o tempo passa

Em qualquer tipo de conflito – guerras e revoluções ou até brigas e rixas pessoais – a regra é ampliar o poder e capacidade do adversário ou inimigo, para que nos armemos o máximo contra ele, afim de derrotá – lo com um poder maior.  Seja de que tipo for. Outra regra, mais frequente ainda, é que, após as batalhas e os conflitos, o vencedor amplie a imagem de poder do vencido para se dar mais valor a si mesmo. Desta forma, às vezes, um adversário débil – e facilmente derrotado – pode passar à História como pujante e poderoso, para que seu vencedor se transforme em mais poderoso ainda.”(213) Flávio Tavares – As três mortes de Che Guevara – LPM  2017

com flavio

com flavio bem perto

nós dois a nos olharmos

 

sem ar

 

Ar e cheiro, ou alguma coisa  …  Percebo, percebo. Engole o gole. Pedaço, parte … sim. Monstro ou lobisomem ou ser humano não humano, e faz desaparecer o traço, –  engolido, amaldiçoado -, faz a mágica. … há qualquer coisa pesada!  …  Abafa hora segundo dia. Suga. Engasga. Esvazia. Estranho! Ou sou eu a me reconhecer pessoa, sensação. É a medida errada, excessiva de felicidade, ou de alegria vazia inventada. O sentimento de que tudo, eu mesma certamente devidamente acomodada. Nada se ajusta a nada. Mundo avesso no desenho. Buraco ou sumidouro. Tão enlouquecido o sentido, ou o sentido não há, …não percebo. Ilha num mar que desconheço.

A notícia arrasta para cá ou para lá, deixa afundar … hipnotiza. É a loucura desvairada de tentar ser, ou fazer acontecer. Estar presente sem minimamente estar … a comédia, a tragédia se intercala com a rapidez impossível do nada. Vazio absoluto. Não existe voz, corporificação. Alma a resolver, porque não é ele, mas a ideia, presença transparente que se mistura. Não sei organizar. Caos nas estantes na lógica e nas gavetas. O desespero se esparrama. Vigia e isola sem dor ou alegria. Sem enxergar ou ver. Absorver não basta … Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – Torres

Não é só a velhice, mas pode ter algo a ver com isso. Acho que a multidão, aquela multidão, a Humanidade, que sempre foi difícil para mim, aquela multidão está ganhando, afinal. Acho que o grande problema é que tudo é uma performance repetida para eles. Não há novidade neles. Nem mesmo o menor dos milagres. Apenas se arrastam sobre mim. Se um dia eu pudesse ver UMA pessoa fazendo ou dizendo algo incomum me ajudaria a seguir em frente. Mas são rançosos bolorentos. Não há emoção. Olhos, ouvidos, pernas, vozes, mas … nada. Congelam -se dentro de si mesmos, se enganam, fingindo que estão vivos.” (p.129)  Charles  Bukowiski – O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio – LPM 1999

ADOREIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

no fundo do poço

Tradução encabulada. Lavo, cozinho, limpo. Passo a roupa, tiro o pó, esfrego, e o perfume da cera no assoalho importa. E penso, também encabulada … Importa estar apaixonada, ainda importa?

O homem não teve tempo para se adaptar a brusca e potente transformação da técnica e da  sociedade que produziu. Não espanta que boa parte da suas enfermidades  atuais  estão no próprio meio, no cosmos que se encarrega de eliminar esta orgulhosa espécie humana. O homem é o primeiro animal que criou desenvolveu seu próprio ambiente. Mas,  – ironicamente – o primeiro animal que a sua maneira está  destruindo a si próprio. Apresentado desta forma, a mecanização do Ocidente é mais vasta, espetacular e sinistra tentativa de extermínio da raça humana.  Com o agravante que essa tentativa é obra destes mesmos seres humanos. (p.66)  Ernesto Sabato,  Hombres y Engrenajes – Seix Barral / Biblioteca Breve – Buenos Aires, 1996

foto pouco nitida importa estar apaixonada, ainda importa.

nebulosa memória

“Citei inutilidade da arte, mas ignorei sua capacidade de confortar. Nisso reside o consolo do trabalho que realizo com minha mente e meu coração – é apenas , nos silêncios do pintor ou do escritor, que a realidade pode ser ordenada, recriada de modo a exibir sua porção mais significativa. Na realidade, nossas ações cotidianas não passam de andrajos que ocultam o tecido de ouro – o significado do padrão. Por meio da arte, estabelecemos – nós, artistas – um acordo radiante com tudo o que nos feriu ou derrotou na vida cotidiana; e desta forma, em vez de fugir ao nosso  destino, como tentam fazer as pessoas comuns, realizamos por inteiro nosso genuíno potencial – a imaginação.” (p.17) Lawrence Durrel – Justine – Quarteto de Alexandria .

