urtigas

O corpo comanda sentimentos que se apertam nas juntas, em extremos, e por dentro também. Vozes saem mansas a explicar tristeza, angústia. Olhos fechados. Por onde andará aquela menina vivaz e tímida? E a mulher alegre e disposta? E o menino a remover inço e urtigas? O festivo, ordenado, os bons comandos? Certeza e hoje. A música, a leveza, as flores? Em qual mudo espreguiçamos?! Não quero inventar desculpas, apenas admitir que 2019 não está sendo um bom ano, estou com fome. Farta de passado. O presente voraz assusta com gritos: ‘agora, agora, agora’ – estás a perder amigos, contatos e jeito. Logo será tarde demais.’ Sinto a queda, não tenho forças nem coragem de olhar no tempo, não consigo recomeçar. Agarrada nas letras e nas palavras desespero. Fabrico chaves e abro caixas, não estou atenta nem alerta. Pequenos projetos se debatem ansiosos, presos no fundo indefinido do amanhã. O fundo pode ser qualquer coisa: a calçada interrompida por buracos, estragos e nenhum interesse, a lagoa a se alargar maltratada. Luzes acesas  dia e noite. Árvores podadas com descuido. Aquela moça já senhora se espreguiça nos horários e reinventa o que não sabe. Agarra o momento de gritar, mas não reclama: sobe e desce o dia inteiro, motorizada. O inverno se sacode no vento. Portas e janelas fechadas. O ar se rebela asfixiado e tenso. Os velhos se apertam uns contra os outros, depois, num esforço último, empurram a rotina salvadora. Ela não se sente confortável e azul, empaca imóvel.  A música, filmes seriados, os livros não interessam, nem as palavras. Repito os mesmos sons sem sentido, sem eco. Os pés algemados na cadeira velha da sala. Sem saudade, nem mínima nostalgia eu me pergunto, e agora? Ninguém vai entrar, nem eu posso sair. Sinto os ossos. Não pendurei os espelhos, não acendi as luzes. Não tem reflexo. Desliguei estas notícias beligerantes e insensatas. Esvaziada repetição. Esguichada raiva. Pedras, espinhos, e dificuldades a cada passo: raivosos! Confrontar / dificultar. Pacientes enfermos se deixam ir sem ânimo, exaustos. Imóveis. A doença? Uma saúde inoperante. Constante desajuste carnavalesco. Prisão voluntária. Armadilha pronta. E todos alertas, com frio na transição de um verão escaldante e suarento, atrapalhado. As letras se misturam, as palavras se agrupam, o texto pode ser claro, mas as ideias se confundem em questões desgovernadas e beligerantes. Não hoje, nem amanhã, muito menos o melhor, apenas luta de vaidade e poder. Desligo a televisão, apago nomes. Cansaço maior derruba o tempo. Desânimo! Não sinto sono. Lamento. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres

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