tudo já está no AMORAS – o que será este tudooooo? aquilo que acreditei

11/02/2021 21:25

1.

Despedida

No fundo de seus olhos azuis houve um lampejo, um brilho intenso de tristeza. E raiva. Que cena tão simples havia sido lembrada? Tão mansa e tão dilacerante. O dia que tudo terminou? Ou a certeza que neste tempo já não há mais luz? A entrega definitiva, sem volta, sem perguntas esvazia expressão, altera voz, e olhar. Os sonhos não são mais os seus sonhos, nem suas as escolhas, ou decisões. Aos poucos assimila-se a vida do outro… A esta entrega chamamos amor. Perdoa se eu o feri ao abandoná-lo, também não deixei de me ferir. Descobrir o vazio, este enorme nada também doeu. Temi você pensar que eu me reservava a parte mais agradável de nosso amor sem me preocupar em deixar-lhe o lado desagradável. Não é verdade. Se fracassei em dar-lhe a felicidade que um grande amor deveria proporcionar, também me senti muito infeliz por fracassar. Você me fez falta de todas as maneiras, em todos os instantes, e a ideia de meu erro, por mais de uma vez me fez absolutamente infeliz. Assim eu procuro reestabelecer a mesma convicção, vozes, odores, toques, rosas, petúnias, hortênsias e cravos, laranjas, pêssegos e morangos. Sem esquecer das amoras azuis, e das lágrimas que me sufocam neste momento de adeus eu beijo teus olhos.

                                                           ***

2.

Imperfeito dia

Meu amigo:

Segue cinzento. Desfiz as malas depois de viagem inteira sacolejando nas voltas da angústia. Gavetas abertas, duas portas do armário escancaradas, e as roupas na mala. Escolhi chá, como tu sabes, evito café preto. Protejo as noites da vigília. Sentei naquela cadeira perto da janela olhando sombras. “Quem é que conhece as verdadeiras razões dos seus temores? ” Voltei a repetir em voz alta a frase. O suor no inverno, o fogo no corpo, e esta respiração ofegante acusa medo. Fico imóvel, espero que passe. Não sabemos de onde chega, mas sentimos. Se olhares o desenho das nuvens, também tu, meu amigo, vais estremecer. Encobre esperança, esconde o riso, silencia o piano. Faço um esforço para abrir os olhos. Medo. Temor, insegurança. Esbofeteada no meio da calçada, surrada, espremida na voz ríspida da notícia que se espalha. E a cada empurrão, duas, três horas para recompor o ânimo. Estes esbarrões, estes gritos, nomes indizíveis flagelam. O cheiro da maconha, do álcool, deste desmedido alienamento assusta. Já nem sei se quero encontrar razões para temores. Acostuma a covardia. Ingenuidade, credibilidade, palavra nem importa. Agressão nos envelhece num átimo. Estou covarde.  Da viagem posso te contar que as feras na África oferecem menos perigo do que as nossas esquinas.

Nota:

Imperfeito dia! As propagandas, e as ‘figurinhas’ das revistas estavam repetitivas… Desanimador o jogo!

                                                           ***

3.

Das cartas de junho

Publicado em 19/06/2014

Como é que se escreve uma carta depois de tanta ausência? É preciso dizer, confessar o meu engano. Começo a entender a situação. A vida que planejei – sonhei -, planos, expectativas -, essa vida se apaga entorpecida. Não posso voltar ao ponto zero. Como explicar? O futuro como uma cidade nunca visitada. Uma cidade do outro canto do país. Viajei de um lado para outro, com todos os pertences empacotados, chegando tantas vezes, e não encontrando… O percurso marcado claramente no mapa, mas quando chego, dou-me conta que o lugar não é aquele, não mais, ou nunca foi. A cidade que procuro desapareceu – talvez nunca houvesse existido. Uma sensação de ruptura. Numa vida, havia uma cidade para a qual viajava. Em outra, se tratava apenas de um lugar que havia inventado. Desta incerteza, ou desta obviedade o meu terror! Não vou conseguir chegar, e já não tenho mais forças para recomeçar. Buscar o que nunca existiu? Voltar para casa. Acertar o tempo de ficar, de permanência sem espiar, sem sonhar, sem querer avançar. E avançar justo para o lado que não tem estrada, nem cidade, nem nada. Interromper a esquizofrenia da invenção. Da poeira. Dos embates, quixotadas. Este descalabro por estar lá, ficar, ser reconhecida. Nunca deveria ter ido, nem tentado! Não existe pode ser entre as pessoas, não existe voz… Há qualquer coisa de mágico no saber ficar, entender que mesmo pela janela, o outro lado da sua rua é a referência perfeita. Se existe âncora, se existe paz, não está nas cidades visitadas, no caminho percorrido. Não se trata de prisão, mas certeza. E sequer de contar para o outro, ninguém ouve. Palavras são moedas. Desconheço numismática. Estou equivocada. A saída? Escrever para você.

Acabei de reler os dez capítulos da tese: Um só Pintor, tantos olhares! Recolhi velhos cadernos de francês, folhei livros separados em pilhas, por assunto, ideia sua. Sentei no sol do meu tapete, mas não compreendi nada sobre o lugar para onde voltei. Estou perdida, meu amigo.

Albertina Martins Cardozo

Portão Azul, 19 de junho de 2014

Era verão

Meu amigo querido:

Dores. Estranhos movimentos. Acelerar, interromper. Problemas pra respirar, incômodo, dor, e ansiedade se misturam. Cheguei cansada. As costas partidas. Dor. Bastante dor. Mais à esquerda. Aperta. Aborrece. Dificuldade para dormir. Incômodo. Alívio depois do diagnóstico. Remédio certo. E o aperto é contornável.

O corpo pesa, e pende pro lado esquerdo. Embora as persianas estejam fechadas não consigo me isolar. O vento, o mormaço, o movimento contínuo de carros, a luminosidade oblíqua explica: estou em casa. Tudo é bem-vindo, estou em casa. Busco intimidade comigo mesma, serenidade. Necessito do espaço, deste silêncio sem dor. Maldita dor!

Que acúmulo de objetos! O excesso, desmedida importância. Desqualificada exaustão. Amolecimento. Incerteza pestilenta.  Sentimentos batidos no centrifugador, picados. Confusos.  Medo de morrer. A dor escondia no corpo sinaliza a chegada, o ponto. Limitado caminho. Medo personificado, vivo. Um envelope com surpreendente conteúdo: o que deveríamos priorizar nesta vida, neste momento? O próprio olhar, a mão estendida? Como expressar, colocar em palavras aquilo que nos parece o melhor, ou interferir no injusto, no atropelado pela ansiedade de cumprir, experimentar? Toda observação é descabida, descabelada, sem propósito. A cada escolha uma avalanche de cor, sabor, e obviedades. Sinalizadores inúteis. Por que não poderíamos parar de provar? A lágrima desce na emoção da felicidade, ou como válvula. Pressão maior, descuido, intimidade que se solta? Não sei. Um só dia com as características de mês, ou ano. Resultados imperfeitos num tempo que se propõe ideal.

Histórias são repetições: o véu, as alianças, as cadeiras, o sino, as pessoas, o deus, a confissão, a incerteza, o amigo, a pessoa, a delicadeza das flores, exuberância, volta, fotos: excesso de fotos que se cristalizam, identificam? Fotos para o permanente, imortalidade. Alma do momento. O sopro da felicidade.  A foto que foca o espaço entre os dedos. O modelo. O suspiro. Não sei. A revelação aberta das imperfeições que se querem perfeitas. A poeira do tempo, o abraço, o copo, a garrafa, os pratos. O doce. O movimento da luz. A música. A dança. Já o corpo se apresenta inteiro, doído, apertado, mas inteiro. O sono, a cama. Travesseiros, cheiro, leveza, peso, os carros acelerando, freando, o som da televisão. Desconforto. Felicidade? Estou viva. É o começo que assinala o fim. O concluído. A exuberância da voz nos abraços, no encontro com gosto de café, de laranja, de pão fresco, ovos, o espaço. O conforto do carro, velocidade, chuva e música. Outras histórias. Saudade. Água, luz e sono. Muito sono.

Levemente

Publicado em 13/06/2014 por amorasazuis

Levemente, ou inevitavelmente mal humorada talvez resfriada. Dor de cabeça. Aquele mal estar que aborrece, chateia, aflige. Talvez resfriada. Dor de cabeça.  Mal estar presente, indefinido. Atrapalha, espalha, junta, retoma a dor do corpo. E não é corpo, mas lá de dentro a dor, do não sei onde é. Dor do pensamento. Esquisitice pura. Vontade de gritar sem som. Estremecimento. Bom que tem sol, e o pulso não se despedaça neste repuxo. Alívio. Os óculos pesam, castiga o rosto, o nariz. Pesam estes óculos… Desgosto.  E nem estou vendo tão bem como gostaria. Que coisa esquisita isto tudo. É esperar…

Nenhum recado, o jogo

Publicado em 12/06/2014 por amorasazuis

Hoje vou pintar o cabelo, arrumar o armário, comprar aquele casaco. Hoje vou fazer uma caminhada mais longa, até ao mar. Hoje eu vou, e depois, depois afundo na cadeira, na dor nas costas, na incerteza de estar mesmo aqui e agora, sem ir. Depois volta a pontuação esdrúxula, esquisita de conversar apenas comigo mesma. Nenhum recado de volta!

Saudade das velhas cartas que abarrotavam a caixa de correio. No entanto não é o outro, mas este reflexo que gostamos… Narcisos, egocêntricos, estamos estacionados em nós mesmos. Na primeira linha. O jogo de futebol somos nós com a bola o tempo todo. Os gritos são nossos, as mãos torcidas, o descaso também. Silêncio, Imobilidade, nós. Afinal, como é mesmo participar? A cada filho sua história, a cada neto seus perigos. Ao amigo a distância. O desconhecido, curiosidade. Quero voltar a França, ir a Portugal. Quero viajar ficando. Ficando!

Amar ficando…

Publicado em 12/06/2014 por amorasazuis

Engraçado! É verdade que amar, apaixonar-se tem a inteireza da alegria, no entanto nos escamoteamos, por quê? Estar nos braços do outro, beijar, entregar-se com certeza de afeto, de uma qualidade de prazeres genuínos pode ser tão lúdico, como sério. É aquele medo esquisito de ser descoberto, ser visto como de fato somos, o medo de exposição tanto quanto a vaidade de ser reconhecido que nos assusta? Amar, ou ficar? Estas angustias paradoxais se misturam a cada amanhecer. Estão mesmo embutidas no amor?

SE

Na grande dor, na grande perda injetamos algumas certezas. Após o susto do limite. Nunca acreditamos, ou pensamos na finitude do tempo. No que pode, ou vai terminar. Há qualquer coisa de permanente, de pra sempre quando somos jovens. Depois, a solidão se consolida, e na espreita do tempo vamos deixando passar sentimentos de agregação: o toque, a insistência, as certezas, e nos afastamos, senão de nós mesmos, de pessoas que poderiam, afinal significar. Então fica-se a querer levantar, energicamente, o muro que nos separa da fluidez, da leveza, do ócio, da despreocupação passiva do amor…Das amizades permanentes! Pequenas e espicaçadas lembranças. Identifica-se situações limite. Se eu tivesse ido para o mar, se tivesse subido aquela montanha, se não tivesse medo, se fugisse, ou se não fugisse do que perturba. Se o sentimento de ser menos, menor não tivesse me vergado…  Se fosse menos amadora, mais engajada! Se não tivesse me apegado aos modelos precários. Se…Aquela brincadeira de imaginar outra vida, outro resultado, outro eu. Se o rumo fosse outro, se eu tivesse ao teu lado. 

Na Padre Chagas

Publicado em 12/06/2014por amorasazuis

A lembrança da Rural Aero Willys estacionada junto as cercas da escola, já não sei se apenas no dia de São João, na Quermesse escolar, ou aos domingos!
Domingos de todo o ano, no tempo do Internato. Sim, as saídas, idas em casa eram limitadas das 11horas, até às 17 horas. Almoçava em família, e voltava para a escola, ao café com leite da tarde. Outras histórias… Idas a casa da avó Celina. Conversas engraçadas, sem te mencionar, apenas marcar presença amiga. O que havia entre nós? Sentimento de curiosidade de guris, amigos, queridos, amados, escolhidos. Então, eu me fazia ares de moça, e assim te afastava, porque éramos, os dois, meninos. Como se eu pudesse controlar a situação! Boba, infantil, tímida, arredia, sei lá. Adoro a luz daquele apartamento, e a ideia de ser, estar muito, muito próxima de ti quando visitava tua avó. Queria te surpreender. Na lembrança tem também o carro vermelho. Podíamos passear. Nem sei se tinhas já tua carta de habilitação, mas íamos até a beira do rio. Desafiar a Volta Redonda, Ipanema. Ou não íamos tão longe assim? Lembras dos domingos dançantes no Country Club? Algumas vezes almoçávamos. Perfeito. Um jardim de beleza, de música, e silêncio. Éramos poucos, e donos daquele mundo, em particular. Não sei por qual motivo tinha que provar que o Toninho era alto, bonito, ou melhor, porque mais velho? Trabalhava na fazenda. Ou fazia às vezes de chefe de família por ter perdido o pai. E tudo se transformou tão depressa! Querer tua amizade cumplice. Sermos donos do tempo, o nosso. A liberdade importa. Tua inteligência solta. Alegre. Despreocupa, o meu outro lado. Buscava segurança, e tuas certezas, tua autoconfiança. O dono do mundo! Por que não podia estar ao teu lado? Ou me permitir te beijar, experimentar? Sentimento de toda vida. Casamentos tinham uma certa aba de engodo, traição, solidão presa, limite. Ateísmo. Dificuldade. Então volto as viagens que te levaram pro mundo. O esporte. Alegrias definidas. O teu mundo, teus sonhos.  Nada se enquadra no meu jeito de ser, mas se estavas tão perto, eu estava contigo. As conquistas femininas. O proibido. O outro lado. Sempre estavas, e estarás, do outro lado, no meu imaginário. E enquanto estás perto, eu posso ser eu, feito eu mesma, desleixada, escondida, a te esperar no Café do Porto, na Listo, na rua Padre Chagas, de manhã.

Um café

Publicado em 12/06/2014p or amorasazuis

Imagino esta aventura de deserto, areia, luz, frio, e tanto calor! O encontro do estranhamento!  Misteriosos ingredientes! A vida se colorindo, ou se partindo, em rapsódia, a se movimentar… Sem lógica, sem certeza, apenas o derramado olhar no desconhecido, quase já passado! Tu mesma a te colorir, partir, ou refazer a colagem, respirar a cada nova figurinha. Ir e vir. Possibilidades todas deste momento, no agora, neste exato minuto, assim! Possibilidades completas, e já findas. Vou beber um café.

O manjaléu da memória

Publicado em 06/06/2014por amorasazuis

Amanhã tem que ser hoje também. E se este ontem fica turvo, fundo, escuro, tem a vela acesa do manjaléu, a vela acesa na caverna. Tantas histórias! Verdadeiras. Escusas. Torcidas. A memória se mistura com o que deveria ter sido apenas desejo desdobrado. Não sair da casa daquela infância falseada de alegria. Tudo preso no sempre que não existe.  Sem idas, sem viagens, sem esquecimento, sem repetições, e tantas ausências! E a vida do outro na nossa, ou daquela memória das revistas guardadas, recortadas, coladas, desenhadas na calçada. A calçada, e vizinhos, luzes acesas. Luz de todas as casas da infância. Pedras pequenas do jardim, aquele que era também o pátio. Jardim dos jacarandás, dos ciprestes. Do fogão paras comidinhas das bonecas. Dos telhados. Das escadas. Das peças proibidas. Infância do escuro iluminado por risadas de pessoas grandes. Saudade das pedras carregadas no avental, as polidas, as coloridas.  Estar. Pois é! Tantas vezes essa coisa inexplicável de estar no mundo; mundo ‘empilhado’, suado, tomado, e cheio de nada. Competitividade emparelhada, menor, e necessária! Por que só poeira? Estes enormes prédios, estes trens, estes carros, estas motocicletas, estas ruas esquecidas, esburacadas, perigosas. E ainda a roupa velha, aquela de todos os dias, colada no corpo, os tênis pesados, gastos, o cabelo em desalinho… E a manta que envolve já tão a mesma! Por que este descuido desmantelado? Não competir? Bobagem! Inferioridade? Talvez. Porão? Escuro? Não. Tem a vela acesa na caverna do manjaléu. Não faz sentido, não tem vez… Fica-se esquisso, esquerdo, e teus olhos se abaixam escondendo o visível. Escondes teu corpo de ti mesmo: descaso. A angústia de não competir, cuidar, trabalhar. Magda, Elaine, Nádia, Ana Maria, Cláudia, para citar apenas mulheres, têm as respostas. Ou sou eu a encerar, polir, lustrar, e empilhar discos, livros, mantas. Colher flores. Guirlandas! Enfeitar bonecas. Encher caixas de papel, de impressos, cartas, recortes, folhas em branco, notas, bilhetes. Exercícios, fitas. Por que? Tanto recomeço, tanto vou tentar, vou fazer, vou deixar, vou sair, vou chegar!  Penso em atropelos, na vertigem, ela foi, ela veio! Estranhezas!

Esta cinzento no meio da tarde. É o frio. Gosto de sentir o mar no frio, e também contar.

Bilhete

Publicado em 03/06/2014por amorasazuis

Escuta. Vai passar o tempo, esta hora, esta dor, esta saudade, a culpa que não é tua, nem nossa. Nem dele tampouco, criança. É assim o tempo… As dores, a mágoa, este vazio que não é teu, mas nosso. E grande. Aquieta-te, segura, e segue. Vai passar a dor, a saudade, o tempo. Cuida-te, olha o mar, a terra, esta cidade tão linda! Tua. O Rio de Janeiro pequeno.

Como Popeye

Publicado em 01/06/2014por amorasazuis

A dor se multiplica se lamentamos o tempo, o desencontro. Dia arrastado deste domingo! É preciso acordar no cinza, mas desenhar e colorir. Zelar pelo corpo, beber leite, frutas, comer espinafre como Popeye. E não descuidar da alegria. Que se abram todas as portas desta casa sem frestas, imediatamente. Novo sol. Vento, chuva. Nova hora com muito espinafre. É preciso sorrir, arrastar, reconstruir, e sair das vitrines feitas, abusivas, consumistas. Recomeçar. Um pé diante do outro. Enfiar os dedos na terra, escutar a música que sai do gramado. Não seja feio o terno, nem desconfortável o sapato, mas que nos canteiros as flores semeadas perfumem o sol. O aperto das mãos no sorriso… 

Concentrado no trabalho, o homem erra menos. A beleza rouba o penoso do esforço. Entrega-se, fácil, a conquista. É como burlar, enganar o seu eu interior, e entrar na velocidade inexplicável do tempo. Produz com a mesma finalidade? Este movimento se explica por dentro, ou por fora? Aquieta?  Por que é mesmo que acordo de manhã? Por que não durmo durante toda a noite? E o que digo, importa mesmo? Dançam, comem, jogam! Consomem. O mesmo vinho, aquele chocolate, as roupas da vitrine, e voam de um lado para outro, voam estes homens. Depois…Tantas vezes o mesmo campo de futebol. Os novos campos de futebol. Lesão, fratura, dor, prazer. Arena e gritos, excesso, lucro, dor e prazer. É tudo? O excesso, e a perfeição física. Por que é mesmo que estamos aqui, e agora? Vamos assistir aos jogos paralisados, obcecados pela bola, pela velocidade, suados. O grito, o ganho, a perda. A bandeira! O grito outra vez. É o jogo.

Depois de …

Depois de ...

