depois de fazer amor

…,porque penso sem poder pensar, digo quando preciso/quero calar, e o tempo, este dia que se arrasta, …assombra meu amanhecer. Eu me perco no passo. Desapareço na memória da tua memória. Sinto o ácido da saudade. Saudade indefinida de ti… Tu que chegas tarde, antes ou depois, por favor, me abraça.  O eu do meu pensar se debruça no do teu pensar. Haverá tempo, outro tempo. Em qual praça sentaremos, distraídos um do outro. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – do meio do caminho, escrevo para ti.

Era estranho caminhar ao lado de Justine naquele outono manchado de lua, […] E lembrava de forma vívida que Justine, depois de fazer amor, sentava-se de pernas cruzadas na cama e começava a embaralhar o pequeno tarô que sempre estava na estante, na companhia dos livros – como  se quisesse calcular o quanto lhe restava de boa sorte depois daquele mergulho no gélido rio subterrâneo da paixão que ela não tinha forças para domar ou apaziguar.” (p.170)) Lawrence Durrell – Justine O Quarteto de Alexandria

FALANDO no restaurante

Recife, Oficina Francisco Brennand – foto de Luiza M. Domingues

Isabel pensou

Ombros levemente curvados, calça jeans. Não, não era ele. Poderia ser. Levantou os olhos para a copa da árvore. Os passarinhos. Então, deu meia volta, e entrou na Igreja. A fugir do lugar… Tanto a consertar! Mas…, às vezes, fica presa. Inserida na história velha que justifica fantasia. Ela se desvia. Acomodação ou será libertação. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

Nunca haviam tido timidez um com o corpo do outro, mas agora estavam mais velhos (juntos) para saber o que era timidez. Agora eram. Mais velhos. Velhos. Uma idade morrível, viável. Que palavra engraçada, velho, isolada, Isabel pensou, e disse para si mesma: velha. (p.99-100) Arundhati Roy – O Deus das Pequenas Coisas – 1998 Companhia das Letras – São Paulo

deus das pequenas coisas

bustrofedón

“[…] reclamaria em silêncio ao pensar que este alívio acabaria criando mais oportunidade par nos encontrarmos, para inculcar nossas mentiras, para nos revelar ainda mais para nossos juízes. Ai estava outro paradoxo do amor; a mesma coisa que nos aproximara ainda mais  – o bustrofédon –  separaria-nos  para sempre  se conseguíssemos dominar as virtudes que representava, ao menos, aquelas partes de nós que se nutriam com as imagens construídas acerca do outro.” (p.149) Lawrence Durrell – Justine sofá ótima

a perfeição é o retorno

A história da humanidade, da tribo, dos predadores sensíveis que somos se resume no encontro festivo partilhado com vinho água e pão … afinal, o percurso da vontade, do limite, do desejo de dizer/gritar se esconde além do dizível. O silêncio escreve como o sentimento.

Enquanto te amo louca e desesperadamente, não te digo. Nunca saberás a medida, estamos, tu e eu, sentido… há que se desesperar na despedida para saber o quanto o amor é/foi amor. Elizabeth . B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

mata e hortências PASSEIO

de 2017

Não está na imaginação, nem no tempo. Escorrego.

Repenso atitude/ entrega/ questiono …, certeza incerta caminha a se esparramar, e se confunde: real e irreal. Impossível no inesperado. Espanto! E sou eu na loucura das frestas. Imagem da imaginação a se espicaçar medrosa, então … nem o cheiro, nem o arrepio, nem o susto, nada me traz de volta, escorrego.

O ano de 2017 termina … estranha sensação de iniciação. Escorrego.

Não sou eu mesma, invento. Afasto chego perto demais, tanto!

O lugar não existe, não sou eu.  Expectativa da véspera … alguma coisa vai acontecer amanhã. Olhar observação e quebra. Escuto o metálico ou o cristalino dos pedaços. Despedida. Escorrego. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

O verdadeiro tolo, de quem os deuses zombam e a quem tentam destruir, é aquele que não conhece a si próprio. Durante muito tempo eu fui um deles. Você também: deixe de sê-lo. Não tenha medo. O supremo pecado é a superficialidade. Tudo que é realizado é certo. ”  Oscar Wilde De profundis

CORPO INTEIRO DESENHO

anotações…, a ser desenvolvido

Anotações: a ser desenvolvido

Perfume e indiferença…, aquela prepotência cega do desamor. Fico com alfazemas. Pedras do cascalho queimam meus pés. Amorosos fantasmas. Vou leve ao encontro do amor mesmo no desencanto do desencontro. Algumas pessoas foram nossas no abraço.

