A Blusa Amarela

“Do veludo de minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer.
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer.
E numa Nevski mundial com passo pachola
Todo dia irei flanar qual D.Juan frajola.

Deixai a terra gritar amolengada de sono:
Vais violar as primaveras verdejantes!’
Rio-me, petulante, e desafio o sol!
Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!’

Talvez seja porque o céu está tão celestial!
E a terra engalanada tornou-se minha amante
Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval
Agudos e necessários como um estilete pros dentes.

Mulheres que amais minha carcaça gigante
E tu, que fraternalmente me olhas, donzela.
Atirai vossos sorrisos ao poeta
Que, como flores, eu os coserei
À minha blusa amarela!” Vladimir Maiakovski
1913 – tradução de Isadora Coutinho Guerra

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Catálogo de Brotos

Ana Luiza Job, Elizabeth Mattos, Heloisa Pegas, Marta Luiza Aranha, Tânia Maria Borges, Suzana Correa Sores, Suzana Machado, Maria Beatriz Peroni, Isadora Medeiros Ilsa de Castro Matte, Consuelo Zabalesta

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Catálogo de Brotos 1961 – Cotillion Club  (da rua Salgado Filho / Porto Alegre / RS)

 

 

 

não foi brincar

…,poderia ter sido apenas brincadeira como sempre: toque de audácia, brejeirice de rapaz: ciência de sedução. Houve um tempo em que os amigos fizeram coroas, depois foram embora com seus jogos a ser eles. Mundo às avessas, sempre mais do que deve ser menos. Solitário quando a ordem se esparrama… Turbulento e lotado na algazarra. Tão menos quando transborda! Uma  garrafa de vinho, um pouco de queijo e o pão, todos os tipos de pão. Todos os festejos, todos os sorrisos, todas as brejeirices, todas as tuas risadas, sim, tu me alegras. Eu ainda quero todos os meninos que estão em ti. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

P.S. Esta epidemia a revirar cabeça com mortes e mortes! Que revirada de vida. Sinto saudade de alguma coisa dentro de mim: de uma cor, de um jeito, daquela volta, daquela trava, daquela rebeldia de não dizer, não ir. Sabes o que me acontece? No/do proibido recomendado volto a desejar encontros, conversas soltas. No proibido, desejo ser normal, gentil, social e faceira. E agora? Está tudo mesmo proibido. Eu desapareço na normalidade do sinal: não socializo porque obedeço, deixo de ser eu. Abril pode ser um mês perigoso. Não vás morrer!

azula o céu

Venta no verão. Atrasa a estação, atrasa a vida, atrasa o amor amado, envelheço. Venta tanto! Depois azula o  céu para amanhecer. Li tua carta transferindo os trabalhos para janeiro… Lá os projetos voltarão robustos e alegres, os meus se perdem. Sim, a cada passo um sorriso.  Abraço. Afagos também se esvaziam.

Tu sabes a magia. E outro novo jeito de fazer… O estranho, meu amigo, ser sempre o mesmo peso, o incerto passo de aprendiz… No teu caso, voltas, chegas, refazes, reviras o tempo inquieto, como marinheiro em alto mar! Vão e voltam…, entre os muros  do castelo. Eu te digo, teremos sol. Teremos luz e margaridas no campo. Olha! Não há beleza maior… E eu posso te amar e tu me abraças. Depois desapareces, eu fico a te esperar porque nós, as mulheres, embalamos os filhos. Nos Contos de Fadas era assim, em todas as histórias. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

 

utopia

Utopia: sonho, devaneio, fantasia… tais os sinônimos comumente atribuídos a essa palavra, criada, como se sabe, em princípio do Século XVI, por Tomás Morus.

Homem feliz, cujos pensamentos fora tão sedutores que a palavra, com que os designou, se incorporou na linguagem vulgar, passando a lembrar um belo sonho! “Ivans Lins Thómas Morus e a Utopia

No vento a fantasia, na música a loucura. Loucura deste vagar potente, único. Das cordas do piano a melodia doída deste dia-epidemia. Esquisito medo sem palavra agarrado no mal humor agressivo da pressa. Será que eu vou mesmo chegar? Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres e tanta, tanta ventania quente!

acuso 2

forçar e pressionar

“Tentar forçar algo, entende?, forçar sempre é errado. E isso é forçar e pressionar – fazer com que todo mundo ame todo mundo, e que eu tenha que amar todo mundo o tempo todo.” (p.290) Barry Stevens Não apresse o rio, ele corre sozinho

Trazer de volta uma pessoa será sempre redesenhar / repensar/ imaginar. O paradoxo da lembrança oscila entre opostos. E vou a caminhar pela infância (aquece a alma), imaginação! Constatar a imensa/enorme solidão de dentro enquanto descreve as paredes da casa. A exata importância do beijo. Ficção, emoção sem responsabilidade. Lacunas, dúvidas preenchem o texto… Experiências passadas preenchem lacunas. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

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Perfume da goiabeira dentro da casa / prazer guloso.

estavas lá

Faz muito/tanto tempo sem me sentir atordoada, perdida no meio do caminho como estou agora…, sem respostas. Mais azedo/esquisito do que o normal. Desânimo. Sem razão. Tenho que restabelecer a confiança. Há/existe caminho. Eu nunca tinha pensado no quanto viver sozinho tem/pode/ será / é um circo de horror! Saúde sim, vida sim, sobrevivência sim, cuidado sim. Como ser diferente? O livro não me acalma, o texto não chega, e as vozes se perdem…

Graças! Faz uma semana ou foram uns dias eu pude estar contigo, e voltar para casa, e estavas lá comigo a visitar o passado…. Alguma força maior te empurra, e te abraça, e tua vida se abre… Que bom! Por favor, vem me buscar.Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres