sem lutar, exaustão

Exaustão. Apatia. Ou consigo reagir? Quando a loucura se solta, não adianta! Desânimo. O jogo enlouquece! Soldados dignos, ou indignos! Homens invadem o roteiro do sol, vou virar o tabuleiro: nada de reformar, de ir ou voltar. Perfeito: céu e inferno. Casa, comida, posições sólidas! Trabalho, empresas,  quanto sucesso! Cegos! Está bom, tão bom! O frio já foi embora,  posso tirar o casaco, tomar sol e mate, refresco, praia e um samba tocando gostoso.

Ma ra vi lhooo sa!

Nordeste e turismo e sol…, lá vou eu a voar! Brincadeira infantil e boba esta de votar, decidir com sim ou não, destacar o vermelho, o azul ou o roxo, não fazer nada, nada, muito melhor… Para que trabalhar? Estranho verbo! Será que este doce ócio de palavrado resolve?!? Comer bananas. República das bananas! Empurro com a barriga. Voo de lá pra cá! E nem precisa televisionar (obsoleto), escrever jornal (risos), noticiar, para quem? E por quê?

Lagartear e deixar rolar. Decidir o já decidido? Obstruir. Não fazer. Tá tão bom! ‘Com que roupa eu vou ao samba que você me convidou?’ 

Vestido bom e bonito. Novo! Quero roupas novas. Tecido importado, costureiras habilidosas, bordado. Sapatos altos. Luvas. Malhas quentes e coloridas,  nada sintético. Ah! Maquiagem. Não esquecer o rouge. E pedir chá, café e champanhe, água mineral. Ah! (risos) Não esquece o feijão com arroz. (sorrisos) E virar o tabuleiro. Queima / termina/ dá risada com este brinquedo Imobiliário, danado jogo! Em agosto vamos ver o que acontece no planeta. Não estou achando/vendo  brincadeira na manobra divertida. Agora só balões, colher flores, olhar estrelas e bocejar. Fogueira dos livros! Santa ignorância! E vou pro mato! Globalizar! Elizabeth M.B. Mattos- 2019 –

 

 

…,obstruir? Não: se não rejeitar o otimismo — ao menos substituir o mantra leibniziano de Pangloss, “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”, por um preceito enigmático: “devemos cultivar nosso jardim.”E tudo será perfeito. Já era maravilhosamente bem feito… Que cegos! Que ingênuos! Este é mesmo o melhor dos mundos possíveis! Voltaire

Explodir, implodir, destruir, destituir, liquidar, negar, enterrar, salvar os oprimidos e deixar chafurdar, brotar, continuar. Tirar o ar dos peixes, sacudir os ombros, glorificar a idiotice. “Deixa que falem deixa que digam…deixa isso pra lá, vem pra cá“. Oprimidos a desaparecer, acinzentar. Passeata e canto e idiotice e loucura. Olhos fechados e olhos abertos. Chuva e sol. Trabalhar por quê? Para quem, sem motivo, trancar tudo. Trancar pauta, janela, porta, estrangular.Sair correndo ou viajar. Elizabeth M.B.Mattos – Torres – 2019 –  peixes morrem na lagos, e o gramado está bem bonito, verdinho. Que venha chuva de dois dias, ou de três. E que o vizinho acorde. As escadas fiquem limpas, automóveis nas garagens. Céu azul,  um filme, dois filmes, três. Recesso. Pausa. Férias. Lanche, Corredor, salas cheias?! Saídas… Voos que ficam ou que vão. ESTRATÉGIAS misteriosas. Dos bruxos e das fadas! MAGIA branca e negra! Tudo vai dar certo.Um dia. Quatro dias. Vamos nos encontrar na Lua ou em Marte? Bom DIA! Boa Tarde! Calçada limpa, orgulho estufado. E vamos lá! Podar / limpar/ abrir… Vamos obstruir!Elizabeth M. B. Mattos Torres 2019

na esquina da rua da Praia, Andradas, eu te conto a história esquecida

Desde cedo quero/preciso escrever. Penso no dia, no inverno. Na tua vaidade. Na narrativa. Depois, na roupa a ser lavada, na poeira, no passeio necessário. E em outro livro de Simenon! Nunca releio, e agora esta coceira com os psicológicos do criador do Comissário Maigret. Releio. Na contra capa:

São obras em que ele se volta para problemas de solidão, da incomunicabilidade, do medo, da opressão e alienação que caracterizam a época em que vivemos. Quando André Gide, um dos ‘maiores a literatura francesa’ tomou conhecimento desses romances, não se conteve e declarou: ‘ Se Balzac tivesse nascido no século XX e na Bélgica, certamente se chamaria Georges Simenon.'” 

