um pedaço de biografia

“ A estrada seria longa. Todas as estradas que levam ao que nosso coração almeja são longas. ” Joseph Conrad   A Linha de Sombra

Março 2004 – Páscoa:

Balonismo depois do furacão Catarina que assustou, assombrou Torres. Fui demitida da galeria Garagem de Arte no dia primeiro de abril, e não era uma piada. Engasgada gelada assustada avisei filhos, irmãs, – faço o registro do medo, mas logo pensei: novos tempos novos rumos. De certa forma atordoada, mas livre (havia escravidão peculiar a servir/ter chefe e metas a cumprir) e, desavisadamente, aliviada. Agora conto a história de ser marchand em mar aberto … sigo o rastro deste recomeçar, ainda outra vez, tantas vezes recomecei! Sair das cores. Da magia, da vida de amigos pintores, colecionadores, artistas …  Por algum tempo toquei na luz. “E o tempo também caminha – até que se percebe logo adiante uma linha de sombra avisando – nos que também a região da mocidade deverá ser deixada para trás”.

Voltei para casa, para dentro de mim mesma, desertei da vida porto-alegrense, e me perguntei, e agora? Dar as costas para aquele mundo foi um ritual de passagem. Conheci o paraíso de ser eu mesma depender apenas de mim, … e cheguei ao inferno do medo.

“ Mas eu não senti receio. Eu estava suficientemente familiarizado com o Arquipélago por aquela época. Paciência extrema e extremo cuidado me levariam através desta região de terras quebradas, de ares tênues e águas mortas até onde eu sentiria enfim meu comando balouçar nas grandes vagas e inclinar-me com o grandioso sopro dos ventos regulares, que dariam a ele a sensação de uma vida mais ampla, mais intensa. A estrada seria longa. Todas as estradas que levam ao que o nosso coração almeja são longas. Mas esta estrada meu olho mental podia ver num mapa, profissionalmente, com todas as suas complicações e dificuldades, mas, ainda assim, bastante simples de certa forma. Ou se é um marujo ou não se é. E eu não tinha dúvidas de que era um deles. ”

Como eu me senti quando cheguei a primeira vez na galeria? Não sei dizer, mas Joseph Conrad soube explicar:

[…] “, eu sabia que, como algumas raras mulheres, este navio era uma daquelas criatura cuja mera existência é suficiente para provocar um prazer desinteressado. Sente-se que é ótimo estar no mundo que ela habita.  […]. Meia hora mais tarde, pondo meus pés em seu convés pela primeira vez, fui possuído pela sensação de profunda satisfação física. Nada poderia igualar a plenitude daquele momento, a integridade fantástica daquela experiência emocional que chegou a mim sem preliminar fadiga e desencantos de uma carreira obscura. ”

Eu me desligara da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) com a ideia de me aventurar em Belo Horizonte, pois é, uma vez tive esta enlouquecida e amorosa ideia de ser mineira, e comecei a tecer planos que se desfizeram diante da morte de Sonia Maria (minha amiga que se mudava para Belo Horizonte), e o tal namorado um engodo. Foi tão estranho e doloroso! Tudo se enrolou numa rede de fantasia, e de repente, não era mais nada para ser daquele jeito. A morte é definitiva; sinal de limite. Estranho! E minha vida tem estes sinaleiros, anjos, ou faróis a mostrar o caminho …  Não, este lugar não te pertence, nesta ilha não podes descer, este homem não podes ter. Este jardim não é teu. Foi sentimento, encantamento e magia a galeria. Lentamente o amor cobriu o espaço inteiro, e eu estava viva como que hipnotizada pelas esculturas. O mesmo sentimento de pertencimento que senti com os alunos do Colégio da Providência no Rio de Janeiro. Um passo e já fazes parte. O encanto da chegada, e depois a demissão. Posso lembrar dos dois dias. Carteira de Trabalho assinada e depois aquele podes ir emboraHoje, agora. Vais receber o que é preciso … E a vida tomou outro rumo. O imprevisto, o gozado e o estranho … eu sabia que alguma coisa já tinha mudado, e havia a tal moça rondando. Não foi surpresa, foi previsível, mas não me impediu de ficar chocada ao  sair, dar as costas, ir embora. Ao manejar o veleiro de Conrad e levantar a cabeça, – faço uma leve analogia com o curso da vida em determinado momento (assumir a galeria primeiro, e ser demitida de supetão), é como estar em grande tempestade, mas não se pode desistir, ao contrário, é preciso ficar mais forte, mais destro, mais corajoso. É preciso assumir e agarrar a vida. Eu nunca pediria demissão, não ia fazer isso comigo. Eu já tinha abandonado o meu concurso do magistério no Estado num gesto de rebeldia e prepotência. Eu já tinha sido gentil e tolerante. Eu já tinha usado da humildade. Eu já tinha sido Beth, agora eu era Elizabeth, não contestei naquele momento, contestaria mais tarde, no momento certo. Contenção de despesas foi a boa explicação.

Eu era ainda suficientemente jovem, estava ainda demais deste lado da linha de sombra, para não ficar surpreso, indignado com tais coisas. ”

Eu teria que recomeçar. Retomar. Eu ia começar outra vida, como Isabel ou como Liza. Tinha sido contratada no dia 10 de julho de 2001. Saída efetiva na Carteira foi no dia 5 de abril de 2004.

Havia no ambiente uma estranha tensão que começou a me deixar incomodado. Tentei reagir contra esta vaga sensação. […]

No rosto daquele homem que eu julguei ser muitos anos mais velho que eu, tornei – me consciente daquilo que já havia deixado para trás — minha juventude.  E isso isto era realmente um parco consolo. A juventude é uma coisa maravilhosa, um poder incrível — enquanto não se começa a pensar a respeito. Eu senti que estava começando a ficar consciente de mim mesmo. Quase contra a minha vontade assumi uma melancólica seriedade. ”

Reencontro com Joseph Conrad – A linha de Sombra: (The Shadow Line) – Uma Confissão

CARTEIRA DE TRABALHO COMPLETACARTEIRA DE TRABALHO

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