Habeas Corpus

Açambarcar engolir, ver cor na palavra … Absorvo algazarra. Acompanho correrias e brincadeiras, joelhos esfolados, e já tenho nas mãos bolas coloridas, empurro carrinho de boneca, bocejo. Comandos mecânicos. O doméstico da vida junto ao morro. Diferente da vida no campo. Roberto Carlos, depois Beethoven, concerto para piano. Li o livro que mandaste pelo correio. Passei lençóis, experimentei a nova receita de bolo de laranja. Dormi um pedaço da tarde. Penso na urgência de fazer alguma coisa que verdadeiramente importe: sair do doméstico. Tens razão escrevendo: “nas coisas simples estava a felicidade: marido, casa, arvoredo, gado.” E ainda: “e para alimentar a tua fantasia, as nuvens, que nos dias ensolarados, povoam o campo com um rebanho de sombras.” na mesma carta, releio:  “reencontraste o sabor do pão feito em casa, tu que por tanto tempo te nutriste com o pó do asfalto da grande cidade. Eu te compreendo, mas não deixo de pensar na tua formação esmerada, nos teus companheiros, clássicos e modernos, da língua francesa. Tu os abandonaste?” 

Meu amigo, as pessoas acomodam na memória velhas experiências, e como linhas/lãs desfeitas, reaproveitáveis, de um velho tricô, elas são transformadas em cachecol para as noites de inverno. Prazer quente senti naquele tempo … Tu também tens “saudade das rosetas, dos mata-cavalos, das marias-moles, das guanxumas, e dos carrapichos que jogavas, por maldade, na corujinha da tua irmã negra”, escreves.  Gosto dessa conversa de missivas, e estou contigo na saudade do nosso Rio de Janeiro. Diferentes cenários, idênticos e domésticos sentimentos. Nostálgica leitura! Tempo da campanha do cheiro do mato, das ovelhas. Da paz, e  das crianças. Depois tempestade. Sou eu que mudei por dentro, ou me surpreendo com atropelos que me obrigam a mudar. Lá, a vida se desdobrava mansa. Hoje, inquietude e angústia. Não sei se lamento. Ao ler o que escreves repasso sentimentos. Aos teus olhos, aos meus, o novo deve ser ponderado.

Acordei assustada do sonho. Fiz chá, acendi as luzes. O significado da necessidade não está neste construir e destruir peculiar à natureza humana. É preciso ser livre para viver, mas desanimo no ócio, no gesto cansado desta tristeza. Há urgência na vida. Absorvo a separação: viramos ex-marido, ex-mulher. Esbarro na liberdade vazia. Agonia necessária. A vida queima, nós queimamos. Qual será o momento do encontro? Chegaremos à margem do Guaíba? Ao poente? O lençol cobre a terra. No ar transgressões. Passagens da vida com a pincelada do corte da ruptura. Pedaço interno lá de dentro do corpo doendo ardendo. Acabo sentindo fisicamente  ausência distância e abandono.

Será justo, não será? Por quê? Porquanto fiz desfiz. Começo, recomeço. Não saio do lugar, apenas morro um pouco … Será?Dias longos chegaram: não estavas aqui como deverias estar. Desânimo, cansaço igual ao teu. Nós não conseguimos. Quero voltar. Costura minha dor e fazer bordado deste arrependimento. Consegue o Habeas Corpus, depois o meu perdão! Elizabeth M.B. Mattos – Rio de Janeiro – 2014

Fragmentos de cartas de Iberê Camargo e desenho de Pedro Moog

DESENHO PEDRO JOANAAAAA

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