entre Berlim e Portugal

Magda, amiga desaparecida entre Berlim e Portugal. Envolvida na leitura de um livro conversa com Amós Oz lembro de ti com tanta força! Resolvi escrever. Tantos autores me apresentaste! Lembro quando me sugeriste A caixa preta porque Amós escolheu a forma epistolar para narrar: “várias primeiras pessoas revelam-se por si mesmas, em secos telegramas, bilhetes mal escritos ou longas cartas ”. Súbito volto no tempo. Amizade de longos anos misturam amigas loiras e morenas. Estes dias lembrei da Lucila. Eu me perco em lacunas: Ana Maria na Itália, Nádia e Lucila (tão jovem!), mortas. Maria Paula longe, Márcia, Olívia, Mabel, Maria Virgínia no desencontro, tu voltaste / ficaste / seguiste na mágica das nossas mães amigas. Hoje alguém mencionou os Veríssimo. Volto à rua Vitor Hugo, Petrópolis, tropeço nas brincadeiras de menina a empurrar carrinhos cheios de bonecas, e a caminhar pelos muros. Ou debruçadas na mesa de Ping Pong querendo ganhar todas as partidas. No carteado, no Banco Imobiliário! Jogar era nosso forte, fosse individual ou duplas. A comer bananas fritas com muito açúcar, uma lata inteira de patê com pepinos, atormentando a vó Angelina na cozinha. Reuniões dançantes promovidas pelo nosso Clube Dançante Bandeirante com baião, brigadeiros (negrinhos) e cachorro-quente e o bom som administrado pelo Sérgio Bordini, sabia instalar amplificadores. Tudo nos divertiu nesta infância livre e acarinhada juventude. Também a piscina do Petrópolis Tênis Club. As bicicletas. Brincamos, corremos e dançamos, jogamos. Tu te formaste em arquitetura, já tinhas um desenho firme, a mão certa para fazer nossas bonecas de papel. Ah! Elas vestiam brocados e roupas provocantes, e os príncipes e reis estavam na nossa corte. Inventamos a correspondência / missivas da realeza: estas cartas se perderam Lady Magda. Os álbuns de figurinhas também. E fui para o internato, e tanto se extraviou como documento, não esquecemos, juntas a relembrar, ainda damos boas risadas, fazemos os filhos se divertirem. E nos reencontramos. A literatura nos aproxima. Fizeste a Oficina do Assis Brasil, tiveste correspondentes misteriosos e seguimos a nos escrever. Tantos autores me indicaste! Amós Óz foi um deles, justo pela minha paixão por missivas. Eram tantas portas! E logo me fui cariocar. Tu para São Paulo, depois Berlim, ou estou misturando as histórias? Crescemos. Hoje pensei muito, muito mesmo, nestas meninas, na minha afilhada (tua caçula), no reencontro e no silêncio. Escuta o que Amós Oz diz neste livro Do que é feita a maçã  (conversa com Sira Hadad): “Quando escrevi Meu Michel eu tinha 24 ou 25 anos. O livro inteiro é contado do ponto de vista de uma mulher, em primeira pessoa, pois na época eu estava certo de que já sabia tudo sobre mulheres. Hoje eu não ousaria. ” (p.115) Não ousaríamos, não  ousamos mais! E eu fico a lamentar atrás do teclado. Por quê? Livro publicado em 2018. Sua morte, uma lástima. Deixa uma obra significativa. Como Philip Roth, também herdei das tuas indicações. Não consegui te fazer ler Haruki Murakami nem o meu sueco Karl Ove Knausgard, ou reler O Túnel de Ernesto Sábato juntas, e todas as suas conversas. Nem consegui que escalasses A Montanha Mágica. Tenho lista de teus autores portugueses preferidos! Já não temos tempo físico no dia para todos os livros, reler Orgulho e Preconceito ou Jane Eyre, ou O morro dos ventos uivantes (este reli num mágico encantamento) das Brönte. Ou Minha Vida de Isadora Duncan. Vais dizer que estou nostálgica! Estou mesmo, não vais acreditar que este junho torrense te levaria para praia, certamente. Então! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

 

P.S. Eu não consegui te convencer a ler Meu nome é vermelho, O livro negro ou Neve para citar Orhan Pamuk, nem te aventurar a conhecer o inglês Nick Bantok e sua trilogia. Sou reticente a emprestar livros.

