O Bolero de Maurice RAVEL

Detesto usar estes óculos pesados. A miopia limita. Queria só beleza, e sou esta esquisitice! Os dentes doem, o aparelho machuca. E o meu cabelo com a chuva encrespa. O vento sacode a janela. O vento assobia. O vento entra no meu quarto. Não consigo me concentrar na música. Estou de castigo. Adianta? Faço tudo às pressas… Detesto este quarto acanhado, o frio, e não ter televisão. Nenhum filme, nenhum jogo, nada. Esta música me atormenta. E dizem que o Bolero foi um sucesso! Moderno. Ruptura. Droga! Com o quê? Ravel não é piano…  Importa. Único. A liberdade de escolher me parece arbitrária. Duas músicas? E se quisesse escutar Vivaldi?  Poderia imaginar que ainda existe aquele pequeno instrumento de cordas, o cravo… Aquelas roupas de seda, veludo, renda. Nos cabelos fitas, joias! E a intimidade. Eu seria a moça de olhos azuis, loira e linda! Aquele para quem ele toca. Mas, também gosto de violinos! A professora pediu para escutar o Bolero  de  Maurice Ravel. Escolhi a gravação da Orquestra Filarmônica de Munich! Por quê? É famosa! Gosto do espetaculoso, do brilho. Os grandes músicos são alemães! E Ravel? Tenho que justificar?! Acho que esta posição de alerta não me deixa sentir a música. Fecho os olhos para pensar. Detesto quando o professor exige o impossível. Sentir a música, escrever uma história, criar, ser possuída, possuir! Estou perdendo minha sessão da tarde! Se eu não conseguir nota boa, reprovo. E o pior é a leitura em voz alta. Aquele momento em que colegas escutam minha voz. O que estou vendo? O deserto. Areia oriental quente, areia do deserto. O deserto do filme Lawrence das Arábias. Cristaliza-se ali como crosta ardente. Os olhos azuis. E a marcha no deserto. Esta é a visão. Tám,Tam, tam tantam… E os meus óculos pesam! Tanta areia a derreter as lentes! Esta areia me devora os olhos! A música está entrando em mim! Estou vendo a música. Areia oriental. A ventania faz com que tudo desapareça por um segundo neste deserto sorvedouro de pessoas, de animais. Deserto em todos os sentidos. A música está subindo… Marcação continuada, rítmica, monótona, e grandiosa! Recomeçamos a marcha! Alucina, encanta, vibra! Sou chicoteada pela areia. Estremeço de prazer. O deserto me desafia. O céu vermelho, azul. Desconheço esta beleza. Incomum. Escuto todas as músicas ao mesmo tempo! O, no, neste compasso violento batido. Não. Como posso descrever? Apoteótico! E não é Beethoven, deve ter apreendido com ele este Ravel. A repetição nos estremece, e se confunde com o vento que fustiga, não, não é o vento, mas areia. Vou escutar por toda a minha vida o Bolero de Ravel… Não. Prefiro  Piazzolla, muito mais latino, e quente! Adoro o jazz. E o Gerry-Mulligan faz tudo ser inquietante único. Quero o Piazzola. E dançar, e ser apertada num tango sem tango… Tudo nunca é do jeito que a gente quer. Quero mesmo escutar muitas, e todas às vezes, e todo o tempo… Escutar esta musica de Years-of- Solitude. Melodiosa. Gosto do anonimato de bar, do nada no improviso do hoje. Sem grandiosidade, sem deserto, mas assim mesmo bem sozinha… A música se descreve! Elizabeth M.B. Mattos – outubro – 2013 – Torres

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