Geraldo morreu. Depois da dor, da doença, do tempo de sofrer, ele se foi. Altivo, corajoso na escolha consciente de se retirar do palco, da vida mundana. E silencioso aponta o mundo como incompreensível. “Não soube do que se tratava, ”uma epígrafe. Homem íntegro. Infantil na bondade redundante, generosa, sem apego. Altruísmo? Egoísmo? Coragem? Assim nos deixamos viver. Tanto ele, como eu, nos escondemos atrás das cadeiras da sala grande enquanto os pais, e os irmãos representavam, e brilhavam. Ninguém soube como era incomum este homem… Ele. Nestes anos de ausência egoísta, sempre somos egoístas quando escolhemos ser apenas nós mesmos, nos dá exemplo de integridade. Não se esquivou ao que sempre considerou correto. Mesmo que os outros considerassem incorreto. E perdoou, perdoou consciente o desamor. Afinal estamos sempre a procurar o esteio, a tranquilidade. Silencio, e simplicidade como coroamento. Na curva da montanha está seu corpo que descansa.

Geraldo Camara Moog, 1940.

Filho de Friga Camara Moog e Clodomir Vianna Moog.

Maio de 2014, Rio de Janeiro.

Discos de vinil? Ou pedras?

Publicado em 13/05/2014por amorasazuis

Penso. Não sei. Pondero. Suponho. Ansiosa angústia! Medo. Imposição. O antigo, velho, se esfacela. Novas e galopantes medidas necessárias. Quais? E já estamos a correr, treinar, sorver. Sem passar o fio de lã pelas agulhas, direto pelas máquinas… A voz do fio. Sapatos, trem, avião. Comida das gramas, sem cheiro. Corrida. Carros, televisão, o coração. Enlatado. Conserva. Correto artificial.

A violência vem colada na rapidez. Delação, impunidade. Da insegurança esta tentativa de proteger, socorrer o mundo de dentro, desgastado, e velho muro da Rua Vitor Hugo, em Petrópolis! Da Porto Alegre dos calçamentos de pedra, do bonde. Como vou contar a vida pequena dos tachos de goiaba? Dos fios da massa caseira? Do velho fogão a lenha? Da minha ama Maria? Das tarde na varanda? Como vou contar esta história avessa das vezes de hoje. Da tatuagem que não fiz? É preciso dizer, grito! O que, afinal, posso te contar meu amigo? Quem quer saber de toalhas engomadas? Da porcelana, e dos meus discos de vinil? A vida vivida congela. Corro parada em fila pra entender o que vai acontecer amanhã.

Publicado em UncategorizedDeixe um comentário | Editar

 Para o Dia das Mães!

Incoerência das ações →

Amor excludente

Publicado em 12/05/2014por amorasazuis


Importa sublinhar, repetir que somos diferentes dentro de muitas igualdades, mas importa mais ainda, exercitar, compreender este conversar agradável e conveniente, tanto como o estar interessado. Entendimento no olhar… Entendimento generoso, não atropelador da imposição. Somos pessoas, gente, seres pensantes, talvez mutantes?! Pensantes. Surpreende o enquadramento negativo, crítico, imposto na convicção fechada, pessoal. A defesa necessária? Uma redoma contra esta ventania. Conviver? Aprendizado e tolerância.

Matiz do amarelo me surpreende porque iluminados, quentes, mas não menosprezo lilases, tampouco azuis… E se gosto das frutas, posso provar cereais, e entender o quibe! Por que não o faria? Tenho mesmo jardim racionado, pátio com frutíferas. No entanto, Albertina, apenas flores no jardim, e divide o quintal entre jasmins e gramado, e mais jasmins. Soube que Maria José cultiva a horta! Orgânicos. E assim a conversa acrescenta, e se abastece.

Escolhas? Vidas que se cruzam, e seguem carregando um pouco do outro… Legumes, hortênsias, amoras e livros. Disse para a filha: te amo porque estás a ler… Ela é só música ao piano! E José? Não sei. Drummond sabia. Penso agora nos amores excludentes.

Para haver uma comunhão diária entre seres humanos, estes precisam ser capazes de falar uns com os outros de maneira conveniente e agradável. Isso não significa que todos vão falar ou pensar as mesmas coisas. Muito pelo contrário, Rousseau sugere que o homem e a mulher trazem oferendas diferentes para a festa, mas precisam ser capazes de se entender mutuamente e estar interessados nisso. A comunhão da compreensão e da fala é o elo mais durável entre homem e mulher. ”

Allan Bloom, projeto romântico de Rousseau, na página cento e nove,

***

Resmungos

O silêncio da solidão! E não está sozinho o homem. Opaco e prolongado silêncio! Segundo pesado, porque não está sozinho este homem. O vazio corta. Depois desta luz tão quieta, escuta o tempo arrulhar.

                                               ***

Luz que invade a janela. Cor, cheiro e vozes. O atropelo, o susto. Irritação, indignação. A correria, o assalto, a mulher morta na calçada.  Criança gritando. Dia de pânico, dois, ou três com muito medo. Solução chegando, polícia, padre… O arco íris depois dos relâmpagos, raios daquela chuva grossa. A crônica. O relato pequeno dos dias de hoje. Ao mesmo tempo, na memória do amor crianças se abraçam: Valentina, Lucas, Anita, Stella, Franco, João, André, Laura, e ainda o Ricardo, a Marina e Antônia, todos amados amores que chegam no mesmo sorriso. No abraço. Na expectativa. Nossos filhos.

DESENCONTRO

Publicado em 30/09/2012por amorasazuis

Meu amigo:

Abro a última gaveta daquela cômoda grande da sala de jantar, agora no canto direito. Ali estão cartas, fichas, rascunhos. Passados tantos anos sem te escrever, retomo a conversa. Transcrevo parágrafos de um livro! Reconheço nesta leitura o sentimento de perda; a inexperiência…  No caso deles, como no nosso, não houve o romance, mas reconhecimento da paixão, e posteriormente amizade.

“Rodin era baixo, troncudo, vigoroso, com o cabelo aparado curto, e umas barbas patriarcais.  Mostrou-me as suas obras com a simplicidade dos grandes homens. Por vezes, murmurava um nome diante das suas estatuas, mas percebia-se que esse nome, qualquer que fosse, não tinha a menor importância para ele. Depois, corria a mão pelas formas da sua criação, como que a afagá-las. Vinha-me a impressão de que sob estas carícias, o mármore se amolecia, igual ao chumbo derretido. Finalmente, pegou num bocado de argila dúctil, e passou a afeiçoá-la entre as palmas musculosas. Enquanto isto resfolegava com força. Todo ele era uma forja em trabalho, crepitando fogo. Num instante tinha moldado um seio de mulher, que lhe palpitava entre os dedos. Tomou-me pela mão, chamou um fiacre e fomos até o meu atelier. Vesti rapidamente a túnica e dancei para ele um idílio de Theocrito, que André Beaunier havia traduzido especialmente para mim:

Pan aimait la nymphe Echo,

Echo aimait Satyre, etc.”

A seguir parei para explicar-lhe minhas novas teorias sobre a dança, mas não foi difícil certificar-me que ele não dava nenhuma atenção às minhas palavras. Sob as pálpebras caídas, fixava-me com olhar brilhante. Depois, com aquela mesma expressão fisionômica que adquiria diante de seus trabalhos, aproximou-se de mim. Passou-me a mão pelo pescoço, pelo peito, acariciou-me os braços, correu-me os dedos pelos quadris, pelas pernas nuas, pelos pés também nus. Pôs-se a modelar-me o corpo, como se estivesse diante de um barro mole. Enquanto isso se desprendia dele um bafo ardente, que me queimava, enlanguescia… Por todo o desejo gostaria de abandonar-me entre os seus braços, e o teria feito, se não fosse a absurda educação por mim recebida, e que me levou a recuar num gesto de pavor. Então, sem mais pensar, enfiei, às pressas, o meu vestido, mesmo por cima da túnica, e conduzi-o precipitadamente até a porta. Que pena! Quantas vezes não lamentei, depois, aquela incompreensão pueril que me privara de oferecer a virgindade ao grande deus Pan, ao poderoso Rodin![1]

Escolhas erradas, ou atropelos do amor? A insegurança não nos permite sonhar com estrelas, mas com margaridas no campo. A beleza complicada, simplicidade. Somos ceifados. O encontro de Isadora com Rodin ferve, mas não transborda…

Lamento o que já não posso desfazer. Penso no que poderia ter sido diferente entre nós dois…O poema inspirou Drummond: eco e ressonância. Pan aimait la nymphe Echo,  Echo aimait Satyre, etc. Curiosa conversa entre homens de diferentes tempos.Tu não és Rodin, não sou Isadora, mas também lamento minha incompreensão…


[1] Ducan,Isadora -Minha Vida – Ed.Livraria José Olympio, Rio de janeiro,1938, p.104/105.

← Outra casa

Ainda Amós OZ →

O BULE ESTÁ NA VITRINE

Tens razão neste ir e vir ficando no mesmo lugar… Os detalhes de um grande vazio? Na verdade um ponto, um texto. E todos juntos a vida. Variantes do mesmo tema?  Uma tela preta, um ponto branco, pode ser nada… Ou o começo. Um bule de chá vermelho pintado… Ou descrito. O começo.

Parece ruim este olhar demorado, mas não é…O objeto e suas diferentes faces! A leitura tem a sua releitura. As suas voltas… Seria como ir ao baile de fantasia todos os anos com a mesma fantasia? O livro. Ou ir sempre ao mesmo baile…Que bom teres escrito! Leio tua carta no prazer, e posso te ver aí sentado na varanda a escrever.

Hoje vi o filme francês Entre os Muros da Escola: impressionante. Voltei estupefata! A imigração, a integração na vida do outro é uma adaptação cruel… Violenta, cruel é a palavra. E todas as adaptações se assemelham… Como a banal relação de homem e mulher: nem sempre usamos a mesma língua. Entender o outro é adaptar-se… Novas referências. Encontramos barreiras, às vezes, intransponíveis como mostra o filme, e também soluções e leveza ao final da batalha.

Não somos diferentes, meu querido, etiquetamos a vida, as pessoas, as coisas. Tens razão, estou a me colocar na liquidação. Os outros são o bom resultado. Enquanto alguns se movimentam entre passeios e restaurantes, sigo entre o quarto e o quarto. Contabilizo…E sem dinheiro parece que não saímos do lugar. Vive-se a supervalorização da moeda como medida de vida possível.

Se morássemos numa ilha: pescaríamos, entraríamos no mar, dormiríamos na rede… Seria como o homem que ascende o farol… E acordaríamos a mesmo tempo que o sol… Parece igual, mas não é. Outras pessoas atravessam ruas, enfrentam o trânsito, comem às pressas, olham e conversam com as mesmas pessoas, equacionam, resolvem. Nós pescamos o peixe. Para eles não basta o peixe, querem o peixe limpo, cozido…Trabalham para comerem o peixe.

Existe a grande história, o grande romance, o sucesso ou o fracasso na ponta da vida… Antes, adaptação.  E sabemos que não tem pote de ouro pra pegar no fim da rua, não na nossa rua…Todos os dias é dia vencido. O tempo atropela. Importa o que escreveste: “No fim somos nós mesmos…”

Ainda não sei a diferença entre comprar o bule vermelho porque é belo (beleza, aliás, q só eu percebo), e comprá-lo como utilitário, para fazer a infusão.

O bule está na vitrine.

                                               ***

FEIO e BELO + beleza = o escrito

Publicado em 16/02/2014por amorasazuis

Depois de disputas e desencontros com a beleza retomo a vontade avassaladora de ser bela, linda, enquadrada no prazer de um olhar, na suavidade ligeira e tocante do desejo. Como resgatá-la? Como desfazer o equívoco? Ou como foi não recebê-la como dádiva? A beleza tem um tempo efêmero de consciência. Depois termina. Depois se desmancha na mesmice de caminhos sempre abertos, facilidades comuns, desperdício de qualidades, de dons. Tantos foram os não aproveitados. Misteriosos sim, mas o resultado?  Zero. Timidez? Equação comum da beleza, facilidades. Desvio. Súbito uma foto, um olhar, o escárnio, a ausência. O peso desta dor-difícil. Desaparece o brilho. Retoma coragem. O feio se arrasta como grilhão, prisão…  E agora como compartilhar esta feiura ofegante, construída? A negativa. Tantos não conhecem a facilidade desta beleza doada com tanta bonomia… A fome, o desejo, a futilidade, um desprezo do fácil chega como apelo. E a nominada beleza se transforma em falta. Surge como falta essencial ao abre-te sésamo da conquista. E o feio se estratifica numa foto, num meio sorriso tímido, na careta transtornada da emoção. E o nublado da tristeza se afigura passado, fim, término. O enterro atropelado, às pressas, de sentimentos outrora fáceis, fluídos… A velada e contida tristeza está no peso daquele gesto que parece folha outonal, amarelada, dourada, perfeita, mas sem conotação do avizinhado inverno… O feio, o disforme, o deslocado, o tropeço ensaiado de não poder ser, fazer, ou estar se estratifica congelado no que será um sempre. O feio é o limite, o último passo pesado do ponto. Por que não podemos suportar o desfazer da beleza, a troca, o despojamento frágil de aceitar a feiúra sem graduá-la nem julgá-la? A beleza se apresenta triunfante. O pequeno ser feio, ou o grande despojado irregular, disforme se fecha na inteireza do momento solitário. Um estranho paralelo. Este é bonito, este é feio. Este começa aquele segue. Este triunfa, aquele outro se afunda. E a beleza se apaga… lá dentro a luz, o brilho, as certezas obscurecem nesta caverna invernosa. Toda a fragilidade se apresenta como certeza certa, terminou. A beleza na sua essencial vitalidade constrange, se reconhece superficial, mas assim mesma essencial. A beleza seria o suporte de um tempo de permanência e facilidade… Um conto de fadas que eterniza o E foram felizes para sempre. Não existe um para sempre no vagar deste olhar pro belo, deste alimento fortificador que a beleza produz. Como se pode um dia afirmar que o belo não seria agregador?

Carreguei a beleza como um peso morto, um obstáculo. Em que curva esquisita do caminho significou dificuldade, obstáculo? Ou foi apenas um capricho do meu julgamento? Desfigurar o belo é pecado contra a vida. Um pedido de perdão! Ser belo, segurar a beleza, encerrar o prazer desta fluidez é sinônimo de eterno, de pra sempre. Assim mesmo percebo o perigo de forjá-la porque é voluntariosa. Tem o seu próprio caminho, e não se desfigura, ou desaparece… E também não está mais lá, não é mais a mesma curva, nem o mesmo ritmo, ficou esquisito, estranho, feio, outro caminho, sem perceber a essência desta beleza pousada. A beleza vem de dentro, como o reflexo no espelho. O outro lado.  Simples assim? Aquela tela, este mar, aquele caminho, a pedra, o livro, a mesa, uma cadeira Pantoche da Lattoog, a palavra, o lápis, a rosa, o vermelho tanto como o amarelo estão ali, belos. O que estou a procurar? A sombra nesta foto não é da beleza, mas a tomada de um momento… Esquerdo.

                                               ***

Fervente

Publicado em 25/02/2013por amorasazuis


Esse te amo dá voltas lá por dentro, como se fosse máquina do tempo. Aquela surpresa de acordar noutro lugar, noutro século, noutra semana, noutro planeta. Tempo de não te ver! Ou no tempo de te ver, e correr pros teus braços! Aquele teu olhar meio de lado de tímido ousado. Aquele menino que se propõe acertar, mas que sente tudo pelo avesso! E que pula para dentro dos livros de Lobato, mas se esconde na Irlanda. E erra como eu errei. Escuto tua voz… E neste outro tempo não temos medo. Olhamos pra trás, contamos os passos, gritamos, e ousamos. Nem o fazer tudo errado nos preocupa, o guri, a guria, – nós juntos, mais ninguém. Que este amor não tenha se gastado, diminuído como palavra! Tantas vezes nos pensamos amando, e assim mesmo o sentimento nos atropela sem sentido! Só palavras.  Não planejamos nada. Crescemos como a Buenos Aires do filme Medianeiras. Exorcizamos o que nos oprime. Não traçamos metas, nem sabemos para onde, agora, queremos ir. Corremos sem olhar pra trás. Retenho tua fala, tua palavra, teu riso brejeiro, teus olhos claros, tua pele morena! Reter tua fala, o eu te amo. Tenho presente este jeito de olhar com meio sorriso, parece ironia, mas vai ver que não é. Tudo incerteza! Esquisito meu amigo amado! Quando dizes que não haverá luz, e assim não podemos nos ver… Eu me pergunto. Mas pra aonde iremos tu e eu, o que é mesmo que eu quero ver? Podemos ir? Ninguém nos prende? Todos nos seguram pelas mãos, pelas pernas, pelos braços, pela cintura. Ninguém quer que tu venhas, nem que eu vá. Tudo imaginação. Quando dizes que não estarás aí, desço da plataforma da nave espacial, portas se fecham, volto pra casa. Penso em mim mesma aqui no fundo das cobertas, ou ali naquele sofá revirando inquieta de um sonho, um sonho que se faz sonho, iluminado, mas é apenas um sonho! Hoje tu não estás lá! Posso tranquilamente preparar o feijão, deixar a carne mal passada, fazer a farofa, escolher bem a salada! Penso que preciso emagrecer para correr e chegar mesmo nos teus braços! Pintar os cabelos, passar todos os cremes pelo corpo, e me perfumar. Vestir uma saia solta porque não gosto de roupas apertadas… Tirar os tênis. Andar descalça. Mas que adianta eu me preparar se não estás aí… Ontem escrevi tanto e tanto querendo ordenar a vida, tão misturada nos desencontros e desacertos que me esqueci de te olhar, concentrada no fazer de me contar…

003 (3) - Cópia

Algumas mágoas voltaram ferventes. E também imprevidências! Excesso de tudo! Eu que gosto das sedas, dos brocados, das luzes e das pratas! Eu que amei a pintura, os livros e a música! Os sapatos de salto alto, a bainha perfeita, a dobra exata, os botões de madrepérola, os bordados delicados! Eu que bebi em cálice de cristal que se quebra tão fácil! Eu que vi filmes épicos acreditando na bravura! Eu que deixei cair tanto orgulho em cada passo! Soberba! Confusa. Obediente. Altruísta como dizia um amigo! Não, não foi nada disso! Nunca fui mulher valente nem guerreira. Nunca encontrei o herói, nem fui princesa… Então abaixo os olhos, penso nas arandelas, nas correntes de ouro, nos ricos anéis, naqueles brincos de pingente, nos bailes, nos bons costureiros, na cabeça erguida, nos soluços abafados. Tem de tudo neste quebra-cabeça. Humildade e orgulho. Então, se a casa é pequena, sem teto nem paredes, se eu respiro, se eu ainda te toco… Que medo! Com o danado do medo o corpo se curva. Eu te beijo na memória de menino.  Entre as árvores daquele quintal de Ipanema, pego tua mão atrás da poltrona, e vamos dormir os dois na mesma hora, na mesma cama, vestidos, eu sei. Sem calcinha? Como se fossemos aqueles bonecos moles de trocar roupa, aqueles bebês de borracha que chegavam aos pacotes com fitas e guarda-roupa naquelas festas de Natal! O que fazíamos? Apressávamos nos a despi-los, depois botávamos em baixo das torneiras, e com trapos enxugávamos, trocávamos de vestido, as fraldas. Depois retorcidos ficavam abandonados no caixote, desgrenhados, despidos. Íamos pular corda, subir nos muros. Ou brincar de rádio: eu girava o botão e tu falavas, ou cantava. Invertíamos os papéis. Eu cantava, ou falava: ‘amanhã fará sol e chuva’. E gostávamos destas longas e perdidas horas de quintal! As bonecas dormiam todas sem fraldas, sem calcinha… As nossas pobres filhas que dávamos comida em pratinhos de plástico, e abandonamos famintas no caixote! E ninguém queria saber o que fazíamos! Ocupados com as visitas, com as conversas, a política… Lembro da Madalena deitada, e da Maria ao lado, dias e noites, noites inteiras acordadas. Ou dias inteiros deitada, e nós enfiados nas histórias que contávamos um pro outro. Eu espichava os olhos pro José. Lindo! Importante! P\ras brincadeiras de dicionário, pros cálculos matemáticos pensando que um dia eu ia acertar como eles, eu ia também ser inteligente, não boba! Eu ia crescer, e me apaixonar pelo homem certo, é claro! Eu ia ser feliz!

