picotes

Trouxe rosas e cravos e jasmins. O perfume se mistura. Sinto o cheiro, delicioso, da grama molhada. Abro as janelas, posso ver os eucaliptos: balançam festivos. Este céu acabrunhado pode ser o meu, mas atrás das árvores, mais adiante está azul. Deve ser a luz. As certezas a caminhar para perto, bem perto de mim. Elas me socorrem. Beth Mattos apressada – maio de 2020

flor branca

Parte um (do possível)

Parte 1

Se existem histórias possíveis, devo poder saber contar, ou será mesmo impossível dizer?

Faz tanto tempo que sinto falta de alguém a me ajudar na limpeza. Outra vez, vidros limpos, louça brilhando, armários em ordem, e o prazer, líquido prazer de encontrar. Este caos de sempre, estas pilhas intermináveis de livros, estas roupas perdidas, e a música a fugir. Como posso seguir assim? Oxalá os gramados, as árvores, os cães me chamassem para as envidraçadas casas de campo. Desconforto de caixas empilhadas. Eu sufoco, e não consigo organizar nem fazer acontecer um corpo feliz e, outra vez, gestos de vida. Confundo o amanhecer com o começo, mas já é noite antes da manhã terminar. E as tardes gritam pelo sono da noite, o sono se acovarda tão fácil! Tenho saudade daquelas tardes preguiçosas e dos travesseiros alegres: dormir era viver. Volto correndo para o colégio. As horas certas, a rotina daqueles dias protegidos. Ah! Se soubéssemos! Se eu pudesse imaginar como cada pedacinho daquelas tardes, daquelas manhãs com missa e café com leite me fariam falta! Altiva. Doce, alegre porque feliz. Não, não estou te dizendo de tristeza, infelicidade, ou qualquer falta que me faça falta. Estou bem. Não, também não é nostalgia, talvez lucidez. Clareza. Cheguei e não posso dizer nada. Na verdade, as verdades são mentirosas. Camuflar tem gosto/cheiro/intenção de mundo perfeito, de encontro certo, de fantasia. Carnaval de alegria a saltar e a pular, cantar sem pensar em nada, apenas sentir. Beth Mattos em maio de 2020 – Torres

Carta a D.

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.”(p.5) André Gorz Carta a D. – História de Amor

Ecléa Bosi escreve: “Tudo vem a confirmar suas opções políticas: há um poder externo que ameaça nossos destinos. André deixa o jornalismo, aprende a cozinhar para revigorar o organismo de Dorine, que alcança alívio graças a ‘magistrais fórmulas’ de homeopatia. Já tinham mais de oitenta anos quando ele escreve esta carta de amor […]”

Não tínhamos pressa. Eu despi seu corpo com cautela. Descobri, miraculosa coincidência do real com o imaginário, a Vênus de Milo tornada carne. […] Mudo, contemplei longamente esse milagre de vigor e doçura. Comprendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar – se e de pedir ao outro a doação de si. Nós nos doamos inteiramente um ao outro.” (p.8)

Magia de amor: para sempre te amo… Para sobreviver aos desencontros eu me conto histórias picotadas. Desvios, porque para mim não foi para sempre. Vou a dobrar esquinas, a correr pelas calçadas, sacudindo a memória. Tropeço, caio e/mas eu me ergo.  E abraço o novo amor… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

livro 1 carta de amor

Étrange

“Étrange, ce vin qui ne montait pas à la tête? Ou bien nos tête étaient-elles imperméables à tout, si ce n’ est à la musique et aux mots? On dirais que c’ est le cas.

Brandley m’ a dit qu ‘ il aimerait bien lire mon Journal, parce que dans la vie j’ étais une personne tellement énigmatique. Mais hier, j’ ai été franche avec lui. Je n’ ai pas précisé quoi, mais je lui a fait comprendre qu’ il y avait dans le Jounal des choses mortelles.”(p.330)  Anaïs Nin  Henry Miller Correspondance passionnée

Serei impermeável ao real? A turbulência confunde o céu com a terra. Beth Mattos

 

terra da memória

Trabalho solitário o de escrever = frase gasta/usada.

O perigo mora/está no solitário, neste estado de solidão. Privacidade, autonomia, e liberdade são o coroamento que chega devagar… Haja paciência!

A vida, concatenação de minúcias interrompidas, surpreende! Não aguenta a sobrecarga da intensidade. Ufa!

Afinal! Tudo passa e tudo voa na terra da memória, nossa condição humana: o passado nos dá este presente, embalagem para o futuro. Nada passa, nem voa sem que fique e estacione. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

bizarro

Complicado sentimento! bizarro envelhecer. Não é a pandemia, mas este mal resolvido sentimento de hoje / agora / do tempo/ fato, desencontro. Escrever difícil /complicado. Um emaranhado de mal-estar entre livros, papéis, desordem interna. Desorganizo, a pensar organizando: livros, estantes, sala, cozinha, quartos. Desorganizo sentimentos. A precariedade assusta. E nada assusta, eu sei. Amaciada pelos prazeres da casa,  da família. Movimento! Tempo livre nas calçadas. Correrias… Cinamomos a perfumar. Apenas envelhecer dói.