A revisar volumes. Apressada, doida leitura, maluca. Intercalada com o Guimarães Rosa. Atrapalhada com o Kafka em Cartas a Milena (correspondência, missivas, incompreensões, este tema me persegue). Nunca livros policiais. Acabarei sendo/ será, serei, apenas leitora?  Desde ontem fixada no feijão preto, no bom caldo. Desde cedo  construo narrativa sigilosa,  tua história. Aperto a tecla da vaidade, da obsessão, e do equívoco. Penso: homem alto, cheio de voltas, de escolhas curiosas, e conquistador elaborado. Quase corriqueiro este conquistar, conquistar. O professor. Eloquente. História comprida, às vezes arrastada / infindável, e enfiada em ponderação interna, psicológica filosófica, ou não. Apenas narrativa. Espanto se chama sigilo. Palavra voa, corre, ou se espicaça. Não se vive atrás de biombos, nem de aparas: somos a platéia mesmo instalados no palco… Eu me pergunto se te salvas, ou se te entendes em espraiados  amores dito fiéis e comprometidos. Ironizo. Explicar ironia não é possível, deixa de ser ironia. Céus! Eu explico.

SIMENONNNNNNN

Sempre a beleza: enfeitiça, corrompe e cria equívocos.

Quando converso / menciono citações, evidências mapeadas por mim, ou por um livro. Por que te surpreendes. Eu me salvo na releitura a sublinhar o que não digo pessoalmente. Assim, permaneço agarrada neste e naquele autor, nesta ou naquela lembrança. Lembras da conversa apressada pela rua? Eu voltava a Torres, e tu ias comprares o livro-presente para filha aniversariante. A história / ou a estória que não escrevemos, sequer sentimos, tão longe de um, e de outro era do que se chama comunhão / entendimento. Narrativas diferentes. Monólogos.

George Simenon

Damos excessiva importância à beleza. Quase sempre é ela quem decide nossa escolha. Mas quanto tempo dura? E quantos anos nos sobram para viver depois?” (p. 95) Ainda existem aveleiras -, F. Perret-Latour diz:  O que Simenon nos apresenta neste romance, com força e originalidade extremas, é o comportamento de uma humanidade tal qual ela é, sem dúvida tal qual será cada vez mais, num mundo de simples apetites e de apetites simples. Isso, porém, ocorreria fatalmente, se já não existissem aveleiras, árvores que F. Perret-Latour (personagem principal do romance) redescobre durante um breve passeio ao campo…

[…] A velhice é o espaço que nos separa tenuemente da morte: mas dispomos da escolha, durante breves minutos, entre nos imobilizar pouco a pouco para lhe dar lugar em nossa vida, ou ainda ao contrário, ainda confiar em alguma coisa verde…” Robert Kanters

Citações presentes ou indicações para leitura em tua vasta e magnífica biblioteca: de nada valeria. Os fantasmas te acolherão. Os meus me levam ao passado. E o beijo que eu te dei (confesso), espontâneo, volta. O que eu lembro? Não ganhei / nem recebi um beijo, apenas, deixei cair um beijo. Incomunicabilidade. Não importa a beleza da juventude, nem a da velha senhora, nem a espontaneidade com que recebi tuas inúmeras cartas explicativas. Tua exposição, minhas confissões. O encontro importa mesmo na singeleza de uma troca de olhar. Se maquiavélicos ou mirabolantes, secretos encontros foram planejados!? Não participei. Tu ficaste a imaginar e querias materializar. Que susto levei quando tu te apresentaste como se ele fosse nosso… E como eu poderia saber que a viagem não era visual, mas intencional. Eu sou uma caixa de surpresas e cheia de voltas como o rio Camaquã (risos), acertei?

