espiando 2011 pelas cartas

VERDADE verdadeira: não nos damos conta do efêmero. Vivemos como se fôssemos viver para sempre, e acreditamos que as estradas estarão sempre abertas. Um equívoco.

  1. Do Rio de Janeiro abraçando corpo coração. Já antes de chegar sinto saudade. Estou, graças! Cada vez mais disposta integrada ajustada a vida nova. E assim pude acompanhar o ritmo eletrizante da Joana. Já na chegada mágica com mimos e presentes! Uma blusa incrível, camisola (que adoro), livros … Enfim! Incluiu uma dúzia e meia de rosas de chocolate. Carinho de filha! No sábado tomar sorvete (goiabada e queijo, uma delícia!), almoçar em Copacabana. De noite bebemos vinho, e que vinho! 2002 Margot Chateau Palmer Medoc – appelation Margot contrôlée -, preparei a comida e conversamos, conversamos, conversamos até muito tarde. No outro dia, domingo, amanhecemos nas confidências. Café especial ao jeito único de Joana! Depois, nos paramentamos para caminhar ao longo do calçadão: chapéu e sol. De repente nos desviamos, e fomos ao cinema, no Roxy, ver Uma Manhã Gloriosa, gostei: romance tipo O diabo veste Prada. Com direito a pipocas.  Filha, torço por ti. Teu Pós Graduação será sucesso. Pelo que descreveste a professora de português está com medo de te ter por aluna! A surpresa grande! Melhor! E o professor Longo na direção! Fico já pensando em fazer algum curso por lá!  Adorei as fotos dos meninos e a história das férias de vocês. Estou feliz por estar aqui. Não sei se conseguirei ver o Pedro! O Léo chegou hoje, viaja na sexta-feira “o jeito Lattog de ser”. Vi tuas fotos no fim de semana, achei a Cláudia charmosa e a Marina tão menina!
  2. Segue um relato da minha vida carioca. Puro luxo! Cervejinhas salada de frutas chocolates. Fomos ao teatro ver As Centenárias com Marieta Severo e a Beltrão. Ótimo trabalho baseado na obra de João Cabral de Mello Neto, lá no teatro João Caetano. Outra super, maravilhosa pizza, no Estravaganza em Botafogo. Hoje vou tentar ver o ‘filhão’ que está indo para umas férias na Baia. Telefonei paro o Roberto, que certo verei também meu amigo de Itaipava. Tudo rápido porque a ideia é estar muito, e muito com a Joana. O filme Cópia Fiel – adorei! Discute a relação e sendo na Toscana, … vale a viagem! Vontade de ser italiana outra vez. Eu te imaginei festeando o Rio. Não posso ir à praia para proteger minha cicatriz. Assim curto a temperatura pendurada na janela carioca, ou caminho em Copacabana. Mas preciso ir a Ipanema ver o Pedro. Vamos ver! Beijo

2. Roberto: desculpa estar te encaminhando a carta do meu sobrinho neto preferido. É que tudo nele me leva a vontade renovada de ler e ler e ler. Encontrei um artigo na ZERO Hora sobre Lobo Antunes, e fiquei curiosa para ler os livros: Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar e O Meu Nome é Legião. Títulos ótimos! Arquipélago da Insônia. Segue a tortura do calor! Que coisa! Hoje o dia parece mais quieto. Gosto. Estou com saudade da minha cama em Porto Alegre, mas penso nos barulhos/ruídos, e no calor! Que coisa chata ser chata! Tenho dormido bem cedo, acordado mais cedo ainda. No contra fluxo das pessoas. Detesto Torres neste período do verão. E não cheguei nem perto do mar. Formigueiro. Como se as ruas tivessem vida própria. Respiram gritam. Se agitam transbordam. Praias lotadas. Aquele tempo de veranear na SAPT terminou: não mais cabritos barracas silêncio amigos Guarita. Um povo avança disputando um pedaço de areia. Bom quando isso tudo terminar e o verão se aplacar vou ver o mar.

