Educar – identidade

Educar - identidade

Educar é silencioso, paciente e gentil. Vertiginosamente as pessoas se multiplicam, e nem sempre com gentileza. Equívocos de valores nos surpreendem. A educação se constrói paciente com o exemplo, a curiosidade, na fala. Ensinando o olhar. Apoiando os gestos! Dela fazem parte exposições, idas ao teatro, consertos, conversa. Livros. E bons programas de televisão. Os hábitos de alimentação, as horas de sono, outras conversas, o respeito entre as pessoas… O silêncio. A leitura. A casa é o principal instrumento. Repetimos. Imitamos. Aprendemos a olhar a planta, o animal. Na outra pessoa outro mundo, não estranheza, mas complementação. Respeito. A ignorância pesa! Se as janelas estão fechadas não reconhecemos a luz. Se não escutamos a boa música ensurdecemos. Se não avaliamos o prazer da leitura encolhemos! Estacionamos. A pintura, o que se possa chamar beleza também precisa ser ensinada, medida, o olhar! O olhar através da máquina fotográfica… Não é a tecnologia que qualifica, mas o que selecionamos ao observar. O feio contorna o belo. O limite não pode ser a lente. Não em dólar ou em euros a seleção. Equívoco. E o mundo não tem flores, pássaros e cães bebê, gatinhos, além do mar, do céu, da terra e das pedras, mas pessoas. Os seres humanos e suas escolhas. As respostas estão aonde não imaginamos. O prazer, o reconhecimento da educação. Valores silenciosos: lençóis macios, a higiene, o cuidado com o objeto utilitário, o perfume da boa cozinha. A escolha do que vestimos. O cheiro. O saber fazer. A educação está no alimento, no manuseio com as frutas, os legumes. Entender o sol, a chuva. A casa é como um navio, todos os detalhes importam: luz em excesso danifica, a falta de calor traz umidade, o mofo… O mar maresia, o rio insetos, na mata nos perdemos… A beleza está no respeito a este fazer com as mãos, com o olhar, com o gesto. Como dizia minha mãe, para mandar é preciso saber fazer. É este fazer que  faz do homem comum soberano. Referências estão guardadas na memória.  Num repente a  evidência… A cópia do monge, o olhar. A volta. Os lugares inusitados, mas estava lá. Valorizado segundo a posição.Tão familiar como transparente. Pertencia ao meu mundo. Quadro foi pintado em 1866. Não eram flores, nem paisagens, era o monge de Cézanne. Não do agrado geral. Como O muro Rosa de Caribé desaparece entre  baianas,  ilustrações, e o branco e preto do pintor. Um  Cézanne!  Anita de bolta! Não o comum, mas o particular. Reproduções de selecionados pintores estavam nas paredes, não eram pratos, nem retratos antigos. Era o pessoal. Mais tarde estiveram nas mesmas paredes da casa jovens pintores como Glauco Rodrigues, Danúbio Gonçalves, Darel, Aldemir Martíns, Scliar, Xico Ferreira. A estranheza pessoal! Identidade não se transmite.

002 (4)

Esdrúxula sequência

Esdrúxula sequência

A vida se desorganiza. As horas se sacodem pequenas… Pequenas lembranças, anotações do passado-presente no papel rabiscado… Uso amoras azuis, bebo o suco, como  frutinhas do pote chinês. Alguém do outro lado. Palavra! ‘Gostei, não entendi, não sei o porquê, talvez esteja certa… ’Interlocução. Virtual, impreciso. E se a angustia aperta, e se fico impotente fecho os olhos. Hoje amanheceu frio, cinzento, úmido. Escuro! Velhas cartas cinzentas!
Lembrança extravagante. Cinzas engraçadas? Ou só passado? Ou apenas uma carta?

002 (3)

Querida Elizabeth:

Recebi a tua carta. Vejo-te a beira do mar. Enche, pois, as tuas mãos de mar, enche os teus olhos de luz. Na minha lembrança, tu és uma presença. Eu perdi o jeito de correr pelas praias e de me misturar com os peixes. Faz isso por mim.  De Torres guardo este fragmento, por certo o mais agreste, o mais autêntico. (aqui tem um desenho) Ao pé do penhasco, o mar enrola-se como uma grande cobra verde. Ao longe ele é sereno. A distância dá placidez as coisas. Tenho produzido pouco ou nada. Espero melhores dias. Mando-te a minha saudade que é muita.