Franz  Kafka:

Não, não irei a Viena, exteriormente porque somente seria possível mediante uma mentira, teria que mandar dizer que estou enfermo […]  o telegrama; obrigado, obrigado; retiro todas minhas censuras, embora tampouco fossem censuras, apenas era uma carícia com o dorso da mão, porque já há muito tempo desejo o que não tem. Há um instante veio visitar – me outra vez o poeta-gravador (embora especialmente seja músico), vem a cada instante, hoje trouxe – me duas gravações em madeira (Trotski e uma Anunciação; como vês, seu mundo não é nada reduzido; para sentir – me mais próximo de suas obras estabeleci precipitadamente uma relação entre tu e elas, disse – lhe que mandaria uma a uma amiga em Viena […] (p.99) Cartas a Milena

Não, não irei / não fui / não correspondi ao encontro do teu obstinado encontro conclusivo, e da tua mágoa silenciosa. Nunca senti o homem, (aquele beijo derramado, que eu dei, contou para a mulher a verdade, eras uma ideia, não uma pessoa). Nunca esclarecemos este episódio rapsódia desastrado. A materialidade da história se perdeu. Nada objetiva, nublada. Não vejo o motivo para mágoas, ou, sei lá, qual absurda vaidade masculina te persegue. Depois veio/ se fez a farsa de conversa virtal: eu era eu, e tu imaginação colorida escondida. Consciente tua brincadeira. Ao te relevares (muito tempo depois), e  dizeres,  como defesa, que eu sabia que eras tu… Levei eu o susto, como tinhas certezas desconhecidas! Hipótese estranha para quem não se esconde, ao contrário se fragiliza e desenha e depois me proíbe de publicar…  Esqueceste das inúmeras vezes, caminhando ao teu lado pela calçada da rua Andradas, em que mencionei meu fantasma  que se escondia atrás de um pseudônimo, e nada revelaste, apenas falsas pistas: bom se tivesses sorrido, e dito, sou eu.. Acreditei em ti (o amigo que não eras), e nas mirabolantes hipóteses. Mentias, nesta ocasião, sem nenhuma preocupação com fidelidade. Ser fiel é mais, muito mais do que meia dúzia de palavras…

Michel Krüger:

Desde a chegada de sua carta, venho, contrariamente ao meu hábito e também a um melhor juízo, examinando minha relação com o mundo à minha volta. Até agora eu trabalhei ou vagabundeei, escrevi livros, respondi cartas, ouvi e proferi palestras. Tudo tinha um nome, o qual me bastava repetir para me fazer entender. E, com certeza, os outros me entendiam. A união peculiar de entusiasmo e revolta selvagem com relação ao curso das coisas parecia funcionar. Provavelmente, beneficiei – me do fato de a vida cotidiana cada vez mais complexa ter resultado num empobrecimento interior que beira a imbecilidade, e sobre o qual minhas histórias de aventura exerciam algum fascínio.” (p.127) A ÚLTIMA PÁGINA

Ele escreve o que não consigo te dizer, sou de natureza covarde. Seria uma frontalidade te apequenar, retirar a tua empáfia e creditar na vaidade dos teus equívocos lisonjeada. No entanto, eu me salvo quando escrevo. Mesmo se a história parece incompleta ao leitor: sou uma blogueira, não artista como te asseveras ser. Este, naturalmente, preenche todas as lacunas ao ler. Sigo com Krüger para te confessar, e talvez isso te importe:

” Não é o medo da morte que nos faz pensar na imortalidade, mas  é o desejo ser ser imortal que atiça em nós o medo da morte – dizia Leo com frequência, citando um filósofo austríaco. A consciência da morte, da mortalidade, está no princípio do ato de narrar. Esse era um dos comentários que ele fazia, quando eu não sabia mais o que fazer. Agora eu não sabia mais o que fazer.”