027

 

LUIZA

O tempo é uma delícia!”L.D.M.

“Sopro sono chegou pairando

Quase ou pouco separando

sonho e realidade“. L. M.D.

… outra vez Luiza:

“É o mundo inteiro de repente tão pequeno …Coração apertado, espremido, rabiscado no papel. O infinito num instante. Teu olhar imensidão -, sem dizer nada, traduzia pensamentos … só eternidade.” `10 de outubro de 2012 

Luiza M. Domingues

LUIZA E EU BRANCO E PRETO

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FOTO MARAVILHOSA DAS COSTAS DA LUIZAunnamed-jpg-luiza-so-luiza

2014-09-06 15.17.48

 

durmo porque te sonho

Lá quando começa o dia.

Hora apertada dia apressado,

quando chego, … terminou.

Eu vou te dizer tanto e tudo, e depressa.

Tu me aquietas, e me devolves para  ser.

Explico: prefiro ter uma rã que fale, do que o príncipe. Prefiero tener uma rana que habla.

Só tu sabes o que significa estar perto de ti. Ler poemas. Constatar que nada sei, aprendo.

Estão cortando a grama, o cheiro da terra entra pela janela!

O mundo se revira perfumado. Cheiros definem o mundo.

Elizabeth M.B. Mattos, outubro de 2017

 

a fada

 

Os teus gatos que não sei …

Meus Gatos

Eu sei. Eu sei.

Eles são limitados, têm distintas

necessidades e preocupações.

 

Mas eu os observo e aprendo com eles.

Eu aprecio o pouco que sabem,

que é

tanto.

 

Eles rosnam mas jamais

se inquietam,

perambulam com uma surpreendente dignidade.

Eles dormem com uma direta simplicidade que

os humanos não são capazes de

entender.

 

Seus olhos são mais

belos que os nossos olhos.

E eles podem dormir 20 horas

por dia

sem

hesitação ou

remorso.

 

Quando me sinto

desalentado

tudo o que tenho a fazer

é contemplar os meus gatos

e assim

ressurge-me a coragem.

 

Eu estudo essas

criaturas.

 

Os gatos são os meus

mestres.

 

BUKOWSKI, Charles. My cats. In: __________. Come in!: news poems.gatos cavalo e sapo

quem escreve

Apenas a cidade é real. Apenas a alma de quem escreve ou lê derrama acorda. Logo adormece outra vez porque a vida tem lacunas, tem sono. Lacunas feitas pelo sono, também pelos sonhos e pesadelos.

O que acontece não é real. Para VIVER é preciso INVENTAR.

Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – TORRES

São Francisco de ASSIS bonita foto

praia deserta vazia e vento

A praia  o mar tinha proteção dos molhes, não chega água marrom. Verões de roupa nova, data, – pouco importa. Era um final de ano. A decisão aponta dura definitiva enrijecida. Liberdade importa,  dar rumo ao rumo, rebeldia. Sabor novo.Tentativa inútil de tentar o porquê. Fui movida pelo instinto. Nada me faltou naqueles anos de abastança, ao contrário. Era o excesso que me afogava: excesso de pessoas, de mimos, de sexo, de noites brancas, de música, excesso de luxo. Excesso devorador. Excesso de trabalho também. A mesa verde coberta por dicionários, gramáticas.  … a mata o canto da passarinhada. Domingos longos e saciados. Elizabeth M.B.Mattos, – outubro de 2017 – Torres

“No vasto silêncio destas noites de inverno há um único relógio: o mar. Ressoando em minha mente, seus movimentos incessantes são a fuga sobre a qual soando em minha mente, seus movimentos incessantes são a fuga sobre a qual este escrito se compõe. Cadências vazias de água marinha a lamber suas próprias feridas, avançando pelas fozes do delta, fervendo nas praias desertas – vazias, para sempre vazias sob o voo das  gaivotas: garranchos brancos sobre o cinza, ruminados pelas nuvens. Se alguma vela se aproxima daqui, morre antes que sobre ela recaia a sombra da terra firme. Destroços de naufrágio surgidos non frontões das ilhas, os últimos vestígios, corroídos pelas intempéries, presos nas mandíbulas azuis do mar … desaparecidos!”(p.16) Justine – Lawrence Durrel

