude aceitar tão naturalmente a tua volta e abrir os braços numa certeza de que estamos juntos e abraçados: nosso estado natural de gozo e prazer. Estou atrapalhada. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

Se foi tão bom te beijar continuar a beijar pode ser melhor e ou pior; preciso parar de te pensar.

combinação de necessidades

A vida é rica combinação de necessidades, desejos, aspirações, ambições, ideais, paixões, amor e entusiasmo que surgem em várias medidas e diferentes versões naturalmente dentro de nós. A vida é uma explosão de significados. Alguns projetam o significado da vida fora de si mesmos e ficam desapontados ao perceber que havia algo ilusório em esperar que o significado viesse de fora. O propósito da vida é abordar com uma canção qualquer coisa que encontramos pela frente.” CarloRovelli, na entrevista, cita o livro de Gabriel Garcia Marquez Amor em Tempos do Cólera (adorei ler este livro), e explica: “Livro com graça e luz que retrata as muitas formas de amar e partilhar com um olhar que sorrir diante de toda essa complexidade. Uma forma de amor é a lealdade da personagem Firmino Daza ao marido. Outra é a intimidade e a amizade de Florentino Ariza com dezena de mulheres. Mas este amor absoluto entre ele (Ariza) e ela (Daza) é uma bela forma de amor que foi venerado e valorizado por décadas até que conseguiu florescer de forma maravilhosa quando os dois já estavam mais velhos.

inexplicável

O tempo corre em velocidades diferentes para pessoas diferentes.”

A noite invertida se esconde. Inexplicável hábito: não estar no lugar certo/ no hoje. Fugir do tempo num tipo certo de jogo… Tabuleiro de xadrez, mas não sei jogar! Desnecessário! Desnecessário. Os culpados (se é que existem) de sermos do jeito que somos, nós mesmos. Perdidos a andar/caminhar/ procurar no escuro, tateando. Acomodados (ou desacomodados) com estranhamento. Também com irreverentes fantasmas. Neurose do fácil e certo conhecido. Ser quem sou neste personagem inventado não resolve desajuste, não funciona. Nunca serão resolvidos complicados sentimentos. Pelo/através do mais confortável… Inexplicável apaixonar – se. Estou apaixonada. E neste estado desafiador do encantamento, estremeço. Encantamento estarrecedor das palavras, às cegas. Beth Mattos – maio de 2021 – Torres

Viajar ao passado é difícil, mas viajar para o futuro é muito fácil. Faça o que fizer você está viajando para o futuro. O amanhã é o futuro hoje.” Carlo Rovelli

intimidade imaginária

Lugares e situações. Fugas. Penso que ser difícil sair do canto e caminhar, caminhar. Surgir, aparecer, voltar. O canto parece ser o lugar dos lugares, o perfeito. Para sair é preciso enfrentar quem somos, e o esforço para redesenhar reinventar um EU pode ser batalha dura. Que o desejo de amar empurre a vontade! Num prazo de afeto, carinho e paciência explodirá uma nova pessoa. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

Mas não apagamos tão facilmente as situações de lugar. Acreditamos que em toda a retirada da alma existem figuras de refúgio. O mais sórdido dos refúgios, o canto. Recolher – se no seu canto é, sem dúvida, uma expressão pobre. […] quanto mais simples é a imagem, maiores são os sonhos. […]assegura o primeiro valor de ser: imobilidade. Ele é a certeza loca, o local próximo da minha imobilidade. O canto é uma espécie de meia-caixa, metade parede, metade porta. […] A consciência do ser em paz no seu canto propaga, ousamos dizer, uma imobilidade. A imobilidade irradia – se. Um aposento imaginário se constrói em torno de nosso corpo que se acredita bem escondido quando nos refugiamos num canto. As sombras logo são paredes, um móvel é uma barreira, uma tapeçaria é um teto. Mas todas essas imagens imaginam demais. É necessário delinear o espaço da imobilidade fazendo dele o espaço do ser. Um poeta escreve este pequeno verso: Sou o espaço onde estou (Noël Arnaud)” p.109) Gaston Bachelar A poética do Espaço

