Glauco Rodrigues ou Caribé

Deixo a memória de menina chegar. Em 1955 acompanho a festa fervilhante na casa da Vitor Hugo. A mãe costura e borda o cetim azul do vestido que minha irmã vai usar no Baile de Debutantes do Clube do Comércio.  Estou sentada na ponta da escada, atenta. Glauco Rodrigues também costura. Dele o desenho. O jovem pintor usa habilidoso a agulha, e enfia minúsculos canutilhos contas azuis e prateadas. Todos seguem o risco no cetim.  A sala de jantar se transforma em ateliê. Penso no baile. Nas cores.

Os quadros da casa se movimentam na minha imaginação! Também o biombo desenhado em nanquim  A Salamanca do Jarau de Glauco Rodrigues, (ainda não conheço os painéis do cinema Cacique). Penso no prazer das virgens lenda.  A tentação do homem na florestas verde dos pampas. Minha memória. Deixo-me queimar. Passados tantos anos! Agora com as mulatas do Caribé! Entram, invadem as cadeiras. Estão sentadas, deitadas em meu sofá, preguiçosas e vazias. Lânguidas e queixosas. Úmidas e solitárias como eu. O quadro O muro rosa!  O baiano-estrangeiro! O que eu faço aqui  sentada com elas, – as mulatas? A infância, bem como a memória histórica, são fontes de erros, enganos. A imaginação um  descaminho na vida. Real apenas no poema, nas letras, na tinta, ou no som da sinfonia. Volto meus olhos para as telas de Glênio Bianchetti, os meninos soltando pandorgas. Danúbio Gonçalves e o mulato. O desenho do Scliar, o risco de Iberê Camargo, e esta enorme tela de Camacho. Já estive neste lugar, junto ao fogo, dentro do meu sonho. Outra vez penso que o céu o ar as cores, e estas figuras, e todos os objetos são ilusões. Foi neste momento que eu te moldei na minha imaginação ( o homem do desejo): nariz boca e braços de pescador. Quente terno.  Presenteio com flores. Relógio e uma pequena lupa de aumentar o tempo. Frutas lavadas lustradas cheirosas e pendentes na cesta italiana. Chás, os mais variados. Hortênsias. Duas garrafas de vinho. Pintei os cabelos com mechas coloridas. Releio Paris é uma festa de Hemingway e recomendo  o livro Não apresse o rio (pois) ele corre sozinho de Barry Stevens. Entro na galeria. Lá estás junto à mercadoria que chega das Índias, China, Paquistão e África: exótica visão. Sento na cadeira chanfrada. Depois, apoio meus braços na borda da mesa que ostenta dois castiçais de estanho, um prato de cerâmica inglesa branca. Sala de chá à inglesa.

É verão. Jacarandás roxos ipês amarelos, e o verde por tudo. O bairro tem  calçadas pequenas. Velhas casas tombadas, e tomadas pelo comércio. O que eu faço para ali? Ele se volta em minha direção atento. Penso no piquenique do amor!  Olho as reproduções das telas emolduradas no luxo barroco. O retrato de Yvonne Lerolle, de Maurice Denis,1897. Também outra analogia, A jovem professora, de Jean-Batiste Siméon Chardin, vigorosas figuras iluminadas: mestre e aprendiz. Ainda a tela em dimensões de 80×120, pouco mais, pouco menos, Uma visita agradável, de William Merritt Chase,1895, óleo sobre tela, quadro grande. Duas mulheres elegantes estão sentadas num sofá, conversando. A luz do sol invade o aposento, iluminando os tons da paleta clara do artista. Não é uma cena posada formalmente, mas uma cena típica do dia-a-dia. Pudesse eu pintar aquela loja com a luz da sensação inteira de acolher, abrir e fechar, mas também ficar perto dele. Ali está O devaneio, de Dante Gabriel Rossetti. O próprio quadro não dá qualquer indicação quanto à natureza ou ao tema do devaneio desta bela mulher, embora esteja tão absorvida por ele, que o livro e a flor foram largados em seu colo. Os vários matizes do verde que a envolvem, nas dobras de seu vestido, e as folhas das árvores que a emolduram, contribuem para a sensualidade geral desta pintura. Agrada o verde pousado na sala: os olhos abertos da figura feminina em devaneio. Este verde sobe pelos dedos longos que prendem o galho frágil de um arbusto: mistura da roupa com o jardim de Rossetti, o pintor. Os olhos dela, ou os meus, naquela tela? Agucei os sentidos. Estou presa no verão de Porto Alegre. Elizabeth M. B. Mattos – junho 2013 – Porto Alegre

A reprodução das telas citas, e descritas se encontram nO Livro de Arte, de Mônica Sthahel.

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