UTOPIA

Recorte perdido, sem data. Quem era a revolucionária Flora Tristán? Avó do não menos revolucionário Paul Gauguin. A pesquisa de Vargas Lhosa resultou no livro El Paraíso em La Outra Esquina, editora Alfaguara. Segundo ele não se conheceram, mas viveram vidas surpreendentemente similares.“- Flora era uma mulher de ação que teve uma idéia: aliar as mulheres aos trabalhadores para que fossem reconhecidos seus direitos – diz Vargas Lhosa. Gauguin descobriu sua vocação artística aos 30 anos, depois de uma vida convencional, com casamento, cinco filhos e um emprego próspero na Bolsa de Paris. – Guaguin também teve uma idéia: acreditava que a arte autêntica estava nas culturas primitivas, onde é uma expressão de totalidade social. Guaguin não encontrou o paraíso, mas terminou criando-o na sua pintura – diz Lhosa. As vidas paralelas de seus dois personagens lhe permitiram desembocar em uma particular reflexão sobre a utopia. Segundo ele, a utopia individual tem proporcionado os maiores avanços nas ciências, filosofia, e arte. As utopias têm nos salvado de viver na rotina,mas, cada vez que queremos materializá-las socialmente, o resultado é catastrófico afirma Lhosa. É normal que no século 21 sejamos céticos com as utopias. Não se deve rechaçá-las toda, mas a ideia de uma felicidade coletiva é impossível.”Image 

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Minha amada

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Não vemos as pessoas como vemos casas, árvores ou estrelas. Vemo-las na expectativa de as encontrarmos de uma determinada maneira, transformando-as, assim, em um pedaço da própria interioridade. A força da imaginação forma-as de maneira que estejam de acordo com os próprios desejos e as próprias esperanças, mas também de modo que nelas se confirmem os nossos próprios temores e preconceitos.” (p. 81 ) 

Trem Noturno para Lisboa –  PASCAL MERCIER

 

A memória escreve-se com tinta de tinteiro. Escreve-se com máquina de escrever. A fita se gasta, esgarça, o papel rasga. Ou digitada no placplac do computador. Escreve-se apagando, ou riscando com lápis… Ou carta telegrama no código saudade, querer, esquecer, hoje porque já é amanhã… De lembrar também. FOTOS BETH 019Aquela carta que desvenda, linhas brancas o não dito. Reticências. A estória se transforma com a bruxa, ou  no momento em que o príncipe beija a moça… A estória com riqueza na tristeza, vergonha. Mal vaticinado. Com inveja, conselho, e também o perdão…  E restos. Restos de palavras. Rastros em folhas de papel. Escorrega amor lavado com sabonete, água quente, óleo, perfume. O cheiro. Não é pra te contar, sei bem que não queres ouvir. Não e pra dizer, não é pra sofrer minha amada! Tens apenas que ler! E.M.B. Mattos

“Cheguei em casa ao entardecer de hoje. Encontrei cartas, poemas de Drummond. As duas fotos, em pétalas de flores ao natural, parecem ser outra pessoa: cabelos pretos, diferentes do aloirado que eu conheci agora. Uns segundos após, aparecias inteira naquele rosto fotografado ao sol do campo, tempos atrás. O mesmo jeito, um jeito alegre por trás de um leve  esboço de sorriso triste, ou lábios bonitos, carnosos. Eras tu. E de corpo inteiro, mesmo que a foto traga apenas do busto para cima. Noutra carta, entre margaridas, olhos fechados, bela, parecias tu, mas podia ser também a cena  final da Julieta shakespereana filmada em cores, ela estirada, dormindo sua beleza e seu amor eternamente. Agora, enquanto escrevo as fotos pousam à minha frente, no horizonte dos meus olhos. Imagino o ano: 1984, para ser dez anos atrás.”

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Esta, e outras. “Do jeito que me queres teu, e lembrado. Tudo que foi dito naquela caligrafia pequena, e naquela outra esparramada, em todas as folhas o que se lê pra esquecer. Sou eu, o teu amado!”

Tenho saudades tuas, tuas, tuas, até mesmo do teu jeito ‘ acelerado’, de andar e andar de um lado para outro (dentro de casa e/ou na cozinha à hora das refeições). Desacelera um pouquinho tua vida, até mesmo para usufruir melhor de toda a vida que tens. Tens que usufruir da tua vitalidade. Não gastá-la como quem joga moedinhas no mar, para os peixes.”