A praia  o mar tinha proteção dos molhes, não chega água marrom. Verões de roupa nova, data, – pouco importa. Era um final de ano. A decisão aponta dura definitiva enrijecida. Liberdade importa,  dar rumo ao rumo, rebeldia. Sabor novo.Tentativa inútil de tentar o porquê. Fui movida pelo instinto. Nada me faltou naqueles anos de abastança, ao contrário. Era o excesso que me afogava: excesso de pessoas, de mimos, de sexo, de noites brancas, de música, excesso de luxo. Excesso devorador. Excesso de trabalho também. Cadernos, folhas, exigências; escolasss alunos particulares. A grande mesa verde coberta por dicionários, gramáticas e a máquina elétrica ficava na ponta, pronta; cães espiam  portas janelas abertas … a mata alimenta o canto da passarinhada. Os domingos eram longos e saciados. Elizabeth M.B.Mattos, – outubro de 2017 – Torres

também boa esta foto da marinha e do sapo

Alexandria

sapo amarelo

…  possuída de grande saudade triste. Nada possível ou diferente de dormir. Encontro amoroso, prazeroso e cúmplice (três palavras mágicas). Deste vazio acordo lânguida, sem rumo. Intenso tumulto. Tem qualquer coisa de mentiroso, falso, ilusório. Mergulho em febre transtornada. Não beijo abraço, sossego, paz e quietude, mas febre. Quero dançar, entrar no mar, beber o riso, falar dizer ponderar esmiuçar, e falar como se bastasse … quero o abraço. Quero não terminar de chegar, e reiniciar, e tomar o inteiro em posse egoísta e ciumenta. Dou-me conta que terminou. Como amores terminam. Como a juventude termina. Do mesmo jeito que os bebês crescem. Não se pode evitar. Não posso evitar engodo, dúvida, nem o irreal, surreal do inusitado… sinto o corpo dolorido do sono, e sei que volto a dormir tão logo a noite entre no meu quarto. Vou precisar do silêncio da perda. Do silêncio dolorido de constatar, Karl Ove desapareceu. Sua frota viking. Os olhos esverdeados, seus cabelos aloirados. O corpo magro, seu ar impaciente. Sua irreverencia. Ele simplesmente voltou para casa. Estou possuída de grande saudade. Inconsolável. Devorei morangos, bebi vinho, comi queijo, pão e manteiga. O doce de ovos com merengue nevado. Esvaziei a geladeira. Caminhei pela praia, molhei os pés no mar. Senti frio pelo corpo todo. Molhei os cabelos na chuva. Desejei desaparecer porque não posso fazer nada nem impedir que ele vá … A saudade devora sem piedade.  […] “não é possível desfrutar a doce anarquia do corpo – pois superou o corpo. […] Alexandria era o grande lugar do amor, origem dos enfermos, dos solitários, dos profetas – enfim, de todos que tiveram seu sexo profundamente ferido. ”  Profundamente ferida nesta despedida. Não estava preparada para fechar o livro, nunca estou pronta, ou preparada para qualquer coisa … uma violenta mágoa do não possível inconcluso … toque e sexo … e o sexo não termina, escreve, carimba, fixa sempre o imponderável. Toda a despedida é traumática. Dormir. Dormir mais um dia inteiro, dois, três dias. Todos os necessários para esquecer a fantasia deste amor. Elizabeth M.B.Mattos – outubro de 2017 – Torres

PERFEITA ESTA FOTO

 

“Cinco raças, cinco idiomas, uma dúzia de credos: cinco esquadras cortando seus reflexos oleosos nas cercanias do porto. Mas existem mais de cinco sexos, e apenas o grego demótico parece capaz de distingui – los. O sortimento sexual à disposição é desconcertante em sua variedade e abundância. Alexandria nunca seria confundida com um lugar feliz. Ali os amantes simbióticos do livre mundo helênico são substituídos por algo distinto, algo sutilmente andrógino, voltado para si mesmo. Ao Oriente não é possível desfrutar a doce anarquia do corpo – pois superou o corpo. Lembro que certa vez Nessim afirmou – citando alguém, imagino – que Alexandria era o grande lugar do amor, origem dos enfermos, dos solitários, dos profetas – enfim, de todos que tiveram seu sexo profundamente ferido. ” (p.14) Justine Lawrence Durrell

EU HOJE desenho