Lembranças que atrapalham

Ontem perfuma este hoje ventoso. De chuviscos… Colhi amoras, apurei a geleia, armazenei. Amanhã, ou quem sabe depois de amanhã, vou torrar o pão de milho. Ainda quente, passar manteiga. Geleia de amoras azuis…

“Lembranças – o fato de vivermos com elas e o fato de a matarmos – obscurecem tanto a visão da vida cotidiana…Colhemos o ramo de sentimentos, de sons e de cheiros de hoje para serem contemplados amanhã.  Amanhã,[…]  (p.74)

 Perdas, Josephine Hart

Loucura!

“[…]  e sufoca seus gritos no ‘papel impresso‘.

Interessante! Como se pretende sufocar a imprensa, e a liberdade de dizer!

Não, Van Gogh não era louco, insiste Artaud neste livro inspirado, ou então ele o era no sentido desta autêntica alienação que a sociedade ignora, sociedade que confunde escrita com texto (em que qualquer coisa escrita é corpo, desenho, teatro), ela tacha de loucura as visões exorbitadas de seus artistas e sufoca seus gritos no ‘papel impresso’: ‘Foi assim que calaram Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval e o impensável conde de Lautréamont. Porque tiveram medo de que suas poesias saíssem dos livros e revertessem a realidade.'”(p.14) 

Van Gogh  o Suicida da Sociedade,

Antonin Artaud, – tradução de Ferreira Goulard.  Editora José Olympio

Sessenta e oito anos

Tímido exercício de escrever. Ou descrever o movimento especifico desta calçada. Descrever o que vejo, ou sinto, ou penso saber que penso. Escrever o fato, esta, a minha, ou a sua verdade, ou nossa. Sem película. Sem Envergonhada? Não. Coragem para dar opinião. Desajeitado. Enlouquecido. Não importa. Gritar atrás das grades. Mesmo Imobilizado. Não aceitar indecência evidente neste/ deste Brasil silencioso. Por que a verdade espreita, mas não atravessa. Não passamos pela experiência de ser Chefe da Casa Civil.

Não descobri o abacate. Não fui o primeiro da turma. Nem filho mais velho. Nem casei com mulher rica. Não fui pastorear ovelhas, nem servir ao rei. Não encontrei o bom amante. Não me encostei no amigo poderoso. Não suei no emprego. Não tenho ambição. Nem vergonha. Silencio.

Ensaio, proponho. Exercício descontinuado. Quero ousar. Escrever a história por inteiro, derramar o leite todo, ter fome. Impotência. Juntar papéis espalhados no chão. Abrir todas as caixas… Editar.

Tanta gente na manchete usufruindo, safadamente, o direito de gastar dinheiro do outro! Pois é. A medida – sempre – dinheiro. Barganha da troca, ouro.

Loucura de ir e vir para estar em todo lugar, lugar nenhum. Beleza gorda em bons restaurantes. Voz mansa no veludo gasto da boa vontade do outro. Mesmo acusado, viciado, não há punição. Alma, corpo levitando no paraíso fiscalizado, –  por ninguém. Atrás da vantagem, do amor roubado, abusado, encontrado, o poder. Safadeza consciente. Alguém fecha os olhos, concorda calado, e consente. Desejo amolece, se fortifica no abuso pela vontade omissa, lasciva, preguiçosa do outro. Luxo manipula o caráter extenuando de todo um povo, de um alguém cansado, envelhecido. Não nos livramos das facilidades, nem do falso brilhante… Tudo brilha. Encanta! Envenena. Até quando seguiremos sonâmbulos, inoperantes? O velho homem decente, bom, não pode se deixar corromper…

Arrumações e descobertas

Afirmações reveladoras, encontros, desencontros. Perseguição engraçada! Navegar? Náufragos, ao vento! Leituras, autores preferidos, novos. Desnudam, e aproximam a terra

Trejeito, intenção, desculpa, olhar. Através deles o strip-tease doméstico. Será que é exatamente assim sem novidade o mundo? Sem originalidade? Somos uma réplica, ou imitação? Há que revolver, dar voltas, e voltas… Mesmice. O recorte, o gozo perfeito.

