Fervente


Esse te amo dá voltas lá por dentro, como se fosse máquina do tempo. Aquela surpresa de acordar noutro lugar, noutro século, noutra semana, noutro planeta. Tempo de não te ver! Ou no tempo de te ver, e correr pros teus braços! Aquele teu olhar meio de lado de tímido ousado. Aquele menino que se propõe acertar, mas que sente tudo pelo avesso! E que pula para dentro dos livros de Lobato, mas se esconde na Irlanda. E erra como eu errei. Escuto tua voz… E neste outro tempo não temos medo. Olhamos pra trás, contamos os passos, gritamos, e ousamos. Nem o fazer tudo errado nos preocupa, o guri, a guria, – nós juntos, mais ninguém. Que este amor não tenha se gastado, diminuído como palavra! Tantas vezes nos pensamos amando, e assim mesmo o sentimento nos atropela sem sentido! Só palavras.  Não planejamos nada. Crescemos como a Buenos Aires do filme Medianeiras. Exorcizamos o que nos oprime. Não traçamos metas, nem sabemos para onde, agora, queremos ir. Corremos sem olhar pra trás. Retenho tua fala, tua palavra, teu riso brejeiro, teus olhos claros, tua pele morena! Reter tua fala, o eu te amo. Tenho presente este jeito de olhar com meio sorriso, parece ironia, mas vai ver que não é. Tudo incerteza! Esquisito meu amigo amado! Quando dizes que não haverá luz, e assim não podemos nos ver… Eu me pergunto. Mas pra aonde iremos tu e eu, o que é mesmo que eu quero ver? Podemos ir? Ninguém nos prende? Todos nos seguram pelas mãos, pelas pernas, pelos braços, pela cintura. Ninguém quer que tu venhas, nem que eu vá. Tudo imaginação. Quando dizes que não estarás aí, desço da plataforma da nave espacial, portas se fecham, volto pra casa. Penso em mim mesma aqui no fundo das cobertas, ou ali naquele sofá revirando inquieta de um sonho, um sonho que se faz sonho, iluminado, mas é apenas um sonho! Hoje tu não estás lá! Posso tranquilamente preparar o feijão, deixar a carne mal passada, fazer a farofa, escolher bem a salada! Penso que preciso emagrecer para correr e chegar mesmo nos teus braços! Pintar os cabelos, passar todos os cremes pelo corpo, e me perfumar. Vestir uma saia solta porque não gosto de roupas apertadas… Tirar os tênis. Andar descalça. Mas que adianta eu me preparar se não estás aí… Ontem escrevi tanto e tanto querendo ordenar a vida, tão misturada nos desencontros e desacertos que me esqueci de te olhar, concentrada no fazer de me contar…

003 (3) - Cópia

Algumas mágoas voltaram ferventes. E também imprevidências! Excesso de tudo! Eu que gosto das sedas, dos brocados, das luzes e das pratas! Eu que amei a pintura, os livros e a música! Os sapatos de salto alto, a bainha perfeita, a dobra exata, os botões de madrepérola, os bordados delicados! Eu que bebi em cálice de cristal que se quebra tão fácil! Eu que vi filmes épicos acreditando na bravura! Eu que deixei cair tanto orgulho em cada passo! Soberba! Confusa. Obediente. Altruísta como dizia um amigo! Não, não foi nada disso! Nunca fui mulher valente nem guerreira. Nunca encontrei o herói, nem fui princesa… Então abaixo os olhos, penso nas arandelas, nas correntes de ouro, nos ricos anéis, naqueles brincos de pingente, nos bailes, nos bons costureiros, na cabeça erguida, nos soluços abafados. Tem de tudo neste quebra-cabeça. Humildade e orgulho. Então, se a casa é pequena, sem teto nem paredes, se eu respiro, se eu ainda te toco… Que medo! Com o danado do medo o corpo se curva. Eu te beijo na memória de menino.  Entre as árvores daquele quintal de Ipanema, pego tua mão atrás da poltrona, e vamos dormir os dois na mesma hora, na mesma cama, vestidos, eu sei. Sem calcinha? Como se fossemos aqueles bonecos moles de trocar roupa, aqueles bebês de borracha que chegavam aos pacotes com fitas e guarda-roupa naquelas festas de Natal! O que fazíamos? Apressávamos nos a despi-los, depois botávamos em baixo das torneiras, e com trapos enxugávamos, trocávamos de vestido, as fraldas. Depois retorcidos ficavam abandonados no caixote, desgrenhados, despidos. Íamos pular corda, subir nos muros. Ou brincar de rádio: eu girava o botão e tu falavas, ou cantava. Invertíamos os papéis. Eu cantava, ou falava: ‘amanhã fará sol e chuva’. E gostávamos destas longas e perdidas horas de quintal! As bonecas dormiam todas sem fraldas, sem calcinha… As nossas pobres filhas que dávamos comida em pratinhos de plástico, e abandonamos famintas no caixote! E ninguém queria saber o que fazíamos! Ocupados com as visitas, com as conversas, a política… Lembro da Madalena deitada, e da Maria ao lado, dias e noites, noites inteiras acordadas. Ou dias inteiros deitada, e nós enfiados nas histórias que contávamos um pro outro. Eu espichava os olhos pro José. Lindo! Importante! Pras brincadeiras de dicionário, pros cálculos matemáticos pensando que um dia eu ia acertar como eles, eu ia também ser inteligente, não boba! Eu ia crescer, e me apaixonar pelo homem certo, é claro! Eu ia ser feliz!

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