Sensualidade erotisada

livro usado

Qual o fato novo para mudar radicalmente? Estou grávida. Parece extraordinário que esteja neste estado, afinal, nosso encontro foi apenas correria pelas salas. Sem maçã nem vinho. Entre os livros e os quadros. O fetiche, os livros …  Estou grávida.  Brincadeiras de abraçar e beijar precisam de tempo e de reflexão. Os filhos,  … os filhos chegam antes dos amores. Depois que ele nascer estarei a te esperar. Virás me buscar, e num giro de amar nunca mais separar. No abraço outro beijo. Com os pés no barro da argila Xico Stockinger nos transformará em escultura. Bronze ou ferro e madeira. Elizabeth Mattos, Torres.

Stockinger

10 comentários sobre “Sensualidade erotisada

  1. Li este texto com uma versão um pouco diferente no final. Escrevias algo sobre os nossos setenta anos e o amor do amor. Gostei mais daquele final que, significativamente, resolveste suprimir. Li a primeira versão postada e senti que o que foi suprimido, logo após a minha leitura, me pareceu mais significativo do que o que foi mantido… Passei os últimos dias lendo e relendo os teus escritos no amorasazuis, auscultando tua pessoa no que eles dizem e não dizem. Por isso reparei a supressão. .

    • E muito bom quando alguém aponta, palpita, sublinha. Na verdade, Celso, procuro limpar o texto. Este é novo, mas em alguns mais antigos (como um recente q coloquei no Face sobre o Iberê) faço correções. Correções? Não sei. Tirar os excessos. Quando escrevo parece que tudo é urgente e essencial, depois aparecem erros de digitação, equívocos, excesso. Meu neto sempre me diz que devo trabalhar fora do Amoras, mas às vezes, como aconteceu neste Post arrumei ali … sim tinha alguma coisa mais que achei meloso …não lembro. Assim mesmo obrigada pelo carinho, e pela leitura.

  2. Mas adorei o que disseste antes do final. Fiquei muito tocado ! E achei o meu comentário inoportuno, talvez mesmo até indiscreto e seco. Enquanto que a tua linguagem é poética, expressiva, maravilhosa.

    • Estou sob o impacto do falecimento do meu amigo João Gilberto Noll. Há pouco minha mulher me deu a notícia que escutou na Rádio Guaíba. Ouvi no rádio a entrevista com o Luís Augusto Fischer sobre o João. A família não informou a causa mortis. Está sendo velado no Cemitério João XXIII. Enterro às 18 horas. Estarei lá.

      Ele dedicou a mim o romance Bandoleiros. Eu sabia que ele tinha ganhado o Prêmio Jaboti. Não sabia que ganhou cinco vezes. Mas isso não importa, nossa amizade estava acima das honrarias, exterioridades e aparências. Fomos colegas cursando o clássico no Julinho. Anos 60. E, desde aquela época, ficamos grandes amigos. Era uma das amizades mais antigas que eu tinha. Nos vimos pouco nos últimos anos. Fato que lamento profundamente. Estou arrasado, chorando…

      E já estou considerando que és a minha mais recente amizade, uma pessoa que sinto como confidente íntima e consoladora. Tanto que a primeira coisa que me ocorreu ao saber da morte do João foi ligar o computador e partilhar contigo este momento. É o que estou fazendo. E aconteceu algo extraordinário: ao ler a tua resposta ao meu comentário me senti consolado pela perda do João Gilberto.

      Passei os últimos dias frequentando intensamente tuas amorasazuis, impactado pela natureza inesperada e excepcional da relação que se iniciou entre nós. Dias cheios de momentos de cautela e auscultações recíprocas. no que estou entendendo como sendo a busca de uma sintonia perfeita entre nós. . É isso que está acontecendo contigo ? Eu estava sentindo e sinto que tudo isso é muito delicado, uma alta tensão a me fazer pensar em cada palavra, na busca de significado até na pontuação dos textos, a sensação do extremo perigo, dos riscos e responsabilidades da comunicação e das ilusões que ela pode criar… Algo como uma névoa a cobrir minha compreensão da tua pessoa, da natureza nossa relação e da própria realidade. Pois toda esta névoa se dissipou instantaneamente, mostrando um novo sentido de realidade, quando li as tuas repostas aos meus comentários.