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“Faço a mim própria, uma vez mais, a minha Eterna Pergunta. Que é que me torna tão difícil o momento da expressão literária? Se neste instante me sentasse para escrever algumas das histórias que estão completamente redigidas, completamente prontas no meu espírito, levaria dias e dias a escrevê-las. E são tantas essas histórias! Passo tantas horas a ruminá-las que, se conseguisse triunfar do meu cansaço e pegar na pena a valer, deveriam escrever-se sozinhas, de tal modo estão prontas até o mínimo pormenor. Mas o que falta é atividade. Todos os pretextos me servem: não tenho um canto para escrever, não tenho secretária, a cadeira não é cômoda…e, contudo, e no momento exato em que me lamento, dir-se-ia que surge, precisamente o local, a cadeira que preciso. […]

…Quando se é pequeno e doente e se está exilado num quarto distante, tudo o que acontece para além desse quarto é maravilhoso…” (p.114-115)

Fragmentos do Diário, – Katherine Mansfiel – Coleção dirigida por António Ferro. Contemporâneo, Biografias e Memórias.

18 anos e 40 anos, e 50 anos

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Prezado amigo:
De repente volto para a casa da rua Vitor Hugo, depois dos quinze a rua André Poente. Elizabeth era/ é meu nome. O jeito certo do pai, e da minha mãe me nominarem. Beth vem da meninada, da escola, de eu mesma a me diminuir. Apequenar. Adolescer. E este tempo já passou. Dizes bem, Elizabeth.
Como crescemos! Mais urgências. Atropelos, escaladas. E solavancos. Para descrever o começo, esboçar a história. Confesso, atrapalhada, medrosa, confusa. A nudez da verdade com o espanto adolescente, ingênuo de se esconder. A boniteza, dizem, abençoa. Abre porta, escancara janela, coloca flores no caminho, ilumina. Pétalas e perfume. A beleza dança. Tudo bem. Não posso o contrário… Século XIX escorrendo spleen, nostalgia. Tedio barra o caminho. Imaginação, já escritura rebatendo a vida comum. Não. A beleza foi suporte. Aceito.
Entrei direto na vida acreditando que podia. Célia Ribeiro me deu mão, a chance. E temos o Jornal Feminino na Globo. Artes plásticas. Literatura. Participei uma noite do Jornal das vinte e duas horas com Lauro Schirmer. Entrevistas. Ideias mimadas. A televisão foi janela. Seguir parecia tão fácil! Revista do Globo inteira a disposição! Queria ser jornalista, escrever. Um dia Flávio Carneiro, cortou a entrevista com Xico Stockinger, duas páginas, publicou uma. Do alto dos meus dezoitos anos reclamei. Respondeu: “Vendes bem capa de revista, não escritos.” Foi a primeira chuveirada gelada. Abandonei o jornalismo da televisão, as entrevistas para a Revista Globo. E o medo entrou na história. Deixo o mato tomar conta do meu campo de futebol. Elizabeth M.B. Mattos, Torres, 2015.

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Eugênia abraça Olivia

Explicar o sentimento. Dar a receita. Transformar em risada tua angustia. Solucionar entraves. Desfazer o zelo em consolo. Contar da ansiedade miúda. Engodo, mentira, e o faz de conta da infância… Igualar sentimentos. Afeto certo. Respeito. Visão destorcida da paixão que por si só explica, ou justifica. Desmentir o pavor interno de possível rejeição. A escolha de estar apenas em si mesma, luxo excêntrico. O jeito errado de não ter medo. Ser indesejável na solidão consciente. A festa de balões verdes… Trauma da infância ilegítima, e sem mãe. Marilyn Monroe. O sentimento do abandono. Expor, recontar, repartir, inventar. Queixas ranhetas, lembranças esquecidas: um guardanapo com monograma. Livro encadernado de vermelho. Ordem. Beleza. Excesso na simplicidade. Um tapete branco. Hortência. O retrato. É preciso sentir amor no milagre escondido, na natureza humana, do desabrochar da flor, na chuva, na terra, na areia do mar…. Procurar no sentido absoluto porque tudo já está encontrado, achado. Explicar desejo. Certeza absoluta. O fio imaginário na estante cheia de livros não lidos, sem pó. O escuro. Noite mal dormida.
Subiu as escadas até o terceiro pavimento sem dificuldade. Bateu, tocou a campainha. Logo a porta se abriu devagar, por inteiro. Eugênia vestia azul. Cabelos puxados para trás. A expressão lisa, talvez feliz, abraça Olivia.