                                               ***

RECORTE

Publicado em 29/07/2013por amorasazuis

Busco a memória intacta, o passado ventoso. O frio… A geada branca e negra. E para que serve se não escrevo? Nada gruda no bloco de papel. Páginas soltas. Caixas. Veladas letras! Muitas palavras, mas nada dizem… Este tempo termina, recomeça, vai e volta. Então num beijo longo, num abraço quente vou acordar produtiva. Filhos adultos voltam às costas… Atentos ao amanhã explodem com vidas alegres, mãos dadas, caminham. Outras crianças crescem! É a ordem das coisas. Nascer, crescer e morrer… Então me debruço no peitoril da janela com aquele sorriso de prazer, e com abandono tranquilo de mãe feliz. Me inspiro ao te escrever… Com sentimento de missão cumprida, acabada. Está na hora de viver outra vez dentro de mim. Gosto de redescobrir, de fabricar, de moldar e de pintar. Ouvir… Ouvir e desdobrar o nó daquela emoção. Ler cada vez mais. Me assusto a cada revelação que me surpreende na mesma mesmice. Somos assim tão iguais, tão irmanados na violência, no amor, na traição, na paz, nos suados gestos de descobertas amorosas…  Na paixão, na indiferença e na traição! A fome, a sede. Inquietação, agitação e solidariedade. Não é espantosamente surpreendente sermos todos tão iguais e repetidamente iguais? Não existem paredes nem muros. Estamos sentados ou deitados. Sempre caminhando naquela imensa praça chamada mundo. Com granadas, com barras de ferro. Com raiva roubamos. A quem? Quebramos vidros, carros e ferimos pessoas. Mergulhamos nos lagos nadando sem rumo. Exaustos todos dormimos ali mesmo nos gramados comunitários. E aqueles outros se fartam de bolo, peixe e vinho… Engraçado! Vejo também os magros, sujos e acuados! As crianças abusadas… Todos na mesma cama verde! O Papa abençoa, o mar conversa… Há dança, música e encenação! Tudo aberto ao tempo. E lá estamos estupefatos. Como vamos carregar o teclado pra digitar? Teclar freneticamente contando o que é hoje. Mais tarde colocamos nas estantes estas histórias incríveis. Afinal quem é quem? Somos iguais: nem robôs, nem mutantes, nem temos poderes especiais! Ludibriamos!  Nos enganos nos escondemos. De um, de outro. Voltamos. Gritam palavras de ordem aos meus ouvidos! Não compreendo. Sinto frio e medo. Tanta desordem! Desigualdade? Não. É uma preguiça espreguiçada, acomodada. Deixamo-nos roubar cientes da incapacidade demorada de aprender, de reagir. Sucumbir parece uma ordem! É um fazer. Estamos todos de mãos dadas neste carnaval humano na grande praça… Apertados um contra os outros. Bom que posso ver meus filhos, meus netos, meus irmãos, meus amigos, meus pais, tios, meus amados… Todos juntos e libertos. Pode ver aquele monte, aquele da figueira milenar… A figueira vive muitos anos, não é? Debruçada no peitoril da minha janela imaginária vejo que estão alegres e limpos. Estão salvos. Salvos desta horda de estranhos humanos

Tua mão na minha mão

Publicado em 18/11/2012por amorasazuis

Sol! Vem me buscar. Pega o braço, o corpo. Beija a testa. Aquece a dor. Depois quebra a luz pra ficar noite, pra nascer de novo na água do rio da Restinga Seca que brotou na pedra…Da história te entrego texto fechado: cartas, fotos, nós. Do espaço às caixas, e das caixas presas nas pilhas outras caixas. Solta o braço, bebe a música. Deixa cair tua mão na minha mão.

Porto Alegre, 31 de julho 1987.

Querida Beth,      

Pensei que tivesses te esquecido de mim. Há muito que não recebia notícias tuas. Tua carta – nela tu estás inteira –  me reacende a saudade. Vejo que te jogas de corpo e alma nos teus afazeres, talvez querendo fugir à monotonia da vidinha de província. Eu te compreendo. No interior até o pensamento para. Há no ar um sossego pesado que sufoca. Nesse ambiente é impossível criar. A gente termina mugindo como boi. Porto Alegre também oferece muito pouco. Beth, vivemos num país pobre e choco. Somos pobres, principalmente de cabeça. Talvez tu me aches um pouco amargo e cáustico. Remeto-te dois convites das exposições que realizarei no Rio e São Paulo. Pelas reproduções poderás ver o que faço, isto é, como vejo o mundo. Sei que a minha visão é trágica, sombria. Porém, eu digo a verdade. Beth, eu te quero muito bem. Não esquece isto. Estive em Montevidéu onde fiz uma exposição de desenhos, oportunamente te remeterei xerox do que disseram os críticos. Escreve sempre que for possível. Eu te abraço com o carinho de sempre o Iberê.

                                               ***

Embrião de biografia e saudade

Publicado em 21/10/2012por amorasazuis

Fui ver o mar, lindo! Aberto! Perfumado, inquieto! Barulhento. Colorido. Meu. Contudo, o frio não me permitiu chegar perto: aproveitei o calor e o fogo forte da lareira e do fogão à lenha. Então, cozinhamos o pinhão e o feijão do jeito que têm que ser feitos. Sem os pães e as geleias açucaradas da preta Maria. Na calma, caminhei pela cidade: sem mar, é o feito. Feito? Não, o desfeito. Que bicho mais louco é o homem! Depredador, nocivo, cruel. O mar lá estava, e as pedras também. Ilha dos Lobos. A Lagoa do Violão poluída. O rio Mampituba, escuro, com botos; o mesmo rio que a barra fez aberto… Daquele lado eu gosto, o cheiro é outro: barcos pesqueiros, canoas. Lembra a vida do começo, da barranca. Dos molhes. Pinta mar e rio. Beleza importa sim. Não a das pessoas, mas desta natureza que sobrou.  Como fez frio! Meus sonhos de Cambará do Sul e São José dos Ausentes, hoje, na sombra. Será que eu quero a neve? Será que eu, ainda, quero alguma coisa? Depois o hoje Porto Alegre. Não vou garantir nesta loucura desordenada de tempo sem tempo, falta de coerência, equilíbrio, lugar nenhum no concurso, mas estou tentando, estou quase com a cama-campanha armada no Cursinho. Puxa! Não consigo estudar nem entender estes ditongos e acentos e vírgulas, crase, ortografia: erro tudo. Mas estou tentando, querendo, concentrando. E a Legislação? Cartas rogatórias, precatórias, TJ, Sumário, juiz togado, comarca: vocabulário a se incorporar. Ainda a informática em detalhe, decorando. Não compreendo as questões, a memória é um fiapo, papel comido de traças. Louca, louca mulher. A casa está numa desordem permanente, minha. Os objetos se movimentam pelo chão como pudeste ver. Se me perguntares como consigo tirar as coisas das gavetas, das caixas eu não saberei te responde. Não sei. Sei que te reencontrar foi iluminar tudo por um momento. Depois o real, o silêncio da não chamada. Volto aos papéis, documentos, inquietações, fotos, desânimo: esquisito mesmo, isto tudo faz trânsito pelo chão. O mundo de dentro, estripado, no tapete. Ou mesmo grudado nas portas, como se os lembretes fossem solução! Quando a noite chega e o lobisomem aparece, escondo-me nos lençóis: durmo, durmo, durmo. Não faço nada. Estou doente. Odeio a televisão. Esquisito… Só minha floresta progride. Comprei alpiste e os passarinhos vêm piar e comer nos meus verdes. Não tenho máquina fotográfica, mas, hora desta peço para fotografarem e mando num daqueles papéis impressos para reconheceres a AMAZÔNIA da Beth. Tudo sombrio, com chuva e movimento sacudido pelas samambaias. Já tirei as avencas das frestas, detestam vento. Segundo PHF: “Nada oprime como se imagina que possa, calma mulher”. Mas eu repito. O que oprime é o desejo contido e a falta de verdade interior. O que oprime é o inferno de nos olharmos ao espelho e vermos o diabo: o inferno interior que não queremos revelar aos outros. Oprime a certeza da minha preguiça, as incapacidades, as ilusões frustradas, a idiota vaidade guardada intacta.  Este mesquinho egoísmo e esta opaca mediocridade. Oprime não termos a compreensão nem o espetáculo inteiro, só o palco. As diferenças de linguagem. Por que não aceitar o prazer de estar casa num dia como este? O silêncio. A possibilidade de ler. Estudar o que posso estudar. Aceitar o limite de ser apenas uma mulher comum. Uma mulher igual a todas as outras mulheres comuns. Não sou a Lou Salomé, nem Nais Nïnn. Rever, repassar, adulterar lembranças, explicar os isto e o aquilo. Não há necessidade, mas, ao mesmo tempo é toda esta necessidade da verdade, do despojamento que busco. Não vou me afobar nem me afogar em copo de água, irei mais longe. E, depois, não importa só o palco, mas o espetáculo inteiro. Até a paixão e o beijo importam. Importa que fugi do beijo e do abraço manso e lento.  O beijo da lembrança. Não peguei, nem senti; nem o suor e o cheiro do corpo do outro. O nada e o tudo que o sexo nos dá. Quero o vagar do recomeço. O vagar dos pequenos prazeres que irão construir o espetáculo completo. Então, a casa é o cenário perfeito aonde perdemos e achamos coisas, pessoas, cheiros. A invenção inteira. Não um quarto de passagem, limpo, liso. Os escritores usaram este método masmorra para poderem pensar e escrever, sem distrações. Pessoas e coisas nos atrapalham para pensar e interiorizar o que somos. Apenas tocar no beijo silencioso do amor renova; tudo o mais desgasta. Perde-se o tempo de crescer, de ser alguém. A escravidão. Depois, tudo repetido, nunca original. Se existe o único é o autismo interior. Será que eles têm, tiveram razão? Quando escrevem estão inteiros na loucura que a verdade impõe. Então o menor quarto, a menor casa, o mar, seriam o caminho, o meu. Tropeçamos nas coisas e na ignorância de nós mesmos, paradoxalmente, imóveis. Falta de atenção!… Ficar, assim, com joelhos esfolados, sem dedo, capengas.  Nietzsche. Adorei as convicções, as certezas corajosas: ser pessoas no livro do psicanalista: leitura para todos. Estabelecer o laço da cumplicidade não só amorosa, mas humana. Ou somos animais inferiores? Este jogo das leituras; adoro. Estas pequenas parcerias possíveis que podemos construir, sem espelho, com outra pessoa, divertido, vivo. Da galeria ficou o buraco vazio: as coisas de dinheiro, irregularidades do pouco caso me tocaram, busco solução na lei trabalhista. Deixo de ser passiva.  Isto resolvido, mas já me sinto inquieta. Sabes que estou, também, pedindo o divórcio, assim, resolvo a questão de SCSUL. Bem, agora preciso daquele imóvel. Mas, na justiça tudo é moroso, também nojento. Caminho chafurdando na má intenção dos outros, e, nos meus limites, sem dinheiro. Revolta-me a ganância, a soberba. A falta de generosidade, carinho. A mão que recebemos exige troca. Não há surpresa amorosa nas pessoas: revólveres, granadas, venenos e torturas. Nada de flores. Pão ou chocolate. Nenhum perfume. O fétido das ruas, o mau cheiro das pessoas. Tenho que marchar pra guerra e lá estou treinando o tiro com a velha espingarda de caçar pombos e patos. Tudo proibido. E eu estou lá. Não posso roubar, não consigo encontrar a forma (e roubar já é tão fácil por aqui: as cuecas cheias de dinheiro, escândalos dos ricos na política, o filho mesmo do presidente: guarda-florestal, ou similar agora empresário-fenômeno; o metalúrgico que veste Armani; como é fácil “negociar”, roubar, dar tiros e ficar com a bolsa de dinheiro, invadir bancos pela justiça) e o jeito, fico na intenção.  Não posso desprezar o dinheiro, preciso dele para viver, assim, estou na linha de frente, armada, pronta para atirar, lutar, revidar, esquartejar. Nas trincheiras q a vida impõe. Que parágrafo! AH! Se fosse verdade passar neste concurso! Resolveria as questões de direito e aplacaria a angústia. Dos erros aos acertos. Gostaria de receber um bilhete teu, uma carta, uma troca onde o selo seria o permanente para nós dois. E tudo é lento e manso. Escrever-te lava minha alma. Vou estudar. Com saudade do que não aconteceu.

                                               ***

Temperamentos ardentes

Publicado em 25/03/2014por amorasazuis

imagem020

Estas proximidades que me perturbam, assustam. Incomodam, e me transformam em esquizoide, ovelha, avestruz quem sabe? Fuga constante, medo inteiro de ser descoberta, exposta, de ser continuamente pessoa. Não quero, e ao mesmo tempo careço tanto! Tudo precisa passar pelo clandestino, o não visto, não ostentado, e prazeroso, longo, profundo como aqueles amores que não foram. Enquanto leio Amós Oz estou no kibutz, no sofrimento dele, mas o que faço com o meu sofrer, com as lágrimas que não choram, com esta ignorância histórica, pálida e fria? E com os meus amados juvenis… Todos presentes como o Jairo, por exemplo. Raiva do que não tive? Quero que o vazio salve. A cada um na sua vida, de forma diferente. Tenho olhos para os olhos castanhos dele. Pela casa da sua avó, os chás, a elegância da mãe. Os passeios de carro. Os encontros nas quermesses do Colégio Nossa Senhora das Graças. Por que não estou conversando com ele à beira do Guaíba? Estou presa no kibutz como se eu pudesse me corrigir desta nostalgia toda. Lembro-me dos pintores, escritores, professores, artistas amados. Também dos livros, do fogo nas lareiras! Dos textos. Livros. Cartas. Do pudor, e depois a traição traída depois do velório. Do homem magro, magérrimo, abraço apertado. Buenos Aires, Búzios, Porto Alegre de casais enfeitiçados, e alegres. Acordei? Entre cartas, telegramas, e telefonemas. Amei avoada. Tão avoada como amei a pele

mate, escura… A pele lisa, turca e enfeitiçada pelo físico amor. Ardente. Estou no kibutz a refazer o trajeto, o meu.

                                                           ***

O Bolero de Maurice RAVEL

Publicado em 20/10/2013por amorasazuis

Detesto usar estes óculos pesados. A miopia limita. Queria só beleza, e sou esta esquisitice! Os dentes doem, o aparelho machuca. E o meu cabelo com a chuva encrespa. O vento sacode a janela. O vento assobia. O vento entra no meu quarto. Não consigo me concentrar na música. Estou de castigo. Adianta? Faço tudo às pressas… Detesto este quarto acanhado, o frio, e não ter televisão. Nenhum filme, nenhum jogo, nada. Esta música me atormenta. E dizem que o Bolero foi um sucesso! Moderno. Ruptura. Droga! Com o quê? Ravel não é piano…  Importa. Único. A liberdade de escolher me parece arbitrária. Duas músicas? E se quisesse escutar Vivaldi?  Poderia imaginar que ainda existe aquele pequeno instrumento de cordas, o cravo… Aquelas roupas de seda, veludo, renda. Nos cabelos fitas, joias! E a intimidade. Eu seria a moça de olhos azuis, loira e linda! Aquele para quem ele toca. Mas, também gosto de violinos! A professora pediu para escutar o Bolero de Maurice Ravel. Escolhi a gravação da Orquestra Filarmônica de Munich! Por quê? É famosa! Gosto do espetaculoso, do brilho. Os grandes músicos são alemães! E Ravel? Tenho que justificar?! Acho que esta posição de alerta não me deixa sentir a música. Fecho os olhos para pensar. Detesto quando o professor exige o impossível. Sentir a música, escrever uma história, criar, ser possuída, possuir! Estou perdendo minha sessão da tarde! Se eu não conseguir nota boa, reprovo. E o pior é a leitura em voz alta. Aquele momento em que colegas escutam minha voz. O que estou vendo? O deserto. Areia oriental quente, areia do deserto. O deserto do filme Lawrence das Arábias. Cristaliza-se ali como crosta ardente. Os olhos azuis. E a marcha no deserto. Esta é a visão. Tám,TAM, TAM tantam…E os meus óculos pesam! Tanta areia a derreter as lentes! Esta areia me devora os olhos! A música está entrando em mim! Estou vendo a música. Areia oriental. A ventania faz com que tudo desapareça por um segundo neste deserto sorvedouro de pessoas, de animais. Deserto em todos os sentidos. A música está subindo… esta marcação continuada, rítmica, monótona, e  grandiosa! Recomeçamos a marcha! Alucina, encanta, vibra! Sou chicoteada pela areia. Estremeço de prazer. O deserto me desafia. O céu vermelho, azul. Desconheço esta beleza. Incomum. Escuto todas as músicas ao mesmo tempo! O, no, neste compasso violento batido. Não. Como posso descrever? Apoteótico! E não é Beethoven, deve ter apreendido com ele este Ravel. A repetição nos estremece, e se confunde com o vento que fustiga, não, não é o vento, mas areia. Vou escutar por toda a minha vida o Bolero de Ravel… Não. Prefiro Piazzolla, muito mais latino, e quente! Adoro o jazz. E o Gerry-Mulligan faz tudo ser inquietante único. Quero o Piazzola. E dançar, e ser apertada num tango sem tango… Tudo nunca é do jeito que a gente quer. Quero mesmo escutar muitas, e todas às vezes, e todo o tempo… Escutar esta música de Years-of- Solitude. Melodiosa. Gosto do anonimato de bar, do nada no improviso do hoje. Sem grandiosidade, sem deserto, mas assim mesmo bem sozinha…A música que se descreve!

