imaginário

Domingo, dezembro molengo, exasperado amassado. Direto ao vazio. Tão tarde para ler Anna Kariênina!  Não deve ser tarde nem para os olhos, nem para o corpo entrar na alma de Tolstói. Encabulada neste atraso …

Lembro das escadas volteadas enroscadas, parede áspera. A biblioteca. Agora penso na cozinha esparramada. Lareiras. Forração na casa inteira, fazia um pisar macio. O primeiro salto alto aos quatorze anos. Banheiros enormes e confortáveis. O tempo de ser criança, depois mocinha a me esconder na ideia de ler muitos livros, depois escrever outros tantos. Desenho amigos que deveria ter tido. Nestes de agora, o esboço. Os possíveis. No escuro da caverna envelhecidos e escondidos, encolhidos, felizes.  Juntos. Na Valentina graciosa e inteligente no alto de seus quatro anos. Nas invencionices da Magda e minhas: dançar ballet ou nadar, cineasta, modelo, ou escalar telhados. Jogar cartas, banco ou pingue-pongue.  Missas domingueiras da Igreja São Sebastião, em jejum para comungar. O cinema Ritz e todas as balas que coubessem nos nossos bolsos, todos os negrinhos/brigadeiros ainda na panela. Lata inteira de paté e uma dúzia de bananas fritas com açúcar e canela. Céus! Podíamos. Cachorro quente e macarronadas.  Abrimos picadas nos afazeres. Correria pelas calçadas, e passeios de bonde. Piano, anos e anos tentando as escalas.  E estudar mesmo, tão pouco! Nenhuma cobrança. Tudo fantasia de cuidados com o que poderia ser … interno: bonecas de papel, bebês com fraldas.

Acordo tarde, durmo tarde sem fazer o que importa. Tudo fora do lugar. Obsessiva por ordem, limpeza, tão devagar na desordem completa. Deixo o dia se arrastar e vou nele, pela calçada, uns minutos, na cozinha, no café preto pensando um civilizado chá, outra torrada. Banhos, sucessivos e obsessivos banhos, se não no mar no chuveiro, de banheira. Sem descobrir o vazamento que se transforma em lago. Vou a me afligir, imóvel. Uma quebração, uma reforma, renovação. O que me espera? Uma mudança quem sabe? Um verão diferente, numa barraca. Ou alugo um quintal com varanda. Fico querendo ser magra, linda e poderosa e corajosa. Que medo de morrer! E de viver também. Encruzilhada.

O feijão ficou pronto. Farofa com banana, salada de todas as cores. Fome nenhuma. Esta comida das panelas coloridas. Carne assada, bifes pequenos: cebola e alho. Vinho, água gelada. Perdida. Esta vida que escolhi sem pernas de fora, sem chapéu Panamá, sem blusa nova, nem sapatilhas coloridas, sem parceiro, sem risadas pela casa. Cheguei no lugar exato/certo. Imaginei. Silêncio e teclando. A doença não defino, vou procurar … conversar sem dizer, estar em olhar, gritar …, de jeito nenhum, sussurrar, colher margaridas e hortênsias. Rezar. Acalmar e rezar. Deve ser o caminho, sem pedras, algumas surpresas, equívocos. Perguntas sem respostas. Rezar um pouco mais, voltar ao tempo do rosário, do convento, de uma ideia reclusa, mas sem perder os bailes nem vestidos com rendas e cetim. E as valsas. E namorar. Multiplico, subtraio. Divisões não me deixam na areia …, nem perto das canchas, tampouco no rio. Estou sempre a caminho, nunca ao alcance do teu olhar. Beth Mattos – Dezembro de 2018 – Torres

o braçooooooooo

“Les autres sont imaginaires

Faux et cernés de leur néant

Mais il nous faut lutter contre eux

Ils vivente à coup de poignard”

Paul Eluare

Il dit aussi:  “Savoir veillir savoir passer le temps”

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