A pergunta, resposta possível

1.

A casa de Santa Cruz do Sul sonho. Vida na Travessa Canoas com alunos particulares de francês, alegria. O pessegueiro de jardim florido, Doris Lessing: Exilada em seu país, Carnê Dourado e todos os outros livros lidos desta amiga corajosa, fantástica … Escritores assombram a vida. Eu tenho marcas. Lareira acesa cordialidade, e o cheiro da fábrica de óleo, ainda sinto. O Ford Galaxie azul claro cheio de crianças. Idas e vindas ao colégio Mauá. Festinhas dos meninos na garagem. Dançantes reuniões até meia noite. Cachorro quente com molho, especialidade do J. na cozinha. O meu pastor alemão, os dálmatas. Duas goiabeiras. Em dias frios o fogão a lenha, atração naquela enorme cozinha. Cidade cuidada, fábricas de fumo funcionando. Para os filhos de estrangeiros as aulas de francês. Beleza e luxo nas construções perto do Country Club. Aulas de golfe. E a fazenda Santa Branca, em Rio Pardo, se fazia com o charolês / invernadas e construções. Ana Maria e seus quinze anos, Pedro com treze, e Joana tirando medalhas com seus onze anos: no esporte, na escola. E todos aprendiam o alemão.

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Antes desta súbita mudança alugamos um apartamento na rua Santo Inácio, Moinhos de Vento, e os meninos frequentaram o colégio marista, o Rosário. Eu adorava aquele apartamento ensolarado e …, mas estávamos sistematicamente na estrada em idas e vindas de Rio Pardo para Porto Alegre. E numa brejeirice apaixonada as azaleias da Capital do Fumo viraram minha cabeça. Era aquela cidade e aquele era o sonho. Contrariando qualquer lógica. Tempo de princesa voluntariosa e rei atento. Nos mudamos num mês de abril ou maio, de repente.

Torres? Torres sempre existiu nos verões da infância. Antes de casar, lua de mel, verões e verões. SAPT de ser menina-adolescente e …, e o apartamento da rua José do Picoral, 117 estava lá …, esperando por mim, parte de mim mesma. Nos anos de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo, veraneamos no continente de Santa Catarina: Armação da Piedade. Nos anos que morei no Rio de Janeiro, veraneava em Torres, às vezes no sitio Arapiranga em Carangola, Petrópolis, no Rio de Janeiro. Alguns ou muitos verões escaldantes na fazenda aguando o pomar, entretidos com curvas de nível, açudes. As crianças nestes verões seguiam para o Rio de Janeiro. Lá, onde certamente, enterrei meu coração.

E me perguntas por que Torres? Se não seria porque a filha e netos estão aqui…, a resposta parece longa. A pergunta me fez voltar na história. Não. Ana Maria foi para Berlim, e lá estava na queda do muro…, na grande festa. Um ano inteiro na Alemanha, depois dois anos em Roma, na Itália. A bem da verdade, por mim, não teria voltado. O Brasil desmoronava …, mas ela decidiu voltar. Surpresa, inquieta por não ser mais Santa Cruz do Sul. Nesta ocasião eu já era professora estadual, já não tinha reinado, nem rei. Recomeçava a vida em Torres, em Torres eu tinha um lugar uma memória e uma casa. Talvez esta seja a resposta certa: memória e casa. O pai e a mãe já não existiam. O filho morava no Rio de Janeiro. Ana Maria na Europa. As duas pequenas e eu, no velho fusca de meu pai, pela Tabaí Canoas chegamos no litoral. Nunca mais voltei para Santa Cruz do Sul. Depois, Porto Alegre outra vez, e Torres outra vez. Outra história. Elizabeth M.B.Mattos – agosto de 2018 – Torres e este danado inverno sem salamandra, nem lareira. Chá café preto. Sol que não esquenta. Logo será primavera, depois verão. É assim, não é?

Sem Título-116

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