                                                           ***

TOM SOBRE TOM

Publicado em 20/10/2013por amorasazuis

“Não há nada mais terrível, aprendi então, do que ter de encarar objetos de um morto. Coisas inertes: só têm sentido em função da vida que faz uso delas. Quando essa vida termina, as coisas mudam, embora permaneçam iguais. Estão ali e, no entanto não estão mais: fantasmas tangíveis, condenados a sobreviver em um mundo ao qual já não pertencem. O que se pode pensar, por exemplo, de um armário cheio de roupas silenciosamente a espera de serem usadas de novo por um homem que não virá abrir a porta? Ou dos saquinhos avulsos de preservativos espalhados em gavetas abarrotadas de cuecas e meias. Ou do barbeador elétrico pousado no banheiro, ainda entupido com a poeira dos fios da última bárbara? Ou de uma dúzia de bisnagas vazias de tintura para cabelo, ocultas em um estojo de couro para viagem? – de repente, a revelação de coisas que não temos nenhuma vontade de ver, nenhuma vontade de saber.”[1]

Foto-0049
Foto-0051

Isabel deve começar a encher malas, primeiro as vermelhas. Sair desta casa o mais depressa possível. Livros nas caixas, louças nas cestas, as bebidas no engradado verde. Abre outra garrafa de vinho. Pega um dos cálices coloridos que se alinham com seis copos de bacará, junto aos dois de conhaque, as bolhas. No fundo quatro para uísque, oito de licor. Uma dúzia de copos de cristal uruguaio lapidados. Na prateleira de baixo seis pratos rasos da louça Rosenthal com aquela rosa envolta no buquê de flores do campo, seis pratos fundos, mas apenas quatro xícaras de chá. Pega um dos pratos de bolo. Coloca ameixas pretas, e castanhas. Ainda tem dois pacotes de biscoitos, damascos, um resto de café, uma lata de leite condensado, duas latas de sardinha. Bananas e laranjas. Três ovos. Duas garrafas d’água, e nenhuma fome. Senta no banco de três pés perto do fogo. Coloca mais duas achas de lenha. A lareira se acende com labaredas vermelhas. Está gelado este agosto de 2013. Fica imóvel olhando pra chama. Enquanto o fogo se agarra ao nó de pinho, na lenha seca, amolece o corpo. O dia não clareou. Não escuto o cachorro. As venezianas estão entreabertas. Esqueceu de trancá-las. Deita no pequeno sofá, puxa aquela coberta de lã de ovelha trançada até ao pescoço, mantém as mãos livres e segue da leitura: “Disponho de outras informações relativas a meus pais; sei que elas não me ajudarão em nada a dizer o que gostaria de dizer deles. Quinze anos após a redação desses dois textos, continuo achando que não poderia senão repeti-los: fosse qual fosse a precisão dos detalhes verdadeiros ou falsos, a aridez ou a paixão com que pudesse revesti-los, os fantasmas aos quais pudesse dar livre curso, as fabulações que pudesse desenvolver, sejam quais forem também os progressos que eu possa ter feto nos últimos quinze anos no exercício da escrita, […]”[2] Mãos geladas! Bebe o vinho, come as ameixas. Levanta o corpo, e se coloca recostada no braço do sofá. A coberta nos joelhos. De onde está pode ver a estante de livros abarrotada, e a mesa retangular onde trabalha. Os estanhos: lápis, régua, estilete, esferográficas Bic, um pincel atômico. Fichas, uma pilha de papel A4, duas canetas tinteiro, uma Montblanc, outra Parker, um caderno quadriculado, capa verde, aberto. Um peso de papel, e livros que fazem duas torres. No tapete estão várias caixas de papelão já fechadas, lacradas. Pega os óculos outra vez e segue lendo em voz alta: ”[…] a não querer recomeçar. Isso não se deve como aleguei por muito tempo, a uma alternativa sem fim entre a sinceridade de uma fala a encontrar e o artifício de uma escrita preocupada exclusivamente em erguer suas muralhas: é algo ligado a própria escrita como ao projeto da lembrança. Não sei, não tenho nada a dizer, sei que não digo nada; não sei se o que teria a dizer não é dito por ser indizível (o indizível não está escondido na escrita, é aquilo que muito antes a desencadeou); sei que o que digo é branco, é neutro, é signo de uma vez por todas de um aniquilamento de uma vez por todas. […] É isso o que digo, é isso o que escrevo e é somente isso o que se encontra nas palavras que traço e nas linhas que essas palavras desenham e nos brancos que o intervalo dessas linhas deixa aparecer: por mais que eu persiga meus lapsos ou passe duas horas matutando sobre o comprimento do capote de papel, ou busque em minhas frases, para evidentemente logo encontrá-las, […]. “[3]Isabel começa a chorar. Manso, depois o soluço. Bebe o vinho. Levanta. Abre a caixa que deixou na cadeira azul… Ajoelha no tapete e começa a tirar fotos de dentro do saco plásticos. Uma visita cuidadosa ao passado catalogado: 1936, 1946, 1956, depois 1970, 1980.1999. Volta ao livro de Perec. Lê o texto sem se preocupar com a letra miúda do pai na margem esquerda da página 54. ”[…] sempre irei encontrar, em minha própria repetição, a apenas o último reflexo de uma fala ausente na escrita, o escândalo do silêncio deles e do meu silêncio: não escrevo para dizer que não direi nada, não escrevo para dizer que não tenho nada para dizer. Escrevo: escrevo porque vivemos juntos, porque fui um no meio deles, sombra no meio das sombras, corpo junto de seus corpos; escrevo porque eles deixaram em mim marca indelével e o vestígio disso é a escrita: a lembrança deles está morta na escrita; a escrita é a lembrança de sua morte e a afirmação da minha vida.”[4] O telefone? Não. É a campainha. Enfia os pés na pantufa, pego a chalé amarelo da mãe, passa as mãos no cabelo. Parece ser ainda mais miúda, as franjas sacodem nas pernas do pijama de flanela. Desce os degraus para chegar à porta.  Amanheceu.


[1] Auster, Paul, A invenção da Solidão, Ed Companhia das Letras, 1999. P.17

[2] Perec, George, W ou a memória da infância, Ed.Companhia das Letras, 1995. P.53

[3] Idem Perec. P. 54

[4] Idem Perec. P.54

OUTRA versão sem citações, sem Perec ou Paul Auster

ENCAIXOTANDO

Os livros nas caixas, as louças nas cestas, as bebidas no engradado. Abre outra garrafa de vinho. Pega um dos cálices coloridos que se alinham com seis outros junto aos de conhaque, as bolhas. Ainda tem três pacotes de biscoitos, damascos, um resto de café, uma lata de leite condensado, uma lata de sardinha. Bananas e laranjas. Meia dúzia de ovos. Duas garrafas d’água, e nenhuma fome. Precisa terminar de embalar o que falta. Senta no banco de três pés perto do fogo. Coloca mais achas de lenha na lareira. Está gelado este agosto. As venezianas entreabertas. Isabel boceja! Deita no pequeno sofá, puxa aquela coberta de lã de ovelha trançada até ao pescoço. E onde fica o esvaziar, limpar, classificar, selecionar, eliminar? Empacotar, embalar. Precisa reagir. De onde está pode ver a estante de livros abarrotada, e a mesa retangular cheia: lápis, régua, estilete, esferográficas, pincel atômico. Fichas, uma pilha de papel A4, duas canetas tinteiro, um caderno quadriculado, capa verde, aberto. Um peso de papel, e livros que se transformam em torres. Volta aos papéis, documentos, inquietações, fotos, desânimo. Esquisito, isto tudo faz trânsito pelo chão. O mundo de dentro estripado ali no tapete. Ou mesmo grudado nas portas, como se os lembretes presos nas paredes fossem solução. Estas sucessivas mudanças adoecem o espírito e o corpo. Choveu e ventou a noite inteira. Vasos em caixas de plástico. Manhã escura! A chuva e o movimento sacudido das samambaias arrastam o verde. Abre a caixa que deixou na cadeira azul… Ajoelha no tapete e começa a tirar as fotos dos sacos plásticos. Uma visita cuidadosa ao passado catalogado: 1936, 1946, 1956, 1961 depois 1970, 1980.1999. O telefone? Não. É a campainha. Enfia os pés na pantufa, pego a chalé amarelo da mãe, passa as mãos no cabelo. Parece ser ainda mais miúda, as franjas sacodem nas pernas do pijama de flanela. Desce os degraus para chegar à porta.

                                                           ***

← Pra não esquecer do Paulo

Arandela →

Irritação abafada

Publicado em 30/10/2012por amorasazuis

No apartamento de cima, o toque – toque de saltos altos irrita. Os ruídos da geladeira também interferem. Ainda o quebra-quebra de algum apartamento em reforma. Sinto-me na jaula. Um súbito desassossego dentro de mim. Ainda não encontrei o lugar certo para trabalhar. Estou engasgada com a memória: ganchos do tempo usados para justificar neurastenia, irritação, os venenos da vida. A relação conflitada entre pais e filhos. Os direitos e os deveres. As crianças precisam de atenção, modelo, compreensão e lazer. Se as trajetórias servissem para pontuar! Queixas constantes. O bom se alarga num prazer confuso. As possibilidades se misturam: raiva, mágoa com alegria, conquistas e beijos! De que jeito se processa o processo?

                                               ***

Quarto de Menina

Publicado em 24/10/2012por amorasazuis

Ao subir os degraus que levam ao segundo andar da casa, eu me despeço do embaraço daquela vida entre eles, os da família… As duas janelas do quarto iluminavam bem o ambiente. Pela abertura maior via o telhado das casas, na rua paralela. Os jacarandás, o azul das cachopas sombreava minha cama encostada na parede. No lado oposto, o armário pintado de rosa-claro que se dividia em oito portas.  A salamandra[1], uma poltrona. A mesa retangular embaixo da outra janela, e duas cadeiras. Sobre a forração, um tapete grosso de lã com flores vermelhas. A mesa pequena, do tamanho da máquina de escrever ou vice-versa. Os livros empilhados no chão. Gostava de percorrer a biblioteca da casa, e sair com dois ou três volumes que eu me obrigava a ler no meu quarto. Um dia, escrever, escrever. Contaria do tio de sorriso manso, gentil. Descreveria o gesto quando ele pegou nas suas duas mãos meus peitos pequenos. Diria do som da voz, dos olhos escuros presos no meu corpo, da disponibilidade para me escutar, e consolar das lágrimas. Lembro que me pediu para levantar a saia e mostrar minhas pernas, a barriga; depois esticou os braços num delicado aperto que me reconfortaria, afirmando o quanto eu era bonita, e que certamente seria uma menina talentosa. Pacientemente escutou meu pequeno relato sobre os cães de Maupassant que sobreviviam à crueldade de ser jogados num poço, nos arredores da cidade… O realismo dos contos me impressionava. Quando li a história, chegava a escutar os grunhidos dos animais famintos…Quando ele desceu as escadas, pedindo desculpas por ter me tocado, eu não o compreendi… Naquele dia, fui grata. Estas histórias confusas de conivência. Agora, tantos anos passados! Estarei cobrando o desastrado encontro? A voz estridente voa na minha memória, e o riso fácil esconde o caráter egoísta; ele ainda está vivo. Moralista. Hipócrita. A beleza encobre vícios. As pessoas, nos tempos de hoje, estão a se fantasiar de belas e usam máscaras tão iguais! Encaram suas próprias vidas com a permanência fantasiosa de beleza e juventude. Espantosa liberdade intelectual, moral! Um tio, amigo da casa, sobe as escadas para ler escritos da menina – moça, e consegue, apalpando seu corpo, vaticinar o que aconteceria anos mais tarde… Ou foi a tia que puxou a orelha dizendo que sentasse no seu colo, e sentindo o cheiro de sol na pele dela, preparou um banho morno, e começou a esfregá-la? Alguém descobriu o sinal que tinha na virilha… Estas lembranças de criança ficam sacudidas, cada vez que nos pensamos. Este homem das escadas talvez hoje pinte os cabelos, use um colete para não ter barriga; ou talvez esteja velho, perfumado, engomado. Certamente nunca permitiu que a filha, se filhas teve, ficasse na calçada desacompanhada, ou comprasse balas no armazém. E a mulher, talvez seja uma bela figura da castidade seca. E aos amigos reserve risada fácil, gestos contidos do homem sério que acredita ser. Na memória, o quarto rosa: revistas espalhadas pelo chão. A máquina de escrever, os livros que precisavam ser lidos. E a mão apalpando meus peitos…

Nas outras pessoas, uma resposta para desencontros, insatisfações, quando a inquietude, e o que nos perturba, vem de dentro. Não é a mãe, o filho ou o tio, que nos aborrecem, mas nós que nos aborrecemos com eles, com o mundo. Gestos familiares, heroínas: reproduzimos situações. Inconscientes? Nem somos originais…A solidão, a impossibilidade de nos comunicar, causam mal-estar. O que sentimos, bate nas paredes internas da nossa cabeça, sem eco. Gritamos. Gritamos por qualquer coisa. Exorcizamos, reagimos, e não solucionamos a questão. Quando insatisfeitos, projetamos o desagrado naqueles que estão próximos. E fazemos desagravos, nos contamos histórias para justificar gulodice, preguiça, desacertos. O erro está sempre nos outros. Não sou eu o desastre, mas a manobra do amigo, do filho, da irmã, da vizinha que faz a vida ser assim ou assado. Trocamos de parceiro, abandonamos amigos, trancamos a porta procurando paz… Não há resposta. Então qualquer Maria, ou Isabel, Francisco ou Antônio, transformam-se em pivôs de estranhas insatisfações. Acho que é assim que as histórias se multiplicam na diferente visão do mesmo fato. Imaginam-se possibilidades por sermos amargos, secos, egoístas ou generosos, alegres: revemos escolhas, lamentamos, ou reforçamos situações. Giramos os mecanismos das justificativas. O paradoxo da vida está na pluralidade inexplicável destas histórias. Não pertencem à família, mas ao meu imaginário. A tia malvada, avó algoz, irmã amada, pai compreensivo, mãe ausente, fazem parte da fantasia: existem situações complicadas, percepções internas que justificam ou aplaudem e se misturam a personagens imaginários. Procuramos, aliás, encaixar-nos na boa história, na boa lembrança, no cheiro quente do afeto. Rejeitamos, instintivamente, qualquer concorrência, toda voz amarga; estamos agarrados nas beiradas do edifício que nos parece mais seguro, embora os pés balancem sobre o vazio; permanecemos convictos que aquele é o bom lugar — temos referências emocionais: aquelas que nos justificam. Ouvimos apenas a nossa própria voz.


[1] Espécie de estufa móvel, usada para aquecimento de ambientes domésticos: aquela era toda de ferro, ficava em cima de um quadrado de lajotas vermelhas; num tacho, a lenha adequada para manter o braseiro.

                                                                       ***

CORRESPONDÊNCIA

Sobre estes anúncios

Ocasionalmente, alguns d

Caro amigo:

Passaram-se vinte e nove anos! Outra mudança, desta vez radical quanto a espaço. Os livros aqui, amontoados. Devo abrir um por um: recolher fotos, cartões, talões de cheque e até cartas…Um dia, dois, e no terceiro, encho um carrinho de supermercado, chamo os sebos interessados, e fecho os olhos. Esqueço. Há tanto para ler! Tão pouco tempo! Luxo inviável. Voltei para a cidade: o apartamento? Uma grande sala iluminada, duas janelas rasgadas até o chão abrem as venezianas para uma sacada de um metro e tanto de largura. O balcão de ferro abaulado, uma grade pintada de branco. Coloquei vasos: carreiro de violetas, jasmins, orquídeas, alfazema, uma muda de pitangueira, e um arbusto de primaveras: bom espaço, ensolarado. Pelas venezianas, o jogo de luz. Trouxe os discos de vinil, a pequena vitrola, e muitos caixotes de livros. A estante, eu mesma pintei de vermelho queimado. Gostei de escovar, ordenar…naquela mesa de centro, de duas gavetas, coloquei a pasta de papelão das gravuras, arrumei os livros de arte, dicionário, em cima dois vasos de cristal. quarto não é grande. O banheiro com banheira, espelho sob uma janela de trinta centímetros de largura, lá no alto da parede do sol. O piso com branco e preto. Cozinha apertada.

Passaram-se 29 anos!

Hoje encontrei e reli tuas cartas. Uma delas colada, como se nunca tivesse sido aberta: quatro páginas de letra esparramada. Contas da morte da tua mãe, do testamento, do retrato que encontraste. Naquela tarde, fiquei contigo em pensamento. Estou de férias lá da loja. Olheiras, por noites em claro. Durmo pouco, os carros buzinam, as pessoas gritam, e há gatos na vizinhança. Na calçada, lá em baixo, as mesas do café–restaurante, também uma casa de sucos logo na esquina. Apenas a floricultura fecha as portas cedo. Os jacarandás enfeitam meu horizonte. Sinto-me como se estivesse bem no meio da calçada. Instalei a poltrona de orelhas ao lado da janela; lembras dela? Mandei estofar de amarelo escuro, comprei uma banqueta para apoiar os pés. Ias gostar.

Vinte e nove anos se passaram dos passeios, do café preto, do cigarro mentolado, das frutas secas, e dos pastéis da esquina. 

                                               ***

Fora do CORPO

Insônia. Mais do que falta de sono, falta de energia, falta de sentido. Os amores servem para este tom confidencial que emprestamos a vida. Ficamos a contar desejos, um querer isto, ou aquilo. Fazemos projetos que parecem tão próximos do possível…Com o passar dos anos o sentimento de reconhecimento desaparece. Lágrimas secas. Somos estrangeiros. Desconhecidos num mundo banalmente habitado por nós mesmos. De repente estamos tão completamente isolados! Uma voz sem eco, sem continuidade. As queixas, os cheiros indesejáveis, o movimento de ir e vir das pessoas que nos rodeiam parecem tão inúteis! O corpo dói: costas, pernas, pé, mão, até os dedos doem. Já não podemos mais fazer de conta que teremos tempo, ou não ver, ou deixar de lamentar. Qualquer movimento, pedalar, andar, dançar, nadar, experimentar parece sem sentido! E as pessoas que importam não estão mais aqui, não existem. Sentimos medo. Este sentimento é a insônia. Sem fome, sem sede, mas despertos na noite. Nada que não possa se resolver com um comprimido, mas nada que possa desaparecer, porque amanhã de manhã estaremos com estes mesmos sentimentos ativados na angústia. Desânimo! Enquanto escrevo escuto as vozes dos vizinhos neste eco que os edifícios praianos têm. Aqui não é só o mar que murmura, as pessoas se agitam no entra e saia de verão, o que normalmente designam ‘ estar de férias ‘. Os carros buzinam, não importa que seja noite. E os cães ladram assustados. Por que eles ‘escutam’ este murmúrio permanente. Se eu escuto vozes, mais intensamente a sensação de isolamento me angustia. Neste mundo que se agita não há tempo para internalizar, pensar, ou sonhar, desejar alguma coisa. É preciso buscar as cavernas, o esconderijo certo, o lugar onde nos sentimos resguardados, neutros, sem exigências. O isolamento vem desta rotina vazia, deste não ter o que dizer, deste não reconhecimento do olhar. A solidão chega quando nos damos conta que perdemos o hábito de chorar por amor, desejar alguém, sentir saudade. Temos aquela ideia de que todos estão perfeitamente perfeitos nos lugares onde estão: alimentados, sem sono, aquecidos, sorrindo. Não queremos ser necessários, queremos ser transparentes, mas no fundo, lá dentro a questão é mais séria: gostaria de poder me enxergar no centro, mas não sou o eixo, sou o galho que começa a vergar porque não consigo seguir o fluxo…Perde-se o hábito de querer o amor. Desistimos de desistir para desviar, terminar para encontrar, recomeçar, a solidão chega como o fim do papel, com a ponta do lápis quebrada, o livro com ponto final, o copo vazio. A solidão pesa com o próprio peso do corpo. Fica tudo invertido. Nem um cálice de vinho, depois outro, pode resolver. Nem o banho de mar, nem o sol. Nem ressuscitar o amigo, a coragem, nada modifica este estranho vazio. E estranheza vem do tempo que perdi a casa, o centro, a segurança; quando resolvi deixar para traz a vontade …. Do tempo de casar porque era preciso casar. Vem do tempo de largar o casamento. Aquele vazio do fracasso afetivo. Do amor sem amor. Vem do tempo que me deixei ficar no Rio de Janeiro. Do tempo de voltar para o Rio Grande do Sul. Vem do tempo de apagar incêndios. Vem do tempo de sucumbir aos tropeços, e se deixar levar… Enfrentar o trabalho, largar os livros e estudar; deixar de estudar. Esquecer a menina. Largar o trabalho, a escola. Vem do tempo que me apaixonei por um amontoado de palavras, pelo virtual. E depois entender que nos apaixonamos por um personagem, não por um homem. Ou se chegamos a amar um homem, ele se transforma subitamente em personagem.  Ou num desconhecido. Um estranho que mora na mesma casa que moramos. Depositei tanto sentimento, tanta força, tanta energia num sentimento que desapareceu como desaparece um saco de areia na beira do mar…Claro que existem os filhos, os irmãos, o amigo, o amante, o desconhecido que atravessou a rua, os cães, as crianças, os netos, os tios, os primos, os conhecidos, os sorrisos, as perguntas, os sobrinhos. Mas na insônia, ninguém existe, só a sombra da angústia de uma noite interminável e solitária. Bem! É só uma noite insone. Depois o dia fica cheio de janelas.

                                               ***

CASA PARA MORAR

Publicado em 25/10/2012por amorasazuis

O mundo real apaga-se de uma só vez, quando se vai viver na casa da lembrança. De que valem as casas da rua quando se evoca a casa natal, a casa de intimidade absoluta, a casa onde se adquiriu o sentido de intimidade? Essa casa está distante, está perdida, não a habitamos mais, temos certeza, infelizmente, de que nunca mais a habitaremos. Então ela é mais do que uma lembrança. É uma casa de sonhos, a nossa casa onírica.[1]

Desliga o telefone. Guarda os óculos. Amanhece com temperatura amena depois daquele calor de quarenta graus. Quarto fresco. Na sacola lápis, bloco, e três livros de poemas. Saia de algodão, duas calcinhas. Toalha, escova de dentes, fio dental. Uma calça quadriculada, duas camisetas. O casaco.