3. Maravilha amiga! A possibilidade de ser livre destes chatos compromissos familiares! Eu detestava/detesto. Não nasci para ser casada nem para fazer social. Detesto amarras não importa de que tipo. Ler sobre teus agitos me encanta. É como poder voar, voar. E ganhar o teu dinheiro, maravilha! Aqui faz muito calor, muito calor. O mar segue verde. Acreditas que ainda não fui até a beira da praia? Devo ter adquirido uma doença qualquer quanto a conviver ou estar com grandes grupos. Tanta gente na rua! E pessoas feias. (desculpa, mas a beleza importa) O balneário do nosso tempo morreu.  Não existe mais a praia grande com barracas. O farol francês do cemitério de 1800, do golfe no alto do morro da Guarita, nem a SAPT. Desapareceu a Torres daqueles verões. Uma gente muito estranha tomou posse. Qualquer lugar é desagradável. E eu, minha amiga, sonho com um apartamento como o teu em Porto Alegre. Um lugar só meu, na justa medida. Ainda me sinto exposta, não gosto. Estes dias, arrumando velhas fotos encontrei sonhei desejei outra vez a casa de Santa Cruz do Sul e a casa da fazenda: passei em revista o tempo de construir, tu salvaste minha cozinha. Lembras? Lembras quando não tínhamos luz na fazenda? Era um galpão com terra batida. E os verões de seca? Molhávamos o arvoredo com baldes num ir e vir de trator. E a casa lá de cima com seu verde exuberante me aquecia. Gostava dela. E também de estar fechada a imaginar a vida lá fora. Receber os amigos com a sofisticação do improviso. Fechar os portões. Disto tenho saudade. Na época eu tinha energia redobrada com esperança de existir um para sempre. Seguia trabalhando quarenta horas, mas assim mesmo rodeada de livros. Explico: o ato de ler como norma, nunca apenas conduta. Estranhos nomes! Norma! (já o F. me assombra). Conseguia administrar adolescentes. Lembras que Maurício estava conosco? E naquele ir e vir da fazenda fui feliz. Claro que tinha bastante tempo apenas meu, J. não ficava/parava em casa. Funcionava nas oficinas de carro (q. mania!) antiquários e construção. Eu podia usufruir do tempo quando não me arrastava junto. Incoerências da vida. Dá um beijo na Vanda. De repente nos encontramos numa esquina, escreve. Beijo

Reli, li outra vez tua carta. Que movimentação!Tu estás super bem adaptada a roda dos filhos, isto é ótimo. Eu sempre me queixo quando fico sem tempo para escrever, ou ler. Sou viciada nos meus retiros… E, sempre minuciosa para algumas coisas de limpeza. O Natal foi tranqüilo com muita alegria dos meninos…. Bom a festa em casa, mesmo simples, na tua casa tem espaço para reunir mais pessoas.

4.Não foi exatamente assim que pensei passar o verão. A casa tomada e o calor fervendo na pele. Preciso de um banho de mar, mas ainda não fui… Sempre envolvida com os dois cães: indo vindo limpando. Sensação de sujeira pó e pelos. Não posso convidar ninguém abrir a porta, nem escrever. Tenho lido muito o que me acalma um pouco. E limpo, limpo e caminho. Faço exercício, mas exaspero-me também. Que sufoco! Não fui treinada para isso. A vida prometia ser apenas glamour. Era pra ser limpa e linda! Onde ficou este filme? Estou atrelada a outros sentimentos. Escolhas erradas? Como foi que tudo começou, e como terminou? A cada um o seu cálice. Eu sempre meio esquerda, mas preciso te dizer: tua coluna sobre o escritor argentino, Ernesto Sábado, me deixou inquieta. Não achaste demais teres te citado, vaidoso!? Colocar-se tão sem cerimônia entre os grandes me pareceu demais, mesmo sendo palavras do generoso Sábato. A coluna ficou toda direcionada a Memórias do Esquecimento, não te parece? Sigo me exercitando (caminhando) com os cães da Luiza. CAMINHO todos os dias, umas três vezes. Fico logo morta. Assim durmo mais cedo, e acordo muito cedo. Estou sem conexão, mas hoje consegui abrir os exames que estou te encaminhando. Foi o João que fez… Graças ao neto! Que coisa. Espero que consigas abrir. Encontrei aqui em Torres um livro do Cees Nooteboom RITUAIS. Lido, mas vou dar uma relida. Inacreditável como esqueço. Edição Nova Fronteira, antigo. Sei que li porque está cheio de anotações, mas não consigo lembrar se foi este que tu me indicaste, ou se tem outros livros do autor traduzidos. Luiza está em Garopaba com o pai, feliz da vida! Se passares por Torres, e puderes me procurar, vou gostar. Eu, a Beth Mattos te espera. E.M.B.Mattos  –  outros tempos e tanta energia!

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