Afetuosamente, o Iberê

Rio, 28 – 1 – 75.

2013-02-09 19.12.13

Clementina

Clementina

Vida sem passado nem futuro. Um agora ininterrupto. Branco. Apagar tudo, esvaziar para recomeçar. Deixar-se cair na infância que temos guardada. Temos? Correr no quintal. Abrir os olhos já era inquietante… Seria fácil arrancar as páginas do caderno, picar todas, jogar no fogo. Limpar o espaço, as prateleiras. Doar os livros. Deixar-se ficar no começo, naquele começo do nada necessário! Talvez um desenho, uma volta solta com o lápis para descobrir a curva certa, o resumo, a sinopse! Clementina é um bom nome.

Sem título

Sem título

1966, guache,nanquim e grafite sobre papel, 50,5 X49cm – Iberê Camargo – Eu quero a história, vou pensar o texto, deve haver uma narrativa…Pensar o texto?

Caverna iluminada. E as marcas são o sol… O sol queimando. Procuro o risco, a saída. Está silencioso aqui! Estou a ler o que não está escrito no calor das pedras…

Ontem

Diz Iberê Camargo que uma tela não é narrativa, não conta história

Não sei!

Uma pintura não é um texto? A foto um livro…

Ele se equivocou… Uma palavra já é narrativa.

O N T E M, por exemplo.

O que estás pensando quando soletras O N T E M?

Diante de uma tela não é diferente. Um abstrato, um céu, uma mancha?

Ou apenas o azul… Beth Mattos

SIMPLICIDADE

SIMPLICIDADE

Mágica casa da VITOR HUGO 229  Petrópolis -Porto Alegre. Rio Grande do Sul.

Casas, muitas vezes, como pessoas,  aparentam o que não são… Malbaratado luxo por fora, e o interior sem conforto, dourado… pretensioso.  Ostenta-se. O que algumas casas possuem é a surpresa do interior… O luxo é o conforto!  Esta é a casa …

Fantasma, Tarzan e A Bela e a Fera

Aglomerado de pedaços, a vida…,  pedacinhos. Quebra- cabeça. O absolutamente perfeito não serve.  Detalhes imperfeitos tornam as coisas perfeitas. Tu és perfeito: representas/estás em todas as minhas histórias. E me surpreendo porque desde sempre foi assim…Longe e sempre perto, muito e obstinadamente perto. Eu sempre estou contigo. Porque escrevo assim? Eu me perturbo quando converso contigo. Sempre. E acho tão estranho! Deveria ser casual, mas não é. Por isso  grata a cada palavra. Aos 73 anos estremeço e volto ao nosso tempo de meninos. Muito bom! Elizabeth M.B. Mattos


012

História incompleta ou  inteira volta

Há quatrocentos anos, surgia, na selva africana, o primeiro grande herói das Histórias em Quadrinhos: O Fantasma. Seu nome de batismo era Kit, e ele foi o único sobrevivente de um ataque pirata ao navio de seu pai, na costa de Bengala. Tratado pelos pigmeus Bandar, Kit logo se recuperou. Certo dia, enquanto passeava pela praia, encontrou os restos de um pirata com as roupas de seu pai. Tomando do crânio descarnado, imerso em profunda dor, Kit proferiu aquele que seria o lema de toda a linhagem dos FANTASMAS a partir de então. O famoso juramento:

Juro que dedicarei toda a minha vida à tarefa de destruir a pirataria, a ganância, a crueldade e a injustiça. E meus filhos e os filhos de meus filhos me perpetuarão”.
Eu me conto repetidas histórias já escritas, traduzidas, e ainda apaixonantes… Fantasma – herói da selva e de destroços. Ou a explicativa A Bela e a Fera com amores jamais esquecidos, tomados, avolumados pela distância, intrépidos e valentes, reconstrutores… Picotados por desencontros. Esperados a cada eterno dia por um minuto fugaz… Sim, e te faço promessas que protelo / não cumpro: o livro a ser escrito, viajar mais, não deixar a vida passar e ser feliz. Hoje renovei tudo ao telefone. Outra vez.

Eros e Psique, a mais antiga versão conhecida de A Bela e a Fera, foi publicada no século II d. C. em Metamorfoses de Lúcio pelo eminente retórico Apuleio de Madaura. A história contada por uma mulher ‘bêbada e semilouca’ para uma jovem noiva raptada por bandidos no dia do seu casamento. É descrita como um conto de fadas destinado a consolar a cativa atormentada. Mas em Eros e Psique a ‘ fera’ só é fera segundo rumores, e Psique, a heroína do conto, resolve vê o conflito romântico não só mostrando compaixão, mas executando uma série de trabalhos. Complexidade, amor, aventura, audácia e histórias...”