Através da porta de vidro da janela, a simetria dos vasos, a trepadeira com flores amarelas esparramada pela larga sacada. O verde inteiro das árvores. A piscina. Cadeiras brancas volteando as duas mesas no jardim-quintal. A rede se prende nos ganchos, atravessa um chão de lajotas. No varal calça de pijamas, cuecas, camisa, vestido estampado, toalha azul, um par de meias. No horizonte o Guaíba. Volta para o interior do quarto. Segura a mochila, a bolsa. Tranca a porta de vidro, desce as escadas. Sai da casa. Os cães latem, sacodem o rabo festejando. Fecha o portão, joga a chave na caixa de correspondência. Começa a voltar para casa. Sem pressa. Subidas, descidas. Os braços doem. A margem do rio parece a do mar. Não sabe por onde começar. Imagina o itinerário. Os joelhos doem. Pés e mãos inchados. Estirada na areia, cabeça na mochila. A caixa de papelão de Basquiat no meio do Central Parque!  É preciso silêncio.’ Se eu pudesse explicar que tua voz me abraça! Se eu morrer quero saibas do equívoco, desejo viver. ’ Encolhe as pernas mesmo com o jeans apertado. Fecha os olhos. Pessoas entram, e saem delas mesmas, assim, fechando os olhos.

[1] Bachelard,Gaston. A Terra e os Devaneios do Repouso. Ed Martins Fontes.São Paulo.1990.p.75.

[2] J.B. Basquiat. Jovem pintor afro-americano. Nasceu em 1960, morreu em 1988.

                                                           ***

← Partilha

Supresa →

Demônios aquartelados

Demônios aquartelados

Deixa o amor do amado te tocar. Não importa que meio adormecida… Deixa que teus demônios avancem aquartelados: isso te fará bem. Mostra ao querido o lado negro, talvez cruel, mas assim mesmo teu. Quando não quiseres responder, não responde. Deixa de ter pena de ti. Abandona as queixas amarelas, vermelhas e azuis… Elas reafirmam o sofrimento. Queremos ter/usar esta armadura pesada a nos proteger, e como Joana D’Arc ter fé inabalável, vencer a guerra. No entanto as mazelas de amor são apenas batalhas… Ganhas ou perdidas, batalhas… As queixas? O pão com café preto de todas as manhãs. Alimenta tuas fantasias, aplaca tua ansiedade com o som da flauta mágica… Confirma tua peregrinação. Se amares o amor, ama. Exerce teu poder de mulher, de criatura. Ultrapassa barreiras de preconceito. Depois! Se não for amo, usa o ponto no final da frase, resolve. Não procura respostas, nem faças perguntas. Abra os braços.

                                                           ***

← Memória redonda

Louco Amor →

Flores brancas para Laila

Publicado em 25/09/2012por amorasazuis

Chove sol, chove calor. Já deves ter chegado a Porto Alegre. Embora se tenha passado um par de dias juntos, pouco foi dito. As raivas de ontem se desmancham nos beijos recheados de olhares mansos. Há saudade na tua presença fugidia.  Momento de alívio quando adormeces vestida; posso afrouxar tua roupa, fechar as cortinas, colocar outro travesseiro para melhor apoiar teu corpo pequeno. Silêncio conciliador neste curto espaço de tempo… Entregue, suspiro no alívio, como se toda tensão pudesse desaparecer. Transformar erros em acertos. Poderiam as queixas se volatizar? A beleza do corpo adormecido transforma o quarto. As cortinas estufam ao vento. E a floração do jasmim perfuma a sala.  Sentada na poltrona que gostas de sentar quando a boa leitura avança, eu posso medir tua mão, teus pés abertos sob os lençóis, tuas ancas porque o vestido que cobre teu corpo está colado na tua pele suada. A perturbação desta contemplação tira o ar, e sinto um enjoo doce e quente desta floração tão próxima da janela. Mastigo as pequenas flores brancas… Minhas narinas abrem e fecham, tenho as mãos molhadas. Adormeço sentada. E a tarde vai esfriando o dia. A chuva fica mais forte. Venta. O verão surpreende.

Durante o tempo em que estivemos juntas imaginei cada palavra que poderia dizer, pensei o discurso, imaginei o pretexto para dizer o que me afligia. Separei qualidades e defeitos.  Mas confundi amor com responsabilidade. Felicidade com abnegação. Elaborei, mentalmente, o que escreveria reconsiderando a dificuldade das longas, retardatárias, ou invasivas cartas. Repassei leituras adequadas, procurei autores que auxiliassem apoiando minha advertência, mas não consegui escrever. Nem dizer.  Não consigo. Sempre adormeço ao teu lado…

                                               ***

← Uma risca de limite

Uma certa Paz →

Outra vez

Publicado em 07/11/2012por amorasazuis

Chove, faz sol, chove, faz calor. Já deves ter chegado ao Rio de Janeiro. Embora se tenha passado um par de dias juntos, pouco foi dito. Como dois apaixonados, as raivas de ontem se desmancham nos beijos recheados de olhares mansos. A saudade plantada na presença fugidia. Momento de alívio quando adormeces vestida; posso afrouxar tua roupa, fechar as cortinas, colocar outro travesseiro para melhor apoiar teu corpo pequeno. Posse do silêncio conciliador neste curto espaço de tempo… Entregue, suspiro no alívio, como se toda tensão pudesse desaparecer. Os erros se transformam em acertos, as queixas se volatizam, a beleza do corpo adormecido transforma o quarto, estufa as cortinas ao vento. E a floração do jasmim perfuma a sala.  Sentada na poltrona que gostas de sentar quando a boa leitura avança, eu posso medir tua mão, teus pés abertos sob os lençóis, tuas ancas porque o vestido que cobre teu corpo está colado na tua pele suada. A perturbação desta contemplação tira o ar, e sinto um enjoo doce e quente desta floração tão próxima da janela. Mastigo as pequenas flores brancas… Minhas narinas abrem e fecham, tenho as mãos molhadas. Adormeço sentado. E a tarde vai esfriando o dia. A chuva fica mais forte. Venta. O verão surpreende.

                                                           ***

← Eu te desejo

Che Guevara, Jung ou Paulo Autran?

Publicado em 27/12/2012por amorasazuis

Amei-te com aquele apaixonado amor que nada explica. Tempo de papel. Ausência. Tanta ausência! Pura imaginação! Sem música, sem riso. Não quero mais a dor. Dor esquerda. Terror. Nem o moço de amar escondido! Da interdição. Avessos ansiosos. Sem Norte. Estou na caixa de papelão, no meio do parque. Longe dos holofotes. Palco vazio.  Conta quem é Che Guevara? Quem te arrasta, e te puxa? Não entendo o olhar, nem a foto. Belo, mas sanguinário. Perfeito? Santo? São Cristóvão, ou São Jorge? Destituídos? Ou Brizola esticado, ampliado? Ou o pequeno Vargas? Atarracado e veloz! Quem diz? Não sei. Não entendo nada. Fala. Explica Napoleão, Mao, Hitler. Pinochet, ou Franco, ou a Rainha Elizabeth? Ou o líder inominável tão esperto, articulado? Quem é bom? Roberto Carlos?  Caetano Veloso? Charles Aznavour? Em quem eu me apoio, no Lacerda? No Prestes? No Bush? Ou no Collor com aquela voz linda, o descamisado… Bibi Ferreira? Paulo Autran? Iberê Camargo? Portinari? Goya?  Ou Rembrandt? Quem? Na RBS TV, nos aços do Rio Grande do Sul? Nos rios que passam em nossas vidas? Neles não mergulhamos duas vezes. Em Belém? Não, no rio São Francisco. No Vianna Moog com seu esquecido Pioneiros e Bandeirantes, ou o México, ou a doce Portugal? Não. Amo a civilizada França. Ou aquela Ilha vitoriosa com rainhas, a vitoriosa Inglaterra! Os Estados Unidos da América? Quero a Noruega, Suécia, ou talvez a Suíça dos meus poetas… Carl Jung?  Onde está este mundo praiano que não é Bósnia. A Turquia. Danúbio Gonçalves. Carmélio Cruz, Glauco Rodrigues.  Não vou negar. Amo com raiva, com fúria. Tuas loiras, teus beijos, a vaidade perdida, tuas idas e vindas silenciosas, e tão barulhentas! Atrás daquela paz prometida, do famoso repouso do guerreiro reconhecido, aplaudido, herói. Roubo, tirania, vilania. Não quero os muçulmanos, o Buda, a seca, o mar antártico, as geleiras. Quero teu olhar azul pacífico. Quem mobiliza e arrasta os fantoches? A última ceia. Agarrados  nas pandorgas que voam, viajamos também nos balões da Capadócia! E ou nos deitamos no mar salgado de Jerusalém. Empunhamos armas, nos escondemos em porões. Abaixo Obama! O meu Obama frágil e forte, contra tudo e todos, eleito, espremido, branqueando sem saber… Danosos preconceitos!  Vou sair tatuada, livre, peitos ao sol, escandalosamente nua.  Desço do ônibus com as malas, desço do ônibus urbano lotado segurando duas malas. Escândalo entrar pela janela do carro sem porta. Como posso esquecer?Que importa este isto, e aquilo que o poder manipula, expõe e seduz. Estou bebendo Chopin! Não. Comendo camarões com vinho branco. E te envergonhas com minha voz alta, com o grito burguês do álcool com o filé com batatas fritas do Bar Lagoa no Rio de Janeiro. Eu glutona, gulosa, rechonchuda de amor… Entrego minha nudez desfeita. E pudica nem corro pro mar gelado de Ipanema! Fico só despida diante dos teus olhos… Recatada, eu te persigo. Eu que não estou nas tuas memórias… Sem texto, e mesmo assim escondida nas palavras esquecidas. Sem direitos, sem mão, sem nenhum empurrão, sem foto de noivado, sem aliança, sem fio de ouro pendurado no pescoço. Sem anel esparramado com brilhantes e desenhos ofuscantes. Onde estão aquelas minas de ouro, minhas, tuas? As pratas, os cristais? Os aventais nos servindo engomados? Debruçamo-nos diante de Gandhi? Joana D’ Arc? Beatles? Não, o Lawrence… Lindo como Peter O’Toole! Vamos ler juntos Os Sete Pilares, e tudo saberemos do deserto, da safadeza da política. Memórias! Ou os vikings? Ou Ulisses amarrado ao mastro enquanto as sereias cantam, seduzem… Amarrado! Ou desbravaremos os sertões com Guimarães Rosa? Esta é a sugestão… Sem cavernas, sem louvores, nem música, nem álcool, ou música, sem gesto, sem beijo demorado, sem língua, sem dedos, sem pernas. Silencioso trabalho de teclar na tela maldita desta computação presente, invasora e útil! Estás naquela sacada aberta pro mar? Teu mar por direito. Abaixo o bem, o mal, o poder, o luxo e a luxúria, o amor que tenho por ti que já não existe. Ele se inventa, este movimento lúcido de saudade. Quero minhas musicas tão piegas, o piano violentando, e as leituras frenéticas. Seguro na minha mão este sentimento picado que chega numa avalanche. Os astros alinhados em Vênus. Segura teu olhar lacrimejante. Qual herói resiste? Eu te conto, o  amor.

Deslocamentos e vagares

Publicado em 22/09/2013por amorasazuis

Manhã cinzenta, seca. Uma brisa. O frio descendo. Preguiça de resfriado contido: calor e frio, depois mais frio. Hora amolecida. Domingo.

Escrever tem apelo, permanência, explicação e resposta. Se posso me inquietar com o que faço, por que faço, onde posso fazer e o que tudo que chamo isso significa, escrevo. A resposta se estende, alonga, espreguiça nesta escrita. Apaixonar, entregar, mistificar, orar, acreditar, querer, rejeitar, estabelecer, ficar. Sorrir. Ou caminhar. Estou nas listas outra vez. Descrever. Abrir os olhos para olhar. A importância da beleza, da inteligência, da conversa, deste silêncio que me importa está na escrita. As respostas. A escrita. O porquê. Tudo isso sai livre e se completa na ideia/desenho/imagem que eu tenho de ti neste momento. Vais ler, vais sorrir, vais compreender ou vais me perguntar. Estou feliz. Um sonambulismo tranquilo. A resposta aguada, definitiva, única, ou aos pedaços para te reter? Eu te penso no meu jeito de te querer. Por que esta pressa toda de conhecer mundo, estar aqui ou ali, saber, ou ignorar, esquecer, ou lembrar? Isso Importa? Por que estás a correr? Escreve, escreve e fica comigo agora. Prometo ler o poema inteiro, o rascunho, as laudas todas. Olharei as fotos de antes, de agora, escutarei a música certa e ficarei ao teu lado silenciosa se quiseres. Tagarelando se pedires. Eu te espio. Espiar com o canto dos olhos e entrar no outro sem sair de mim mesma, aquela magia de ser e não ser. Enquanto lês tens o corpo grande relaxado, as pernas esticadas, desfocado. Bebes o café, o copo d’água alternado, mastigas devagar o gomo ardido. Levantas. Abres a caixa dos bombons. Separas remédios esquecidos, organizas a cesta. Mais água. E voltas para ler, outra vez devagar, sem compreender, passando os olhos, voltando, recomeçando. Folhas e folhas amontoadas, impressas. As manuscritas são bilhetes. Deslocamentos, lugares, velhos, brancos, cinzentos, aqueles são azuis, como as amoras que te levei. Aquela lembrança está vermelha como o fogo. Bebe a tua água. Esquece. Quando fico assim estupefata a orquestra recomeça: música sorrateira dos teus pássaros, ou do vento, da chuva, da garoa silenciosa, e estou/sou o concerto com meus sussurros. Se o piano chegasse com Chopin, ou Mozart, ou Piazzola, qualquer dedilhado me acalmaria. Enfiada na poltrona, contida no copo de uísque ou de conhaque tricoto a manta arco-íris em ponto arroz de quem nada sabe de agulhas. Quieta estou a te pensar ao meu lado, agora. E tu me pegas pela mão e me levas pro cinema.

O passado volta

Publicado em 20/09/2013por amorasazuis

O passado das amoras…
Uma ventania, um uivo. As árvores se dobram, a água da lagoa se agita crespa. Pelas frestas da janela entra o vento. A luz treme como se fosse apagar… Os aparelhos fora das tomadas, menos a geladeira. Sinto a ventania entrando no meu corpo, e fico inquieta. Como se a tempestade pudesse estar mais perto, e o vento levasse muito mais. Não vejo o mar. Pressinto. E queria estar no meio de um tempo diferente…
Volto aos dias mansos da fazenda: dias compridos, amigos, com cheiro de terra, feijão com arroz e batatas. E dentro do vento o silêncio da felicidade mansa de estarmos todos no abrigo. Acendíamos o fogo no galpão, as velas iluminavam o banho aquecido nos tachos, e as conversas se misturavam com as risadas das crianças. De concreto o galpão daquele tempo. Os quartos dos empregados conjugado com o nosso. O chão de terra batida… E o galpão de concreto armado. E o dia seguinte era apenas o outro dia cheio de fazeres, e café forte. Gostávamos de jogar cartas. Apostávamos o amor a cada partida. Dormíamos logo, acordávamos no vermelho do amanhecer. A cerca pequena dividindo a casa do campo. Os cinamomos, os eucaliptos, os açudes a serem feitos, as curvas de nível. O risco do pomar. O jogo de cartas. A sesta. A rede. Os cavalos. E a labuta com bombachas.
O vento que sopra aqui chega lavado em Miguel Pereira… Vocês duas vestem os casacos, e se enroscam nas mantas tricotadas de azul. Aquecem a sopa, conversam baixo, enquanto a televisão conversa com teu pai. A voz deste vento que grita assusta minhas meninas. Penso que ainda queria estar com todos juntos, na serra carioca. Não, quero o Rio Grande do Sul: a casa perto do açude. O marido. Penso nas ovelhas, cães e frutas maduras. Engraçado! As tranças do casamento se torcem! E todos nós estamos de mãos dadas neste tempo de ser feliz! Todos! Os namorados perdidos, os maridos, os filhos deles, os nossos. Estamos protegidos no sonho desta luz de lembrança… O vento que sopra forte, meu, teu, nosso congela os dias. Vou deitar logo porque nesta hora o sono me agarra traiçoeiro, e já está escuro. Apago as velas, acendo a lamparina e começo a contar aquela história de fazer vocês dormirem. A minha história.

amoras azuis

Elizabeth M. B. Mattos

https://amorasazuis.wordpress.com/wp-content/themes/pub/twentyten/images/headers/path.jpg?m=1354156339g

OUTRA vez

Publicado em 17/02/2013por amorasazuis

Como venta! Aqueles velhos ventos torrenses que assobiam, sacodem tudo, gritam que ainda é primavera. Leva todas as folhas, sacode a cidade, e tempera o verão. Tomei banho demorado, perfumado. Prazer na água! O cheiro do sabonete, a esponja esfoliante, prazeroso… Consegui separar um vestido. Abri a mala e pendurei o que ainda faltava guardar. Mas não são as roupas que importam. Faz já tanto tempo que abandonei a vaidade! Também disto preciso tratar! A dor de te perder já passou, mas esta de envelhecer… A danada! A perversa juventude que desaparece! E, esta exigência doente se transforma em nada fazer, em silêncio belicoso. Vou quebrando os gestos, a dor, o prazer como se fossem os legumes do caldo verde que beberei antes de dormir. Na sombra do entardecer observo outra sombra, quero lembrar… Da beleza que nego um braço se espicha pedinte. Equívoco. E as fotos trazem de volta aquela sensação de tempo lacrado, estático. O dia já está terminando, avancei um pouco no que chamo ir ao teu encontro.  Vou. Vou como para descobrir da tristeza arrastada, e da necessitada de me libertar. Impotência e vulnerabilidade. A conversa ‘sacudida’ alterou o dia… Agora estou a pensar nesta doença de ir e vir, neste arrastado movimento que tanto me atrapalha! No envolvimento doente com dores alheias. Este fantasma esquisito de estar sem lugar, este medo que tenho do amanhã. Deste silêncio que se impõe. Da certeza que pesa para mim a conversa, a ideia… Desta vida vazia que se agita com pernas e braços… Por que não posso sentir o prazer completo? Ser mulher? Estou aqui, encostada na cadeira, pensando as palavras que não saem… O encontro que não tenho… Perdida? Empurrada pelo tempo das tuas urgências, seguindo sempre o sinal da emergência, do avançar… Foi no recuo do amor que o afeto surgiu, foi neste tempo escorrido entre medo e dúvida que ajoelhei.

Cartas, conversas telefônicas…Quando fui ao teu encontro definitivamente já não estavas mais lá. Enfrentar a cidade te aterrorizou. E o apartamento vazio. Lembro das duas amplas salas envidraçadas, lindas e vazias. Aquele viver compartimentado! Éramos espectadores do possível!  Recuaste. Neste recuo, nesta volta desapareci atrás dos jacarandás… Desci as ladeiras e me deixei levar. Todas as cartas voltaram. Nem o lápis, nem a caneta, nem o papel, ou qualquer tempo, nem teu amor… Eu me perdi, e ninguém se importou com isto.

O que eu ia mesmo escrever? Eu queria encontrar a saída para tanta instabilidade interior… Ah! Queria te contar do vento de Torres. E do banho perfumado!

