Memória redonda
Outra vez a casa da fazenda. Campo vazio, tijolos. Moirões. Cercas, invernadas. Açudes. Ovelhas. Gansos. Sombra. Cinamomos. Férias. Santa Catarina, no Continente. Lembras do tempo sem luz em Rio Pardo? Banho frio. Memória. Galpão com terra batida. Velas. Verões de grande seca! O arvoredo! Baldes d’água no trator. Portões fechados, sem telefone. Ausências. Cartas. Envelopes. A sofisticação do silêncio. Cartas desviadas, azuis e quentes.
E o Rio de Janeiro! Pintores e galerias. Laila, Suzy, Roberto, Olívia, Aldinha, Ronaldo. Ônibus, lua, e Cristo Redentor da janela da Viúva Lacerda. São Paulo, ponte aérea. Hípica. França e Limoges. Paris. Bretagne e Torres. Um livro.
Mês: setembro 2012
AS BRASAS
(…) “Era da raça de Chopin, ou seja, era uma criatura cheia de reserva e de orgulho. Mas no fundo da alma ocultava um impulso espasmódico: o desejo de ser diferente do que era. É o tormento mais cruel que o destino pode reservar ao homem. Ser diferente do que somos, de tudo o que somos, é o desejo mais nefasto que pode queimar num coração humano. Pois a única maneira de suportar a vida é se conformar em ser o que somos aos nossos olhos e aos do mundo. Devemos nos contentar em sermos feitos de uma certa maneira e em sabermos que, uma vez aceita essa realidade, a vida não nos louvará por nossa sabedoria, ninguém nos conferira uma medalha de honra ao mérito só porque nos conformamos em ser vaidosos e egoístas, ou calvos e barrigudos – não (…) Devemos nos suportar tais como somos, esse é o único segredo. Suportar nossa caráter, nossa natureza profunda, com todos os seus defeitos, seu egoísmo e sua cupidez (…) Devemos aceitar que nossos sentimentos não são correspondidos, que as pessoas que amamos não retribuem o nosso amor, ou pelo menos não como gostaríamos. (…) eis algo que apreendi no decorrer de setenta e cinco anos aqui no bosque.” (.p106)
Sandor Marái, As Brasas
Confissões para Cinquenta Anos esta Noite
Terminei a leitura com prazer, esclarecida. Os fatos históricos relevantes estavam perdidos! Memória afetiva a minha.
Fui lendo Cinquenta Anos Desta Noite para te reconhecer, para me encontrar. Que pecado! Narcisa, circular, um pouco tola, e no espelho! Achei graça na história os Menna Barreto. Eu a tenho noutro formato, o Robertiano… A frase que cita Anita e Roberto se alonga numa centena de páginas porque tudo que o Rubens podia ser, ou pensar estendi ao meu pai calado, minha mãe belicosa, ativa! Como se eles fossem prolongamento mesmo escondidos na grande biblioteca da Vitor Hugo.
Eduardo, Dado: o casamento prematuro me afastou do mundo, o rompimento com Luis Afonso Antunes foi terrível, embora muitos anos mais tarde Flávio Tavares me devolvesse o sentido de amar. O percurso. Estranho, maravilhoso (pelo menos para nós leitores familiares, e incluídos) a forma sutil, e assim intensa com que atiças alguns fatos. Claro que envolves tua mãe com um manto quente, teu pai menos. Herói, modelo, cidadão? Controverso. E não escondes o principal. O leitor ligeiro nem perceberá algumas dores, o teu orgulho! Esgotas emotividade mesmo na timidez. E levantas a história do Rio Grande do Sul: a cada nome citado lemos páginas e páginas de nós mesmos. Ativas a memória, resgatas o tempo sem pesar. Nós leitores alongamos, e aguardamos os desdobramentos que estão para chegar ao segundo volume.
Estou em Torres, como quase sempre estou.
Ah! Esqueceste de mencionar a casa de Ipanema onde o Saci e eu brincávamos no pátio como locutores… Será que ele lembra? O meu querido Francisco! Estes dias encontrei uma foto da Lígia entre amigas, bem em frente da casa! E também um cartão que mandaste da Boca do Acre… Estas coisas que nos pegam ao sair das caixas e guardados como pedaços vivos do passado… Um beijo. Aguardo notícias. Anexos escritos conforme te prometi. ElizaBETH a prima.
Depois do almoço: sol tímido, a ansiedade de sempre. Tenho que fechar as malas e voltar para Porto Alegre.
Os bules