“Ao reler ficarás ainda uma vez bela pra que eu possa te dizer, pra te olhar, pra te beijar sensual, leve como te guardo na memória! Carrega o beijo minha querida, prepara o abraço. Estou voltando!”

“P.S. Cordélia, e se eu escrevesse assim a Albert: Caro, não sei como tu entendes as palavras e as coisas (essa frase me soa familiar, irmã, ah, já sei, o brilhante tarado do Foucault). Ando exasperado. Franz já te levou um camalhaço de bilhetes e nada respondes. Como te sentirias se te convidasse à minha casa? Sei fazer bebidas adoráveis. Bebes?” […] p.20 Cartas de um Sedutor, Hilda Hilst. Ed. Globo, 2002.

Infelizes cálculos

Sofro no calor. O calor sai pela pele, transforma, e se remexe no corpo. Estranhezas e prazer.Vai-se uma estranheza, encontra-se um afeto, já desafeto porque no tempo tudo se transforma, desmancha-se no ar… Antigo título! Nós nos perdemos nos abensonhados livros que nos abraçam, desgovernados. Hoje de manhã, depois das trovoavas. Chuva e sol.  Finda a conversa cinza de tantas discussões climáticas voltei à livraria pra buscar aqueles títulos com quinze por cento de desconto, como o prometido de cada dia quinze do mês.  Enfrento a pouca sombra, mas vou contando amoreiras, pitangueiras daquele pomar circular da lagoa. E lá estão os livros separados: MISHIMA, ou a Visão do Vazio, Marguerite Yourcenar, A valise do professor de Hiromi Kawakami, E depois, Natsume Soseki. Os títulos Japão, aulas de japonês, outra visão. Ou, E depois, a Valise do professor se esvazia, mas na magia de atuar encanta até descobrir, ou ter afinal, A visão do Vazio? O vazio? A lembrança, o ontem escondido nas histórias de criança. A descoberta de domingo quando estava a escutar as vozes da chuva misturadas ao vento.  A sintonia de sons entre vozes! Escolho o não citado Estórias abensonhadas, o estrangeiro das minha lista, Mia Couto.  E leio o conto Os infelizes cálculos da felicidade: “Para bem amar não há como ao pé do mar, ditava ele. […] Ela: Do inverno gosto é para chorar. As lágrimas, no frio, me saem grossas, cheiinhas de água.”[…] e aquele jeito peculiar, sonoro de Mia Couto: Vontade de festejar deve eclodir antes de acabar o baile. Tanto tempo decorrera em sua vida e tão pouco tempo tivera para viver. Tudo estando ao alcance da felicidade por que motivo se usufruem tão poucas alegrias?”(p.95-96) Abensonhados livros que nos alagam de prazer!  Terei que me apressar…

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A beleza fica

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A notícia é de ontem, 14 de janeiro. Entre poucas notícias, o bom com David Coimbra.  Bom escritor, bom jornalista, jovem, e atento. Inspira bons sentimentos. Arranca do matagal, deste amontoado de horrores, uma margarida para fotografar. Gosto do que pensa quando escreve. “Pensando bem, só os ralos assassinos é que são novidade em 2014. E a volta de Jacqueline Bisset, mesmo que perplexa em frente às câmaras, mesmo que já não tão gloriosa como nos tempos em que garotos suburbanos carregavam suas fotos pela vida, a volta de Jaqueline Bisset é a lembrança de que o mundo pode ser melhor, pode ser um mundo que aceite as diferenças, que trate com descência os pretos, os pobres dos fundos de cadeia, que cuide dos pormenores da segurança das crianças. O mundo pode ser melhor.[…] O mundo pode ser belo como os olhos azuis de mar de uma deusa distante, uma deusa que pode coisas que você jamais poderá saber.”(Zero Hora,p 43 Esportes. 14 de janeiro de 2014

Subjetiva objetividade

O  maior vício entre os vícios pode ser a leitura. A leitura obsessiva que faço de mim mesma em tudo o que leio. Busco na palavra escrita não apenas a nova ideia, mas pensamento já pensado que adquirem selo de confirmação. O lido ressoa numa zona conhecida,  a minha. Sublinha o que já vivi – e, reavalio. Leituras são pedaços inacabados. Reencontros do prazer de ter sido… A mesa cheia de papéis tomada por pastas e folhas. Concentração difícil, motivo para não chegar ao fim. Desordem e prazer. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2014 – Torres

LIVROS e livros Virgínia Woolff

 

