CARTAS DE AMOR

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10 de fevereiro 2013 Torres – Sábado –

Passei a borboletear. Rir sozinha em suficiência mergulhada na euforia. Como se a magia do que é eterno existisse dentro de mim. Depois vem a defesa, as defesas necessárias para seguir com alegria: estamos a brincar como aqueles meninos do filme O pijama listrado, era este o nome? Dois mundos, o arame farpado. Certeza de amor que confunde, desencaminha… Alucina. A euforia do encontro tomou conta de mim: como se fosse possível encontrar o que se procurou a vida inteira! O conforto da cumplicidade. Mas fujo dos embates, eu me nego a ser triste, lamuriar, ou sofrer… Já alucinei na dor… Agora quero a vida, a que me autorizo, sem corpo, a vida desta decomposição do corpo, do que se pensa ser beleza. Como se a vida mesma espiada pelas grades da janela fosse combustão maior! Assim como menina, a menina tímida e escondida que sou/fui desejasse tão tarde como agora, neste momento mesmo, se lambuzar no doce da vida imaginária. Tu és o mel. Tu és o sorvete, tu és o mar, tu és o sol queimando, tu és uma fatia do passado que me aperta. E de repente eu queria que tu fosses apenas o presente.

(4 février 1932) Lycée Carnot – Divon – Jeudi

Je ne sais pas où commencer! Ma tête est noyée, saturée de materiau. Alors, j’ ai reçu votre lettre, le télégramme.  Avant tout, bravo! Je suis transporté d’une joie immense par l’intérêt que vous prenez – c’est assez pour me soutenir.   Henry  Miller para Anaïs Nin

No ano de 1669 surgiu em Paris um livro intitulado Lettres portugaises traduites en français (“Cartas portuguesas traduzidas para o francês”), publicado por Claude Barbin, o editor de La Fontaine e de Mme. De La Fayette.

Fragmento da Terceira Carta:

(…) Sentir que eu estava com você era tão maravilhoso que eu não tinha como imaginar que um dia você estaria longe de mim (…). prefiro sofrer mais do que esquecer você. Será que isso depende de mim? (… Não invejo sua situação, e você me dá pena. Desafio você a me esquecer para sempre. Orgulho-me de tê-lo conduzido a um estado tal que somente comigo você experimente o prazer perfeito; e sou mais feliz do que você, porque tenho mais ocupações. (…) Sua ausência cruel, e  talvez definitiva, não diminui em nada o êxtase do meu amor. Quero que o mundo inteiro saiba dele, não faço segredo, e me sinto feliz por ter feito tudo o que fiz por você, ainda que contra todo o tipo de decência. (…)

(p.43-44) Editora Imago, 1992. Cartas de Amor de Mariana Alcoforado

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