TIMTIM

Indisposição! Um resfriado fora do lugar. Cansada. Palavra complicada, reduz! Obstrução-, estou perdida com estas votações, este ir e não ir das Reformas, a dificuldade de sair do erro/ ou é acerto este passo formiga? Arrastado desenvolvimento. Talvez o quintal tenha mesmo que ficar desarrumado, meio selvagem, meio caminho! Esta coisa civilizada higiênica e ordenada não serve. Tempos obscuros, lodosos e vociferantes. Céus! Caminhar pode ser tão difícil! Contaminada inteligência política. Estou doente. Falta ar …  Ou será apenas ilusão? Fazer ou jogar tudo para o ar? Que exploda! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

Gosto das revistas/livros em quadrinho. Texto e imagem:

hibiscos

A beleza é o olhar do outro… Esta transparência torna Lucila linda, inconfundível nos seus olhos azuis. Observo do banco da praça seu passo apressado, desenrolo a história. Ainda é cedo, bem cedo, assim mesmo o cabelo está arrumado num coque elaborado. Os sapatos tem um pequeno salto elegante e a saia se movimenta redonda. Deve passar todos os dias pela lagoa em direção ao centro da cidade. Hoje ela se deixa surpreender pelo hibisco. Olha, não fotografa como eu fiz ontem… Demora o olhar, dá dois passos, e  meia volta. Então colhe a flor. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 –

 

infatigável generosidade

Interminável, sem ponto final a leitura (qualquer leitura, qualquer resposta ou pergunta), interminável! Escavar esburacar arrancar, complicado! Difícil escrever. Esforço grande! Tropeço no tempo, no esvaziamento, ou me desespero nas vozes. No dentista. Comprando frutas, voltando da farmácia, escolhendo camisetas, procurando o algodão nas camisolas, recolhendo as roupas espalhadas, passando o café no velho coador. Um esforço. Não escrevo. Complicadas escolhas! Vontade de ficar na rede da  sacada sentindo o mar lá longe!… lagartear ao sol, ou plantar margaridas, cortar  sonhos e  aquietar o mundo. Tanta turbulência! E volto ao beijo ao abraço ao sussurro, ao olhar do amado… Converso na conversa com Amós Oz e Shira Hadad, Do que é feita a maçã? Do que é feito o amor ou o sexo, ou o desejo. Tu me inquietas. Atrás das leituras a tua voz e o teu silêncio. Será que tinhas uma maldição para me presentear? Hoje eu me pergunto inquieta, por que não perguntei na hora, no momento certo? Por que não volto para o Flávio tão comportado dentro daqueles olhos azuis! Por que me atravessei nos teus castanhos escorregadios e indecisos?

“Na sua opinião, qual é a qualidade mais encantadora, mais atraente, tanto no homem quanto na mulher? Pergunta Shira, e Amós responde: Para mim, a qualidade mais encantadora, mais atraente, tanto no homem como na mulher, é a generosidade. Não importa o quanto erramos neste aspecto quando éramos jovens. Hoje eu sei que não existe parceira mais atraente do que uma mulher generosa, e me parece que tampouco existe parceiro mais atraente do que um homem generoso. Não tenho em meu tesouro de presentes um presente mais bonito a oferecer à minha parceira do que generosidade, curiosidade e imaginação erótica insaciável, e não há presentes mais bonitos que possam me dar do que curiosidade insaciável, uma generosidade afluente e uma rica imaginação.” (p.78)

E eu me demoro a pensar. (És assustado? Ou generoso? Ou tens preguiça do/no tempo?) Aliás, eu te confesso. Sou lenta. Sou lenta para todas as coisas que eu sinto, talvez sejas igual. Quanto mais rápido cozinho, ou limpo a casa, lavo as crianças, visto e levo para passear, ou para a escola, mais lenta sou para tudo o mais… Para conversar então! Eu me arrasto em divagações. Preciso que me segures pelos pés, ou pelas mãos, senão eu saio voando a me perder, bom que sou lenta… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

Estranhezas desta  vida, passar roupa em mesa redonda. Impossível! Ainda não consegui fazer o bolo. O tempo vai sempre apressado na minha frente, eu me arrasto. Sinto dor na perna, e me preocupo com os cabelos: por que temos mesmo que envelhecer? Bom! A resposta é óbvia, para estar/ficar viva!

citação amóz.jpg

Dostoiévski no texto reduz um pouco a alma, Amós Óz não… recorte importante.

uma tonelada

 

Memória lembrança desenho ou sentimento se enrola no sonho comprido e abraça a carência, carência de uma vida inteira, de uma fantasia, da maternidade vazia daquela menina inteligente.

