Rio Grande do Sul

Nesta tarde de novembro alagada de sol, a minha consciência positiva de proprietário é um dilúvio de orgulho. De orgulho generoso e patriarcal. Dez homens, uma comparsa de esquiladores, no extenso galpão eventualmente assoalhado de couro e tábuas, beliscam o silêncio – só o silêncio? ”, desta forma começa o livro de Aureliano de Figueiredo Pinto.  Puro requinte.

Há cheiro de rebanho – respiração, transpiração animal, dejetos, lãs vivas – em cada objeto e cada canto. ” Ou ainda: “ Estou rápido, ríspido nas ordens, nas providências, no comando de meus serviços e das lavouras. ” Também uma descrição preciosa assim, tudo continuação, nada excesso, perfeito: “ A  tarde amansa-se de longas sombras, que as árvores estiram nos gramados rentes, à maneira de chalés e fichus de vovozinhas, corando, quarando nos últimos ouros do crepúsculo.” Precisão, beleza. No primeiro capítulo, já em três páginas. Não posso transcrever completo, mas afirmar, primoroso. Memórias do Coronel Falcão.

Era verão

Dores. Estranhos movimentos. Acelerar, interromper. Problemas pra respirar, incômodo, dor, e ansiedade se misturam. Cheguei cansada. As costas partidas. Dor. Bastante dor. Mais à esquerda. Aperta. Aborrece. Dificuldade para dormir. Incômodo. Alívio depois do diagnóstico. Remédio certo. E o aperto é contornável.

O corpo pesa, e pende pro lado esquerdo. Embora as persianas estejam fechadas não consigo me isolar. O vento, o mormaço, o movimento contínuo de carros, a luminosidade oblíqua explica: estou em casa. Tudo é bem-vindo, estou em casa. Busco intimidade comigo mesma, serenidade. Necessito do espaço, deste silêncio sem dor. Maldita dor!

Que acúmulo de objetos! O excesso, desmedida importância. Desqualificada exaustão. Amolecimento. Incerteza pestilenta.  Sentimentos batidos no centrifugador, picados. Confusos.  Medo de morrer. A dor escondia no corpo sinaliza a chegada, o ponto. Limitado caminho. Medo personificado, vivo. Um envelope com surpreendente conteúdo: o que deveríamos priorizar nesta vida, neste momento? O próprio olhar, a mão estendida? Como expressar, colocar em palavras aquilo que nos parece o melhor, ou interferir no injusto, no atropelado pela ansiedade de cumprir, experimentar? Toda observação é descabida, descabelada, sem propósito. A cada escolha uma avalanche de cor, sabor, e obviedades. Sinalizadores inúteis. Por que não poderíamos parar de provar? A lágrima desce na emoção da felicidade, ou como válvula. Pressão maior, descuido, intimidade que se solta? Não sei. Um só dia com as características de mês, ou ano. Resultados imperfeitos num tempo que se propõe ideal.

 

Histórias são repetições: o véu, as alianças, as cadeiras, o sino, as pessoas, o deus, a confissão, a incerteza, o amigo, a pessoa, a delicadeza das flores, exuberância, volta, fotos: excesso de fotos que se cristalizam, identificam? Fotos para o permanente, imortalidade. Alma do momento. O sopro da felicidade.  A foto que foca o espaço entre os dedos. O modelo. O suspiro. Não sei. A revelação aberta das imperfeições que se querem perfeitas. O porta retrato, a poeira do tempo, o abraço, o copo, a garrafa, os pratos. O doce. O movimento da luz. A música. A dança. Já o corpo se apresenta inteiro, doído, apertado, mas inteiro. O sono, a cama. Travesseiros, cheiro, leveza, peso, os carros acelerando, freando, o som da televisão. Desconforto. Felicidade? Estou viva. É o começo que assinala o fim. O concluído. A exuberância da voz nos abraços, no encontro com gosto de café, de laranja, de pão fresco, ovos, o espaço. O conforto do carro, velocidade, chuva e música. Outras histórias. Saudade. Água, luz e sono. Muito sono.

 

Madrugada Suja

 

Miguel Sousa Tavares, o autor de Equador. Gosto do jeito ligeiro. Das histórias. Descrições mesmo que repetidas. Fluência. O esperado, mas pesquisa. Fotografia. Diferente de estar no trem, no trem questionamos, pesamos, voltamos atrás, nem avançamos…

A leitura tem aquela coisa de, e agora? Findo o livro assim num relampejar o que faço deste domingo que se apresenta chuvoso, e já termina? Vou te escrever. É isso? Gosto de começar, do início. Nada a lamentar, como diz um amigo querido, mas aquele jeito de interromper, deixar-se ficar tão a meu gosto, por quê? Não sei. Por trás do apaixonado, ou do escritor se esconde a rotina interior, armazenamento. Isso o Tavares deixa vivo. No entanto, Madrugada Suja passou pelas estantes das livrarias, passou. O fundo político, a corrupção deslavada, esta bruta dificuldade de ser limpo…O autor resgata. Seremos resgatáveis? Não sei. Talvez, com a mesma urgência, se queira partir pra Medronhais da Serra, não Lisboa, mas sempre Portugal.

