O lobo comeu Chapeuzinho Vermelho

Reluta para começar a mudança. Talvez seja o medo. Todos os dias risca o calendário depois da meia-noite: marca o tempo. Lê até os olhos arderem. Junta letras mecanicamente. Escuta os ruídos das pessoas que se movem no apartamento de cima. Coloca o livro aberto no lado esquerdo da mesa, escreve. A luz fria do computador permite que mesmo no escuro siga teclando aleatoriamente. Interrompe a escrita. Enjoada corre ao banheiro e vomita. Vomita agarrada nas bordas do vaso sanitário. Apóia-se nos braços, ajoelha-se. Mesmo tonta consegue arrastar as pernas até o lavatório. A água escorre nos pulsos, aproxima o rosto: várias vezes enche as mãos em concha para molhar o rosto.Ter o tempo todo, todo o tempo livre imobiliza. É justamente quando começamos a nos dar conta que não é o fator tempo que impede de agir, mas a abundância de tempo que paralisa. Esta disponibilidade enlouquece. A disponibilidade. O silêncio enjoa. Se conseguir arrumar as gavetas, limpar o quarto… A inércia limita. Caminhar no parque, ou verdejar a planta do vaso com boa água, e terra preta. Olhar as pessoas dentro dos olhos, ou ser gentil? Andar com pés descalços, sentir a água no banho como se fosse mergulho no rio, no mar. Enfim, a natureza precisa entrar no corpo. Beber ilusão. O trabalho das pequenas habilidades parece tão pouco importante! Por ser habilidade tem caráter banal de facilidade,não confiamos no que é fácil. Estranho que estejamos sempre buscando o complicador. Haverá sentido na sobrevida?  O bom desempenho interior, o grau de felicidade, Agora, sabendo da doença, desta súbita partida, quer arrumar a casa, limpar todo medo de morte. Aos menos neste ano que a vida seja serena e ordenada. Que as expectativas estejam na beleza da ordem.  Abre o armário e esvazia as prateiras baixas: todas as botas, sapatos em caixas ou saquinhos. E não encontra o outro pé do sapato verde de camurça do Rui. Supomos que a roupa traga altivez, o luxo da gola de vison, sapatos verdes? Arrumar o armário é  rever a história. Olhar, olhar a caixa entreaberta com um pé do par de sapatos como se este destino tivesse ainda outro significado. Um pé do sapato de camurça verde. Estes pedaços de pedaços. Encontrar a boneca vestida de Chapeuzinho Vermelho. Por loucura volta às caixas do corredor da área de serviço. Surpresa! Mais livros, outros livros. Começa a empilhar pelo quarto na tentativa de novas descobertas. Soterrada. Após esta invasão o esvaziamento. Coragem para enfrentar a limpeza. Limpeza do inútil. O Brasil não é um país onde se possa viver em segurança Temos que descobrir qual o lugar seguro para viver. Adaptação. A casa, o silêncio.  Quisera compreender o ciúme.  A boneca vestida de Chapeuzinho Vermelho que o lobo devorou. Quer ver-se ao espelho. Doente, limitada, faz cruzes no calendário.  As mães não se dão conta de que a infância desenha  o caráter nas repressões, nas ausências.

4 comentários sobre “O lobo comeu Chapeuzinho Vermelho

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