Existe crueldade no excesso, ou foi falta? Ciúme ou competição, não sei exatamente como descrever. Este veneno escorrega e poluí / contamina.  Cada conversa  / encontro / olhar pesa uma tonelada… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019- Torres

aprendi mais uma coisa

Aprendi enquanto te espero. “Aprendi mais uma coisa – não caia da cadeira -, aprendi que tamanho é, sim, documento. O tamanho da imaginação erótica. O tamanho da empatia. Esta foi uma das coisas mais maravilhosas que me aconteceram na vida, essa descoberta, no que se refere a tamanho, ao tamanho da minha capacidade erótica, da capacidade de inventar, a capacidade de se renovar […] A teia é na verdade uma parte do corpo da aranha, ela a cria tirando – a de dentro dela. Isso também costuma ser verdade, mas nem sempre.  Eu acho que a diferença entre a sexualidade animal e a humana é a história. A sexualidade animal, até onde eu  sei, não é acompanhada de história. A sexualidade humana está ligada a um história, mesmo se ela não for contada antes da transa. A história se passa na nossa cabeça. Ainda antes de tocarmos um no outro, nos passa pela cabeça uma história. Por isso a idade da história é a idade da sexualidade humana. Muito antes de terem inventado o alfabeto, muito antes de haver no mundo romance e memórias e prosa e poesia e novela e conto.” (p.72-73)Amós Oz – Do que é feita a maçã

Apreendi que te espero. Preparo cada detalhe da imaginação, desejo. O cuidado explode alegre para a festa que faremos com música, flores e estrelas e amanhecer. Estou muito muito muito muito feliz de falar contigo, de estares paciente ao alcance da minha voz. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

“Amar-se é fundamental para poder, sem afoiteza, trilhar os caminhos da vida, as magias o passado/presente/ futuro – são estimulantes e mágicos.” Z.M. 2018

curiosidade

Por que não tenho tua memória dentro da minha memória? Escavo / procuro pedaços para acertar / acender o tempo! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019

Agora? Neste momento, também eu quero saber de ti, mas tão tarde! Perco cabelos, a pele mudou: tudo se transforma: mutação. Até os olhos envelhecem… Estranhos círculos!

lucila era o nome dela

Lembrei. As peças se encaixaram… Ano? 1963 ou 1964…Um dos dois, quase certeza. Era ela. Estava na minha casa naquele verão. Loira, claro! Lembrei de tudo. Preciso falar contigo… Elizabeth M.Mattos – junho de 2019

Te dás conta? Um ano, quase dois para colocar a peça. Sigo esperando.

Fernando X Elizabeth

Fernando José Valente De Senna Júnior Elizabeth Menna Barreto Mattos !!! Mulher de letras, de certezas, de dúvidas, mulher de fluídos e sentimentos fortes. Memorialista de grande densidade emocional. Caçadora e Caça. Intrépida e Insegura. Misteriosa e Franca. Luz e Treva. Céu e Noite. Sol e Estrelas… muitas estrelas. Ah… Mulher… Quantos rótulos poderia eu lhe prever e ainda assim seriam todos desnecessários porque o vinho que tu és está com a garrafa aberta a respirar o doce aroma do tanino de tuas veias. Não… não se é possível lhe rotular. Nem um vinhedo, nem uma adega seria capaz de lhe conter. Mas sobre uma mesa da vida… ali, perto da lareira de tuas paixões a crepitar és assim. Inrotulável. E, no entanto. Menina descalça na areia da praia a sentir o minuano a chegar.

Lá estava eu a me pensar um rótulo e Fernando me sai com este texto – poema. Fiquei feliz/ envergonhada / faceira e mil coisas ao mesmo tempo! Grata porque foi escrito assim… Abraçada! Nada melhor do que este abraço lisonjeiro. Eu e meus Fernandos!