perdidos achados: estranhamento

Estou em Recife, não exatamente no turístico que Pernambuco pode ter/mostrar e faz acontecer, mas na casa da filha, a caçula. É recomeço. Estudo / escola, termina o sonho e e reforça a vontade. Sinto nos seus trinta anos o empenho festivo dos foguetes, foguetes encantam e assustam. Beleza e perigo. Lembras das festas juninas? Bom aquilo. Bom e boa quente terna a lembrança de sermos os meninos tranquilos/ansiosos/corajosos/ protegidos que a memória devolve. Tu a mudar o mundo, a te renovar a cada esquina, eu a me sentir no meio do caminho. Não consegui até hoje explorar, saber, conhecer este mundão que se revira, assusta / muda e deslumbra. O desejo desgovernado, manso e fantasioso de redescobrir / inverter transformar, colorir a lógica, crescer estendendo galhos e frutificando. Recebi as cartinhas da Beth, aquela Elizabeth apaixonada, a se derramar arrumando. Preocupação, ou pretensão? A vida me deu boas sacudidelas, ora o precipício, ora a salvação, ora o nada na solução casual, e definitiva: filhos.
Sempre as cartas. As cartas que se propõem pontes, e conversas íntimas… E nada menos íntimo porque o tempo nos ensina / mostra e faz ver que a possível intimidade está no corpo, no beijo, no abraço, no olhar, no aperto de mão, no sexo ele mesmo. Sem toque se flutua como balão. Ou se extravia numa balsa, ou num precário barco pesqueiro. Ou numa fantasia que se solta em alto mar pronta a ser engolida no primeiro refluxo, na primeira volta. Ou seja, nada existe. Radical?  Não sei. Ainda não me demorei na releitura. Uma síntese da minha vida daqueles anos que se amontoaram na tua ausência. Valorizam endeusam, se espicham carentes, mas logo se resolvem na vida como ela é, uma surpresa. Neste Recife onde estou não faz / não está muito calor: um quente úmido, estranho. Estou absolutamente concentrada no pequeno apartamento da Luiza, agradável. Entre prédios, buzinas, vozes e o cinzento descuidado da cidade. Não fui, ainda, ver o Francisco Brennand. Arrasto meu humor e amoleço, mas estou cheia de vontade de percorrer a Oficina, vontade menor de ver o tal castelo do irmão Ricardo. O Capibaribe me parece o maior rio do mundo, do meu mundo que é limitado por dunas, e a Lagoa do Violão. Eu só me debruço na janela, nunca enfrento a vida. Um beijo e claro, a saudade também. 16/05/2017 Beth Mattos

P.S.

Tenho que colocar ordem no caos. E não posso sublinhar expressões amorosas. Ou surtos de saudade, ou dependência do papel, ou um do outro. Estou fora da realidade. Há cada um seu pequeno /grande universo. Ser sozinho é ruim/péssimo. Complicado, mas dois neste momento: precipício/ abismo. Não sou não és lobo solitário: temos o mundo em ordem. A ideia de apaixonar desarruma. Estou assustada. Assustada. Está tudo virado. Do avesso.

Editado em julho de 2019 – Elizabeth M.B. Mattos – Torres / revirando os arquivos

ADJETIVO e delicadeza:

“Você é uma alma delicada, sensível, penetrante. Tudo aparece com clareza nos teus textos. Pode parecer que você quer diluir sentimentos, tentar explicar para você mesma o que aconteceu ou acontece. Mas, não, é um suave langor sedutor. Permissão entre as dobras do destino e do querer. Extremamente excitante. Na carta, você reclamou de minha agressividade. Para mostrar isso, eu que era aprendiz de dissimulador dos sentimentos, para você, só pode haver uma possibilidade: ciúme.
Não gostei. E já estava saindo para festas. Queria uma reserva para mim, eu acho. Depois segui meu caminho, como da ordem natural das coisas, naquelas idades.”

Editado em julho de 2019 – Elizabeth M.B. Mattos – Torres / revirando os arquivos

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