Assunto: saudade do Rio de Janeiro

Enviada em: Domingo, Junho (dia 1 -2014 10:57)
Assunto: SAUDADE

Estou aqui tentando acordar dos dias que passamos juntas, dos olhos espertos da Valentina, dos passeios curtos, e engraçados. Do vento. E já sinto bem o frio. Triste por não ter feito as pipocas. Os biscoitos, comeste todos. E se abro uma coca – cola lembro de quando eras pequena: não fui vigilante. Vício, é vício. Difícil abrir novo hábito, novo paladar. Contigo fui permissiva. E com todos, comigo mesma também, adoro refrigerantes. Penso naquela tal liberdade sem preço como diz a nossa Luiza. Dormi muito, demais. Tempo demais na cama. Céus! O ânimo desmantelado. Coisas por fazer… Bom que a chuva terminou. E a lagoa fica cintilante iluminada, embora o sol não tenha chegado de todo/inteiro. Faz frio. Bom também que vocês estão no quentinho. Dizem que será um gélido inverno este de 2014. Não quero reconstruir nada, mas ainda desejo sonhar, fazer… Ou melhor, quero reconstruir sim, um monte de coisas. Construir a família, nós cinco. Não, somos nove, não é? Eu é que sou ímpar. Quero todos mais perto uns dos outros. Agora meu corpo reclama. Os joelhos reclamam. Então não limpei, nem tirei o pó, tampouco encerei o assoalho. Esqueci a frenética limpeza da casa. As roupas seguem nas cadeiras, os livros desordenados. A mala aberta. Os lençóis por passar. Se eu tivesse, se eu pudesse mandaria passar, estalar num ferro de prensa, as roupas de cama. E pensei nas camisas do Guilherme. No excesso, na canseira do corpo que se gruda feito goma dificultando tudo. Encontrar a eficiência nesta divisão de espaço. Abrir a janela para dividir, dividir, e dividir. Apreendi tanto da filha mãe que te transformaste: atenta, cuidadosa, cansada também. Neste tempo de mãe nos damos conta que o dobro já é muito. Imaginas o triplo, o quíntuplo? E as pequenas peças perdidas se transformam, como gosto de dizer, em borboletas… É para sorrir que penso nas borboletas. Outras prioridades. Depois voltamos, e reencontramos tudo que era só nosso outra vez. O ciclo. Ás vezes esqueço do jeito que sou, então invento uma composição familiar. “ Eu nem gosto de livros! Porque tenho estantes? ” Este colo, estes beijos pequenos que chegam com os filhos aquecem tanto! Na tua casa deves ter dormido melhor. Estou aqui empurrando o palavreado, mas estou mesmo é debruçada na saudade. Saudade de ti, da minha neta, do silêncio de estar apenas junto. E nem te cobri de mimos como pretendia, passou depressa, muito depressa. O frio te assustou. Em setembro venta, mas outubro começa a esquentar. Antes quero ver o Pedro, será que consigo? As dobras, sobras estarão refeitas, refeitas? Um meio sorriso de novos rumos. Braços abertos. Amo tanto vocês! Queria mesmo ter aquela casa que imaginas: portas, janelas, quartos, banheiros, cozinha grande, mesa grande, bastante sol, o cheiro do teu bolo, as pipocas, os filmes, os brinquedos da Valentina. O entra e sai dos meninos, talvez com namoradas, amigas de saia curta. Bicicletas para passearmos em bando. Por que não? Todos juntos. E, quem sabe? Pedro com um filho-menino pra beijar, acalentar também. Fantasia? Ana Maria assando aquela picanha no forno. Podes fazer a tua farofa de pão chinês, como é mesmo o nome? Eu vou me ocupar da salada, e das frutas. Hoje no meu café da manhã comi as salsichas Endler! Bem que queria ter feito dois bifes de filé na manteiga, e sentir melhor o gosto do pão e do café. Sou gulosa também. Depois descasquei a manga amarela olhando para o caqui de chocolate que ficou na bandeja. Tudo é possível nesta casa grande. Gente, risadas, gramado, e a vontade quente de estarmos todos juntos, esparramados no afeto. Pés descalços, saias largas, e camisetas brancas, frescas. Calor, fará calor e teremos sol, e sombra daqueles cinamomos que eu gosto, desajeitados, perfumados.Um beijo. Amo. Amo. Amo.

“ As sombras da alma. As histórias que os outros contam sobre nós e as histórias que nós mesmos contamos – quais delas se aproximam mais da verdade? É tão certo assim que sejam as próprias histórias? Somos autoridades para nós mesmos? Mas nõ é esta a questão que me preocupa. A verdadeira questão é: existe, nessas histórias, alguma diferença entre certo e errado? Nas histórias sobre coisas exteriores, sim. Mas quando tentamos compreender alguém em seu interior? Esta viagem algum dia chega a um fim? Será a alma um lugar de fatos? Ou seriam os supostos fatos apenas uma sombra fictícia das nossas histórias? ” (p.153)
“…) desejo patético, de sonho – de voltar outra vez àquele ponto de minha vida e tomar um rumo bem diferente do que aquele que fez de mim quem sou agora…Sentar de novo no musgo quente e ter o boné nas mãos: é o desejo insensato de voltar para o tempo que deixei para trás, levando a mim mesmo – marcado pela vivência – nesta viagem. ”(p.154)
Trem noturno para Lisboa, Pascal Mercier

Elizabeth M.B. Mattos (das correspondências)

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