enxurrada de amor

PITANGAS AMORAS AMEIXAS: pomar da lagoa.

Jasmim em tufos. Alameda de camélias. Abertas rosas gordas a desfolhar. Vejo pitangueiras floridas. Amoreiras modestas, atrasadas, e apenas uma ameixa amarela. Araçás verdes, sem fruto. Cheiro de mar … e uma esperança desesperançada de viver para sempre. Irei sob protestos agarrada amorosamente neste galho de vida, e …cheia de pensamento engraçado. A morte virá, eu sei. Penso na vida. O corpo descreve/conta/explica curiosas histórias. Floresta campina, e sonhos … Desencontro. Bafo quente do último olhar. Alguém virá me chamar, dizer meu nome, e dar a mão. Outra vida se estica e o sorriso alegre acolhe. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2018, já em Torres.

Se tivesse / se fosse / se o tempo voltasse! Uma luz / chance / outra volta / não sei. Queria poder enxugar tuas lágrimas e te cuidar!

de te pensar

Porque acordo e sinto dor no corpo,

porque acordo, e não tenho corpo.

Porque acordo, e sei que dormes.

Enfim, afinal, o que posso mudar?

Reconheço o balanço do tempo

 

Já tanto envelheço, – estupefação,

e agora / hoje desperto a te esperar.

Vem! Chega perto, e toca meu corpo, – eu respiro.

Deita ao meu lado,

e respira respira…  Eu respiro.

A juventude volta, fechamos, nós dois, os olhos

e já amanhã… Somos nós dois, lado a lado. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

 

caminhante solitário

Depois da mensagem: “caminhante solitário”

Alvoroço agitado dos pardais. O sol entra esparramado pelas vidraças. Cães ruidosos. Preciso fazer, mas estou nas memórias. E voltas. Escuto a voz rouca. Imagino que precisamos ficar mais velhos para então, olhar nos olhos um do outro, e falar, falar. De todos os que foram, os que ficaram… E destas incertezas evidentes. O chá gelado, uma torrada sem geleia, as empadinhas de siri vendidas na praia. Mate gelado na praia de Ipanema, Leblon. Nunca estivemos no Rio de Janeiro. O bom da lembrança é que dançamos, inúmeras vezes dançamos. Embora eu sempre me escondesse no imponderável, nunca nos teus braços. Certeza do não ver / pensar ou explicar. Estarei encabulada retraída, desconectada, escondida quando chegares. Sonolenta. Indefinida forma de ser gente. Como um novelo de lã que não se abre, mas enrosca, aperta e comprime. Não consigo tecer. Impossível olhar zombeteiro de uma lembrança audaciosa e preguiçosa. Vontade de te tocar. Já é tarde. Eu sei… Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

óbvio

Pensei, reli, repassei até onde foi possível reler. Pensei: estou sem escudo, desarmada. Repassei o teu alerta da exposição, do óbvio. Enfim! Daquele nada que a fragilidade produz, e deste pedido/grito de socorro ingênuo e evidente. Um amado, homem certo para me entregar, e não sei como fazer. Deu vontade de chorar. Tens razão, tudo o que precisamos é calma e de…, pois é, não veio a palavra. Três pontinhos: não existes. Não tenho tudo o que preciso, nem poderia ter. Existem crateras internas. Não adianta…, esta proteção (falsa), e esta fragilidade (real) estarão dentro de mim. Tantas quantos forem as manhãs de amor saciado. Não terei manhãs sedutoras, eu moro bem longe do perigo, estou numa ilha afastada. Difícil acesso.

Espero atada / amarrada por mim mesma a cadeira, perto da janela, então eu posso te ver. E me dou conta que não existes, não chegaste.  Não posso te querer, nem ousar nem sentir medo, nem olhar, nem nada, nem não querer. Vês. Eu me arrebento antes, antes… Antes de poder compreender.

Depois entendi o motivo de escreveres. Ficaria furiosa frustrada (talvez) se o sonho desaparecesse de repente. Se o mito desparecesse e surgisse um nada no lugar, um amontoado de palavras. Talvez eu quisesse te ver para te dizer / e ou mostrar o quanto envelheci exausta, e que foi sempre ilusão. Chorar um pouco o que falta chorar, se é que ainda sei…, pois é. Não sei. Depois de tanta juventude, desencontro sem voz nem gesto, um agora tão íntimo digital. Obrigada não quer dizer nada, o que eu gostaria de sentir seria um abraço. Um estremecimento. Não tenho certeza se sei dar um abraço. Ou pensei penso talvez não importe mais. Precisava te dizer, já que não vamos mesmo nos encontrar nem na rodoviária, nem em casa, nem tomar um café, nem na calçada, em lugar nenhum. Parece tão tarde! Mas se tu me pedisses, eu iria até o meio do caminho, eu iria a qualquer lugar para te olhar, mesmo que não pudesse falar, nem te tocar. 21/06/2019 05:54 e também te estremecer (sorrindo) se pudesse.

P.S.  “Não queres parceiros viáveis -, queres manhãs sedutoras – cheias de perigo”.

Retiraste do meu vocabulário o exausta e o cansada. Fiz a correção. Eu te pergunto: O que faço agora insone e…  E assim, sem rumo? Pois é, antes eu estava exausta e cansada, mas numa quietude confortável a inventar desencontros. E agora? Volta. Atende ao telefone.

P.S.

Não tenho intenção de ser irônica. É isso mesmo que quero dizer. A frase quer dizer isso mesmo que já disse. Estou/sou velha, e não vou me apaixonar. Não tenho mais tempo para dizer o que não quero dizer. Ou fazer o que, absolutamente, não quero fazer.

