Diana a caçadora solitária

Não há pior servidão que a esperança de ser feliz. Deus nos promete um vale de lágrimas aqui na Terra. Mas esse sofrimento é, afinal, passageiro. A vida eterna é a eterna felicidade. Respondemos a Deus rebeldes, insatisfeitos: Não merecemos uma parcela de eternidade em nossa passagem pelo tempo? – Podemos amar na Terra e merecer um dia o Céu? Não como penitentes, flagelantes, eremitas ou famélicos da vida, mas participando plenamente dela, obtendo e merecendo seus frutos terrenos, sem sacrificar por isso a vida eterna; sem pedir perdão por termos amado  not wisely but too well ? ” Fuentes – Diana a caçadora solitária –

Difícil traça um plano, ou fazer acontecer quando temos todo o tempo, todo o tempo do nosso dia. É justamente quando começamos a nos dar conta que não é o fator tempo que nos impede de agir… Não conseguimos agir por estar/ ser incapaz. E incapaz por ter me dado tanto tempo livre. Esta disponibilidade é que enlouquece. O teu silêncio me deixa enjoada. Simultaneidade de mal estar inexplicável. Se conseguir arrumar as gavetas, limpar o quarto, executar tarefas mínimas, e necessárias todo o corpo corresponderá ao prazer… A inércia nos faz menores, muito menores. Prazer. Será o prazer que corrompe? Toda a relação possível com o exterior é necessária, curativa. Qualquer atividade como caminhar no parque, verdejar a planta do vaso com boa água, e terra preta. Ou podar ansiedades, fazer um bolo, varrer. Lavar. Cuidar do gato. Pensar grande pensando o mundo. Ser gentil com a vida. Andar com os pés descalços, sentir a água no banho como se fosse mergulho no rio, no mar. Enfim, a natureza precisa entrar no nosso corpo. O desejo morno, tão manso que imobiliza é nocivo. Sim. Carecemos do beijo, do afago, do sorriso. As pessoas importam. Não podemos descartar o afeto. Terrível nos dar conta que em pleno poder do amor ousamos rejeitá-lo. É preciso medir. Somos prepotentes até quanto aos nossos sentimentos. Não importa se atravessamos a mata, o abismo do corpo para tocar a lenda… Beber ilusões e desfazer possibilidade. Mas…

“Mas quem é Prometeu, o que rouba o fogo sagrado? Por que usa sua liberdade apenas para perdê-la? Teria sido mais livre se não a usasse e não a perdesse apesar de que tampouco a teria ganhado? Pode a liberdade ser conquistada por um outro valor que não seja a própria liberdade? Nessa terra só podemos amar se sacrificamos o amor, se perdemos o ser amado por nossa própria ação, por nossa própria omissão? É preferível algo a tudo ou a nada? Perguntei-me isso quando terminaram os amores que aqui vou relatar. Ela me deu tudo e me tirou tudo. A ela pedi que me desse algo. Esse “algo” só pode ser o instante em que fomos ou acreditamos ser felizes. Quantas vezes não me disse: Sempre serei o que sou agora? Recordo e escrevo para recuperar o momento em que ela sempre seria como foi, aquela noite, comigo. Mas toda singularidade, amatória ou literária, lembrança ou desejo, logo é abolida pela grande maré que nos rodeia sempre como um incêndio seco, como um dilúvio flamejante. Basta-nos sair por um minuto de nossa própria pele para saber que nos rodeia um pulsar todo-poderoso que a nós precede e sobrevive, sem importar-lhe a minha vida ou a dela: nossas existências (…)”  CARLOS FUENTES –  Diana a caçadora Solitária – 

A vontade de viver, ser tocada, transgredir parece mais forte do que o selo comportado da moça bem comportada. Presta atenção! Este carnaval de boas maneiras me exaspera! Então quero ser transviada, ou obscena. Esbravejar. Mas o que se entende da vida quando crescemos em quintal cercado? Há que ad infinito adaptar-se.

 

 

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