Fora do CORPO

Insônia. Mais do que falta de sono, falta de energia,falta de sentido. Os amores servem para este tom confidencial que emprestamos a vida. Ficamos a contar desejos, um querer isto, ou aquilo. Fazemos projetos que parecem tão próximos do possível…Com o passar dos anos o sentimento de reconhecimento desaparece. Lágrimas secas. Somos estrangeiros. Desconhecidos num mundo banalmente habitado por nós mesmos.De repente estamos tão completamente isolados! Uma voz sem eco, sem continuidade. As queixas, os cheiros indesejáveis, o movimento de ir e vir das pessoas que nos rodeiam parecem tão inúteis! O corpo dói: costas, pernas, pé, mão, até os dedos doem. Já não podemos mais fazer de conta que teremos tempo, ou não ver, ou deixar de lamentar. Qualquer movimento, pedalar, andar, dançar, nadar, experimentar parece sem sentido! E as pessoas que importam não estão mais aqui, não existem. Sentimos medo. Este sentimento é a insônia. Sem fome, sem sede, mas despertos na noite. Nada que não possa se resolver com um comprimido, mas nada que possa desaparecer, porque amanhã de manhã estaremos com estes mesmos sentimentos ativados na angústia.Desânimo! Enquanto escrevo escuto as vozes dos vizinhos neste eco que os edifícios praianos têm. Aqui não é só o mar que murmura, as pessoas se agitam num entra e saia de verão, o que normalmente designam ‘ estar de férias ‘. Os carros buzinam, não importa que seja noite. E os cães ladram assustados. Por que eles ‘escutam’ este murmúrio permanente. Se eu escuto vozes, mais intensamente a sensação de isolamento me angustia. Neste mundo que se agita não há tempo para internalizar, pensar, ou sonhar, desejar alguma coisa. É preciso buscar as cavernas, o esconderijo certo, o lugar onde nos sentimos resguardados, neutros, sem exigências. O isolamento vem desta rotina vazia, deste não ter o que dizer, deste não reconhecimento do olhar. A solidão chega quando nos damos conta que perdemos o hábito de chorar por amor, desejar alguém, sentir saudade. Temos aquela ideia de que todos estão perfeitamente perfeitos nos lugares onde estão: alimentados, sem sono, aquecidos, sorrindo. Não queremos ser necessários, queremos ser transparentes, mas no fundo, lá dentro a questão é mais séria: gostaria de poder me enxergar no centro, mas não sou o eixo, sou o galho que começa a vergar porque não consigo seguir o fluxo…Perde-se o hábito de querer o amor. Desistimos de desistir para desviar, terminar para encontrar, recomeçar, a solidão chega como o fim do papel, com a ponta do lápis quebrada, o livro com ponto final, o copo vazio. A solidão pesa com o próprio peso do corpo. Fica tudo invertido. Nem um cálice de vinho, depois outro, pode resolver. Nem o banho de mar, nem o sol. Nem ressuscitar o amigo, a coragem, nada modifica este estranho vazio. E estranheza vem do tempo que  perdi a casa, o centro, a segurança; quando resolvi deixar para traz a vontade …. Do tempo de casar porque era preciso casar. Vem do tempo de largar o casamento. Aquele vazio do fracasso afetivo. Do amor sem amor. Vem do tempo que me deixei ficar no Rio de Janeiro. Do tempo de voltar para o Rio Grande do Sul. Vem do tempo de apagar incêndios. Vem do tempo de sucumbir aos tropeços, e se deixar levar… Enfrentar o trabalho, largar os livros e estudar; deixar de estudar. Esquecer a menina. Largar o trabalho, a escola. Vem do tempo que me apaixonei por um amontoado de palavras, pelo virtual. E depois entender que nos apaixonamos por um personagem, não por um homem. Ou se chegamos a amar um homem, ele se transforma subitamente em personagem.  Ou num desconhecido. Um estranho que mora na mesma casa que moramos. Depositei tanto sentimento, tanta força, tanta energia num sentimento que desapareceu como desaparece um saco de areia na beira do mar…Claro que existem os filhos, os irmãos, o amigo, o amante, o desconhecido que atravessou a rua, os cães, as crianças, os netos, os tios, os primos, os conhecidos, os sorrisos, as perguntas, os sobrinhos. Mas na insônia ninguém existe. Existe a sombra da angústia de uma noite interminável e solitária.Bom! É só uma noite insone, depois o dia fica cheio de janelas.

2 comentários sobre “Fora do CORPO

  1. E com o passar dos anos esqueceu de dizer q as mulheres principalmente se tornam invisiveis para os olhares masculinos e ate aos femininos tbm….isso no comeco incomoda, depois se acomoda…..

    • Será? As pessoas não ficaram invisíveis aos olhares, não .Os olhares é que deixaram de olhar…não só para as mulheres, ou das mulheres, ou dos homens…Acho que não existe muito tempo para olhar, ver passar… Nem mesmo para ler! Ou pensar… Quem está na janela vendo o tempo passar? Lembra do Chico Buarque? As pessoas estão a se olhar no espelho… O Império da BELEZA é exigente. E as meninas todas se parecem, e os jovens todos se parecem, e os velhos, os velhos que agora vivem mais se esquecem de ser velhos… Não há doçura em lugar nenhum!

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