Somos nós?

Está frio aqui dentro tão quente na calçada gelado aqui dentro. Hoje não chove, não estou te dizendo o que já sabes, escuta: faz sol e o planeta se ilumina apesar desta guerra anunciada o planeta se ilumina. Apesar desta bandidagem solta e violenta o anjo anuncia luz e uma fatia de tranquilidade. Era isso que eu queria te dizer. E contar do livro de Stefan Zueig 24 horas da Vida de uma Mulher o passado e o agora explica o equívoco. Ninguém muda ninguém, ninguém fica diferente do que é mesmo quando não se identifica nem se conhece (este alguém) este Eu aponta para um ele que É. Perfumei o livro. Cheiro de outono, mas também de primavera com folhas amarelas … colorido na calçada. Estamos tu e eu outonando castanhos avermelhados. Branco preto cinza, e nós dois.  Odor vento voo leveza e bom sentimento. Temperatura com gosto de laranja de ameixa de pera sem abacaxi sem uva nem goiaba. Tâmaras? Pode ser outono em qualquer parte do mundo e ao mesmo tempo outono. Cerejas framboesas ou amoras são todas as mesmas. Surpresa ansiedade tormento amor amizade loucura mais (+) silêncio mais (+) tua voz que, afinal chega. Mundo avesso bordado povoado (dois sentidos, adjetivo e substantivo) transborda enlouquece e me deixa gelada. Preciso calor água um copo de bom vinho teus braços, ou estar eu comigo, contigo. Este desejo! … preciso quero entender e se entender eu explico  … Nenhum lugar seguro. Venta tanto dentro de mim! Segura minha mão ou voaremos como aquelas figuras de Chagall … Elizabeth M.B. Mattos, Torres.

Para C.M.  “nous étions prêst  à nous ouvrir, et notre ami spirituel s’est ouvert, et tous deux nous sommes renncontrés au même moment, c’est merveilleux.” Chogyam Trungpa

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“A maioria das pessoas não tem senão uma imaginação débil. O que não lhes toca diretamente, o que não se lhes enterra como uma ponta aguda em pleno cérebro, não chega a comovê – las, mas, se, diante de seus olhos, ao alcance imediato da sua sensibilidade, acontece alguma coisa, por insignificante que seja, logo começa a ferver nelas uma paixão desmedida. Compensam então, até certo ponto, a escassez de interesse que tomam pelos acontecimentos exteriores com uma veemência imprópria e exagerada.” (p.233) 24 Horas da Vida de um Mulher e outras novelas, Stefan Zueig, tradução de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. 

3 comentários sobre “Somos nós?

  1. Como ecologista, luto contra a morte anunciada do nosso maravilhoso planeta azul. Luto contra a demência coletiva e a total falta de sentido de toda a cultura humana que esta morte anunciada evidencia. Pois qual o sentido da existência da nossa espécie neste planeta se as nossas religiões, filosofias, ciências, artes, enfim se tudo o que a humanidade produziu de mais dignificante e sublime no âmbito da cultura, tem se revelado impotente para reverter e deter o caráter ecocida, etnocida e suicida das instituições que presidem nossa civilização ? Mais do que apenas a guerra anunciada entre os homens, a guerra permanente contra a natureza, a paz civilizada da nossa normalidade patológica, condena a nossa espécie à autodestruição. .

    No entanto, “Faz sol e o planeta se ilumina. Apesar desta bandidagem solta e violenta o anjo anuncia luz e uma fatia de tranquilidade. Era isso que eu queria te dizer.” E essa luz, essa tranquilidade, somos nós ? Teu título pergunta. Mas a pergunta já é uma resposta contida na própria pergunta. O planeta se ilumina, apesar de toda a escuridão há muita luz e não é apenas a luz do sol mas a luz da.Iluminação, do Despertar.

    Compreendi nesta última noite abençoada que tens toda a razão. Atravessei o vir-a-ser deste mundo de nascimentos-e-mortes ao teu lado, viajando no mesmo barco (“yana”). Cheguei na outra margem, Compreendi novamente o que já compreendi muitas vezes. Trata-se da realidade última, o que não é criado nem pela divindade e nem pelo homem, sendo desprovido de EU.. Trata-se do objetivo fundamental do voto do Bodissatva: levar todos os seres vivos ao Nirvana.

