liberdade vazia – da autobiografia

Acordei assustada do sonho. Fiz chá, acendi as luzes. Vi o dia nascer. O significado da necessidade está neste construir e destruir peculiar a natureza humana. É preciso ser livre para viver, mas desanimo no ócio. Absorvo a minha separação, esbarro na liberdade vazia: há urgência na vida.

A vida queima, nós queimamos.

Qual será o momento do encontro. Chegaremos à margem do Guaíba? Ao poente?O lençol cobre a terra, mas o ar conterá todas as transgressões … Algumas passagens da vida têm a pincelada da corte da ruptura com o pedaço interno lá de dentro do corpo. Dói: cheira a morte, cheira a doença.

Acabamos sentindo fisicamente aquilo que temos no coração.

Será justo,  ou não será? Por quê? Porquanto fizemos e desfizemos começamos recomeçamos. Desfazemos fazemos.  Não saímos do lugar, apenas morremos um pouco. Dias longos chegaram. Não estavas aqui, poderias estar. Desânimo. Cansaço igual ao teu. Quero voltar para nós. Costura minha dor e faz bordado deste meu arrependimento. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres

 

Porto Alegre, 7 de janeiro de 1992.

Amiga, querida amiga:

Tua carta é desesperada, é um grito. Eu me preocupo. Estou ao teu lado, quero te ajudar. Tu não podes te deixar abater, afundar na desesperança. Cuida da tua forma física, pinta teu cabelo, renasce. Basta perder peso que voltas a ser o que sempre foste, uma mulher bonita e sensível.

Oportunamente vou te fazer um desenho, será o presente de Natal que passou. Mas não posso fazer uma ratinha, porque não é assim que eu te vejo. Se eu o fizesse mentiria. Precisas sair deste poço, dessa prisão imaginária em que vives tuas cadeias, essas amarras são psicológicas. Não te deixes aprisionar num círculo de giz como acontece com as galinhas.

Eu, atualmente, enfrento muitos problemas. As reformas que fiz no atelier não deram certo! Agora vou jogar a última carta: remover o telhado, substituí-lo por […], única possibilidade de ter a tão necessária luz zenital, a luminosidade do céu. Tudo isso devido ao erro do arquiteto que projetou o atelier. Nesse país a incompetência é geral. Nós estamos sempre pagando a burrice dos outros. A situação do Brasil é a prova maior da incompetência e da irresponsabilidade. Desculpa, mas estou muito irritado com a situação que estou vivendo. Há ainda o caso da Lopo que não se decide, pois o tribunal está em férias. A justiça é lenta, não tem pressa, é preguiçosa. Seja o que for nós temos que lutar.

Comecei um novo quadro, também de grande formato. Há nele a evocação dos carretéis. Abstenho -me de mais comentários para não esvaziá – lo emocionalmente.

Sei que vais reagir. Para começar cuida do visual, pinta o cabelo, volta a ser bonita. Manda – me uma foto, mas não tão pequena, quase invisível, como a que mandaste tempo atrás.

Tô com saudade de ti. Quero te ver. Se te libertares dessa prisão imaginária, isso será fácil. Tu já vieste uma vez aqui, conheces o caminho. Por infelicidade, nesse dia eu não estava em casa. Estou ao teu lado. Muito carinho.” Iberê Camargo

 

 

 

 

 

 

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