Ana Alegria

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24 de maio de 2013

Tanto tempo! Tanto silêncio! E assim mesmo carinho. Lembrança boa dos dias que estivemos juntas. Não exatamente saudade. Deu tudo errado, não funcionou. Escolhemos o melhor, ou foi destino. Não importa. Lembro também o reencontro na galeria, e nas portas fechadas. Não se apostou em talento. Queriam o banquete! E precisávamos de tão pouco para chegar! Eu fraca, sem posição. Coragem. Assustada. Passei minha vida inteira assustada. Coisa esquisita nos darmos conta disto tão tarde! Aquele acanhamento que ‘mora’ lá dentro! Se alguma coisa aconteceu eu diria ter sido mesmo o acaso. Vivi na corda bamba do acaso! E certas atitudes de acanhamento se aprofundaram. E o péssimo jeito para lidar com as pessoas! Sem frontalidade. O permanente recuo. Mas não era de mim que queria escrever, mas de ti, do teu talento, tua casa. Uma vez fui fazer visita, ver o trabalho, e me impressionou, também, a ordem, a disposição dos móveis. Tudo que te cercava era escolha, seleção, e a beleza. Estavas, feliz! Conheci a mexicana Frida Kahlo contigo. Tu me presenteaste com dois cartões que ainda guardo comigo. Gostaria de me misturar na tua história, ou integrar, mas estava ali, tímida diante de nossa história. E o meu presente pesava… O amor não deu certo, o trabalho foi se esgotando, a professora minguando. Estacionei.  Hoje estou em Torres, na beira da Lagoa do Violão levando vida pacata. Teoricamente moro com a minha irmã Tânia, bem perto da tua casa, mas nunca mais estive “em casa”, como tenho dito, armo a tenda, e me adapto. Objetos começam a significar pouco, ou quase nada! No entanto gosto de estar em casa. O tempo de juntar as coisas, de se deixar ficar. Nostálgica. O texto da Woolf exemplifica: “Debaixo desta cobertura amassada e tristonha o verde das couves parecia menos intenso, e a neve era de um branco sujo. Mas isto não era nada: logo se insinuou em todas as casas a umidade, o mais insidioso dos inimigos; pode evitar os raios solares com as persianas, e combater o gelo com um bom fogo na lareira; mas a umidade penetra furtivamente em nós enquanto dormimos; ela é silenciosa, imperceptível, ubíqua. A umidade incha a madeira, mofa as panelas, enferruja o ferro, apodrece a pedra. Ela age de maneira gradual que, quando levantamos uma arca ou um balde de carvão, eles se desfazem em pedaços, e nos damos conta que a doença já agiu.”

De repente, já aconteceu. A foto é pretexto para te escrever, ou ao contrário. Encontrei esta carta não enviada, e tenho outras em caixas, perdidas… Vou reunir, vou achar, vou selecionar. Vou voltar. Pensei em te mandar via computador, aliás, está lá… Mas teu e-mail ainda é o mesmo? Arrisco o correio. Gosto das cartas. Tu e o Rodrigo na tua casa de Torres. Pronto, comecei uma tarefa e terminei.

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