Na memória a mãe. Altiva / inteligente / viva e corajosa. Fantástica! A beleza se desenhou a sua volta; pinceladas de arte: fazia acontecer o cotidiano. O melhor. Está na biografia dela. Se eu puder um dia escrever! Era poetisa, artista. Superar. O perfume, a doçura agitada, e impositiva: beleza existe, e importa. E tão pouco viver, e tanto o esforço de respirar! Saudade da minha mãe!Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – TORRES

entre espinhos

1.

Amanhecer agitado. Pandemia presente. Emoções a remexer convicções. Corto / recorto o ciclo de pensar isso e aquilo.  Caminho de um lado para outro prisioneira de mim mesma. Bom que chove, mas não é a chuva que me limita. Sou eu mesma. Mergulho / caio / tento/ experimento outra visão. Envelhecer, assumir estes anos que se encurtam, ou seja, programo novos fazeres, agir, rir mais e seguir com a energia misturada entre estupefação e certeza: continuar, não desistir, não me acovardar.

Respirar, respirar. Respirar. Estranho, demoro a processar esta coisa egoísta rígida de negar, negar, negar. Ontem um amor derramado / hoje aquela fome voraz impensada / depois o pedaço da angustia a ser engolido. Ligo o rádio. A música espanta. Olho pro amontoado de livros empoeirados. Quero alguém que me ajude…Socorro! Não sei o que não me deixa sentir o todo…Agradecer a saúde. Os meus. O positivo, o louvor… Rezar. Rezar. Eu ainda tenho fé? Aos pedaços a me estranhar…Abri um livro e encontro uma foto do FT e um telegrama, e datas, e observações, volto no tempo: 1994-1995. Céus! Quanto significa tempo? Palavra esquisita / péssima. Já passou. Tantos encontros mais importantes, intensos ou fortes se fizeram vida… Esquisito choramingar. Por que um pode ser melhor que dois ou o três, ou o nove ou qualquer outro número? Se existe resposta…, e existe. O que importa é agora, o hoje, mas tudo passa pelo beijo, o carinho, o abraço a lembrança. Ou o dia se esfarela naquele zero / nada / vazio / negação. Se esfarela o dia. Deixei tanta coisa desaparecer atrás do meu sonho de escrever, escrever, ler, ler e nada disso se esgota. Fico atrás daquele sonho grande/pequeno/ espaçoso/ constrangedor de te amar sem poder te tocar! No percurso a necessidade básica de empurrar os dias e responder aos sentires de tantos pequenos e amontoados amores. Amassar pétalas de margarida despetalada. Curioso estes esfacelamentos, prazeres e desvios. Que inveja tenho daqueles que entram/aceitam/vivem o inteiro, o completo. Conscientes por terem escolhido e saído do jardim depois de escolher a flor preferida: conseguem segurar/agarrar os espinhos da rosa, e com ela, permanecem até ao fim. Eu estou presa no jardim, entre muros tão altos! E sufoco com o perfume. Feneço/envelheço e não quero. Resisto. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

 

convencer

Livros, esculturas, e estes sonhos de entender por dentro, por fora, a busca da expressão, a necessidade da palavra é uma projeção. O feito, o trabalho, o resultado, o esforço. Quando penso no livro impresso, penso no fruto  maduro/completo/ inteiro e já no sabor… As goiabas colhidas ao longo do passeio fazem pensar na geleia, no amarelo e no rosado, no verde da folha. Perfume e resultado… Estou divagando, eu sei. Na Travessa Canoas, em Santa Cruz do Sul tínhamos duas goiabeiras adultas, poderosas, enormes…E a história daqueles anos voltam. A casa de venezianas verdes, o pessegueiro de jardim que ocupava a janela do quarto maior como se fosse uma tela impressionista. O gramado do quintal, a gritaria dos meninos, o fogo da lareira, as aulas de francês e também de português aos estrangeiros. Eu entusiasmada, inteira. O outro mundo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 20200, Torres e a memória. Com os anos (não vou usar envelhecer / detestavas estas súbitas nostalgias pelos textos) sinto saudade de todos os passados. Sabes por que queria tanto beber aquele café, entrar nas tuas histórias? Para poder pincelar as minhas. Foi tão rápido / apressado te encontrar!

Para convencer os outros, você deve convencer antes a si própria, e uma atitude conciliatória, ou até mesmo de falso entendimento – e, portanto inevitavelmente superficial – não é útil a criatividade.” (p.33)  Escritos e Entrevistas 1923-1997 Cosac&Naify

louise capa 2

célula A descrição do trabalho: “A peça é uma célula, um cubo de dois por dois por dois metros. Ela tem o aspecto geral de uma cela de prisão […]”, e o texto se alonga minucioso na descrição, assim a imagem transborda… “Primeiro há o medo, o medo da existência. Depois vem um enrijecimento, uma recusa de enfrentar o medo. Então vem a negação. O terror de encarar a nós mesmos nos impede de compreender e nos sujeita à repetição e a representação. É um destino trágico. Os espelhos se sobrepõem. Eles interagem, dando uma visão múltipla do mundo. Os espelhos refletem as várias realidades difíceis, uma pior que a Sabes por que queria tanto beber aquele café, entrar nas tuas histórias? Para poder pincelar as minhas. Foi tão rápido / apressado te encontrar!

je t aime