O livro vale cada palavra:  A Última Página

Contar uma história tem este drama que o escritor vive, colocar o ponto final. Deixar de amar o amar, o amor ele mesmo. De chorar a lágrima, de caminhar em direção da verdade. Resvalo nesta incoerência de ser quem não sou… Tu és quem não és. Estranho! Ou acreditar que outro vai ceder a sedução apenas por ceder. Tocar apenas por tocar. Ser quem não é apenas num minuto de tentação, e voltar… Não é assim a vida. O triste, o definitivo, pode ser apenas apenas chafurdar na vaga ideia vaidosa entre escolhas esdrúxulas, incompletas. Lutar para ser. A elegância não está na roupa, mas na forma de levar/vestir/ portar esta ou qualquer roupa. Palavras da estilista Coco Chanel /Gabrielle Bonheur Chanel se a memória não me escapa.

Beth Matos: Houve / tive uma história de amor – lembras? Eu mencionei / contei. E inúmeras vezes eu te pedi / disse / expliquei: apenas, não morras, tens que prometer.  Agora eu me dou conta que não existias, tarde. É verdade. Não existes na ficção, nem na vida real. A morte já estava selada: não adiantou pedir nem suplicar. Tu já estavas morto, ou melhor, não existias. Tinhas um nome fictício. Eras uma máscara, o personagem. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2019 – Torres

 

 

 

não dizemos, eles dizem

É preciso dizer, não se consegue parar de amar, como a  flecha em voo não retorna ao arco. Nem sempre é certeira / nem justa / nem… O amor não tem jeito, nem acomodação, existe ou não existe; o ficar com / ficar junto, já é bem lá outra história, outro acerto, pode ser. Não trocar a cadeira, ninguém levanta…, deixar ser como é. Possível. Complicação ou acerto. Beth Mattos

“Suponho que eu tivesse algum dia amado minha mulher, já não a amava, e pronto. Outro fato. Está claro, não? Então, o golpe, se golpe houvesse, seria aparado. Porque enfim a dor, quando se ama, vem de não ser mais amado e, depois de saber que aquela que se ama ama outro.” (p.159) George Simenon in CARTA A MEU JUIZ

Esquisita ignorância, vaidade e prepotência ao se tratar / se pensar / se imaginar do que seria se já foi, – uma leveza! uma risada! um brinquedo! um não saber nada de nada. Como se a mágoa apertada de uma expectativa fosse o fel, fosse ferro, fosse. Dor absoluta:  não apenas o encontro, também o desencontro. Vergonhoso medo de ser baile, com dança, com hora hora marcada para terminar. Claro! Sempre tem o voltar para casa.  Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019 – Torres

céu e inferno

…, oscilo entre os dois, ora no céu, ora no inferno e uma semana inteira no limbo do sonho, mergulho em mim mesma. Sem espelho, sem vontade, mas ainda posso sorrir, o entusiasmo: Ônix  comanda o dia: água, comida, passeio e ao fim, recolhe sapatos, deita em cima, não fala porque é cachorro, olha fixo, e decide por mim… Por ela.

Dia de azul, caminho. Sol amigo neste inverno forte que visita o frio. Conversa longa / larga e detalhada. Sem obstrução, ainda. Não resisto, devolvo a colheradas e leio Guimarães Rosa. Da aula ao desejo. Retenho, fico debruçada… Sou eu, Beth Mattos.

Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo.” (p.92)

Com certeza, quero céu depois do inferno. Acolhida, beleza para sempre. Generosidade aberta. Cheiro de bolo ou maças ao forno, risada franca e conversas sem ter fim. Sou eu. E Guimarães Rosa, o nosso grande, segue  incrível! No limbo, sou eu quem resvala no vão da escada. E no gramado com rosetas, pés descalços, eu me aventuro.

” De mim, conto. Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos que a gente acorda devagar. O Amor? Pássaro que põe ovos de ferro. Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites, sem poder sono. Diadorim era aquela estreita pessoa – não dava de transparecer o que cismava profundo, nem o que presumia […] Voltei para os frios da razão. Agora, destino da gente, o senhor veja […] (p.93)

João Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas  ‘ O diabo na rua, no meio do redemoinho…’