    Diz Buda ao seu discípulo Subhuti no Sutra do Diamante: “Mais, si bien que ces innombrables êtres vivants soient conduits au Nirvana, en realité aucun être vivant n’Y a été conduit. Pourquoi cela ? C’est très simple: si un bodhisattva conserve dans son esprit les concepts de soi, d’autrui, d’être vivant, de personne, alors il n’est pas un vrai bodhisattva.” A realidade não pode ser contida em conceitos. Estes se efetivam como significações através das operações mentais que são os processos discriminativos. Mas a realidade última é dada e perfeita, não sendo o resultado de nenhum processo e nem causada.

    Fiquei rindo ao ler que “levar todos os seres vivos ao Nirvana” é a própria realidade; mas “levar”, “seres vivos”, “nirvana”, “condutor” e “conduzido”, etc., são simplesmente conceitos. Trata-se de uma passagem de uma sutileza filosófica extraordinária. Assim sendo, a frase “Faz sol e o planeta se ilumina. Apesar desta bandidagem solta e violenta o anjo anuncia luz e uma fatia de tranquilidade. Era isso que eu queria te dizer.” A frase expressa a própria realidade mas “sol”, “planeta”, “bandidagem”, “anjo”, “anunciar”, “luz”,”fatia”, “tranquilidade”, “eu”, “dizer”, são conceitos, incompatíveis com a realidade última e derradeira, além da qual nada mais existe. Ou, melhor ainda, para a qual nem existência nem inexistência se aplicam. Mas a própria tranquilidade é a fatia da realidade nirvânica, realizada e atingida no aqui-agora imediato, quando mais nenhum conceito vigora. E eu diria que esta realidade responde à pergunta-titulo: “Somos nós” ?

  2. (CONTINUAÇÃO DO COMENTÁRIO)
    Escreves “Era isso que eu queria te dizer.” E era isso que eu queria, quero e preciso escutar em todas as tuas palavras. É também o que eu quero te dizer em tudo o que digo. Pois adoro a fruição desta realidade no tempo e fora do tempo que a tua simples existência suscita em mim a cada momento. A travessia é um instante que preside todos os instantes na sua atemporalidade dentro do tempo. Somos sem princípio e sem fim como o Universo. Nossa dignidade não depende da justiça, da política e de perfeições humanas irrealizáveis neste mundo. O sentido da vida não depende de objetivos, nem de finalidades, explicações e expectativas de uma racionalidade demencial baseada na separatividade dos significados que constitui. Basta tomar consciência de ter nascido e pertencer ao caudal da vida para o sentido da vida se manifestar na suprema dignidade da sua perfeição nirvânica. Este é o caminho permanentemente aberto para a travessia. Tudo está bem, não é necessário mudar nada da suprema ordem do existente para que a imortalidade aconteça. . A irracionalidade e a total falta de sentido da cultura ocidental se expressa na entropia ecocida, etnocida e suicida do processo civilizatório da globalização. Nosso imaginário cultural construiu uma separação da natureza e de outras culturas inexistente na fisicalidade do mundo. Esta separação gerou instituições que nos educam para sermos agentes inconscientes da involução biológica, da desorganização crescente da matéria viva que, finalmente, será fatal. Mas a falta de sentido de uma cultura que produziu uma civilização entrópica não pode nos intimidar com o medo da morte e a falta de coragem. O sentido não é a realidade última e derradeira para a cumplicidade com a vida. A crença no sentido é que conspira contra a vida, promovendo o medo da morte e a criação de um mundo silencioso, sem nós. Somos imortais e não podemos nem devemos temer a morte. Daí que fazemos nossos os votos do Bodhisattva Samantabhadra, no Avatamsaka Sutra:

    Mesmo que os reinos do espaço tenham fim
    Mesmo que se extingam todos os seres vivos
    Com seus Karmas e aflições
    Nada jamais desaparecerá
    Nem mesmo desaparecerão os meus votos.

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