Habeas Corpus

Açambarcar engolir, ver cor na palavra … Absorvo algazarra. Acompanho correrias e brincadeiras, joelhos esfolados, e já tenho nas mãos bolas coloridas, empurro carrinho de boneca, bocejo. Comandos mecânicos. O doméstico da vida junto ao morro. Diferente da vida no campo. Roberto Carlos, depois Beethoven, concerto para piano. Li o livro que mandaste pelo correio. Passei lençóis, experimentei a nova receita de bolo de laranja. Dormi um pedaço da tarde. Penso na urgência de fazer alguma coisa que verdadeiramente importe: sair do doméstico. Tens razão escrevendo: “nas coisas simples estava a felicidade: marido, casa, arvoredo, gado.” E ainda: “e para alimentar a tua fantasia, as nuvens, que nos dias ensolarados, povoam o campo com um rebanho de sombras.” na mesma carta, releio:  “reencontraste o sabor do pão feito em casa, tu que por tanto tempo te nutriste com o pó do asfalto da grande cidade. Eu te compreendo, mas não deixo de pensar na tua formação esmerada, nos teus companheiros, clássicos e modernos, da língua francesa. Tu os abandonaste?” 

Meu amigo, as pessoas acomodam na memória velhas experiências, e como linhas/lãs desfeitas, reaproveitáveis, de um velho tricô, elas são transformadas em cachecol para as noites de inverno. Prazer quente senti naquele tempo … Tu também tens “saudade das rosetas, dos mata-cavalos, das marias-moles, das guanxumas, e dos carrapichos que jogavas, por maldade, na corujinha da tua irmã negra”, escreves.  Gosto dessa conversa de missivas, e estou contigo na saudade do nosso Rio de Janeiro. Diferentes cenários, idênticos e domésticos sentimentos. Nostálgica leitura! Tempo da campanha do cheiro do mato, das ovelhas. Da paz, e  das crianças. Depois tempestade. Sou eu que mudei por dentro, ou me surpreendo com atropelos que me obrigam a mudar. Lá, a vida se desdobrava mansa. Hoje, inquietude e angústia. Não sei se lamento. Ao ler o que escreves repasso sentimentos. Aos teus olhos, aos meus, o novo deve ser ponderado.

Acordei assustada do sonho. Fiz chá, acendi as luzes. O significado da necessidade não está neste construir e destruir peculiar à natureza humana. É preciso ser livre para viver, mas desanimo no ócio, no gesto cansado desta tristeza. Há urgência na vida. Absorvo a separação: viramos ex-marido, ex-mulher. Esbarro na liberdade vazia. Agonia necessária. A vida queima, nós queimamos. Qual será o momento do encontro? Chegaremos à margem do Guaíba? Ao poente? O lençol cobre a terra. No ar transgressões. Passagens da vida com a pincelada do corte da ruptura. Pedaço interno lá de dentro do corpo doendo ardendo. Acabo sentindo fisicamente  ausência distância e abandono.

Será justo, não será? Por quê? Porquanto fiz desfiz. Começo, recomeço. Não saio do lugar, apenas morro um pouco … Será?Dias longos chegaram: não estavas aqui como deverias estar. Desânimo, cansaço igual ao teu. Nós não conseguimos. Quero voltar. Costura minha dor e fazer bordado deste arrependimento. Consegue o Habeas Corpus, depois o meu perdão! Elizabeth M.B. Mattos – Rio de Janeiro – 2014

Fragmentos de cartas de Iberê Camargo e desenho de Pedro Moog

DESENHO PEDRO JOANAAAAA

Abraço de verão

O verão se espreguiça. Estica os dias na sensação de abraço. Calor, alegria colorida. Rua cheia de crianças, velhos, homens e mulheres que estão naquele estado letárgico do que denominamos férias de verão. Bares, calçadas maiores. Ilusão ótica. Odores suarentos.Quero casa limpa, crianças cheirosas. Quente este verão! Chuvoso também. Agora fresco. Cinza. O cinzento que lava as calçadas… Chuva conforta.  Faz pensar. O mundo inteiro se internaliza consciente. Ou é a chuva que se apresenta pensante, assustada, ameaçadora? A natureza se espreme.  Agita, transborda. Renovação necessária. Abastece o mundo de água… Mas também grita, e se desespera. Encostas escorregadiças, tomadas. As entranhas terrosas  surpreendem com raízes, pedras. Movimento veloz, violento. O homem se perturba. Mutação. Peso. Agitação! Costas curvas de montanhas que gemem.  Arrimos artificiais, invasores. Quando chove o céu reclama, o homem pensa.