013

 1995

Deixou-nos a vida, nessa usança que dela fizemos, pelo menos o verso da folha de papel ainda intacta, sem máculas ou letras alheias, toda aberta para nós. Para que exigir os dois lados da folha intactos se o que temos a dizer e a escrever basta em um lado apenas? Deleito-me com o verso da folha escrita. Ou posso deleitar-me se o quiser. Posso também não usar o lado ainda virgem. O nele rabiscar desenhos e traços desconexos e, em seguida amassar tudo com a mão direita e jogar no lixo, como fazem todos. Mas eu amo as sobras, o que restou dos cataclismos  os destroços abandonados. Até hoje lembro-me daquela fita da infância, do avião caindo na selva africana, e dele sobrando apenas – com vida – uma criança que os macacos irão criar e que adulto, será o Tarzan. O que me impressionava, porém, não era o Tarzan saltando pelos galhos com seu cipó fantástico ou se comunicando com macacos e chipanzés com afinidade e afeição com que tu me sussurras ao ouvido palavras de amor.
O que eu, de fato, pretendia e ansiava era encontrar naquela selva os destroços do avião dos pais do Tarzan, com alguns dos seus brinquedos envoltos em relva e verde pelo passar dos anos. Queria encontrá-los para levá-los a Tarzan, para que ele aproveitasse o que não tinha, mas ainda existia.

 O absolutamente perfeito não serve. Carece dos detalhes imperfeitos que, em verdade, tornam as coisas perfeitas. Beth Mattos

014

Poeta e DURÃO

Poeta e DURÃO

Vitório Gheno, Nádia Raup, Elizabeth M. B. Mattos e

PAULO HECKER FILHO

Em toda a forma de ser há incoerência: extrema incoerência na rigidez dos acontecimentos, os mais perfeitos. A vida desmancha-se em calamidade. Transforma o ser num barro estranho, inconcebível? O homem constrói muros, esculpe, martela, tece as tiras de couro do açoite, forja correntes. O homem quer esquecer, mas é impossível fechar os olhos pois volta sempre e sempre. Sob formas renovada: olhos novos, rigidez nova, cada qual a exigir para si um espaço próprio, um estreitamento a superar o outro. Não consegue. Esfacela-se. Incoerente, tal qual o contato das coisas entre si. Quer ver o mundo ou sentir os outros, perceber e tocar o curso da vida, não consegue… Em todos os lugares encontra a si próprio. E, se deve e também pode captar tudo, ou se consegue apanhar a multiplicidade do mundo segundo a tarefa que se impõe percebe que antes de qualquer ato de vislumbrar, escutar, experimentar esbarra no seu eu…

017

censura

017 (2)

Perdoa, mas em verdade estou mal exatamente por não estar aí. Este ‘estar mal’, porém, deixa-me como se fosse um poste de eucalipto fixado ao solo para nada, só para apodrecer. Estou aqui literalmente de mãos amarradas: tudo que faço, quando faço, faço ml, me equivoco. Atarantado, é este o termo. Ando assim. Como o gaúcho daquele poema irônico do Asceno Ferreira: corro intrépido pelos pampas, vou, venho, sempre intrépido. Para que? Para nada. Nem sequer para estar aí…”

018

” Deixou-nos a vida, nessa usança que dela fizemos, pelo menos o verso da folha de papel ainda intacta, sem máculas ou letras alheias, toda aberta para nós. Para que exigir os dois lados da folha intactos se o que temos a dizer e a escrever basta em um lado apenas? Deleito-me com o verso da folha escrita. Ou posso deleitar-me se o quiser. Posso também não usar o lado ainda virgem. O nele rabiscar desenhos e traços desconexos e, em seguida amassar tudo com a mão direita e jogar no lixo, como fazem todos. Mas eu amo as sobras, o que restou dos cataclismas, os destroços abandonados. Até hoje lembro-me daquela fita da infância, do avião caindo na selva africana, e dele sobrando apenas – com vida – uma criança que os macacos irão criar e que adulto,  será o Tarzan.”

Uma volta ao Tarzan, Fantasma ou A Bela e a Fera