Minha casa está aberta? Não. Minha casa não está aberta.

Dor na perna esquerda, nos ossos, no joelho. Se não houvesse corpo, não haveria dor.

Impressiona a força afetiva da memória. Ou é apenas espanto? Não sei nada do amor. Amor de amor que espalha / caminha / atravessa. Importância inesperada. Como é possível relação derrubar concentração.

…, sair do eixo perder o prumo: esvaziar cabeça. Vontade e fazer doer o corpo, desorganizar. Criar barreira. Escorrer da hora. Há qualquer coisa de trágico! Não sei contar a história, nem desfazer o nó. Cansaço nesta/desta expectativa. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2018 –

2017-12-18 18.45.05

mata e hortências PASSEIO

 

estabilidade do amor

Fiquei a pensar no sentido: existe esta questão interna do amor próprio, existe desdobramento no amor, existe simultaneidade também. Paixão e outros sentimentos. A estabilidade mencionada se mistura com cultura, religião, e tantas outras questões, … todas embutidas no amor. E afinal, o que, exatamente, define o sentimento, esta palavra que se desgasta no imaginário das pessoas? Não é filosofia, não é razão …, de repente, penso: a cada um o jeito, a qualidade. O amor ele mesmo se define íntimo, pessoal. Como pode  o amor  ser igual  por cada filho, por exemplo? Estarão na mesma esfera? O que significa, exatamente, esta divisão e este poder …  E o homem amado? Este outro que se atravessa no universo do amor e que se divide como pai, amante, irmão, amigo … Estou a pensar. Elizabeth M.B.Mattos – dezembro 2017  – Torres

O amor tem algo de – defeituoso, eu não diria defeituoso, pois o defeito está em nós mesmos: mas existe algo que não compreendemos na natureza do amor. […]  O amor possui uma estabilidade terrível, e cada um de nós tem direito a um certo quinhão de amor, uma certa ração. Ele é capaz de se manifestar em uma infinidade de formas, e de associar-se a uma infinidade de pessoas. Sua quantidade, porém, é limitada, pode esgotar – se, ser arruinada e desaparecer antes que atinja seu objeto genuíno. Pois  seu destino encontra-se em algum ponto das regiões mais profundas da psique, onde reconhecerá a si mesmo como o amor-próprio, o solo em que erigimos a psique saudável.” (p. 124)

Lawrence Durrell – Justine – O quarteto de Alexandria

 

Em nossa amizade, éramos capazes de compartilhar pensamentos e ideias íntimas, compará – los  de uma forma que seria impossível se estivéssemos ligados por laços mais estreitos que, por mais que soe paradoxal, engendram separações mais profundas que qualquer união, embora a ilusão humana impeça – nos de acreditar nisso.” (p.125)   Laurence Durrel in Justine

se você não sonha

“Nunca vou esquecer aquele olhar, tão breve, que ele pousou então em mim, mergulhando em meus olhos antes de sair novamente voando pela janela, como eu próprio, depois, pousei o meu em tantos outros. Aquele olhar doloroso queria dizer uma só coisa, que todos os aprendizes sabem: o tempo não passa se você não sonha.” (p.497) Orhan Pamuk – Meu Nome é Vermelho,  Companhia das Letras – 2004, São Paulo

Começo a compreender o porquê de estarmos, tu e eu, a reservar tanto dizer de amor. Estamos, tu e eu, a sonhar a permanência. Enquanto sonhamos um dia entra no outro, e o ano se apressa a passar. Somos amanhecer (qualquer manhã). Apressamos o tempo, e arrastamos a noite.

Adormeço depressa, sonho sonhos: nossos ou trovoadas, sinos natalinos, porque já é dezembro. Ao acordar, imediatamente, estou a te pensar. Rotina do pincel da tinta da letra, dobra de estranheza. Estamos na rede de estar vivo. Conto o dia, contas tu a noite insone, ou o resmungo do gato. E toco teu corpo pelo fio do telefone. Como escreve Pamuk o tempo não passa se você não sonha. Então, tu e eu sonhamos. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

contraditório

“Um romance é uma estrutura única que nos permite ter pensamento contraditório sem constrangimento e entender diferentes pontos de vista ao mesmo tempo.” (p. 29)  

“[…] cada frase de um bom romance suscita em nós um senso do conhecimento profundo e essencial do que significa existir neste mundo. Também aprendi que nossa trajetória por este mundo, a vida que levamos em cidades, ruas, casas, salas e na natureza consiste em nada mais que uma busca de um sentido secreto que pode ou não existir.” (p.28)

ORHAN PAMUK O romancista ingênuo e o sentimental – Companhia das Letras – São Paulo 2011