                                                           ***

Motivo da angústia, da tristeza súbita nem sempre é objetivo, transparente. Caminhos internos, pequenas decisões nos arremessam para um terreno pantanoso, dolorido. A chaga ferve. A experiência anterior de frustração, o pavor diante do erro se manifesta na paralisação. E queremos dormir. Aquietar o corpo, viajar na sonolência. Estamos no limiar…

Olhei para meu pai sentado na cadeira grande perto da lareira. As portas do alpendre escancaradas. Sob a mesa redonda, abertos os livros de consulta. Quieto, olhos semicerrados, pensativo. Não interrompo. Recuo. Subo as escadas para o quarto. Sentimentos de interdição. As decisões não me parecem objetivas, mas embaralhadas pelo pânico. Abro as duas janelas, e me jogo na cama vestida, eu também espero o tempo passar…

Duas amoreiras carregadas! As frutas estão verdes, algumas rosadas, outras vermelhas. Um matiz de primavera. Sinto frio. É o vento!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               ***

Arandela

Publicado em 30/10/2012por amorasazuis

A chuva começou na madrugada. Acordei para escutar o frescor da noite. Não gosto de quebrar sentimentos, depois não sei consertar. A chuva foi forte, grossa, agitada, mas logo terminou. O abraço se desmancha sozinho. Medo de estar presa, estou sem força de levantar o alçapão. Tudo pode ser diferente, se eu ceder…Um dia a mãe fez um poema com a palavra arandela! As velas estavam acesas…Saudade das certezas!

Sobre estes anúncios

Ocasionalmente, alguns dos seus visitantes podem ver um anúncio aqui.

Conte mais | Ignorar esta mensagem

                                                           ***

← August Strindberg

TORRES de DANÚBIO GONÇALVES →

O lobo comeu Chapeuzinho Vermelho

Publicado em 27/10/2012por amorasazuis

Reluta para começar a mudança. Talvez seja o medo. Todos os dias risca o calendário depois da meia-noite: marca o tempo. Lê até os olhos arderem. Junta letras mecanicamente. Escuta os ruídos das pessoas que se movem no apartamento de cima. Coloca o livro aberto no lado esquerdo da mesa, escreve. A luz fria do computador permite que mesmo no escuro siga teclando aleatoriamente. Interrompe a escrita. Enjoada corre ao banheiro e vomita. Vomita agarrada nas bordas do vaso sanitário. Apoia-se nos braços, ajoelha-se. Mesmo tonta consegue arrastar as pernas até o lavatório. A água escorre nos pulsos, aproxima o rosto: várias vezes enche as mãos em concha para molhar o rosto.  Ter o tempo todo, todo o tempo livre imobiliza. É justamente quando começamos a nos dar conta que não é o fator tempo que impede de agir, mas a abundância de tempo que paralisa. Esta disponibilidade enlouquece. A disponibilidade. O silêncio enjoa. Se conseguir arrumar as gavetas, limpar o quarto… A inércia limita. Caminhar no parque, ou verdejar a planta do vaso com boa água, e terra preta. Olhar as pessoas dentro dos olhos, ou ser gentil? Andar com pés descalços, sentir a água no banho como se fosse mergulho no rio, no mar. Enfim, a natureza precisa entrar no corpo. Beber ilusão. O trabalho das pequenas habilidades parece tão pouco importante! Por ser habilidade tem caráter banal de facilidade, não confiamos no que é fácil. Estranho que estejamos sempre buscando o complicador. Haverá sentido na sobrevida?  O bom desempenho interior, o grau de felicidade, Agora, sabendo da doença, desta súbita partida, quer arrumar a casa, limpar todo medo de morte. Aos menos neste ano que a vida seja serena e ordenada. Que as expectativas estejam na beleza da ordem.  Abre o armário e esvazia as prateiras baixas: todas as botas, sapatos em caixas ou saquinhos. E não encontra o outro pé do sapato verde de camurça do Rui. Supomos que a roupa traga altivez, o luxo da gola de vison, sapatos verdes? Arrumar o armário é rever a história. Olhar, olhar a caixa entreaberta com um pé do par de sapatos como se este destino tivesse ainda outro significado. Um pé do sapato de camurça verde. Estes pedaços de pedaços. Encontrar a boneca vestida de Chapeuzinho Vermelho. Por loucura volta às caixas do corredor da área de serviço. Surpresa! Mais livros, outros livros. Começa a empilhar pelo quarto na tentativa de novas descobertas. Soterrada. Após esta invasão o esvaziamento. Coragem para enfrentar a limpeza. Limpeza do inútil. O Brasil não é um país onde se possa viver em segurança Temos que descobrir qual o lugar seguro para viver. Adaptação. A casa, o silêncio.  Quisera compreender o ciúme.  A boneca vestida de Chapeuzinho Vermelho que o lobo devorou. Quer ver-se ao espelho. Doente, limitada, faz cruzes no calendário.  As mães não se dão conta de que a infância desenha o caráter nas repressões, nas ausências.

                                           ***

Estas são parte de uma reunião que eu acrescentaria outras…MISTURARIA…não sei

CORRESPONDÊNCIA FORA DO TEMPO       

                                                           1.

Caro amigo[1]:

Passaram-se onze anos!

Outra mudança, desta vez radical quanto a espaço.

Os livros aqui, amontoados.

Devo abrir um por um: recolher fotos, cartões, talões de cheque e até cartas…

Um dia, dois, e no terceiro, encho um carrinho de supermercado, chamo os sebos interessados, e fecho os olhos. Esqueço. Há tanto para ler! Tão pouco tempo!

Luxo inviável.

Voltei para a cidade: o apartamento?

Uma grande sala iluminada, duas janelas rasgadas até o chão abrem as venezianas para uma sacada de um metro e tanto de largura. O balcão de ferro abaulado, uma trama pintada de branco. Coloquei vasos: carreiro de violetas, jasmins, orquídeas, alfazema, uma muda de pitangueira e um arbusto de primaveras: bom espaço, ensolarado. Pelas venezianas, o jogo de luz. Trouxe os discos de vinil, a pequena vitrola, caixotes com livros. A estante, eu mesma pintei de vermelho queimado. Gostei de escovar, ordenar…

Naquela mesa baixa, de duas gavetas, coloquei a pasta de papelão das gravuras, arrumei os livros de arte, dicionário, também os dois vasos de cristal.

O quarto não é grande. O banheiro com banheira, espelho sob uma janela de trinta centímetros de largura, lá no alto da parede do sol. O piso com branco e preto. Cozinha apertada.

Passaram-se onze anos!

Hoje encontrei e reli tuas cartas. Uma delas colada, como se nunca tivesse sido aberta: quatro páginas de letra esparramada. Contas da morte da tua mãe, do testamento, do retrato que encontraste. Naquela tarde, fiquei contigo em pensamento.

            Estou de férias lá da loja.

Olheiras, por noites em claro. Durmo pouco, os carros buzinam, as pessoas gritam, e há gatos na vizinhança. 

Na calçada, lá em baixo, as mesas do café–restaurante, também uma casa de sucos logo na esquina. Apenas a floricultura fecha as portas cedo.

Os jacarandás enfeitam meu horizonte. Sinto-me como se estivesse bem no meio da calçada. Instalei a poltrona de orelhas ao lado da janela; lembras dela? Mandei estofar de amarelo escuro, comprei uma banqueta para apoiar os pés. Ias gostar.

E tu não estás aqui.

Onze anos se passaram dos passeios, do café preto, do cigarro mentolado, das frutas secas, e dos pastéis da esquina. Onze anos!

                            2.

Meu amigo:

Abro a última gaveta daquela cômoda grande da sala de jantar, agora no canto direito. Ali estão cartas, fichas, rascunhos.

Passados tantos anos sem te escrever, retomo nossa conversa, transcrevo parágrafos de um livro! Reconheço na leitura o sentimento de perda; a inexperiência.  O encontro de Rodin com Isadora naquela tarde foi uma impossibilidade de fazer acontecer o romance entre eles.

Rodin era baixo, troncudo, vigoroso, com o cabelo aparado curto, e umas barbas patriarcais.  Mostrou-me as suas obras com a simplicidade dos grandes homens. Por vezes, murmurava um nome diante das suas estatuas, mas percebia-se que esse nome, qualquer que fosse, não tinha a menor importância para ele. Depois, corria a mão pelas formas da sua criação, como que a afagá-las. Vinha-me a impressão de que sob estas carícias, o mármore se amolecia, igual ao chumbo derretido. Finalmente, pegou num bocado de argila dúctil e passou a afeiçoá-la entre as palmas musculosas. Enquanto isto resfolegava com força. Todo ele era uma forja em trabalho, crepitando fogo. Num instante tinha moldado um seio de mulher, que lhe palpitava entre os dedos.

Tomou-me pela mão, chamou um fiacre e fomos até o meu atelier. Vesti rapidamente a túnica e dancei para ele um idílio de Theocrito, que André Beaunier havia traduzido especialmente para mim:

 Pan aimait la nymphe Echo,

 Echo aimait Satyre, etc.

A seguir parei para explicar-lhe minhas novas teorias sobre a dança, mas não foi difícil certificar-me que ele não dava nenhuma atenção às minhas palavras. Sob as pálpebras caídas, fixava-me com olhar brilhante. Depois, com aquela mesma expressão fisionômica que adquiria diante de seus trabalhos, aproximou-se de mim. Passou-me a mão pelo pescoço, pelo peito, acariciou-me os braços, correu-me os dedos pelos quadris, pelas pernas nuas, pelos pés também nus. Pôs-se a modelar-me o corpo, como se estivesse diante de um barro mole. Enquanto isso se desprendia dele um bafo ardente, que me queimava, enlanguescia… Por todo o desejo gostaria de abandonar-me entre os seus braços, e o teria feito, se não fosse a absurda educação por mim recebida, e que me levou a recuar num gesto de pavor. Então, sem mais pensar, enfiei, às pressas, o meu vestido, mesmo por cima da túnica, e conduzi-o precipitadamente até a porta. Que pena! Quantas vezes não lamentei, depois, aquela incompreensão pueril que me privara de oferecer a virgindade ao grande deus Pan, ao poderoso Rodin![2]

Escolhas erradas, ou menos?

A insegurança não nos permite sonhar com estrelas, mas com margaridas do campo. A beleza equivocada da simplicidade. Somos ceifados.

O encontro de Isadora com Rodin, uma página.

Lamento o que já não posso desfazer. Penso no que poderia ter sido diferente entre nós dois…

O poema inspirou Drummond: eco e ressonância.

Pan aimait la nymphe Echo,

 Echo aimait Satyre, etc.

Curiosa conversa entre homens de diferentes tempos.

Tu não és Rodin, não sou Isadora, mas também lamento minha incompreensão.

                                                3.

Meu amigo:

Açambarcar, engolir, ver cor nas palavras é o processo. 

Absorvo algazarra. Acompanho correrias e brincadeiras, joelhos esfolados, seguro bolas que rolam nas calçadas, empurro carrinho de boneca, bocejo. Comandos mecânicos.

            O doméstico desta vida junto ao morro, tão diferente da vida na campanha!

Roberto Carlos, depois Beethoven, concerto para piano.

Li o livro que mandaste pelo correio. Passei lençóis, experimentei a nova receita de bolo de laranja. Dormi um pedaço da tarde.

Penso na urgência de fazer alguma coisa que verdadeiramente importe: sair do doméstico, depois de ler tua carta… Mas tens razão quando observaste que nas coisas simples estava a felicidade: marido, casa, arvoredo, gado.

E ainda escreves “e para alimentar a tua fantasia, as nuvens, que nos dias ensolarados, povoam o campo com um rebanho de sombras. ”

E na mesma carta que releio: “Reencontraste o sabor do pão feito em casa, tu que por tanto tempo te nutriste com o pó do asfalto da grande cidade. Eu te compreendo, mas não deixo de pensar na tua formação esmerada, nos teus companheiros, clássicos e modernos, da língua francesa. Tu os abandonaste? ”

Meu amigo, as pessoas acomodam na memória velhas experiências, e como linhas desfeitas, reaproveitáveis de um velho tricô, elas são transformadas em cachecol pras noites de inverno. Prazer quente que senti naquele tempo… Tu também tens saudade das rosetas, dos mata-cavalos, das marias-moles, das guanxumas, e dos carrapichos que jogavas, por maldade, na corujinha da tua irmã negra.

Gosto dessa conversa de missivas, e estou contigo na saudade do Rio de Janeiro.

Diferentes cenários, idênticos e domésticos sentimentos.

Nostalgia ao ler tua carta.

O tempo da campanha foi paz, e crianças: depois ficou tempestade. Somos nós que mudamos por dentro, ou nos surpreendemos com atropelos que nos obrigam a mudar? Lá, a vida se desdobrava mansa… Hoje, inquietude e angústia me estrangulam, mesmo assim, não sei se lamento… Ao ler o que escreves, repasso sentimentos.

Aos teus olhos, aos meus, o novo deve ser ponderado.

4.

            Meu amigo:

            Acordei assustada do sonho.

Fiz chá, acendi as luzes. Vi o dia nascer.

O significado da necessidade não está neste construir e destruir peculiar à natureza humana?

É preciso ser livre para viver, mas desanimo no ócio, no gesto cansado da tristeza.

Há urgência na vida.

Absorvo a minha separação, viramos ex-marido, ex-mulher, esbarro na liberdade vazia.

Que exista esta agonia!

A vida queima, nós queimamos.

 Qual será o momento do encontro? Chegaremos à margem do Guaíba? Ao poente?

O lençol cobre a terra, mas o ar conterá todas as transgressões…

Algumas passagens da vida têm a pincelada do corte, da ruptura com o pedaço interno lá de dentro do corpo; dói.

Cheira a morte, doença. Acabamos sentindo fisicamente aquilo que temos no coração.

Será justo, não será? Por quê? Porquanto fizemos e desfizemos, começamos, recomeçamos. Fizemos e desfizemos, não saímos do lugar, apenas morremos um pouco.

Dias longos chegaram: não estavas aqui — poderias estar.

Desânimo, cansaço igual ao teu.

Quero voltar para nós. Costura minha dor e faz bordado deste arrependimento.

                                                           5.

Meu amigo:

O beijo na escada.

Descrever este momento, abrir a porta…

Existem coisas que se fazemos, mas devemos verbalizar. O equilíbrio estremece. A palavra é volátil: pragmática outras vezes traiçoeira.

Projétil, força, permanência, desvio, contorno.

A palavra escrita, ou pronunciada, efetiva, enfim controvertida.

Depois que mencionei o beijo, passamos a nos beijar sempre que nos pensarmos em escadas. E tu escreveste:

“Sim, eu me lembro. Foi junto à escada, próximo do elevador, na penumbra de uma tarde que está distante.

            Dois lábios se tocaram. Aconteceu sem uma palavra. Esse beijo talvez seja o início do romance que vivemos, sem presença física. Nós nos procuramos, nós nos apalpamos à distância, trocamos carícias. Escondemos nossos sentimentos, nossos desejos, na palavra reservada, nas reticências, nos subentendidos.

            Talvez seja este pecado que nos proíba o encontro.

            Agora, teu cabelo voltou à cor antiga, natural.

            Gosto de te imaginar como antes. Lembro-te na transparência de tuas vestes na intimidade daquele apartamento, em Botafogo.

            Nunca ousei dizer o que se passava no meu íntimo. Contive-me sempre: foi timidez, foi respeito.

            Depois, havia entre nós (…) as crianças, a diferença de idade.

            Também imaginava nada significar para ti. Pensava que tinhas outro alguém no teu coração.

            Custa-me dizer isto, mas se falo, devo ser sincero na minha confissão.

            Tu evocaste o beijo trocado. Essa evocação quebrou o selo do nosso segredo.

            Talvez eu tenha dito o que não devia dizer.

            Se a palavra ofende, rasga esta carta e perdoa.

Trabalho num quadro de grande formato. São três figuras. Há nelas a solidão de sempre.”

Todas as confissões, os segredos, nos tornam pessoas melhores, porque nos humanizamos também no pecado, no arrependimento… E no amor. Estas são nossas boas lembranças.

                                         6.

Meu amigo:

            A chuva transforma, esconde a cidade, na semelhança da bruma, do cinzento.

            De volta a Porto Alegre.

Não reconheci o cheiro: não mais terra molhada, não mais verde derramado da mata, sob a chuva, mas selva de cimento.

            Uma vida arrumada em caixas. 

Existem numerosas espécies e gêneros de hortaliças, porém todas, segundo nossos princípios de classificação, jazem no lodo. Crescem aí e aí são colhidas. Batatas, tomates, chicória e nabos. Seres não-humanos e seres humanos. Alterando a analogia, poder-se-ia dizer que vivemos vidas que estão encaixadas desde o nascimento à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos todos condicionados a viver numa caixa, que, daí em diante, erigimos nossa própria caixa, uma prisão, um receptáculo em nossa volta… Até que, finalmente com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório.[3]

Perdas que nos impuseram. Decisões prementes dos tempos certos para escolher (e nem sempre tão certos, lá, dentro de nós). Perdemos autonomia. Somamos tentativas, queremos crescer, mas permanecemos naquela primeira caixa quente… Útero materno: sem lutar, sem fazer força, sem dor. O conhecido, e primeiro sentimento experimentado… É o amor que nos afoga?

A queixa é sempre o outro.  

Palavras que não explicam; já disseram antes; antes mesmo de ser usadas, estas usadas palavras que saem assim tão rápidas, lá de dentro da gente, num sufoco de angústia: somos palavras… Ou sou pedaço, buscando outro pedaço.

As pessoas justificam a vida, sentimentos quando explicam o mundo dos acontecimentos: guerras, miséria, superpopulação, desmatamento, imigração, poluição, discriminação, doenças. Pensam que estão inseridas no mundo, mas é o mundo que está dentro delas. O mundo (de dentro para fora) é cada um de nós. Nós é que carregamos este mundo, nós o imaginamos.

O mundo é nosso olhar.

Quem tu és — quero saber; diferente de quem eu sou? Assim, tateando, tu e eu, na inquietude da alma, afundamos. Por vaidade e covardia receamos o fracasso antes mesmo de viver o amor.

Aguardo o lançamento do teu livro.

            O milagre pequeno, mas legítimo: contos além das tintas.

            Gosto do silêncio fresco da madrugada, do tronco rugoso da vida que não se conta, mas se dilui em feridas abertas, na culpa, na raiva. Quero me reconhecer em nós dois. Que todos os esforços se soltem no suor…

                                               7.

Meu amigo:

Exposição de amores, risível: temos mesmo que transformá-los em ficção?

Importa descobrir o fio, voltar ao tema. Da possível aresta, renovar o velho, encontrar o bom lugar para uma vaidade menor, a luta desesperada pelo eterno, pelo Era uma vez… Felicidade, ou infelicidade?

Desastroso aos meus olhos perceber que mesmo os velhos amigos ditos especiais, também sucumbem ao ridículo. A vergonha paralisa: não posso ter vergonha, é preciso ousar a vaia. Já confiei na integridade, tropecei em pequenas e grandes mentiras, tudo pela vaidade. A importância que nos damos é de comédia. Temos necessidade de nos misturarmos uns aos outros, e fugir do isolamento. Somos, contudo, reconhecidos de forma diferente daquela com que desejamos ser vistos: estranhos a nós mesmos?

Tornamo-nos confortáveis na intimidade do silêncio.

É preciso encontrar a sobrevivência, mesmo que em desespero.

Palavras e trejeitos escorrem como água perdida. Elas nos fazem pecar.

Surpreendo-me ambivalente, batendo palmas.

Tu, abominável devorador da beleza!   

Plasmei a imagem que seria o retrato: amigo, eu me queria desenhada tal e qual eu mesma me via, não como tu me desejavas. Foi por medo, por vaidade que nunca conversamos sobre nós dois. A mesma vaidade me impede de contar a verdade.

Quem não ousa ser a criança, nunca alcançará o adulto; somos o resultado da infância.

Eu me esgueirava… São aqueles remotos sonhos que brotam agora. E também o baile, a valsa, o samba, o ritmo da saudade: isto é voltar para ti.

Busco oportunidade – inteligência a mover acontecimentos, atrair pessoas: o grupo quer se reconhecer…

Não existe acaso… O correto? Oportunidade de executar. Estou tentada a me corromper.

Não, não é isto. Quero te acordar para discutirmos sobre o que é, ou não, relevante.

Começou a chover e a ventar: escureceu.

E são apenas três e meia da tarde.

                                               8.

Meu querido:

            Se estivesses comigo, eu me sentiria melhor.

