Uma das versões

 1.

De quem é a culpa? Aquele sanduíche tem culpa, todos tem culpa porque nunca curei a tal ansiedade e a vontade indefinida de ter e ter, de querer sempre o melhor, e sempre o tudo e todos sem saber, exatamente, do conquistado, nem o que eu tenho / fiz ou sou. Enquanto me entrego aos meus quarenta anos, caminho, caminho, avanço, desbravo e não consigo chegar no tal campo verde, colorido, não vejo anêmonas, nem tulipas, nem destroços, nem floresta, nem lago. Caminho em direção aquela sobrevivência… Abro os olhos e sinto raiva. Ela ainda está lá a pensar/ a dizer coisas/ a indefinir definindo minha vida. Uma corrente nos prende uma na outra. Eu não me liberto e ela se conforta confortável! E agora estes quarenta anos! Esta danada idade divide tão bem a vida entre o que foi e o que será! Outros quarenta? Possível, mas diferente. Um será mais do que nunca incerto, porque com gosto certo definitivo. Pois é… Alguém me disse: tua mãe é culpada. Claro! Como não seriam os pais e as mães culpados de tudo que nos cerca, ou somos, ou fizemos! E mãe ausente? E aquelas que morreram cedo, aquelas que não nos conheceram? Nem nos abandonaram? Também elas são culpadas? Culpadas por terem desaparecido. E os pais? Aqueles homens atrapalhados apreendem / ou se esforçam ou se desdobram para ser mãe / pai e responsável, eles nunca são / serão culpados. Comandados pelo sistema matriarcal / serão patriarcais. Deprimidos ou irresponsáveis, amantes, homens, serão companheiros. Eles também são culpados.

A mãe definiu tudo o que sou porque, neste caso, do pânico, de passar necessidade / de faltar / de não ter o suficiente explode todos os dias, sou o resultado. Eu não me liberto. Sigo a sentir medo do que vai faltar… Guerra iminente. Terror. Um dia não é outro dia depois do dia, mas possível carência. Não consigo me libertar. Estou constantemente a procurar soluções, e soluções, mais certezas, justo onde elas não estão, procuro nos outros, nas pessoas. Procuro apoio. Explico. Sinto assim porque um dia ela desesperou na necessidade da carência, houve um momento em que tudo faltou na nossa vida. A minha mãe estava a perigo. E tínhamos a pequena conosco. E faltou tudo. Eu, apenas eu estava lá. Para ela faltou tudo. Mas eu estava lá para cuidar, atender, saber, trabalhar e tranquilizar aquela aflição toda que saltava dos olhos e se encolhia no corpo dela, como parasita faminta a arrancar pedaços. Ela queria fazer, mas não sabia por onde começar, como sair do buraco escuro. Foi esta mãe, foi esta situação, foi esta carência e este medo que tomou conta da minha vida. Nunca mais respirei livre, para sempre, nunca mais me senti descompromissada, ou pude pensar apenas em mim. Eu me senti responsável por ela. Comecei a trabalhar no balcão daquela loja, em casa, o tempo todo, trabalhar. A refazer o já feito para recomeçar por ela. Assumi a vida dela, e a minha se transformou em nossa. Era tão frágil aos meus olhos! Peguei em armas, e nunca mais parei. Apenas respirar, dizer com certeza: a vida é minha, não sou ela, nem sou responsável por ela! Eu era. Céus! Eu não sei me dizer: eu sou eu, não sou ela. Como estas nuances são difíceis, ou certezas? São perturbadoras! Os outros filhos, meus irmãos, nunca se sentiram diretamente atingidos. Eles foram, eles voltaram, eles seguiram, eles voltaram, mas eu continuei lá. Eu levantei a casa, pintei as paredes, comprei os tijolos, fiz o jardim, e o necessário. Fiz a comida, cuidei das roupas enquanto ela curava a alma…

2020-01-02 01.10.18

A viagem poderia ser incerta, mas não podia recuar. Outra vez trocar / arrancar / refazer. Estudar. Trabalhar. Voltar para o começo.

Esquisito imaginar a reação de Y ou N. ou de T. As relações são complicadas / estranhas e  as versões se cruzam ou se estremecem… Conflituadas. Inexplicáveis. Ficção.

