Não consigo dormir

Não consigo dormir

Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada na minha garganta. ”

O diagnóstico e a terapêutica

O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos, noite após noite pelos abraços, ou pelas ausências de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma necessidade de dizer estupidezes. O amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção capaz de evitá – lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia  e tudo” (p. 90-91)

O Livro dos Abraços,  Eduardo Galeano

ficção uruguaia

 

 

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