Só sei viver o que já vivi

Albertina Maciel Souza, escritora gaúcha publica seu primeiro livro. Causa polêmica em revistas e jornais: aplaudem, crucificam, ignoram. Quem é esta Albertina? Ontem ela veio a Torres. Contou o que aconteceu em São Paulo, da primeira edição da novela Viagem pela Alma, vendeu cem exemplares. Um livro experimento. O restante da edição, fica esquecido. Erros que não se sabe/ nem pode como corrigir! Ela se sente ameaçada, não pelo livro, mas a incompreensão. De repente o esvaziamento. O projeto é bom, mas esta coisa de andar pela alma, esta discrição disparatada do que timidamente chamamos alma? Porto Alegre rejeita o livro. Eu pontifico, tento animá-la, mas Albertina cruza os braços, desanimada. Nada a fazer.

Pego um livro da estante depois de servir o chá, morangos na tigela, rodelas de limão. Abro bem as cortinas, e como é da minha natureza, leio em voz alta:

Não fazer nada é uma grande ocupação . É como estar no cosmos. O tédio prolonga o tempo. Sem falar que no tédio se tem tempo de puramente viver e apenas viver. O tempo é o sentido das horas e da vida. Para senti-lo, é preciso se purificar no nada. O que é o tédio? Talvez seja a vazia meditação que parece com a prece sem palavras nem sequer mentalizada. É o silêncio interior seguinte: estar plena do nada. Isso é o resultado de uma longa e penosa aprendizagem.

Clarice Lispector, p. 17 – do livro de Olga Borelli: Editora Nova Fronteira: Clarice Lispector Esboço para um possível retrato.

Olho para ela lembrando das minhas inúmeras tentativas, tentativas de escrever, de casar, de amar, de desenhar, fazer amigas…Um amontoado de fracassos. Albertina Maciel Souza tem os olhos úmidos, mas cheios de coragem. Então retomo a leitura  da Borelli,  o mesmo parágrafo, leio de um jeito mais pausado como se o que diz Clarice notificasse se aplicasse apenas a mim mesma:

Eu só sei viver as coisas quando eu já as vivi. Não sei viver, só sei lembrar-me.

Rimos as duas, peguei minha xícara de chá. Ficamos em silêncio. Passei a mão no livro Viagem pela Alma, e  completei: – é apenas o ensaio, como na vida. Há que se repetir, repetir inúmeras vezes até acertar! Elizabeth  M.B. Mattos – dezembro de 2012

3 comentários sobre “Só sei viver o que já vivi

  1. Que bom saber que passaste por aqui! Clarice Lispector pode ser uma boa pedida, os contos são perfeitos. A Hora da Estrela, mais história, menos divagações foi até pro cinema.

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