Não entendeu a relação / encontro, ou do casamento. De certo eu teria feito diferente. Ele também, não fosse o deslumbramento da situação. Em que ponto ou tangente, ou caminho estávamos ele e eu? Não pode / ele nunca pode avaliar. Estávamos no Rio de Janeiro. Um gosto de desastre. Esta volta, festa / encontro / desfecho parecia tranquila e leve.  As conversas / reminiscências, minhas e dele, como se fôssemos adultos. E não éramos. Eu nos vejo crianças assustadas.  Ele nos seus 24 anos, eu nos meus 18 anos. Painel de lembranças e afetos desencontrados. As conversas, canais de liberdade. E casamos. Como ele podia / pode/ pensou e disse que escolhi o dinheiro? Nunca me conheceu como eu era / sou. Ou será que não me sei eu? Talvez os mimos… O esconderijo. Como pode ser / ter uma ideia parecida com esta de escolher o poder dele? Bonito, bem-nascido, complicado, e…, afinal, desconhecido. E eu cedi. Nunca deveria ter saído de casa, de Porto Alegre. Escolhi a mão que se prendeu na minha mão, no escuro de seis meses nos casamos. Dançamos, rimos juntos, recebemos amigos, comemos nos melhores restaurantes. De certo nos amamos desavisadamente amamos o amor. Vestimos o luxo. Misturamos instabilidade com confiança, não era paixão, de certo seria amor… E ele colocou a mão naquele verde, de tantos verdes. Desenhou o formato do nicho, e coloriu… O som novo, e a comida em tigelas de barro, talheres de prata. A ideia de sinfonia. Música e bossa nova. Culpa da estouvada juventude. E do despreparado destino… A ideia de que amanhã será para sempre. Não sabíamos nada de nada. Das ausências. Da vontade de ser independentes. Fazer acontecer. Da pressa de resolver, acertar. E aquela solidão apertada de ser pessoa, e também crescer. Somos tão estrangeiros pra nós mesmos! (Eu era / talvez tu não sejas!) E nos embretamos no carnaval e casamos. Acreditando. Daria certo e embalar os filhos nos abençoaria. Poderia ter sido diferente. Deveria ter sido de outro jeito. Mas, lamentar seria negar o sentido da minha vida, e da vida dele. Um erro não apaga outro erro. E o medo não vencido, gera outro medo. Recomeçar pode ser coragem, mas, tenho a impressão, arrisco a dizer, sobrevivência. Complicada palavra! Amarra tanta coisa de dentro, de fora e sacode, define, joga fora…Acerta! Os equívocos se agarram uns aos outros, e teço o manto, a veste, a ideia de que consegui. Consegui sair de casa, consegui agradar o pai e a mãe, surpreender as irmãs, trazer as pratas, os cristais, as porcelanas o enxoval de não sei quantas peças. As roupas sob medida, os vestidos a combinar com os casacões, os baús. Levei o sol junto com o temporal. Conseguimos uma vida. E a metade da biblioteca. Claro! Ficaram as lareiras, os tapetes, e os amigos. Deixei para trás as lágrimas. E as bonecas. As incertezas. Fechei a porta, e virei carioca.

2019-12-25 11.36.20

3.

Quando eu cheguei. Quando eu voltei para o Brasil. E pensei a vida em casa, tudo estava virado. A casa de pedras não existia mais, a família não existia. Estava tudo alterado. A vida chegava à beira da praia, eu estava frente ao mar a ver a Ilha dos Lobos. E o balneário deserto, porque não era mais verão. E os argentinos, uruguaios começavam a voltar para suas casas. Os veranistas se despediam. Do outro lado. Não existia mais em casa, mas o caos. Senti um para sempre escabelado, desajeitado. Berlim ou Roma, ou Paris ou a minha história de ponta cabeça. E eu tinha / precisava de / precisava organizar / recomeçar e entender. E fazer alguma coisa… Estranho como estas carências de sobreviver / proteger / guardar e assumir voltavam para o prioritário, sobreviver. Voltavam para as minhas mãos… Todos / tudo dependia da coragem, do meu fazer. Sim. Eu era necessária ali, ao lado delas. E eu fiquei. Surpreendida. Também eu, recomeçava do susto, do não ter mais, do zero. Ela me parecia frágil, entregue e gentil. Eu era a pessoa forte. Possível e jovem.  Eu tinha 24 anos. A roda girava/ gira. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020 Torres – Primeira Versão.

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