“ouve e não responde”

TORRES, 22 de fevereiro de 2018 parece ser uma boa data. Ouve, não responde. Urgente! Palavras, sussurro de desejo. Dizer explicar e se revelar. Centro de Terapia Intensa, oito dias, a fibrilação parou. Interrompe o pânico! Não entendo nada de coração. O meu vai parar e pronto. Espero não sentir medo, vou sentir, e não vais estar ao meu lado. Cirurgia de sucesso, ou… Não sei. Invento tudo, mesmo o pânico, a doença, o delírio.  Um susto: o grito, o corte, a cicatriz. Qualquer hospital: o exame, o sangue, o medo e o pânico: fibrilação. Claro que estou errada: o coração cansa, pede socorro, e se agita. Ou adoece devagar. Não sei mais, num ano a memória, a danada lembrança se espicaça. Desgastada apaziguada ou do mesmo jeito, inquieta, espera. Ela te espera triste. Dias inteiros, completos, cheios, quase semana e a obsessão de te pensar ou te querer se despede, parece… Foi. Não penso, apenas volta a entristecer, então não saiu / não terminei de pensar o impossível. Deveria ter saído…

Não consegui/ não consigo chegar / alcançar o extraordinário, sigo escondida   em / na famigerada humildade franciscana católica que não sou eu, nem monja nem crente, nem artista, nem pianista ou… Depois de setenta anos ainda não sei. Setenta e três, que sejam setenta e cinco, com margem. Talvez eu descubra. Não tenho os anos necessários de terapia, deveria ter. Droga! Tudo fraccionado. O que eu desejo? Que releias, que me tenhas inteira, que me olhes e me vejas agora, talvez agora velhice e exaustão voltam a fazer sentido. A dose, toda energia de “ouve e não responde”, desabe na mulher e no desejo de obedecer. Sim, eu faria / farei (se possível for) o possível e o impossível. Atravesso o envelhecer e a exaustão para ser quem desejas que eu seja. Voltarei a cozinhar a limpar e a passar roupa, e a fazer amor repetidas vezes porque assim o desejas. Voltarei a beleza, ao cuidado, ao perfume, as meias de seda, aos saltos altos, ao mar, ao biquíni preto, aos olhos velados e a dançar sorrindo, apenas para teus olhos. Serei mulher no sentido completo do possível, o meu. Ah! Saíste a discursar no arrazoado e intenso desejo, em tempo, de me estender a mão, ou me fazer ouvir, mostrar o caminho e me fazer conduzir, a mim mesma inteira, possuída alegre e feliz para teu gozo. Tu não me vias feliz, e eu te confesso, não sou feliz, eu tento ser ou  parecer. Eu faço de conta. Escavo na alegria natural de aceitar, e polemizo para crucificar. Preciso de outra vida. Ou outras muitas vidas para chegar  perto de ti, agarrar tua mão e ser bonita aos teus olhos. Inteira. Irrito, eu sei. Não ouço. Não escuto, não me faço entender. Tu me fizeste parar. Tu me agarraste com os olhos. Hoje, agora, terminou. Terminou o prazo de esperar. Humanizada, posso chorar. Tão bom disparar as teclas, escrever e chorar diante de nós dois que nunca nos veremos, nunca nos teremos, nunca nos tocaremos! Eu sinto o que dizes, acordo de tanto sentir / escutar tua voz a me dizeres: “generosa, inteligente, charmosa e fêmea -, com alma. ” Anotei / reescrevi estupefata. Talvez…, como vou saber se nunca presto atenção e não sinto a vida, vou pelas beiradas, assustada. Não finalizo, não sou eu, não era eu, eu te espero, outra andava distraída. Desde o primeiro baile. Do começo do violão e do piano, ou dançar, ou escrever, fazer televisão, entender de pintura ou de livros, ou da culinária, eu estava a te esperar.  E nunca fui a Aspen esquiar, fiquei em casa estudando francês: a vida  limita sonhos. Todos foram, eu tinha as crianças, eu não ousaria desafiar nem pai nem mãe.

Talvez tivesse aprendido a desafiar tudo e todos se soubesse que me espiavas… Mas eu me vestia apressada para trabalhar/sair e viver. Para acordar, para correr, para fazer o que precisava ser feito. E tu me espiavas… Eu não sabia.

Há que existir forma/jeito/ maneira para cumprir/ fazer acontecer o desejo. Estarei nua, serei sensualidade e desejo: o teu e o meu desejo ao sol. Ou estarei vestida, atrás / dentro dos vestidos sobrepostos. Das saias, das golas, dos cabelos na desordem certa de agradar. Na tua imaginação entregue, e na fantasia completa com teu despudorado dizer, a minha voz alegre entregue. Quando dizes: “ouve e não responde”, permaneço prisioneira. Eu obedeço. Dependo ansiosa do teu comando. Ansiosa. Intoxicada pelo desejo. Afeto e respeito e sedução, como dizes. Usas a palavra afeto. Tudo picado e avolumado, presente. Quando te vestes eu te espio, eu me invento enfiada nos travesseiros. E tu sais depois de um beijo apressado. Tudo inventado, mesmo o sono que não sinto, tudo para te segurar, sem choramingar, mas vais saindo apressado, sempre apressado para fazer acreditar que não me queres tanto assim, inventas, tu seduzes e segues. Estou a ousar de dentro da timidez: olhos abertos. Com certeza eu te observo com desejo. Arredia, mas cederia generosa ao teu beijo demorado. E tua palavra me acende com fogo: Tu és mais do que admites ser, por ser mais, te escondes.  Vou trocar “velhice e exaustão ” por feminilidade e sedução e sexualidade. Por que não  posso te ver / por que não nos encontramos, eu sigo a me perguntar sedenta. Por que não falas comigo, e te deixas enfeitiçar pela vida a correr e a correr… Não te esconde. Eu ainda posso te fazer sonhar e te amar tranquila, quieta neste entardece, amanhecer. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019 – Torres

“ouve e não responde”; por que não obedeci?

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