Levemente

Levemente, ou inevitavelmente mal humorada talvez resfriada. Dor de cabeça. Aquele mal estar que aborrece, chateia, aflige. Talvez resfriada. Dor de cabeça.  Mal estar presente, indefinido. Atrapalha, espalha, junta, retoma a dor do corpo. E não é corpo, mas  lá de dentro a dor, do não sei onde é. Dor do pensamento. Esquisitice pura. Vontade de gritar sem som. Estremecimento. Bom que tem sol, e o pulso não se despedaça neste repuxo. Alívio. Os óculos pesam, castiga o rosto, o nariz. Pesam estes óculos… Desgosto.  E nem estou vendo tão bem como gostaria. Que coisa esquisita isto tudo. É esperar…

Nenhum recado, o jogo

Hoje vou pintar o cabelo, arrumar o armário, comprar aquele casaco. Hoje vou fazer uma caminhada mais longa, até ao mar. Hoje eu vou, e depois, depois afundo na cadeira, na dor nas costas, na incerteza de estar mesmo aqui e agora, sem ir. Depois volta a pontuação esdrúxula, esquisita de conversar apenas comigo mesma. Nenhum recado de volta!

Saudade das velhas cartas que abarrotavam a caixa de correio. No entanto não é o outro, mas este reflexo que gostamos… Narcisos, egocêntricos, estamos estacionados em nós mesmos. Na primeira linha. O jogo de futebol somos nós com a bola o tempo todo. Os gritos são nossos, as mãos torcidas, o descaso também. Silêncio, Imobilidade, nós. Afinal, como é mesmo participar? A cada filho sua história, a cada neto seus perigos. Ao amigo a distância. O desconhecido, curiosidade. Quero voltar a França, ir a Portugal. Quero viajar ficando. Ficando!

Amar ficando…

Engraçado! É verdade que amar, apaixonar-se tem a inteireza da alegria, no entanto nos escamoteamos, por quê? Estar nos braços do outro, beijar, entregar-se com certeza de afeto, de uma qualidade de prazeres genuínos pode ser tão lúdico, como sério. É aquele medo esquisito de ser descoberto, ser visto como de fato somos, o medo de exposição tanto quanto a vaidade de ser reconhecido que nos assusta? Amar, ou ficar? Estas angustias paradoxais se misturam a cada amanhecer. Estão mesmo embutidas no amor?

Também o SE

Ah, se eu soubesse o segredo deles, o de minha avó Filomena e do meu avô Tomaz, também eu poderia ter sido feliz! Mas também sei que vivemos apenas o que nos acontece, não o que sonhamos. Somos resultado de circunstâncias: onde estamos, quando estamos, com quem estamos. E, hoje temos demasiadas circunstâncias para que tudo se torne simples ou evidente por si mesmo. (p.62)  Noite Suja, Miguel Souza Tavares.

Na grande dor, na grande perda injetamos algumas, apenas alumas certezas após o susto do limite. Nunca acreditamos, ou pensamos na finitude do tempo. No que pode, ou vai terminar. Há qualquer coisa de permanente, de pra sempre quando somos jovens. Depois, a solidão se consolida. Fortifica. E, na espreita do tempo vamos usufruindo sentimentos de agregação. Importa o toque, a insistência, a certeza. Mas, às vezes, na pressa do novo, do inusitado, nos afastamos, senão de nós mesmos, de pessoas que poderiam, afinal significar. Queremos apenas o essencial.

Equivocadamente levantamos um muro. E nos esquecemos da fluidez, da leveza, do ócio, da despreocupação passiva do amor…Das amizades de sempre que também envelheceram…

Pequenas e espicaçadas lembranças nos identificam. Situações limite. Se eu tivesse ido para o mar, se tivesse subido aquela montanha, se não tivesse medo, se fugisse, ou se não fugisse do que me perturba. Se o sentimento de ser menos, menor não tivesse me vergado…  Se fosse menos amadora, mais engajada! Se não tivesse me apegado aos modelos precários. Se… Aquela brincadeira de imaginar outra vida, outro resultado, outro eu. Se o rumo fosse outro.

Se eu estivesse ao teu lado, meu amado.