O sombrio dos pampas aumenta a nostalgia.

Tu e eu, vacinados pelo sol e pela água salgada do mar, desgostamos do mato e do frio. E carregamos o ranço natural dos vícios; mas só as virtudes nos aquietam, porque surpreendem. Nesta cidade, a cada esquina um conhecido. Há que sorrir amavelmente, balançar a cabeça, e perguntar pelos familiares. O vício da grande cidade desconhecida é a impunidade, que chega à pressa de tudo viver. Escrevo estas coisas para desabafar.

Tua carta tem dor. Sinto-te a salvo pelo trabalho, embora envolvido neste ir e vir de exames de saúde. Afinal, o que sabem de fato os médicos sobre teu mal?

Fui conversar, conforme aconselhaste, com o amigo jornalista; entreguei uma cópia da pesquisa, lemos o artigo que a revista Ponto Certo publicou. Elogiou. Depois, engrenou nas reminiscências, e não concluiu o assunto que me interessava: penoso para mim. Está afastado da editoração, impossibilitado de me ajudar. A idade tirou sua energia empreendedora, ou talvez seja o fato de estar recolhido em Torres, não sei. De repente, se arrastou num monólogo: memória aos borbotões, sem ponto, nem vírgula, ou parágrafo. Contou sobre dos cafés, da confeitaria; descreve a Rua da Praia[4][1], comenta sobre as mulheres.

Quando ficamos muito tempo isolados temos esta tendência de falar sem pausa. Uma pessoa outrora ativa, como ele, recolhida na casa da praia, não é alentador. O isolamento necessário ao intelectual se faz produtivo quando voluntário, não é o caso dele, a filha vendeu a casa em Porto Alegre.

Eu te agradeço a idéia. Acho que desenvolvo exigências estúpidas, meu trabalho não avança. Voltei para casa sem esperança de transformar os estudos em livro. Deixarei os poetas guardados na gaveta, volto aos pintores. Recomeço a pesquisa sobre o pintor Iberê Camargo.

Dou-me conta de que a FIC (Fundação Iberê Camargo) transformou-se em invólucro mais importante do que a obra que abriga.

O sonho do artista, o cuidado de guardar, catalogar, para valorizar seu trabalho, cuidado este que pouco artista possui, foi minimizado.  Nesta primeira exposição, a obra se perde. A arquitetura se impõe. Se o rio Guaíba engolisse tudo, o que se lamentaria? Não ter visitado o museu, ou não ter conhecido a pintura de Iberê Camargo?

O arquiteto português premiado está em todos os jornais locais, e o empresário-presidente, embevecido com o sonho concretizado. Quem sonhou o quê?

Não consigo pensar. O próprio Iberê aprovou o projeto; lamento que a obra do pintor não seja o foco mais importante. Meu amigo, talvez seja apenas eu a incomodada.

Desânimo. Inquietude. Escreve logo.

Anexado a esta te repasso o texto de Calvino: Museu Guggenheim em Nova York.

“Nessas semanas, o assunto obrigatório de todas as conversas nova-iorquinas é o recém-inaugurado museu projetado por Frank Loyd Wright para abrigar a coleção Salomon Guggenheim. Todos o criticam; sou defensor fanático, mas me percebo quase sempre isolado. É uma espécie de torre em espiral, uma rampa contínua de escadas sem degraus, com uma cúpula de vidro. Subindo e nos debruçando, temos sempre uma visão diferente com proporções perfeitas, pois há uma sobressalência semicircular que corrige a espiral, e lá embaixo há uma fatiazinha de canteiro elíptico e uma vidraça com um gomo de jardim, e esses elementos, mudando o tempo todo a qualquer altura estejamos, são exemplos de arquitetura em movimento de exatidão e fantasia únicas. Todos dizem que a arquitetura sobrepuja a pintura e é verdade (parece que Wright odiava os pintores), mas o que importa: a gente vai até lá em primeiro lugar para ver a arquitetura, e depois também os quadros os vemos sempre bem iluminados, uniformemente, que é a primeira coisa. Há o problema do chão sempre inclinado que constitui um problema de como fazer para manter o quadro em pé. Resolveram-no pendurando os quadros não na parede; mas em braços de ferro projetados para a frente da parede ao centro do quadro. De fato o acervo de Guggenheim não é milagroso, à parte a formidável coleção de Kandisnsky que já tínhamos visto em Roma, e há muitas peças de segunda categoria. (Não como o vasto Museum of Modern Art, que tem só obras-primas de tirar o fôlego, ou até as belíssimas salas de pintura. Moderna no Metropolitan, estragadas infelizmente por um horrendo Dalí que as pessoas fazem fila para ver.) Todos concordam ainda em criticar o exterior do Museu Guggenheim, mas eu gosto dele também: é uma espécie de parafuso ou eixo de torno, perfeitamente em harmonia com o interior.”

 Ítalo Calvino in Eremita em Paris – Páginas Autobiográficas.

Ao ler Calvino defendendo o Guggenheim eu me senti sozinha contra  as rampas gaúchas.

Suponho que o isolamento, tal qual nosso amigo jornalista sofre, faz os sentimentos se incendiarem numa indignação inútil. Lamento a morte do pintor Iberê. Vejo a Fundação como homenagem póstuma, e não o projeto firme do artista.

Enquanto leio meus livros posso conversar contigo, reavalio informações, a correspondência do artista. Encontrei este fragmento no Diário americano 1959-60, de Ítalo Calvino.

Naturalmente que eu me incluo no Todos dizem que sublinhei no texto acima, quando penso na Fundação Iberê Camargo.

Não me surpreendi com o arquiteto português premiado, que se inspirou no museu do americano Wright; e fiz o paralelo de nomes, mas fica a obra de Iberê Camargo a ser descoberta. Os trágicos e gigantescos quadros, afinal, ficaram soberbos nas paredes brancas.

Em Porto Alegre, diferentemente de Nova York, os visitantes se surpreendem positivamente com o monumento.

Encontro na minha pesquisa esta observação de Iberê:

            “Minha contestação é feita de renúncia, de não-participação, de não-conivência, de não-alinhamento com o que não considero ético e justo.  Sou como aqueles que, desarmados, deitam-se no meio da rua para impedir a passagem dos carros da morte.  Esta forma de resistência, se praticada por todos, se constituiria em uma força irresistível.  O drama, eu o trago na alma.  A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais íntima que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo.  Não faço mortalha colorida.”[5]

            Amanhã volto a te escrever.

                                                                 9.

Meu amigo:

… Se for infeliz nas palavras, que os gestos te alegrem. Espero que gostes do arbusto com laranjinhas. O presente: pedido de paz. O tom azedo, e as palavras secas ao telefone dizem do estado de espírito escondido no desencontro acidental. Estou atrapalhada com o novo trabalho. Se não te contei antes foi para não interferir na tua vida, também corrida. De qualquer forma, meu amigo, nossa conversa é seguidamente interrompida pelos filhos, ou por um cliente.

 A Primavera avança e logo será Verão. Pula-se o Inverno, quando nunca nos vemos, e logo o Outono. De qualquer forma, não importa a estação, o lugar: amigos, ou beligerantes amantes?

Como te contar meu estado de espírito? Necessário e incompreensível silêncio quebrado. Maldade. Idéia suicida, sem cheiro de rosas. Sem sexo, sem romance. Sem família, sem dinheiro… Sem reclamações.

O inferno sou eu, parodiando Sartre ao inverso.

Medo que impede de acreditar quando te desculpas; aceitar nossa distancia física. Medo.

Tenho contigo esta intimidade dos desatinos escritos; mas preciso também do teu corpo. Sinto como se um feitiço tivesse lacrado esta idéia de sexo, sensualidade, prazer. Pureza parece excesso, mas não é. A pele; juventude do corpo: preciso de ti.

Não me faz feliz ter afazeres domésticos, rotina de trabalho, quero escrever mais…

Estou te enviando uma coletânea de textos: Árvore deste Inferno Morno. Espero que leias. Suponho que não é a idéia toda de um livro, mas a primeira tentativa. Neste momento, concebo como história mesmo sem espinha dorsal; exercício. Instrumentalizada, poderia descrever o que sinto. No redemoinho, o sentimento repetido chega ao essencial… Brinco com as palavras.

Não sou profissional, mas obsessiva. Vaidade e comércio. Sigilo e vilania. As letras são como teus pincéis. Os textos têm cheiro e cor; intoxicam como o óleo das tintas. Queria que estivesses aqui. Afinal, sem confessar as omissões, ficamos os dois a nos espiar: gosto disto.

Que venhas logo, e mostres paciente, o que é a terra no teu parque, entre tuas tantas mulheres, eu. Tomaremos chá e pedalaremos tuas bicicletas. Descobriremos Mercúrio.

Coração oscila no discurso amoroso preso nas paredes da casa, sem vestígios de entrega.

Danificado encontro telefônico.

Cartas rasgadas. Flores, excesso: queima minha mão na tua. Volta aos quintais, às chácaras: frutas, pássaros. A vida que era apenas nossa. Colhe as laranjas: cor e cor… Laranjas, margaridas, estas minúcias que pintam os livros, a alma.

Prometi carta de notícias.

Faz calor, calor sem sol, com chuviscos. O verão chega barulhento, mole. Ócio, vagar… Não, nada disto. Por aqui não se dorme. As horas se embaralham confusas na rotina sem sono, ruidosa, inquieta; trabalha-se o tempo todo inconscientemente porque a programação interna se modifica. Procura-se ocupação. Oxalá pudesse fechar a casa. Paz da serra, ou de mar com areia e rede, sem gente. Os sonhos se misturam… Entender o ritmo? Não consigo envelhecer passivamente. Sigo confusa. Recupero memória, mas não é simples.

Cuido do neto; olhos luminosos. Tardes concentradas na risada, banhos, engatinhadas. Banana, maçã e mingau. Ás vezes, caminhamos pela praia. Vemos o mar. Uso calças comprida, sem sentir calor. Sigo redonda, pesada. Recrimino o pão com manteiga, o vinho com macarrão.

Volto a ler devagar: releio o capítulo anterior cada vez que retomo o livro. As histórias se misturam no cotidiano, e já não sei quem disse isto ou aquilo. Real ou ficção? Não lendo, eu olho. Fico pendurada na sacada seguindo o movimento das pessoas que estão no café.

Depois, volto a folhear uma revista, escovar o cachorro, ordenar as prateleiras. Escrever dois parágrafos…

Fim do dia, exausta. Leio A miséria do jornalismo brasileiro[6]. Cabeça preguiçosa! E me surpreendo pensando! Ninguém costura mais as próprias meias: joga-se no lixo, compram-se novas… Somos descartáveis. Envelhecer não tem conserto. A febre é o delírio do ciúme. Por que preservar?

A América do Norte não consegue eleger um presidente. Sinal importante: confusão ou safadeza? Tudo funciona até o momento de deixar de funcionar: dito inteligente este! Vejo televisão, não, vejo novelas. Desafio gravado. Puxa! A tevê Globo faz bem este trabalho! E Caminhos Cruzados, evidente no Contraponto. É bom ser gente igual a toda gente: Veríssimo ou Huxley? O trabalho de tradução afina o escritor, como ser, profissionalmente, leitor. Eu te conto meu amigo.

Não durmo de madrugada. Não trabalho sessenta horas, mas as regulares quarenta horas semanais. Não converso com as pessoas, por cautela. Olho pela janela; espero o pôr do sol … Escrevo repetidas vezes as mesmas coisas. Será uma brincadeira? Espero o correio chegar, desligo o computador. Escrevo a carta, retomo o velho hábito do envelope e do selo.

Se eu pensar um pouco diria que nunca saí do mesmo lugar, apenas engordei, perdi os cabelos, manchou-se a pele, envelheci. Esta coisa de envelhecer perturba. Criança e velho, iguais. O momento de fermentar está no começo da maturidade (como apontar?) Depois a massa fica derramando pelo forno, queimando, cheirando; mas o bolo é o mesmo: medido, misturado, batido, feito. Sinto falta da verdadeira culinária. Desaprendemos de cozinhar.

Ao envelhecer nos damos conta que desaprendemos o que antes acreditávamos saber. Fica a ilusão.

Que longa carta! Estou outra vez a divagar, devagar.

Gosto destas manhãs!

O descontínuo traz, vez que outra, o melhor. Entender a tragédia e aceitar o riso. Queixo-me da agitação borbulhante. Gritos, garrafas quebradas, aceleração de carros, estúpidos e barulhos consertos da rua:  vida. Como não aceitá-la? Anuncia bailes e bandas aos gritos um caminhão-falante, imprensa local feita de vozes. Compras na liquidação, comida a quilo, pizza no forno a lenha

Na rua central os ônibus estacionam, e os castelhanos fazem festa.

As pessoas quebram hábitos. Torres. É verão, e estamos à beira-mar.

10.

            Meu amigo:

O telefone tocou cedo naquele sábado. Saí de Torres por volta do meio-dia.

Tua casa cheia: amigos, curiosos. Vozes em baixo som de sussurros.

Serviam café, chá, muitas xícaras sobre a mesa, bules.

Fui ao teu encontro, no quarto: fervias por dentro. Tua pele queimava: difícil falar. Teus olhos conversavam, brilhavam, pediam socorro. Ninguém ficou sozinho contigo. Tua mulher deitada, com gripe, desfeita, ao teu lado. Balbuciavas. Segurei tua mão. Chorei seco. Conversamos sem voz: pediste para que eu fosse ver o teu último e gigante quadro, no ateliê.

 Alguém me acompanhou. Abriu a porta e saiu. Pude chorar. Tudo muito patético, teatral, um prólogo de morte. Lá estava o azul da solidão: as três figuras distantes uma da outra e o berço do menino.

 A tua volta ao Rio Grande do Sul — amarga. Compreendi as queixas. O paredão, a luz artificial, janelas fechadas, sem vizinhos, e nas paredes da casa, o mofo…

Enquanto escrevo, traço mentalmente o desenvolvimento do teu mal, a doença. 

Confidenciaste a morte: “Está queimando por dentro. ”

Atravessei a tua solidão, nos dissemos adeus…

Voltei para a sala: as pessoas se apertavam no sofá, bebericavam, mastigavam. Aguardavam a vez de conversar contigo.

Patético ritual de despedida.

De repente foge a intimidade, somos tantos!

Ato público de um choro solidário pelo que acontecia. Era a despedida. Ironia: tu ainda estavas vivo.

Todos ali, amigos, suponho: frequentavam a casa na hora do chá, no almoço. Beberam do vinho; provaram da gelatina com leite condensado, café preto, feijão, arroz: a intimidade das refeições.

             Enfim, está na lembrança, guardado, o dia de nossa despedida nesta derradeira carta que nunca chegou às tuas mãos.

Temos dificuldade de dizer a verdade; aliás, será que a verdade existe?

Trazer de volta uma pessoa ao redesenhá-la. O paradoxo da lembrança: lugar da infância que aquece alma, imaginação, constatar a imensa solidão que se descreve nas paredes da casa. A exata importância do beijo. Afeto, mais do que conturbado amor. Ficção, emoção sem responsabilidade. Lacunas, dúvidas preenchem o texto com a imaginação. Enquanto te penso, escrevo outra história.

Nossas experiências passadas preenchem lacunas… 

                             ***

AQUI OUTRA COISa

              DEVANEIO DE VERÃO

“Miriam pendurava na parede uma reprodução de Santa Catarina, do Veronês. Adorava aquela figura de mulher, sentada à janela, a meditar. As janelas da casa eram demasiadamente pequenas para que alguém se sentasse junto. Mas uma frente da casa estava rodeada de madressilvas e de vinha virgem, e dava para os altos ramos de carvalho, daquele lado do pátio, enquanto a outra das traseiras, quase do tamanho de um lenço, não passava de uma clarabóia que olhava o nascente, e de onde se via a aurora despontar sobre os montes familiares.”[7]

Primeiro Tempo

Errei o rumo: entrei na única e possível loja de tecidos que Porto Alegre abre entre óleos, aquarelas, panos e cheiros: telas, rendas, algodão.

Deleitada pelas sedas de amarelo-ouro, azul-celeste, preto levando ao verde desmanchado em rosado com o branco, mas fechado na palha seca do Manabu Mabe. Compro um tecido, metragem para casaco: seda com roxo, castanhos, pontos em vermelho: saliências entrelaçadas. É o pano usado pelo pintor Kirchnner no seu autorretrato. Saio da loja como a Mariana de Millais: idealizo o vestido de veludo.  Na tela de tema medieval imagino a corrente da castidade. Vejo aberta diante dos vitrais das Virgens a preguiça imóvel. E, também, como ela, não sento na banqueta de estofado vermelho. Atravesso os olhos pela janela, como no quadro, e sonho com as pilhas de tecidos cheirosos do incenso e da madeira lustrosa do mogno… Espio, através dos vidros dos armários fechados, as rendas bordadas. Toco de leve no quadro de um Cristo, pendurado entre estantes, pintado por Georges Rouault: A cruz domina a composição e ocupa toda a tela. Cores ricas e formas rudemente desenhadas aumentam o poder desta imagem de salvação. Toda a realização, inclusive as densas linhas que contornam as áreas de cor, lembra os vitrais

Lembro, agora, o quadro do pintor Graham Sutherland onde a figura de Somerset Maugham está toda em tons de amarelos, castanhos e dourados, com a manta vermelha no pescoço. Escolho estas cores em tecidos de algodão que misturados à seda farão o vestido longo que eu quero usar na dança, depois de beber o vinho e… E então será como O beijo, de Gustav Klimt, onírico. A luxúria e a decadência. Devaneios.[8]

                                               *

Deixo a memória presa em tempos de antes: 1955.

A minha mãe costura e borda com o Glauco Rodrigues a renda de um vestido de princesa que minha irmã usaria no seu baile de quinze anos no Clube do Comércio… Sim, além de ter feito o risco, o desenho, o jovem pintor usa, habilidoso, a agulha: enfia minúsculos canutilhos, contas em azul e prateado. Os dois debruçados no cetim. Todo o ateliê de costura: desenhos e bordados espalhados na sala de jantar que tem portas enormes: ferro com vidro. Abrem-se para um dos jardins internos de dentro da casa da rua Victor Hugo, 229. Estamos todos lá.

Agora sou eu vestida com calça de tecido verde-escura, e blusa transparente, também verde: no pescoço, correntes de ouro. A aliança do pai no dedo anular, para fazer-me mulher. Arrumo os cabelos num lenço de algodão pintado à mão pelo Glauco. As fotos que exigem trocar de roupas, mostrar recantos-cenários da casa, são para a Revista do Globo. Escolho, depois, já cabelos nos ombros, o quadro de Glênio Bianchetti, verde em óleo, O par: foi comprado na última exposição do pintor em Porto Alegre, antes de ir, definitivamente, para Brasília. Também deste artista, a figura dos dois meninos com pandorgas, aquarela dos amarelos: este, não, o reflexo do vidro prejudicaria o resultado. Outras fotos na biblioteca destacando o lambri de louro, as paredes todas com entalhes entre prateleiras. A Revista Forense encadernada de vermelho, as lombadas em couro com as iniciais do pai e a literatura inglesa em couro verde: detalhes próprios da perfeição, talvez uma forma de catalogar, por cores. E não são livros comprados como enfeite, mas manuseados, identificados por anotações.

Estou posando junto ao biombo desenhado a nanquim por Glauco Rodrigues, feito especialmente para aquele espaço: gaúchos, semelhantes aos painéis do cinema da rua da Praia, e  virgens: A Salamanca do Jarau.

E nesta memória, artes plásticas, artistas, pessoas respiram a rua Victor Hugo: alimentam o meuimaginário, e enquanto penso estou em tempo real, a beleza se materializa.

Caminho pela casa. Abro a porta-janela que se alonga no alpendre dos antúrios. Pequena-grande sala que tem a lareira com as vistas de mármore cinza. Danúbio Gonçalves, tela em óleo, sobre a lareira, o quadro está preso na saliência da chaminé. O vermelho do fogo na tela: personagem artista-ferroviário sentado em poltrona. Cinza, rosa, tem verde? Efeito de listas no espaldar da cadeira. Vejo a mesa redonda com gavetas redondas, o prato com limões e peras, livros, revistas. Pesadas cortinas lavradas.