O certo é um limão cortado ao meio, gelo, água. Vou beber água com mais limão. E entender o silêncio. Vou pegar o ônibus da meia noite. Mais silencio. E não vou emagrecer. É tarde. Não vou me apaixonar, e você sabe o motivo. Vou chorar um pouco. E tu não virás ao meu encontro.  Assim mesmo eu te espero: vício de te amar. Elizabeth M.B.Mattos – junho de 2019 – Torres

com os olhos

S’il y a mille et une façon de faire l’ amour – et je le crois – il en est une exceptionnelle, et qui n’ est pas à dédaigner. Se existe mil  jeitos de se fazer amor – e eu acredito – existe um excepcional, e que não se pode desdenhar. La chose peut se faire devant trente personnes et cela ne dure que dix secondes – et cela se fait avec les yeux. E se pode fazer na frente / diante de trinta pessoas e dura apenas dez segundos –  e fazemos isso com os olhos. (p.82) in ELLES ET TOI

volto

Não posso segurar o tempo, nem voltar aos dezessete anos, nem te encontrar…, eu me surpreendo! Apaixonada. Pequenas loucuras, as minhas. As tuas grandes e intensas e apaixonadas loucuras! Desespero a te procurar na memória. E te escrevo grandes, enormes, imensos e loucos bilhetes. Eu te procuro dentro das fotos, não és tu. Em lugar nenhum estás! Desapareces … não consigo segurar o tempo. Volto ao jogo! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019

energia de infinito

Já que não vou até o mar, queria que o mar viesse até onde estou… Salgasse e perfumasse o meu corpo com energia de infinito! Eu teria o gosto do amor! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – verão fora do lugar e alegria transbordando…

 

Torres – fotos de Ana Moog

o sonho me acordou…

Eduardo / Edu: meio da noite: 15/06/2019 03:18 – sonho – ou pesadelo me acordou. Vamos ver se consigo te contar do ciúme, ou da displicência indiferente deste encontro. Aparentemente casual, mas significativo porque eu, afinal, tinha ido ao teu encontro. Estavas / era uma nave espacial estacionada na terra, tombada num terreno. Poderia ser abandonada porque uma terra sem árvores imensa, enorme, mas com vizinhos. Outras naves, não sei. Tudo tão enorme! Contigo, mais dois pesquisadores, amigos, companheiros de trabalho, de vida, não sei. Vocês falavam inglês e eu não compreendo, apenas me mortifico na minha ignorância absoluta. Mal enjambrada, cabelos muito compridos presos num coque mal feito, esfiapado, eu parecia estar à vontade, descalça inspecionando tudo, mas com certo ar ausente. Seria arrogância? Indiferença? Descaso mesmo, desprendimento? Um sentimento armadura que me é particular. Devo ter saído por alguns minutos. Inspecionar era a intenção / vontade, embora não falasse, apenas observava, absorvia o ambiente ordenado de vocês, e, de certo modo, já me sentia nas estrelas, as tuas estrelas / universo espacial ou perto de marte, pousada na lua, ou na própria NASA. Molhada: caiu uma pancada de chuva grossa durante minha inspeção no quintal daquele céu… Entrei / voltei eufórica e caminhei ao teu encontro. Um dos teus amigos / camarada / colega disse: Cuidado! E me pegou pelo braço. Eu me espantei, levantei os olhos e vi mais alguém, ou uma intimidade proibida a ser resguardada, um olhar indiscreto, o meu. Fui me sentar bem no outro canto constrangido, impotente. Comecei a encolher. Vejo uma moça bonita, lenço amarrado no pescoço, lábios bem vermelhos, cabelo curto, olhar sereno, bem vestida e conversando contigo num inglês bem à vontade. Envolvida e alegre. Fiquei transparente, ela não me olhou / notou. Meu jeans rasgado (destes que aparentam última moda, mas, frouxo, e a camiseta preta masculina, na verdade bem velhos) ficou ainda mais rasgado. Segui te cercando com os olhos. Pela primeira vez senti o homem desejável. Poderia ser companheiro, e senti bastante ciúmes. Não eras meu, nunca serias, mãos vazias. Pela primeira vez eu me vi / senti seduzida e rejeitada. Quis /desejei ser um polvo gigante para te levar ao fundo do mar. Teu olhar entrou afiado e me atravessou sem nenhuma gentileza. Foi rápido. A chuva parou de chover, e o espaço diminuiu. Numa cortesia fria /gelada estendeste o casaco e pegaste a sacola jogada, desastradamente, em cima de tua mesa. Sem fala enfiei os braços naquele mecânico abraço, e parei. Nas pontas dos pés estiquei meu corpo e te beijei. Beijo demorado investigativo, curioso e longo. Estavas entregue, por um segundo de minuto, o que posso saber? Imóvel. Fui eu que caminhei na tua boca. E teu cheiro chegou nas minhas narinas. Estranho e poderoso beijo. Não me abraçaste. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2019 – Torres

P.S. Talvez a ausência de tuas chamadas telefônicas me materializou em sonho. E a verdade esteja dentro das nossas cabeças. A tua neste céu estrelado. Na terra promissora. Nos avanços. A minha consumida por uma realidade pequena e assustada. A obra necessária e tumultuada de um banheiro me levou para a guerra. O dia se fecha num cotidiano comezinho e pequeno, o meu restrito universo me deixa neste poço escuro. Encontro particular este. Tu com outra mulher, e teus amigos estupefatos. O lugar era limpo ordenado, deves seguir trabalhando no livro legado que escreves, não em espanhol, em inglês, é claro.