fora do corpo

A liberdade passa a ser a medida em que nos vertemos em atos que sejam a nossa liberdade. Somos nós nos atos e portanto responsáveis por eles. Já tu passas o tempo buscando descobrir se te amo ou não …” (p.91) Paulo Hecker Filho, Juventude, Editora Sulina, 1998.

LIVROS PHFilho

Encontrar Paulo Hecker Filho foi encantamento, ou a melhor aventura que me aconteceu. Logo fica decidido que não marcaríamos nem para um café ou chá ou em qualquer momento nos veríamos pessoalmente, nos escreveríamos. E assim foi. Cartas diárias enormes que galopavam entre Porto Alegre e Torres, confessionais, ditatoriais, descritivas, apaixonadas, queixosas …. Ele era pai, amigo, amante, inimigo e aliado. Exercia todos os papéis. Aquele mar era meu, as lajotas vermelhas do apartamento, as sacadas, o cheiro de maresia, as calçadas que conversam,  a Ilha dos Lobos … O paraíso me pertencia como a liberdade. Ninguém para me censurar ou elogiar, o meu dia passava pelas cartas, minha rotina pelos aluno, e o amor pelos netos. Os livros chegavam autografados com saborosas dedicatórias. Eu devorava. Algumas turmas da faculdade também leram. … Por que lembro isso/disso agora? Porque AMAR  o amor tem destas coisas loucas inexplicáveis, o sentimento derrapa, resvala, anda, vai e volta. O mergulho é assim … no fundo vemos o que não poderemos ver uma segunda vez, o fundo do mar se move, tudo sai do lugar, e nunca é o mesmo … Sinto frio. Aquele gelado  que não tem abraço, e me dou conta que escolhi o caminho mais difícil.

A liberdade não está ao alcance … ao alcance das mãos, da cabeça, mas solta no íntimo da alma. Não domino os sentimentos que me afastam, ou aproximam desta ou daquela pessoa … A natureza de ser/ter/ estar se altera no cansaço, no corpo físico, e por dentro …  Escrever sobre eu mesma, ou como sinto, enxergo ou me vejo, formatar um dia em palavras … difícil, abstrato embora descritivo. Um exercício. E.M.B.Mattos, julho de 2017. Torres.

Volto a um velho texto de um velho livro: “Existem numerosas espécies e gêneros de hortaliças, porém todas, segundo nossos princípios de classificação, jazem no lodo. Crescem aí e aí são colhidas. Batatas, tomates, chicória e nabos. Seres não – humanos e seres humanos. Alterando a analogia, poder – se – ia dizer que vivemos vidas que estão encaixadas desde o nascimento à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos tão condicionados a viver numa caixa, que, daí em diante, erigimos própria caixa, uma prisão, um receptáculo em nossa volta … até que, finalmente com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório. ” (p.35) Davis Cooper, – Psiquiatria e Antipsiquiatria, – Editora Perspectiva, Coleção Debates, São Paulo 1967

FOTO ATUAL desenhada MINHA

julho de 2017, Torres

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