O bule de chá vermelho
O desejo me persegue: formato, cor, ou o desejo de beber chá? Não sei. Compulsão pelo bule vermelho…Ontem de tarde sai com a ideia de comprá-lo: examinei, olhei e larguei. Pensei nas xícaras, onde eu beberia o chá depois da infusão? Entrei na loja ao lado… Comprei fronhas, uma vermelha outras brancas. Em casa recostei-me, dormi.
Hoje acordei pensando outra vez no bule vermelho. Contabilizei. Não posso comprar pelo simples prazer de olhar… O formato? A cor, ou o desejo de beber chá? Não sei exatamente. Pensei no bule branco com o Buda que vi na casa de Isabel. Peça exclusiva. Olhar aguçado. Não apenas cor, formato, utilidade, mas antes de tudo, beleza. A matéria sustenta a forma, como o olhar persegue o belo. Os bules de chá…
Claustrofóbica, sem acalmar a sensação de peso, aborrecimento que sentia sai outra vez. Não fui buscar o bule, entrei no cinema. Filme francês. A sessão já tinha iniciado. Dei meia volta, entrei na livraria. Separei três livros: pensei nas contas, comprei apenas um. De volta ao quarto. Estiquei as pernas, e comecei a folhear o livro Entre Nós de Philip Roth: conversa de um escritor com seus colegas de trabalho. Iniciei por Mary McCarthy, correspondência. Depois, Conversa em Londres com Edna O’ Brien. Mulheres. Instinto ou magnetismo? Roth inicia descrevendo a rua, o prédio e depois o lugar onde ela vive.“No escritório há uma escrivaninha, um piano, um sofá, um tapete oriental de um tom cor de rosa mais escuro que o papel de parede marmorizado, e pelas janelas à francesa que dão para o jardim vê-se uma quantidade de plátanos suficiente para encher um pequeno bosque”.Volto a visualizar o bule de chá vermelho. Mentalmente o vejo sob uma mesa imaginária naquela sala. Na descrição Roth ainda cita a famosa foto de Virginia Woolf. O volume de obras completas de J.M. Synge aberto no capítulo de The Aran Islandme. Menciona um volume da correspondência de Flaubert aberto numa carta para George Sand. Em seguida cita uma epígrafe escolhida pela autora: “Antes de mais nada, quero dizer que não perdoo ninguém. Desejo a todos uma vida atroz nos fogos do gélido inferno e nas gerações execráveis que hão de vir”. Malone Morre, livro de Samuel Beckett que li neste verão em Torres… Diz ele que não encontra esta aspereza na sua obra. O’Brien justifica e explica. “Quando tenho uma explosão, depois me sinto na obrigação de ser conciliadora. Isso tem acontecido ao longo de toda a minha vida. Não sou uma pessoa naturalmente dada ao ódio implacável, como também não sou uma pessoa naturalmente dada ao amor incondicional, e em conseqüência disso muitas vezes entro em choque comigo mesma e com os outros!” E continua:“Eu reclamo da solidão, mas ela me é tão cara quanto a ideia de me unir a um homem. Já disse muitas vezes que gostaria de dividir a minha vida em períodos alternados de penitência, gandaia e trabalho, mas como você certamente compreende isso não funcionaria muito bem num casamento convencional.” Senti o prazer da leitura…
De forma direta a escritora irlandesa reforça sentimentos que eu conheço.Somos todos tão iguais! Ou nos buscamos a cada nova leitura? Esqueci por um momento o bule de chá vermelho. Estou no escritório de Edna O’ Brien em Londres, escutando a conversa… Elizabeth M.B.Mattos 25 de setembro de 2012 – Porto Alegre
Segunda-feira
É preciso arear as panelas, limpar os armários, escovar, lavar as vidraças.
Cheiro de limpeza, o prazer.
E o mar segue por perto!
Mas eu não faço o que é preciso.
AMÓS OZ
De amor e trevas
“Uma vez, quando eu tinha sete ou oito anos de idade, minha mãe me disse que embora os livros possam mudar ao longo dos anos, assim como as pessoas, a diferença está em que, enquanto a pessoas sempre nos abandonam quando percebem que não podemos mais obter nenhum vantagem, prazer, interesse ou pelo menos um bom momento para nós, um livro nunca vai nos abandonar. Você com certeza vai abandoná-los, algumas vezes por muitos anos, ou até para sempre. Mas eles, os livros, mesmo traídos, nunca vão lhe dar as costas: vão continuar esperando por você silenciosa e humildemente nas suas prateleiras. Eles nos esperam até por dezenas de anos. Não se queixam. Até que numa noite, quando de repente você vier a precisar de um deles, mesmo que seja às três da madrugada, e mesmo que seja um livro que você tenha desprezado e quase apagado de seu coração por muitos e muitos anos, ele não vai decepcioná-lo —- descerá da prateleira e virá conviver com você num momento difícil. Não fará contas, não inventará desculpas e não se perguntará se vale a pena, se ele merece, se você merece, se você ainda tem algo a ver com ele, mas virá a você no momento em que você pedir. Jamais vai trair você.” (p.319-320)
Pode ser tudo imagem

DESORDEM do dia nos dias

Sol com vento
Desanimo que chega… A mesma e contínua batalha. Sobrevivência. Esforço. Não é particular porque estamos todos remando. Clichê. Com mais ânimo, menos. O exercício de correr atrás, do quê exatamente? Loucura do vazio, no vazio. Ou a solidão gostosa… Louca! Não sei. Tanto para ler. E o tempo? Não sei. Ainda é tempo, sempre é. Vontade de amar, quem? O quê? Por quê? Dia estranho! Elizabeth M. B. Mattos