      Abordaste aspectos óbvios e banais do ofício de escritor: corrigir, suprimir, encurtar, limpar o texto,etc.. E eu estava preocupado em compreender a névoa, o que estava por trás do que foi suprimido. Quais as intenções, esperanças, desejos e incertezas que poderia inferir das modificações e supressões da tua edição de texto ? Afinal qual é a natureza da relação que estamos estabelecendo através deste processo de comunicação ? Amor ? Amizade ? Ou cada um seguir o seu caminho como se nada tivesse acontecido ? O que esperar de tudo isso ? No fundo estas eram as questões que eu estava auscultado no teus textos e respostas. E o comentário que fiz abordando as omissões e modificações que fizeste no tom do texto, depois que ele foi postado, expressava este estado de espírito. (Aliás, comentário este que depois odiei, achei invasivo, indiscreto). A tua resposta, tão simples, querida , despretensiosa e verdadeira na sua obviedade, ajudou a minha compreensão do que eu quero e desejo da nossa relação e dissipou a névoa e me consolou.da morte de João Gilberto. Te senti sem mistérios. Sem nada oculto, sem nada para compreender, Exatamente como quando a almofada nos olha..

      Aconteceu algo semelhante há poucos dias quando li a correspondência entre Clarisse Lispector e Fernando Sabino. Clarisse, este monstro sagrado da literatura, corrigindo e suprimindo seus textos seguindo a orientação de Fernando Sabino. O sublime prefácio de A Maçã no Escuro devidamente suprimido (mandei pra ti aquela citação tirada dele). Foi uma lição de realidade que humanizou e engrandeceu ainda mais aos meus olhos a figura da Clarisse, iluminando a minha vida, da qual hoje participas.

  3. Ele é dos grandes. E eu te pergunto deste lado também dolorido com o luto: como é ser monge?
    A leitura depois de assimilada desaparece …. É preciso voltar ao livro. Adoro Clarice Lispector, mas não li tudo. Fernando Sabino conheci em pessoa. Um alguém cheio de vida … a vida que sentimos, mas nem vivemos.

  4. Como é ser monge ? É uma pergunta que eu também me faço. Eu me ordenei monge da tradição Sotô Zen já velho, aos 69 anos, depois de mais de 45 anos de tentativas de entender o zen. Ainda sou um monge noviço. Kodô Sawaki, um dos maiores mestres zen do Japão no século XX, dizia que a maior felicidade da vida para ele era “vestir o Kesa (o manto monáticos) e praticar o zazen” (a “meditação” sentada). Eu, depois que me ordenei, senti uma mudança profunda em mim. Mas ainda não consigo dizer o que é. Ainda não consegui entender o zen porque, pelo que compreendo, não há o que entender. Quando a gente pensa que entende, não está entendendo mais. Quando tu dizes que “procuro limpar o texto, (…) Faço correções. Tirar os excessos.” Tudo isso é zen em estado puro. Por isso eu me senti iluminado ao ler no teu texto o que também faço ao escrever.

    O monge zen é um ser que procura nada tirar e nada acrescentar à plenitude que vive a cada momento. Um mestre zen é alguém que não necessita procurar mais e é capaz de expressar o que encontrou. Suprema disciplina, suprema aceitação. Se tentar acrescentar ou tirar estraga tudo. É lenha que se delicia na própria combustão de si mesma. Queima completamente sem fazer fumaça, Sou monge e escritor por ter lido O Encontro Marcado de Fernando Sabino ainda no ginásio, por ter lido “O ôvo” de Clarisse Lispector,.. E por numerosas coisas que li, fiz e vivi. (Conheceste pessoalmente o Fernando Sabino ! Oh ! que inveja !.).. Sou monge por considerar a arte um caminho inseparável da minha religião. Por ter um pé ora na poesia, ora na música, ora na filosofia, ora na escrita ou na contemplação meditativa. E ir caminhando…

    Hoje, vendo o corpo do meu velho amigo João Gilberto deitado no caixão, lembrei de uma historinha dos anais do zen. Um monge zen tinha morrido e estava no ataúde. E um discípulo aos gritos, desesperado, perguntou ao mestre, segurando e sacudindo a gola do seu manto com violência: “O corpo está aí, na nossa frente. Mas onde está o espírito ? Onde está o espirito dele ? Onde ?” E o mestre respondia: “Não digo ! Não digo ! Não digo !”. E esta foi a resposta do mestre.

    Ser monge é pensar nestas coisas todas e aprender a sair do pensar não pensando através da prática da meditação (zazen). É uma tarefa altamente especializada e exigente, Não é para todo o mundo. Fico espantado com a popularidade do zen no apogeu da cultura chinesa. O zen era praticado por, milhões de pessoas. Existiram até ministros e imperadores chineses que eram iluminados. Acho que quando a gente não acredita em mais nada, não aceita a idéia da existência de um fundamento separado do Universo, seja um Deus criador ou o Ser da filosofia ocidental, como é o meu caso, pode começar a apreciar e a valorizar o zen. Não se trata de ceticismo ou de niilismo. Trata-se de não transformar a vida em uma finalidade para outra coisa. E de chamar a esta finalidade, instaurada discursivamente, de fé. Isto é que é niilismo. A realidade é indescritível. Ela está além da existência e da não-existência, do conhecer e do não-conhecer, do saber e do não-saber, do sentido e do não-sentido. Portanto não é necessário morrer para chegar à imortalidade, como nós, ocidentais, normalmente pensamos. Nem é necessário buscar no sentido um fundamento para o não-sentido das nossas crenças absurdas. A verdade última para o ensinamento de Buda é que somos inseparáveis da Natureza. Nem nascemos e nem morremos, como o Universo. .