                                               *

Observo o terno bege que ele usa: linho verão. Caminha pelo encerado da tábua corrida, ou pelos vermelhos dos tapetes. A camisa é branca, cambraia, não usa gravata, tem os primeiros botões abertos. Homem bonito.

Seduziria.

Juntos passearíamos.

Longas mãos, boca sensual, testa larga: fantasia de Deus.

Um rapaz, cabelos puxados para trás, lambidos, compridos, nos oferece em bandeja de junco água fresca, na jarra: os cálices são pequenos. Logo depois desaparece no fundo da sala.

A loja está silenciosa, nenhum cliente. É o verão que se fecha nesta hora mais quente. Sigo olhando entre os panos abertos nos balcões. Sigo olhando para o homem: olhos escuros. Reparo nos gestos lentos. Escuto a voz mansa, cadenciada. Eu e ele, ele e eu. Observo, espio, vejo. Sem falar, levanto os olhos para as estantes, mexo os pés em passos miúdos. Busco olhar o melhor. A cor. As peças abertas; posso escolher. Tocar. Compro nos tecidos a luxúria.

Estou pronta…

            Esqueço que saí de casa para ir até a Praça da Alfândega, compromisso com a Feira do Livro, com os poemas, as novelas de Paulo Hecker Filho. Caminho pela calçada; esqueço o sol: sigo meu rumo.

Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos, são apenas ilusões e enganos; pensarei que o gênio maligno do desejo serve-se disto tudo para surpreender-me. O amortecimento dos afetos, a drenagem do fluxo, a meu ver vital, são responsáveis pela alienação do homem grávido dele mesmo. Ele se redefine. Alienação que distancia o sujeito do mundo real.

Então sou colorida, madura. O desejo está nas minhas mãos. Vou comprar os livros agora.

É o agora ser feliz.

Um instinto imoral, profundo no espírito do homem, é, pois, plenamente, um senso do belo. Isto é o que ele desenvolve para seu deleite, na multiplicidade de formas, sons e odores entre os quais decorre sua existência.[9]

… Se a Feira do Livro na Praça da Alfândega não estivesse pândega com sua patronnesse embaixo de elegantíssimo chapéu de palha, batom vermelho, saia longa escorrendo pelas pernas, olhar vago de musa semidesmaiada…Se não estivesse tão quente!

Escorrego no dever e vou para a Feira do Livro.Transpiro esperando o teu autógrafo, fico numa fila enorme. Nos teus braços, na tua voz, estarei a salvo…Malditas tentações! E observo teu sorriso, acompanho teus dedos na tinta dos autógrafos.

                                                           *

Retorno à Loja de Tecidos no dia seguinte. Incansavelmente, exijo a repetição da mesma história. O reencontro da identidade é em si mesmo fonte de prazer. Repetir os acontecimentos da vida é estar fora e acima do princípio do dever. Fica o prazer.  Retorno.

                                  Segundo  Tempo

Deixo-me queimar. Estou como as mulatas do Caribé: entraram, invadiram as cadeiras, elas estão sentadas. Agora deitadas em meu sofá, preguiçosas e vazias. Lânguidas e queixosas; úmidas e solitárias como eu: nos observamos. O quadro O muro rosa nunca será vendido: renegado, embora tenha circulado pelos jornais  e leilões paulistanos…Ele é mais do que a síntese que qualificou o artista baiano-estrangeiro, Caribé. O que eu faço aqui com elas – as mulatas?

A infância, bem como a memória histórica, são fontes de erros, enganos. A imaginação é descaminho na vida. Real, apenas no poema, nas letras, na tinta, no som da sinfonia.

Persigo datas, novos valores. 

Já estive neste lugar, junto ao fogo, inteiramente nua dentro do meu leito de prazer.

Outra vez pensarei que o céu, o ar, as cores, as figuras, os sons, e todas as coisas exteriores que vejo, são apenas ilusões e enganos. Reconstruí o homem: cera caseira, sem cor, moldado ele todo pelos meus dedos. Percorri seu corpo. A tez escura, olhos pretos, nariz grande, boca maior, rasgada; braços e mãos de pescador. Quente, terno e violento. Toda desejo no corpo dele.

 Compro flores. Baú com chave para guardar as cartas, um relógio de marcar tempo, com lupa de aumentar tempo. Um par de brincos torcidos, de ouro, pendurados, pérolas, ametista em bruto. Levei dois cálices para água, dois para o vinho. Muitas frutas: lustradas, cheirosas e pendentes na pequena cesta italiana. Chás, os mais variados: ervas naturais. Hortênsias. Duas garrafas de vinho de procedências diferentes.

 Pintei os cabelos com mechas coloridas.

 Seduzo com bilhetes, telegramas e telefonemas no meio da noite. Releio Paris é uma festa, e recomendo que Não apresse o rio (pois) ele corre sozinho.

                                               *

Vesti uma roupa de mulher, invadi a calçada, a loja. E, pela grande vitrina, eu o enxergo. Lá está junto à mercadoria primorosa que chega das Índias, China, Paquistão e África: exótica visão. Os tecidos como cascata seduzem o passante. Entro, sento na cadeira chanfrada. Depois, apoio meus braços na borda da mesa que ostenta dois castiçais de estanho, um prato de cerâmica inglesa…  É a antessala das prateleiras e dos tecidos.

— Uma sala de chá à inglesa?

 Respondo para mim mesma:

— Não, estamos em Porto Alegre. É verão, os jacarandás roxos, os ipês amarelos, e o verde por tudo. Calçadas pequenas, as velhas casas tombadas, tomadas pelo comércio. O que eu faço? Ele se volta em minha direção atento. Entrego o envelope lacrado, a carta. Penso no piquenique do amor!  Paro outra vez, para olhar os quadros pendurados nas paredes recobertas de madeira: são reproduções emolduradas com luxo barroco.  As molduras tomam uma parede inteira: o retrato de Yvonne Lerolle, de Maurice Denis,1897. Também outra analogia, A jovem professora, de Jean-Batiste Siméon Chardin, vigorosas figuras iluminadas: mestre e aprendiz. Ainda a tela em dimensões de 80×120, pouco mais, pouco menos, Uma visita agradável, de William Merritt Chase,1895, óleo sobre tela, quadro grande. Duas mulheres elegantes estão sentadas num sofá, conversando. A luz do sol invade o aposento, iluminando os tons da paleta clara do artista. Não é uma cena posada formalmente, mas uma cena típica do dia-a-dia. 

Pudesse eu pintar aquela loja com a luz da sensação inteira de acolher, abrir e fechar. Possível descrever?

Adiante, outra parede abriga, entre duas estantes enormes carregadas de veludos e cetins pelos dois lados, O devaneio, de Dante Gabriel Rossetti. O próprio quadro não dá qualquer indicação quanto à natureza ou ao tema do devaneio desta bela mulher, embora esteja tão absorvida por ele, que o livro e a flor foram largados em seu colo. Os vários matizes do verde que a envolvem, nas dobras de seu vestido, e as folhas das árvores que a emolduram, contribuem para a sensualidade geral desta pintura.   Agrada o verde pousado na sala dos tecidos: os olhos abertos da figura feminina em devaneio. Este verde sobe pelos dedos longos que prendem o galho frágil de um arbusto: mistura da roupa, também, verde, cetim brilhante, com jardim de Rossetti, o pintor. Os olhos dela, ou os meus, naquela tela?

Toquei nove vezes o prazer, agucei os sentidos, sorvi.

Esqueci de voltar para casa. Estou presa no verão de Porto Alegre.

Agora, saio da loja: todo o verão de novembro entra, outra vez, no meu corpo.

                                                ***                                                   

Paty do Alferes
Paty do Alferes

Onde estará a Soraia? Onde estarão teus alunos? Teu livros? Textos. O sorriso. Saudades.  Maria Helena? Amores intensos! Onde tua vontade de recomeçar, meu amigo? Onde enterraste inquietudes? Pacientemente, aos poucos, foste doando as roupas, os móveis, o luxo, as lembranças. Despojado, íntegro, como sempre acreditaste ser o certo. Agora apenas borboletas te cercam. Vou procurar teus amados amigos do tempo e do silêncio, aqueles que sabem quem és … E voltaremos. Aos netos teus livros infantis, ilustrados. As violas, violões, teu trabalho se movimenta colorido. Perfeito. Tua mão. Delicadeza do olhar. Afinal, estamos contigo aqui em Paty dos Alferes, e no silêncio tu falas, e no frescor do dia,  tocas violão e cantas, conversas em francês… Gosto. O céu bate em nossas cabeças, e podemos jogar cartas, jogando a vida na sorte. Colas, recolhes, inventas, acertas, e o prazer te dobra num sorriso comedido. O prazer de fazer. Como te sinto!

Que importa não te compreenderem os comuns? Nada. Nós velaremos tua lembrança nas incoerências. Jogaremos fora dispendiosos adereços inúteis… Vamos semear as flores. Ouvir o silêncio.

Espanto. Silêncio. Tanta dor! Tanto escuro! Depois morte. Depois medo. Depois estranhamento. Lágrima, depois soluço. Sono. Tanto sono! Depois quietude. Depois de tantos outros depois inexplicáveis… Raiva, outra dor. Insuportável incerteza. Não foi dito. Depois olhar, olhar… A terra devora. Pedras. Ladeira, trilha. Difícil! Retrato: flores, céu, ternura verde. Quietude. E a beleza se explica. Alívio endurecido, agônico, vazio. E já uma saudade pequena, enviesada…

319063_4501317863565_1891555498_n

 Fotos de Luiza M. Domingues

Para IBERÊ CAMARGO agora, século XXI, 2009.

Meu amigo:

Sinto falta das tuas cartas… Da conversa.

Penso no tempo que perdi, e na história que não aconteceu.

Não conseguimos nos comunicar pelo pensamento; não existem relações confiáveis se não temos olho no olho, sem o toque não se sabe de sentimentos… É difícil conhecer o outro na distância…

O que nos restou foi o silêncio do não vivido.

Dizes e ouves palavras, mas elas não têm o mesmo significado em bocas diferentes. Ouves e pensas, mas estas palavras não ultrapassam a realidade vivida. E isto ainda não é nada: nem uma palavra, nem uma só tem sentido completo na vida: elas ultrapassam a realidade. Dizes amor e ódio… Não há amor, não há ódio, não há amigos, não há inimigos, não há fé, não há paixão, não há bem, não há mal…

Estivemos tão poucas vezes juntos!

O que nos dissemos não conta o que de fato vivemos.

Ao te escrever volto às cartas que não chegaram; nas possibilidades que perdi. Penso no que não apreendi. Apesar das inúmeras vezes em que me estendeste a mão, nada aproveitei.

Por tanto tempo estivemos perto, estando separados. Ao te escrever, meu desespero derramava aflições sobre nós, medo. Tu me acalentavas com ternura, prestavas socorro.

Quantas vezes eu acreditei estar contigo, mesmo sem te tocar. Depois recuava assustada. Não se tratava de conviver; mantínhamos um sentimento suspenso, não explicado.

Eu me apoiava egoisticamente em ti; tinhas o brilho, a inteligência que me alimentava. Minhas cartas, tantas vezes ilegíveis, te faziam voltar pra mim… Enchias meu coração. Escrevia sabendo que nos próximos dias podia contar com mais uma resposta, um desenho, uma notícia recortada por ti: eu me envaidecia… Levianamente descuidei-me delas, por isto muitas se perderam, como teus desenhos ilustrativos: tua ironia, tua generosidade se perdeu entre livros, no meu descaso. Restou pequena mostra da nossa relação. 

Quando fui visitar Brito Velho, a pedido teu, por exemplo, levei em mãos tua carta de apresentação… E na mesa da sala dele, depois de sua fala desalinhavada e saudosista, não me ocorreu guardar o bilhete… Ficou lá, na casa de Torres, onde ele tinha se recolhido para envelhecer.

Eu não tenho méritos. E tu não estás aqui para dar motivos por tão longa amizade…

Sinto-me envergonhada quando as pessoas me perguntam por que não escrevo a nossa história, revelo tuas cartas, conto o que nos aconteceu. Deveria contar o que não aconteceu?

Um dia, por exemplo, eu fui te ver no ateliê, já em Porto Alegre. Escrevias tuas memórias. Depois do incidente do tiro no Rio de Janeiro, resolveste te voltar para as letras, antes de voltar à tua pintura figurativa. Acho mesmo que certos fatos definem o rumo. Uma desgraça, depois o sofrimento até chegar a reconhecido, definitivo, como um dos maiores artistas brasileiros. Naquele dia eu vestia roupa estranha: saia plissada, caindo depois dos joelhos, cadeirão; uma blusa com mangas curtas, solta, sem decote. Um uniforme de colegial cor-de-rosa. Não consigo esquecer, porque sendo alto verão, bastante quente, achaste graça daquele traje recatado e cerimonioso. Bebi água, toda água possível. Estava nervosa. Deveria fazer a leitura dos teus originais. Opinar. Ficar contigo. Trabalhar. Não consegui sair da ponta da cadeira, empertigada. Senti medo de ti, de nós dois sozinhos naquele imenso ateliê de Nonoai. Lembro que colocaste a mão nos meus joelhos, tentaste te aproximar. Que horror! Retraída fui logo me afastando.

Ficou na memória meu jeito sem jeito. A leitura de alguns textos prosseguiu.

 Perdemos a possibilidade de conversa mais íntima: eu te intimidava tanto quanto tu me intimidavas. Sem entendimento.

 Eu não voltei mais sozinha à tua casa, e quando fui não te encontrei. Uma vez levei minha irmã.

Ao longo dos anos, desastradamente, eu te escrevia cartas que diziam o que eu não sentia… Não exatamente o que era ou como era…

Também não neguei a história de amor.  Foram provocantes as cartas. Sei que pediste ao Eduardo que me devolvesse todas – soube disto no dia que voltei a Porto Alegre, e já estavas muito mal. Quase não falavas… Ele não seguiu tua ordem. Quis fazer uma troca, as tuas, pelas minhas. Ora, o que escrevi não significava nem significa nada. As tuas são memória.

Naquele dia nem sequer pudemos verdadeiramente nos despedir, porque a Maria ficou o tempo todo recostada na cama contigo, ela não te deixou sozinho. Teus amigos entraram e saíram sem nenhuma intimidade. Naquela ocasião conheci Flávio Tavares.

Tu e eu, quando entrei no quarto, ficamos apenas nos olhando: acariciei tua mão — tudo queimava, tu me disseste. Não sei se eram os sentimentos, o coração, a dor, o câncer, ou o que nunca nos dissemos. Pediste que eu fosse ver teu último quadro… Eu fui. Lá me deixaram sozinha. Chorei. Chorei diante de nós três retratados naquelas figuras desesperadas… Três solitárias figuras perdidas no azul.

Foi então que entendi a tua mulher: cão fiel, que inibia qualquer manifestação amorosa… Ela guardava a tua fidelidade, o amor absoluto… Contudo, sabemos que a vida não pode ser assim, sob vigilância, o amor. Somos livres. 

Observando naquele dia miserável teu corpo entregue, e ela se apresentar doente, mas vigilante como um guarda-costas, dei-me conta de que nunca poderíamos mesmo ter realizado nada que não se fizesse pecado. Pecado seria porque ela nos observava pela fechadura, estivéssemos onde estivéssemos. Lembrei tuas cartas reticentes quanto aos telefones vigiados… Todos com ouvidos… Das mudanças de endereço para que pudéssemos nos dizer o indizível. Até das cartas surrupiadas pelo meu marido. Da prisão vigiada que é uma vida a dois… Dos amores não vividos. Nós perdemos.

O curioso desta história é que ficou a desconfiança entre conhecidos, amigos e estranhos. A história seguiu seu curso sem nós dois.

Se eu contasse que estivemos na cama juntos fazendo amor, ninguém poderia negar, acreditariam. Nada pode ser mais real para nós dois do que o sexo. Se eu dissesse que me amaste com paixão, quem poderia negar? Se eu contasse as histórias como de fato aconteceram… Se eu narrasse o que confidenciaste ao pé do meu ouvido… Se tivéssemos sido amantes, amados, quem duvidaria?  Fomos diversas vezes interceptados por desconfiança. Assim mesmo acabei meu casamento, e o câncer acabou contigo. Porto Alegre te devorou. A solidão te queimou. Aquela casa-ateliê foi o túmulo.

Tuas cartas contam do desespero na volta ao Rio Grande do Sul. A Rua da Praia tinha desaparecido; as idas ao café eram silenciosas, os amigos retraídos, os muros da casa… O sombrio lugar de trabalho, somado à prisão no Rio de Janeiro, te consumiram.

Se for verdade que um dia traíste a tua Maria com outras mulheres, quando vieste pra Porto Alegre, não podias mais respirar… Eu era tua única possibilidade: tu te agarraste a ela. Sussurraste meu nome nos teus últimos dias.

Quando entrei na tua casa, depois do telefonema da Istellita, todos os que estavam lá me reconheceram, sem nunca ter-me visto. Ao me lembrar disto tudo, sinto vergonha. Vergonha por não ter cedido, por não reconhecer o amor que poderia tornar-se real.

Eu não te merecia, meu amigo. Passei minha vida fugindo da vida, escamoteada em pequenas histórias medíocres.  Seduzindo, mas me recolhendo covarde. Cheia das tantas palavras vazias…

 Soterrada na literatura do faz-de-conta.

Nossas cartas, tuas cartas, revelam este meu desvendamento sorrateiro. Eu te entregava sentimentos em letra descuidada; saboreava tua angústia, teu conselho, o desejo picotado em cartas sigilosas. Tudo mentira. Fui mesquinha e cruel. Maltratei nossa correspondência como uma colegial frívola. Não respeitei o homem dos pincéis, a tua história, tua posição. Não cedi. E tu não tiveste a tua maja. Tu te pretendias o nosso GOYA, e por que não pude posar para o retrato? Por que esconder a história que vivemos?  Transitei entre a hipocrisia dos bons costumes e a possibilidade dos sentimentos inteiros. Deverias ter pintado meu retrato. Deveria ter me permitido experimentar.

Na carta que respondes ao beijo da escada comentas que nunca te permitiste revelar sentimentos porque supunhas que eu tinha um amor. Quem era meu amor? Homem simples e fiel, demonstraste respeito. Fiel ao teu afeto, aos amigos, ao amor que sentias por mim.

Eu quebrei a redoma mencionando um beijo. E nos faço despudorados contando a história.

Quando nos sentimos solitários, acionamos reservas. Tuas cartas alimentavam minha carência, meu medo. Dou-me conta que o amor, fio fugaz, esticou minha vida.

Fútil, superficial, eu borboleteava, tecia a teia, mas não me deixava pegar… E tu pintavas, escrevias.

A história que tenho para contar a respeito dos nossos encontros não terminariam no ponto final, a curiosidade da nossa relação de trinta anos persiste. Os teus últimos trinta anos.

Quero que leias mais esta carta, que não será a última.

Elizabeth Menna Barreto Mattos  – Porto Alegre, 2010.


[1] Francisco Assis Mattoso.

[2] Ducan,Isadora -Minha Vida – Ed.Livraria José Olympio, Rio de janeiro,1938, p.104/105.

[3] Cooper,David. Psiquiatria e Antipsiquiatria. Editora perspectiva. Coleção Debates. São Paulo. P.35.

[5] Data da carta

[6] Juremir Machado.

[7] Filhos e Amantes, de D.H.Lawrence.

[8]  A reprodução das telas citadas, e descrições se encontram no Livro de Arte, de Mônica Sthahel: Ernest L. Kirchnner,  Autorretrato; Sir J.John E.Millais Mariana; Georges Roualt Cristo na Cruz; Graham Sutherland, Retrato de Somerset Maugham.

[9] Edgar Allan Poe in O Princípio Poético: tradução de Roberto A.Q. de Souza.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s