um pote de sorvete

Acordei agora deste este sono desgovernado. Abro bem as janelas. Silencio e frescor entram escuros. Adjetivo esquisito, não importa, o esquisito / o estranho: boa palavra plantada no meio da sala, e floresce, brota… vou comer um pote de sorvete, esvaziar a gaveta dos bombons, e vou me sentar perto da janela, quieta, esquisita e desgovernada como a noite. Das cartas recebidas a tua me surpreendeu com pitada azul. Vontade de chorar. Não sei mais. A da Luiza veio/chegou apressada, e feliz. Indignada também. Somos iguais. Estamos.

Vou contar os balões, chegaram…E o céu está pronto, alguma coisa subirá colorida, e das calçadas, sem o vírus,  olhos iluminados, atentos. No jornal os colunistas assumem posições: lugares marcados, regras adequadas. Pessoas surpresas pensam no planeta ao lado.

Aqui temos margaridas, rosas, goiabeiras perfumadas, laranjeiras, e a água da lagoa resiste, peixes vivos. Um entusiasmo. A camiseta cheia de posição; pintas pontos traços em preto e branco. Aquela outra arrasta a criança. O vizinho prepara o céu. Amanhã o churrasco. Gatos escondidos.

Tu não vieste. Não pergunto mais se vens ou virás. A história que ia te contar sentou na calçada por três dias, alguém carregou, deixei levar. Não quero saber se o outro lado está do outro lado. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

“[…] jeito particularmente silencioso, como se temesse me assustar daquele estupor versejador. Ele me fazia reproduzir de memória, o mais detalhadamente possível, objetos que eu de certo havia visto milhares de vezes sem visualizá – los de fato: um poste de luz, uma caixa de correio, o desenho de tulipa do vitral de nossa porta de entrada.” […] Eu adorava o jeito hábil com que ele molhava o pincel em múltiplas cores com o acompanhamento do rápido bater produzido pelos recipientes de esmalte de onde eram recolhidos os ricos vermelhos e amarelos que o pincel ondulava; e tendo assim recolhido seu mel, parava de mexer, de bater, e com dois ou três toques de sua ponta luxuriante, encharcava o papel ‘Vatmanski’ com uma uniforme camada de céu laranja, sobre o qual, quando o céu ainda estava úmido, uma longa nuvem negro-púrpura era aplicada. ‘ E isso é tudo, meu querido, ele dizia. ‘Não há nada a acrescentar.'” (p.87-88) Vladimir Nabokov Fala, Memória

Nada posso acrescentar nada à descrição, a iniciação destas  aquarelas. o texto precioso, nas minúcias de escritor enriquecido por educação primorosa, salta, explode, contamina. E salienta, evidencia a pobreza e a precaridade do construído às pressas, de improviso, -hábito de brasileiros. Os russos, preciosos, e preparados. Sei lá porque ouso escrever assim, repito, não é voz, mas são, apenas, letras, perigoso… Ah! tão perigoso!: há sempre abundancia de arte. 

 

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