Gaivotas de Walter Galvani

Desde o primeiro encontro com as metafóricas gaivotas eu me debruço no sentido exato da crônica, e de toda atenção, cuidado a ser mantido. Agarrar tema e escrever. Rotina de trabalho, a dedicação ao que de fato é sério, escrever. Escrever. Não bastam ter idéias descosturadas, voejar sobre sentimentos, num agora fugaz como eu costumo fazer. Sei que as gaivotas querem, perseguem um objetivo de urgência. Nesta urgência e precisão está tudo o que importa para escrever. A crônica como relato do agora. Atual, retrato, específico e universal porque caminha pelo que a todos interessa. A fotografia certa através do olhar particular do cronista certo, e que se faz reconhecer. Quando escrevo escapo da rota, do caminho. Sem disciplina, sem trilho, sem fome, ou mesmo faminta não consigo ver nada. E sequer consigo manter-me perto do mar como as verdadeiras gaivotas.

Como já  prometi, pretendo mesmo repassar teus escritos, rever o dito, espiar os temas (atrasados porque não é mais, não é mais o dia da saudade, não é mais carnaval, embora os blocos ainda estejam nas ruas sambando este louco ritmo de poder como diria o velho amigo Iberê, repassar e voltar para responder), o trabalho feito, o material todo sobre a alma da crônica para escrever. Tenho que fazer. Fico a pensar nas inúmeras tentativas do Paulo Hecker Filho quando me respondia a cartas desesperadas, escrevia atrevido, última chamada para o planeta terra, para o que poderia ser lógico e coerente. Escrever tem este lado alucinado de um escrever por escrever, assim desgovernado sem nada dizer. Um monólogo perdido, sem a voz do mar a perguntar, ou responder… Uma gaivota desgovernada. Conversa escondida. Então não é mais crônica. Ou quem sabe a crônica solitária. Loucura estufada, implodida.

Não enviei o dinheiro do mês passado. Nem sei mais o dia que corresponderia ao critério mínimo de uma conversa produtiva. No teu último bilhete me ofereces a organização que peço numa frase desesperada, ligeira logo acima. Estou sempre no pedido de socorro, mas sei que joelhos doídos, pedras, tropeços, tempo, nada podem ser obstáculos ao fazer eu mesma. Quero o produto feito, o pacote com fita e tudo… Ainda não cresci. Crescer é assumir: difícil! Fico aqui teclando depressa porque logo vou limpar aqui, organizar ali, levar a Ônix pra passear, fazer o almoço, sentar-me a ler. Pensar. Escutar música. Perder tempo! Sabes o meu mais novo brinquedo e prazer? Escutar velhos discos de vinil. Selecionar a música francesa, que não é música é palavra como te contei. Ouvir o piano. Descobrir que neste disco está inserido um tempo perfeito, e que aquela capa, só ficou a capa, levaram o disco, e penso que talvez encontre pesquisando nos sebos. E quando me dou conta já é noite. E a noite não tem sido amiga, fica a espreitar. Assusta. Pede o sono. E fico a escutar os ruídos estranhos que estão na cabeça da gente … Então fecho os olhos insistindo no tal sono que não chega. Acordo tantas vezes, e levanto bocejando. Já amanheceu tão depressa! E eu esqueci de fazer mil coisas, ler os livros, terminar de folhear as revistar, tirar o pó, ligar para a irmã, pro filho, saber do José, do Luiz e da Magda, ou da Sandra, dos bebês que nasceram. E já é de tarde.

Vou parar aqui e organizar a matéria das leituras. O tema. Como vou agarrar o tema? Eles estão como bolhas estourando, aparecendo e desaparecendo dentro do balde enquanto fervo os guardanapos. Fazer antigo este! Um beijo para meu amigo Walter Galvani. Elizabeth M.B. Mattos – 2014 Torres

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