 De mim posso contar tudo que queiram saber. Contar/rasgar e ou deixar nas linhas do escrito. Se o amigo reconhece a palavra e fica azul, azulando ou encabula desdiga. Negue. Sou eu. Sou sempre eu que exponho o sonho. Tu vens se tu quiseres, depois estes anos entre o céu e o inferno passam depressa, saímos do limbo, ou nos enfiamos no primeiro sonho. Com pastéis, suco de laranja feito na hora, ou camarões ou peixe assado. Temos o rio Mampituba. Não venhas dizer que é tarde… Bebemos cerveja então, gelada. E pronto! Brindamos! O inverno logo passa. Vem! Vem dar um abraço e festejar! Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019 – Torres, a mais bela praia do Rio Grande do Sul

ANA MARIA minha filha

Ana Maria clicada Moog neste julho de 2019

 

Ônix na beira da Lagoa do Violão, trabalho na catalogação das cartas de Iberê Camargo

 

do vento

Quando o Vento passa, o capim se encrespa como um lago e o trigal ondula como o mar. É a dança do Vento. Não ouves o Vento contar histórias? sua voz é um canto, tem vários sons. Ouvido entre as árvores da floresta, tem um som; através dos buracos, das fendas, das rachaduras das paredes, tem outro. Vês lá do alto, o Vento tangendo as nuvens como se fossem um rebanho de ovelhas? Ouves como aqui embaixo o Vento uiva através do portão aberto, como se fosse a sentinela tocando a sua corneta? Com estranho gemido entra pela chaminé. Erguem – se as labaredas, o fogo crepita, voam fagulhas, o clarão das chamas ilumina todo o aposento. Como é bom e agradável deixar – se ficar ali no aconchego da sala aquecida, e ouvir embevecido, o Vento lá fora, a assobiar, a uivar… Ele conhece mais lendas e histórias do que todos nós juntos. A voz dele é um canto e um gemido. Deixo – o entrar.” (p.437)Hans Christian Andersen (1805-1875) Quando o vento passa

 

 

estranho, virtual, paralelo

Enveredamos por caminho estranho, virtual, paralelo. E não estamos, nem tu, nem eu a pensar que a vida, a vida acontece noutra dimensão, sem ficção, sem poesia, eu diria até mesmo, sem música. Branco e preto. Tem odores, convicções, e na verdade, nem cartas existem, nem envelopes, nem tinta, nem o correio funciona, poucos telegramas, nem urgência. Tudo acontece na mesma hora, a comida pode chegar pelo telefone. E os livros aparecem inteiros e virtuais nos tabletes. Tudo é o agora. Já abro os olhos corro para fazer isso ou aquilo, café, aspirar, levar o cachorro para passear, lavar a louça, recolher a roupa do varal, colocar as toalhas na máquina de lavar, estas pequenas atividades que são chamadas de domésticas. Ou pensar neste ou naquele filho, perguntar pelos netos, ser ouvidos, dar respostas, perguntar, resolver o que vou comer na hora do almoço. E vivo sozinha. Consegui ser eu comigo mesma. Claro que antes tinha os filhos. Luiza tinha sete anos quando chegamos em Torres, já está com 32 anos. Nesta ocasião a velha estava na Alemanha, Pedro já voltara a morar no Rio de Janeiro, apenas a Joana comigo, em casa. Todos foram viver suas vidas. Um dia me dei conta que estava pela primeira vez na vida absolutamente sozinha. E já estava a envelhecer. Enfim, o curso normal / natural da vida. Enamoramentos não tinham lugar. Chegado o inverno de envelhecer também o razoável tempo de amorar, fazer amoras azuis. Enfim, acionei o equilíbrio e o lógica razoável de ser apenas uma avó como tantas outras, ou melhora, diferente porque amorando

Aos 70 anos começo o percurso para chegar aos 80, ou 90 anos. Então, terei vivido muito e bastante.

Estou me sentindo adolescente nesta investida que no meu imaginário inclui beijos e abraços, olhares, mão na mão. Quando lamento a morte de G. não é apenas ele, mas a minha ilusão de uma história que mais se diria estória porque fantástica, colorida. Onde um beijo, um carinho, o tato poderia voltar a significar. Um para o outro, eu. E depois lá estás a mencionar afinidades eletivas, e eu me desviei.  Eu me sinto esquisita, estranha porque insisto que preciso te olhar, sentir ou não ver o amigo, o outro, mas o homem. Neste sentido fico pensando que não é preciso marcar um encontro, passar pela espera, acertar um passo. Poderíamos guardar a marca do século XIX quando as missivas tinham a importância justa.  Seis aviões, em acrobacias, interrompem minha carta. Adoro aviões! Adoro a vida. E agora estou apaixonada por nós dois, é isso que eu gostaria de te dizer? Elizabeth M.B. Mattos –  abril de 2017 -Torres

Se for necessário, possível, estarei lá

Se for necessário, possível, estarei lá.