    Meu querido amigo João Gilberto não foi e nem irá para o céu, sua alma não atingirá a condição de imortalidade,agora que ele morreu, e nem ressurgirá dos mortos no Juízo Final. Fico com pena de todos nós quando ouço nos velórios a total falta de sentido das verdades que dizem nossos sacerdotes e que os fieis repetem mecanicamente, como papagaios perplexos com a morte… O ecocídio, o etnocídio e o suicídio constitutivos da nossa civilização são o resultado da separação que a nossa cultura estabeleceu entre a humanidade, a Natureza, e outras culturas. Esta separação deu-se através da crença de que a condição humana tem uma finalidade e que esta finalidade é o nosso fundamento cultural. Buda nunca afirmou nada a este respeito. Manteve o silêncio.

    Meu velho e querido amigo João Gilberto, pelo simples fato de ter vivido, nunca foi separado do Universo e a sua condição de imortalidade e de suprema dignidade deu-se no aqui-agora da própria vida que ele viveu. Estou de luto. É claro que estou sofrendo com a sua morte e que nunca me esquecerei da pessoa maravilhosa que ele foi. Mas como dizia o monge Tokuda, meu primeiro mestre de zen, “A gente sofre mas o sofrimento tem o gosto de vida”. Ser monge zen é pensar assim.

    PS – Beth: Pensar e escrever repostas às tuas perguntas e a morte do João Gilberto motivaram reflexões que expressaram de maneira feliz aspectos fundamentais da minha compreensão do pensamento búdico. Não sei se gostas deste tipo de texto, mais filosófico. Estou pensando em utilizá-lo mais tarde e gostaria de saber a tua opinião. Estarei muito ocupado até o dia 8 de abril, fazendo os preparativos para a consagração do ZENDO DIAMANTE, futuro Templo do Diamante. (Riachuelo, 301), às 18 horas. Por esta razão não me manifestarei nos próximos dias. Gasshô !

  5. Já tentei entender outras vezes. Vou reler o que escreveste. Difícil. Um estado quase intermediário de um vazio preenchido. Porque o vazio é que importa.Ser pessoa, ser gente é difícil. Temos um caminho percorrido por nossos pais, avós, toda uma trilha agregada, mas existe a nossa colaboração pessoal com o mundo … Estás no caminho. Estou, como se diz, leve … Envelhecendo. O que significa que estou viva.

  6. Não resisti e resolvi ver se tinhas escrito algumas coisa, apesar de estar cheio de coisas a fazer. Hoje serei breve, não me alongarei. O chamado Vazio não é vazio. É plenitude, é tudo. Nossa própria natureza já é iluminada, somos seres despertos, que estão acordados. Buda quer dizer isso: Em termos espirituais, nada nos falta. Nossas vidas se confundem com o próprio Universo, são o próprio Universo. Esta inseparabilidade é chamada no pensamento búdico de Não-Dualidade. A Não-Dualidade não é o que nossa metafísica e a nossas religiões consideram ser a Unidade. Não temos este conceito-noção na nossa cultura. Temos um passado, um caminho percorrido pelos nosso pais , avós. Certo ! Mas isso é a condicionalidade, é o chamado KARMA. O Ocidente confunde o Absoluto com o relativo através da busca da unidade, como se a unidade fosse última. O Vazio não é o Nada. E não é incompatível com as velhas trilhas da nossa cultura. É o eu que não é real e não é último. Quando não há o eu, não há separação. E isso é a realidade imediata que preside e constitui todos os momentos. Graça, talvez seja o conceito da nossa cultura que mais se aproxima do Vazio budista. Se gostas de pensar nestas coisas, teremos muito o que conversar enquanto envelhecemos. Mas não consegui expressar exatamente o que eu queria dizer. Isso acontece muito comigo. Nada se interpõe entre nós e a realidade a não ser o sentido relativo que damos a ela e que constitui o nosso eu e sem o qual não podemos viver a condição humana. Vai aqui um koan zen do mestre Joshu: “Se todas as coisas se reduzem à Unidade, a que se reduz a Unidade ?” Em geral os intérpretes ocidentais e orientais ocidentalizados do zen chamam este koan de koan da Unidade. Para mim o título mais adequado é o de “Koan da Não-Dualidade.” A vida é linda.

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