Fotos desenham, elas também, o esforço de ir adiante, vencer o obstáculo. Sair do canto para saber a vida. Chegar…

o passado de hoje

Criar / recriar/ desenhar o passado, voltar no tempo, tem qquer coisa de terapêutico, e dolorido. Alguma coisa a consertar, ajustar. E nem sempre a resposta, ou a ordem prevalece, ainda o vazio. Depois eu me pergunto, existe mesmo este passado do jeito que revisitamos? Somos assim mesmo, desconfiados… qdo eu “volto” tenho a impressão que nunca captei a viagem/passagem, esta coisa de um dia depois do outro.

Acordava cedo para assistir a missa, um ritual meu. Não éramos obrigadas. Os anos de internato definiram a vida: um mundo organizado, bonito, ritualístico e seguro. Algumas internas choravam saudosas de casa, e nunca se ajustaram. Eu não senti saudade de casa. Ou (pensando bem) senti sempre e tão intensamente que esta saudade ativada desde sempre me deixou no passado, e não existia nenhum outro para voltar. Um passado que não vivi, nem conheci, mas desejei… Escrever sobre a rua Vitor Hugo. Colégios e calçadas, aventura continuada… Minha grande viagem pelo exterior foram estes 4 anos no Internato. Beth Mattos – maio de 2021 – Torres

alguma coisa fora do lugar

Cabelos escorridos. Lavanda espalhada pelas camas. Uma ordem bem a gosto da desordem habitual. No espelho aquele olhar aflito, inquietude. Tempo virado, eles dois perdidos, ou seriam eles três? Foi no final daquele ano, definiram a resiliência, não se embalariam em/por conversas acidentais. E agora esta desordem no remexido idílio. As leituras não aplacam, nem o gosto de outono invernoso. O cinzento tão do meu agrado! As decisões rompidas. E já faz tanto tempo que o dia se fechava produtivo, altivo. O jardim remexido por inventivas colorações vingava. Céus! Como acertar a pontuação, aquietar os ânimos e alcançar o que eu chamaria de produtivo, estamos perdidos nestes beijos demorados, molhados e ininterruptos. Os olhos parecem arder. As roupas me apertam. Emagrecer. As pernas doem, mais exercícios. As mãos precisam de cremes poderosos, os pés apertados no sapato desconfortável. Onde se esconde o meu senso de responsabilidade, ordem e precisão?

Desceu do pavilhão dos quartos arrastando os passos. Os ônibus das externas e semi-internas não estavam no pátio. As Madres se movimentavam ventilando as salas. Hoje a professora de francês daria suas sonolentas e cansadas aulas. Será que eu trouxe o livro de Gide com aquela carinhosa dedicatória da Lúcia! E a encadernação tão bonita! Detalhes do afeto. Acho que estes toques de mágica afinidade me fazem falta. O caderno azul do diário. A lua esteve tão bonita ontem a noite! Demorei para conciliar o sono. Tenho uma pesada preguiça, estou com olheiras. E os lápis de cor para a aula de desenho!? Sem vontade de conversar atraso um pouco o passo. O burburinho das vozes já subia devagar, estavam todas elas com seus aventais impecáveis, o meu tem sempre uma mancha de tinta no bolso.

Lembranças misturadas, afetos comprimidos no espaço de lembrar: sentido amor, vontade de respirar. Foi assim que aquela menina entrou na sala, curiosa, linda e gentil sem gostar de ser gentil. Rebelde. Experiência carinhosa, o sempre. Extraordinário viver. Aquelas trocas engraçadas de escola, do Grupo Escolar ao Colégio Santa Inês na Avenida Protásio Alves; poderia ter sido para sempre, importantes colegas, como a Maria do Carmo com quem a dividia merenda, a dela sempre era a mais gostosa. Vestígios de cuidado e carinho. Num lapso, lá me fui para o Nossa Senhora das Graças choramingando o internato que não recebia meninas de Porto Alegre. Eu consegui e foi conquistar independência organizada. Não é esquisito isso! Queria tanto!

Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2021 – Torres