BELEZA

Depois de disputas e desencontros com a beleza retomo a louca vontade avassaladora de ser bela, linda, enquadrada no prazer de um olhar, na suavidade ligeira e tocante do desejo. Como resgatar? Como desfazer o equívoco? Ou como foi não receber dádiva? A beleza tem um tempo efêmero de consciência, depois esfacela-se na mesmice de caminhos sempre abertos, facilidades comuns, desperdício de qualidades, de dons. Tantos foram não, quantos misteriosos sim, resultado? Timidez. Equação comum da beleza, facilidades… Desvio. Súbito uma foto, um olhar, o escárnio, a ausência. O peso desta dor-difícil. Desaparece o brilho. Retoma coragem. O feio se arrasta como grilhão, prisão, e grandiosa libertação. E agora como compartilhar esta feiura ofegante, construída? A negativa. Tantos não conhecem a facilidade desta beleza doada.

A fome, o desejo, a futilidade, um desprezo do fácil chega como apelo. E a nominada beleza se transforma em falta. Surge como falta essencial ao abre-te sésamo da conquista. O feio se estratifica numa foto, num meio sorriso tímido, na careta transtornada da emoção. E o nublado da tristeza se afigura passado, fim, término. O enterro atropelado, às pressas, de sentimentos outrora fáceis, fluídos. A velada e contida tristeza está no peso daquele gesto que parece folha outonal, amarelada, dourada, perfeita, mas sem conotação do avizinhado inverno. O feio, o desforme, o deslocado, o tropeço ensaiado de não poder ser, fazer, ou estar se estratifica congelado no que será um sempre. O feio é o limite, o último passo pesado do ponto. Por que não podemos suportar o desfazer da beleza como troca, despojamento frágil? Aceitar o feio graduar como mais ou menos. A beleza se apresenta triunfante. O pequeno ser feio, ou o grande despojado irregular, disforme se fecha na inteireza do solitário. Um estranho paralelo. Este é bonito, este é feio. Este começa aquele segue. Este triunfa, aquele outro se afunda. E a beleza se apaga. Perde a luz, o brilho. As certezas se obscurecem nesta caverna invernosa. Toda a fragilidade se apresenta como certeza certa, terminou. A beleza na sua essencial vitalidade se constrange, se reconhece superficial, mas assim mesma essencial. A beleza seria o suporte de um tempo de permanência e facilidade…  Conto de fadas que eterniza o E foram felizes para sempre. Não existe um para sempre no vagar deste olhar em direção ao belo, alimento agregador? Terei carregado a beleza como peso, obstáculo? Em que curva esquisita do caminho significou dificuldade? Ou foi apenas um capricho do meu julgamento? Desfigurar o belo é pecado contra a vida. Um pedido de perdão! Ser belo, segurar/agarrar a beleza, encerrar o prazer desta fluidez é sinônimo de eterno, de para sempre. Assim mesmo percebo o perigo de forjá-la porque é voluntariosa. Tem o seu próprio caminho, e não se desfigura, ou desaparece. E também não está mais lá, não é mais a mesma curva, nem o mesmo ritmo, ficou esquisito, estranho, feio, outro caminho, sem perceber a essência desta beleza pousada. Nova perspectiva. A beleza vem de dentro, como reflexo, simples assim. Aquela tela, este mar, aquele caminho, a pedra, o livro, a mesa, uma Pantoche, a palavra, o lápis, a rosa, o vermelho tanto como o amarelo estão ali, belos. O que estou a procurar? A sombra nesta foto não é da beleza, mas a tomada de um momento.

As rosas chegaram…

No cartão mar, grama molhada, passarinhada…

E agora borboletas!

A loucura tem vida própria. O café cheiro bom. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019 – Torres e bastante, muito frio azul.